Saúde do homem

Saúde do homem

Tumores relacionados ao testículo, hiperplasia da próstata e queda hormonal são, segundo o urologista Gilberto Saber, alguns dos problemas que envolvem a saúde exclusivamente masculina, além do câncer

Em novembro, a saúde masculina ganha destaque em função da campanha Novembro Azul. A iniciativa, alinhada ao movimento mundial originado na Austrália no início do século XXI, busca alertar a população para a importância da realização periódica de exames capazes de diagnosticar o câncer de próstata precocemente. Este tipo de tumor é o segundo mais recorrente entre os homens não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. 

A ocasião também é apropriada, segundo o urologista Gilberto Saber (CRM: 46.522), para abordar outras questões relativas à saúde do homem. Em seu consultório médico e no serviço de Urologia e Transplante Renal da Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto, chefiado pelo médico, são acompanhados, também, outros tipos de doenças, como pacientes com hiperplasia prostática não relacionada a câncer e deficiência hormonal, que se tornam mais comuns à medida que os anos avançam. A instituição médica oferece, ainda, Residência Médica em Urologia, que possui reconhecimento pleno da Sociedade Brasileira de Urologia e credenciamento na Comissão Nacional de Residência Médica. Anualmente, são formados três especialistas por ano.

O ambulatório urológico da Santa Casa, que chega a atender aproximadamente 1.000 pacientes mensais, foi criado há 15 anos e contribuiu para que o especialista, natural de São Paulo, decidisse permanecer em Ribeirão Preto, para onde veio durante a formação médica, na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. A paixão pela profissão é uma herança do pai, ginecologista; já a escolha pela Urologia foi definida com base, especialmente, em dois fatores: a intensa parte clínica da especialidade, que coloca o médico em contato direto com o paciente, e a proximidade com a área diagnóstica, laboratorial e por imagem. Dr. Gilberto Saber também é diretor técnico do Hospital Unimed de Ribeirão Preto.

A disfunção erétil também pode ser causada por problemas cardiovasculares, pressão arterial alterada, diabetes mellitus, queda hormonal, entre outros problemas de saúde

Os homens, hoje, visitam mais o consultório médico do que há alguns anos?

Sem dúvida. Isso vem acontecendo muito em função das campanhas, cada vez mais frequentes, relativas à prevenção ao câncer de próstata. Esse hábito aumenta o índice de tumores diagnosticados precocemente, o que eleva a porcentagem de cura entre os pacientes que enfrentam a doença. Até certo tempo atrás, os homens acabavam procurando o urologista apenas quando se deparavam com algum sintoma, o que, no caso do câncer, significa estágio avançado. Justamente por isso é tão importante que os homens, a partir dos 50 anos, realizem seus exames periodicamente — dosagem de PSA e toque retal. Quando há fatores de risco envolvidos, como histórico familiar ou pertencer à raça negra, a visita regular ao consultório deve começar aos 45 anos.

O fator racial é relevante?

Sim, diversos estudos vêm comprovando que, entre pessoas da raça negra, a incidência de tumores mais agressivos é mais alta. Nessa população específica, o problema não é exatamente a incidência da doença, mas a agressividade do tumor.

A visita ao urologista também pode identificar outros problemas relativos à saúde do homem?

Pode. O primeiro fator está relacionado ao crescimento benigno da próstata e ao próprio envelhecimento do músculo da bexiga. Em função disso, os pacientes podem apresentar dificuldade para urinar, jato urinário fraco e, muitas vezes, uma urgência para urinar. Em determinados casos, essa urgência é tão grande que o paciente acaba sofrendo perda de urina. Esses sintomas são muito comuns não apenas entre a população masculina, mas também feminina. A boa notícia é que já existem várias alternativas para tratamento.

O crescimento benigno da próstata é inerente ao envelhecimento?

Sim, a hiperplasia está relacionada ao avanço da idade. No entanto, apenas 30% dos homens terão algum tipo de sintomatologia e precisarão de tratamento, seja por meio de medicamentos, seja por meio de cirurgia.

Quais são esses sintomas?

Dificuldade para urinar, jato urinário fraco, precisar urinar frequentemente, sensação de não esvaziamento da bexiga, entre outros. Isso tudo faz com que o músculo da bexiga fique “cansado” porque precisa aumentar a força de contração para transpor o obstáculo, que é a próstata aumentada. Em alguns casos, é possível melhorar o fluxo com medicação oral; em outros, é necessário recorrer à cirurgia. Pela uretra, pode ser retirada a parte aumentada da próstata, fazendo com que o paciente volte a urinar normalmente. Esse procedimento é minimamente invasivo, apresenta baixo risco para incontinência urinária e não afeta a ereção do paciente.

Quando se trata de um câncer de próstata, esses riscos aumentam?

Sim, pois, para garantir uma cirurgia curativa, é preciso retirar toda a glândula. O risco para disfunção erétil, na verdade, não está relacionado diretamente à retirada da próstata em si, mas à proximidade desse órgão com os nervos responsáveis pela ereção. Durante a cirurgia ou as sessões de radioterapia, esses nervos sofrem alguns danos, em maior ou menor intensidade, o que pode levar à disfunção erétil. À medida que o tempo passa, a função tende a ser recobrada. Ainda que haja alta incidência desse tipo de efeito colateral, vale lembrar que o mal maior, certamente, é o tumor.

A Medicina já dispõe de recursos para tratar as possíveis sequelas?

Na incontinência urinária, há várias alternativas para o tratamento. Entre elas, destacaria a colocação do “sling” e também o implante de um esfíncter artificial, que apresenta melhora importante em 95% dos casos. Com relação à disfunção erétil, vários medicamentos podem ser utilizados, incluindo injeções intracavernosas. Nos casos mais severos, é possível realizar, ainda, o implante de uma prótese peniana, que permite que o paciente volte a ter uma vida sexual regular.

Os homens estão vivendo mais e com mais qualidade. Isso interfere na relevância das questões sexuais?

Sem dúvida, e a disfunção erétil não está relacionada apenas à cirurgia da próstata. O problema pode ser causado por doenças cardiovasculares, hipertensão arterial, diabetes melllitus, entre outras. Sendo assim, é possível afirmar que a incidência da impotência na população masculina aumenta progressivamente com a idade. Hoje em dia, há inúmeras armas terapêuticas — tanto do ponto de vista medicamentoso quanto do ponto de vista cirúrgico — para melhorar a qualidade de vida desses pacientes e permitir que eles continuem tendo uma vida sexual ativa em idades mais avançadas.

Que outras causas podem levar à disfunção erétil?

A causa também pode ser relacionada à queda dos níveis de testosterona, natural com a idade. Seria como uma menopausa, que acomete as mulheres, só que com sintomas menos marcantes do que os enfrentados por elas. A andropausa, como é chamada, pode provocar queda de libido, indisposição, fraqueza, entre outros sintomas. Pacientes que apresentam sinais dessa natureza devem realizar as dosagens hormonais. Além da testosterona em si, é possível medir a chamada testosterona livre, que corresponde a apenas 2% da testosterona circulante, mas tem grande importância do ponto de vista sexual. Algumas vezes, é possível verificar um parâmetro de testosterona normal e uma testosterona livre baixa, o que pode explicar os sintomas do paciente e direcionar uma reposição eficaz. 

Como essa reposição pode ser feita?

Já está à disposição um gel, que pode ser aplicado todos os dias após o banho. Também é possível repor a testosterona por meio de uma injeção de liberação lenta, aplicada trimestralmente. Vale reforçar que pacientes com níveis de testosterona normais não devem realizar reposição hormonal, pois ficarão sujeitos aos efeitos colaterais do excesso de hormônio, sem nenhum benefício clínico.

Quais são esses efeitos colaterais?

Fundamentalmente, aumento do risco para doenças do fígado e para doenças cardiovasculares. Muitas pessoas têm medo de que a reposição hormonal possa levar ao aparecimento do câncer de próstata, o que não é verdade. A testosterona em si não é capaz promover o aparecimento do tumor. Por outro lado, se houver um foco de câncer que ainda não tenha se manifestado, a reposição pode estimular seu desenvolvimento, o que não acontece de um dia para o outro. Diante dessa possibilidade, recomendamos que os pacientes que realizam reposição façam o controle da próstata semestralmente.

Câncer de próstata, com o envelhecimento, é uma certeza?

Sim, em homens já quase centenários, esse tumor é certo, mas não é, necessariamente, sinônimo de problema clínico. Diversos estudos mostram que os exames clínicos preventivos deixam de ser necessários depois dos 80 anos, se os pacientes estiverem assintomáticos. Hoje em dia, mesmo diante de pacientes perto dos 50 ou 60 anos, não se recomenda tratamento para todos os casos de câncer de próstata. Alguns tumores malignos de baixa agressividade podem ser, antes de qualquer intervenção, acompanhados de perto. É o que chamamos de “vigilância ativa”. Entre eles, 30% acabam não demandando nenhum tipo de intervenção.

Se houver necessidade de tratamento, há alternativas para a cirurgia?

Toda vez que há suspeita de câncer de próstata, a biopsia deve ser realizada. Este exame determinará, justamente, o grau de agressividade do tumor, assim como sua extensão. Isso é muito importante para determinar a melhor condução do tratamento ou da observação. Mesmo nos casos de tumores mais agressivos, existem diversas alternativas. Elas podem estar associadas a tratamentos cirúrgicos e radioterápicos ou a novas drogas disponíveis. Esses avanços têm aumentado a sobrevida dos pacientes, retardando, inclusive, o início da quimioterapia nos casos mais graves. Há muitos medicamentos de uso oral altamente efetivos no controle do paciente com doença avançada e com metástases. 

São necessárias mudanças de vida, a partir da descoberta do câncer de próstata?

Durante o tratamento de qualquer tumor, recomendamos que a vida continue com máxima normalidade. O sistema imunológico existe para combater todas as doenças, inclusive o câncer, e a melhor maneira de estimulá-lo é procurar manter a mente saudável e uma rotina de hábitos também adequados, com dieta e exercícios. 

Entre outros problemas vinculados à saúde do homem, a hiperplasia benigna da próstata está entre os mais recorrentes

Manter esses hábitos ajuda a prevenir, também, o câncer de próstata?

Não. Diferentemente de outros tipos de câncer, no caso da próstata, a genética é o fator mais predominante. 

Com que outros cânceres o urologista lida no dia a dia?

Além da próstata, cuidamos de casos relacionados a bexiga, rim, testículo, entre outros. O urologista é um profissional que, em toda a vida, irá acompanhar diversos pacientes com câncer. A especialidade, portanto, caminha junto com a oncologia clínica.

Como se manter atualizado?

Hoje em dia, há simpósios internacionais direcionados apenas aos tumores geniturinários, que contam com a presença de urologistas e oncologistas do mundo todo para discussão desses temas.

Diria que Ribeirão Preto possui uma boa estrutura para quem está em busca de tratamento para o câncer de próstata?

Sem dúvida, não apenas na rede particular, mas também na pública. Em Ribeirão Preto, a assistência do SUS na parte urológica é muito boa. Os pacientes são atendidos rapidamente, seus exames laboratoriais e de imagem não demoram. Na Santa Casa, que oferece um serviço de urologia oncológica muito grande, não há uma fila de pacientes aguardando por cirurgia. O acesso dos pacientes à saúde pública em Ribeirão Preto é extremamente facilitado. O homem que visita o posto de saúde fará seu exame de PSA e será encaminhado para tratamento, se houver necessidade. Isso merece ser enaltecido, pelo afinamento do trabalho da Secretaria Municipal de Saúde e da Santa Casa, onde 70% dos pacientes oncológicos vêm do SUS. O acompanhamento pós-operatório também acontece a contento, mas ainda há muitas limitações impostas pelo SUS, no que se refere ao tratamento da incontinência urinária e da impotência sexual. Este seria um ponto importante a ser melhorado. 


Gilberto Saber | Texto: Luiza Meirelles | Fotos: Júlio Sian

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