Sem apoio para crescer
A unidade de Ribeirão Preto, que este ano comemora 60 anos de existência, abrange 37 cidades
Com um parque moderno e eficiente, que possui de 350 a 400 empresas, o setor industrial de Ribeirão Preto vive um momento, onde, apesar de crescer em faturamento e produção, não consegue se expandir dentro da própria cidade. Sem áreas disponíveis para ampliações ou novas instalações, o empresário acaba levando este investimento para outras cidades da região. Dados da regional da Federação das Indústrias e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp/Ciesp) em Ribeirão Preto apontam que, semanalmente, o órgão recebe entre dois e três pedidos para expansão de novas plantas industriais que não consegue atender.
Com 230 indústrias associadas, sendo a maioria de Ribeirão Preto, e cerca de 50 fornecedoras de matérias-primas e serviços específicos para o setor produtivo, a Fiesp/Ciesp é focada exclusivamente no desenvolvimento industrial. De acordo com Fabiano Augusto Alvarenga Guimarães, economista e gerente regional da unidade, a Instituição, por seu profissionalismo e experiência, é a interlocutora legítima e mais preparada para a defesa dos interesses do setor produtivo junto aos órgãos públicos nacionais e internacionais.
Atuando diretamente ao lado de empresários do segmento, de prefeituras e de câmaras municipais, de órgãos públicos e de outras entidades, Fabiano busca soluções para equacionar problemas ou gerar oportunidades para o desenvolvimento econômico e industrial da região. A unidade de Ribeirão Preto, que este ano comemora 60 anos de existência, abrange 37 cidades, sendo que contam com empresários de alguns desses municípios para dar suporte maior às ações da regional. São elas: Cravinhos, Orlândia, Batatais, Monte Azul Paulista, Bebedouro e Barretos.
A entidade é gerenciada por um conselho composto por cerca de 50 empresários. A profissionalização do setor é uma preocupação constante e, para atender à demanda, mantém o Sesi e o Senai. Lideradas pela Fiesp Ribeirão Preto, são as maiores escolas do interior do Estado de São Paulo, com nove mil matrículas por ano no Sesi e 24 mil vagas para cursos técnicos no Senai.
Nos quatro últimos anos, a regional recebeu investimentos de mais de R$ 20 milhões, já que representam mais de três mil indústrias. “Estamos finalizando também, na área cultural, a construção do teatro mais moderno da cidade, com capacidade para aproximadamente 350 expectadores”, antecipa Fabiano.
O Ciesp também teve uma participação fundamental nas discussões que levaram à revisão tarifária relativa à distribuição de energia elétrica, o que gerou grande economia para o setor produtivo nas cidades atendidas pela CPFL. “São milhões de reais economizados, com impacto durante os quatro anos de vigência da revisão, reduzindo a base sobre a qual o reajuste anual das tarifas é calculado”, explica.
O Ciesp formou, ainda, um grupo técnico de nível internacional para analisar e propor melhorias para o sistema público de captação e distribuição de água na cidade, que desperdiça mais de 60% da água captada. A medida visa a redução do preço pago por indústrias e pelos munícipes. “Se quisermos fortalecer o setor, é preciso melhorar e ampliar a infraestrutura disponível, bem como implantar uma política fiscal inteligente, que pode triplicar a arrecadação gerada pela atividade industrial e tornar a indústria ainda mais competitiva”, sugere o economista.
Segundo ele, o conhecimento da Fiesp/Ciesp é muito utilizado por várias cidades paulistas que almejam um setor industrial forte e pretendem manter e atrair novas indústrias. Porém, este conhecimento e preparo esbarra em uma série de entraves, como a falta de transparência no planejamento do desenvolvimento econômico, uma das principais dificuldades para empreender na cidade.
Formado em Economia pela FEA-USP/RP e pós-graduado em Gerência de Cidades pela FAAP-RP, Fabiano também é delegado regional de Ribeirão Preto do Conselho Regional de Economia de São Paulo (CORECON) e coordenador do posto do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES-RP). Indignado com a falta de perspectivas, não se conforma que uma cidade do porte de Ribeirão Preto ainda não tenha uma Secretaria de Desenvolvimento Econômico.
O especialista afirma que, quando não há uma secretaria estruturada de forma clara que agregue as informações, com profissionais e condições de trabalho adequadas, com processos e rotinas eficientes, estáveis e previsíveis para abrir empresas e investir na cidade, há um enorme desperdício de potencial de geração de emprego e de renda. “Aqui um empresário tem que se relacionar com inúmeras secretarias e departamentos, com profissionais indicados politicamente, com rotinas criadas conforme a vontade política de plantão”, lamenta Fabiano.
Responsável por 20% da riqueza do município, o setor industrial é, em média, o mais intensivo em capital e o que melhor remunera, quando comparado com comércio e serviços. “No que depende da própria empresa, a ‘lição de casa’ tem sido feita. O maior problema para a indústria local é a grande dificuldade de encontrar terrenos com relação custo-benefício favorável”, alerta.
O gerente ressalta que os lotes são muito caros. Além disso, os serviços de infraestrutura oferecidos, quando comparados com cidades muito próximas, fazem com que o empresário se mude daqui. “A Fiesp/Ciesp tem feito estudos e participado ativamente do Conselho Municipal de Urbanismo (Comur) e da Secretaria do Meio Ambiente. Também mantemos contato cada vez mais frequente com empresas e cidades com larga experiência em implementação de condomínios industriais e política industrial eficaz”, afirma, lamentando a falta de previsibilidade e agilidade no apoio aos empresários que almejam sua instalação no Distrito Industrial.
CIDADANIA NA PRÁTICA
Aos 33 anos, casado e pai de dois filhos, o mineiro de Belo Horizonte vive em Ribeirão Preto desde os 17 anos e não se abate por conta dos entraves burocráticos do setor. Para conhecer com maior profundidade os problemas estruturais em diversas áreas econômicas, culturais e sociais da cidade e da região, a Fiesp/Ciesp fundou o Núcleo de Desenvolvimento Social e Econômico (NDSE). O núcleo cresceu e passou a ter vida própria por meio de voluntários, que fundaram a Frente Cívica (FC), em 2008, dando continuidade ao trabalho de forma independente. “Muitos profissionais e empresários nos procuravam com a intenção de participar de uma entidade, com uma atuação focada não somente no desenvolvimento econômico, mas também na fiscalização do setor público em outras áreas”, explica Fabiano.
O principal objetivo da FC é promover o espírito cívico. Sua ferramenta é a conscientização do cidadão sobre o poder que ele tem em mãos para, de dentro de sua casa ou no seu trabalho, mobilizar outras pessoas no sentido de fiscalizar a atuação da administração pública. Segurança, transparência e eficiência da gestão pública e acompanhamento de denúncias com o “Estamos de Olho” são as três principais áreas de atuação da Frente. O trabalho está organizado no site www.frentecivica.org.br, mantido pelos associados, que contribuem mensalmente com um valor fixo. “Apenas no caso de projetos específicos, as empresas se quotizam para patrocinar ações”, esclarece Fabiano.
Segundo o dirigente, as pessoas tendem a fazer uma separação entre a casa e a rua, interesse pessoal e coletivo, o meu e o dos outros de forma egoísta. “Ensino aos meus filhos que a rua é a extensão da nossa casa, para que eles se sintam donos dos postes de luz, das calçadas, das viaturas de polícia. Isso cria um sentimento de carinho e zelo pela cidade e pelo país. O brasileiro aprende rápido, mas é preciso um engajamento maior e muito trabalho de entidades e de políticos para melhorar a cultura cívica da população”, enfatiza.
A FC tem grupos de trabalho formados por profissionais e especialistas com experiência na gestão municipal, que conhecem os principais problemas e gargalos dos serviços públicos de Ribeirão Preto. Entre os projetos desenvolvidos pela entidade estão o fortalecimento dos oito conselhos de segurança (consegs) e a ativação do Conselho Municipal de Segurança, estímulo à ocupação dos vazios urbanos, aprovação do IPTU Progressivo, entre outros.
Um grupo acompanha as denúncias feitas pelos jornais para que não fiquem sem esclarecimentos pelas autoridades, e a aprovação de uma lei de Plano de Cargos e Salários para a administração direta e indireta. Por fim, a FC defende a publicação, no site da Prefeitura, de seu organograma e das empresas e autarquias municipais com nomes de todos os funcionários, seus cargos e departamentos. “Somente com maior transparência poderemos combater os desvios de função, aumentando a motivação do servidor e a eficiência da máquina pública, o acesso e o poder de fiscalização do cidadão sobre o poder executivo”, encerra Fabiano.
Texto: Rose Rubini
Fotos: Carolina Alves