Sem bolha imobiliária

Sem bolha imobiliária

Profissionais da área explicam que o mercado continua crescendo e que o cenário atual não mostra indícios de uma possível crise financeira

Um termo tem ganhado cada vez mais destaque no setor imobiliário: a bolha imobiliária. De uma maneira simplificada, o termo traduz uma concentração de variáveis que desencadeiam desajustes no mercado, como excesso de oferta, mudança na política de juros e inflação. Essas mudanças causam uma supervalorização dos imóveis, ou seja, o preço fica acima do real valor e há uma demanda crescente com compradores dispostos a pagar cada vez mais. Porém, essa movimentação cíclica e intensa acaba trazendo resultados negativos. Com os valores exorbitantes, uma grande quantidade de empreendimentos disponíveis e condições facilitadas de financiamento, a tendência é que haja um desequilíbrio significativo no setor, gerando uma queda brusca na demanda e nos preços.

Essa denonimação surgiu para explicar a situação que ocorreu nos Estados Unidos e, posteriormente, na Europa. Depois de uma fase próspera, onde muito se investiu devido ao crédito barato e sem necessidade de garantias das instituições financeiras, a população não conseguiu arcar com os valores de mercado, já que a relação entre oferta e demanda causou uma elevação nos preços. Assim, as hipotecas deixaram de ser pagas, empresas faliram e surgiu uma forte crise econômica que refletiu internacionalmente. Especialistas na área tiveram receio que a mesma situação acontecesse no Brasil, ou, mais especificamente, em Ribeirão Preto e região, que vive um crescimento imobiliário expressivo nos últimos anos.

Mas, segundo esses profissionais, não há motivos para preocupação. Flávio Carneiro, diretor adjunto de captação de novos empreendimentos da Fortes Guimarães, explica que ainda existem condições ideais para uma sólida expansão. “Não existe nenhum sinal de que uma bolha passa se instalar. O financiamento imobiliário no Brasil dobrou nos últimos 24 meses e hoje representa aproximadamente 4% do Produto Interno Bruto (PIB). Em países europeus ou nos Estados Unidos, o financiamento chega a um patamar entre 60 e 70% do PIB e países com economias semelhantes à brasileira ficam entre 10 e 13%. Temos espaço para crescer. Sem contar que no Brasil ainda há um déficit habitacional enorme. Segundo estudo elaborado pela Fundação João Pinheiro, o déficit habitacional estimado é de 5,8 milhões de domicílios. Os clientes do mercado imobiliário interno são sólidos. Compram imóveis para moradia e não para especulação, como aconteceu nos Estados Unidos”, comenta Flávio, que acrescenta que a situação em Ribeirão Preto é bem semelhante ao panorama nacional.

Ronaldo T. Júnior, proprietário da imobiliária Pagano, possui experiência nessa área e afirma que entende as preocupações em relação ao tema. “Tivemos um desempenho incomum no setor imobiliário, que ainda não tínhamos experimentado, com um número incrível de lançamentos em todos os segmentos. A oferta é indiscutivelmente grande. A pressão inflacionária e o aumento dos juros encarecem a operação em diversos níveis e pesam no bolso do consumidor. Por isso, levantou-se a possibilidade de surgir uma bolha. Entretando, o mercado já sentiu essa mudança. Vem, aos poucos, retraindo-se e se adequando a um novo comportamento do comprador, que também tem um papel fundamental nesse cenário. Atualmente, ele analisa com mais cuidado os imóveis, procurando informações e orientações para fazer um bom investimento, uma compra consciente. Hoje, o cliente começa a tomar atitudes com cautela e planejamento. O lado racional anda superando a emoção. Por isso, espero que o equilíbrio prevaleça e preserve o mercado”, opina Ronaldo.

O diretor da construtora e incorporadora Chemin, Márcio de Souza Nogueira, comenta que uma bolha instaurada pode causar grandes problemas. “A consequência é a estagnação quase total do mercado. Para se ter a dimensão dos estragos, há uma cidade inteira na Espanha que se tornou fantasma: foi completamente construída e não houve demanda para sua compra. Como no Brasil houve uma repercussão massiva sobre o assunto, é normal que a bolha cause um certo temor. Como Ribeirão Preto tem um setor imobiliário ascendente, era esperado que essas discussões surgissem”, esclarece. Ainda segundo Márcio, os preços aplicados aos empreendimentos locais estão alinhados à realidade do município e aos custos de produção, já que, por ter a construção civil tão aquecida, naturalmente, há uma valorização dos profissionais da área e dos materiais empregados, o que reflete no valor de venda. “Porém, nada demonstra a formação de uma bolha, nem agora nem nos próximos anos. A perspectiva é que o crescimento continue de maneira harmônica”, conclui.

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