Sem Fronteiras

Sem Fronteiras

Adeptos do nomadismo digital trocam o escritório pelo trabalho remoto e, conectados à internet, aliam a vida profissional ao sonho de conhecer o mundo

Horas no trânsito e dias de confinamento em um escritório já não são sinônimo de uma vida agitada no trabalho. Pelo contrário. A combinação, que por muitos anos seguiu imutável, foi eliminada da rotina de muitos ribeirãopretanos, que viram no mundo on-line uma alternativa para unir o emprego à liberdade na vida pessoal. Chamados de Nômades Digitais, esses profissionais precisam, apenas, de um acesso à internet, computação na nuvem e alguns aplicativos. Tudo isso permite transformar lugares improváveis no ambiente perfeito para o trabalho.
Tendência, a modalidade dá sinais de crescimento. São blogueiros, youtubers, instagrammers, fotógrafos, videomakers, professores e webdesigners, que compartilham a paixão por viajar , mas que não deixam de lado a necessidade de trabalhar. 

No país, o tipo mais comum de atividade sem restrições físicas como a de um escritório é o home office (trabalho de casa, em tradução livre). Em 2017, mais de 37% dos brasileiros que participaram de uma pesquisa do site de contratação on-line Catho disseram ter, em algum momento, trabalhado de forma remota. Atualmente, mais de 12 milhões  de pessoas atuam neste formato e o Brasil já ocupa a terceira posição entre os países onde mais o estilo cresce, atrás somente da China, com 54%, e Singapura, com 50%.

Para Eduardo Cicconi, professor do Centro Universitário Barão de Mauá e gerente do Supera Parque de Inovação e Tecnologia de Ribeirão Preto, trabalhar remotamente significa organizar a rotina diária por meio de planejamento das atividades que se pretende executar a partir de uma escala de prioridade. 

Eduardo frisa que para trabalhar remotamente é preciso organizar a rotina diária por meio de uma escala de prioridades

Desta forma, segundo o profissional, ganha-se tempo para executar todas as tarefas com eficiência e qualidade e, ainda, sobra espaço na agenda para diversão e lazer. “Para definir as prioridades, é preciso levar em consideração dois fatores: a importância do que se vai executar e o prazo para execução. Pode-se, portanto, montar uma tabela dividida em quatro, definindo o que é mais importante e urgente e o que é menos urgente”, exemplifica.

Vale, segundo Eduardo, avaliar se a execução das tarefas e a não obrigatoriedade de cumprir uma carga horária específica influenciará a atividade de outra pessoa da equipe. No caso dos nômades, além de foco, é preciso responsabilidade, pois no trabalho on-line existem inúmeras fontes de distração que podem tirar a concentração. 

Para ele, a mudança de um padrão de vida envolve também aspectos operacionais e comportamentais. “Quem opta por este tipo de trabalho deve se preocupar em ter um espaço organizado para trabalhar, seja em casa ou em co-workings — espaços compartilhados —, além de garantir que sempre haverá disponível a conexão com a internet, uma vez que a tendência neste estilo é que tudo seja digital. Em relação ao comportamento, o indivíduo deve ter foco e organização, para que consiga planejar e cumprir todas as tarefas que precisam ser entregues e não desvie a atenção durante o horário de trabalho”, pontua.

Os dois lados

As principais vantagens da atuação remota são a rotina flexível, economia de tempo de deslocamento ao local de trabalho e ausência de algumas formalidades. Entretanto, podem existir algumas desvantagens, como a menor integração junto aos colegas de trabalho — o que pode prejudicar o desempenho da empresa como um todo — e, por parte do trabalhador, a dificuldade em separar a vida pessoal da vida profissional. 

Eduardo comenta que, pelo fato de esta modalidade de trabalho ter como um dos principais pilares o uso de tecnologias, é natural que os mais jovens sejam mais adeptos às atividades remotas, uma vez que a geração Z é considerada “nativa digital” e acompanha, desde muito cedo, as rápidas transformações pelas quais a sociedade está passando. “Empreendedores, em especial aqueles que trabalham com startups, também tendem a ser ‘Nômades Digitais’, pois, como oferecem soluções on-line, nem sempre é necessário e viável economicamente manter um escritório tradicional para que a operação aconteça”, acrescenta. 

#Marcelapelomundo

Para a jornalista Marcela Meirelles, o nomadismo já é realidade. Em 2018, ela colocou um velho sonho em prática: o de conhecer o mundo. Para tornar a imaginação real, ela precisou planejar as maneiras de se sustentar financeiramente durante o tempo em que estaria em viagem. 

Depois de voltar de um intercâmbio de um ano, em 2015, muitas ideias passaram a fazer parte da sua vida e continuar a viajar sem trabalho fixo era um desafio. Depois de um “mochilão” pela Europa, decidiu esquematizar. Como meta inicial, pensou em fazer uma viagem por ano ao exterior para estabelecer conexões profissionais e conhecer diferentes pessoas. O plano, no entanto, foi alterado: em apenas dois anos, ela foi convidada a trabalhar on-line para uma empresa dos Estados Unidos. Havia chegado sua vez de arriscar e dar o pontapé para a realização do maior objetivo de vida. 

Marcela se mudou para Londres e, desde então, é responsável pela produção de eventos e de conteúdo para a Microsoft. O trabalho, totalmente virtual, permite a remuneração pelas horas trabalhadas ao mesmo tempo em que há liberdade para viajar. Publicando as imagens na rede por meio da hashtag #MarcelaPeloMundo, a jornalista já visitou o Sul da Itália, Reino Unido, Irlanda, Escócia e, em dezembro, partiu para o Canadá. 

Para ela, os desafios nesse novo estilo de vida são característicos de cada lugar por onde passa, incluindo a cultura, a maneira como as pessoas vivem e todo o processo de pertencimento ao lugar. Entre as vantagens, a liberdade de mudar de país sem ter a preocupação com a instabilidade no emprego. “O meu trabalho me acompanha, portanto, de forma remota, dificilmente ficarei desempregada. Além disso, vivenciar experiências que nunca imaginaria é enriquecedor”, comenta.  Mais do que trabalhar sem fronteiras, Marcela pretende, também, fazer cursos na área de massoterapia e aliar o emprego a serviços voluntários.

Com carimbos de diversos países no passaporte, Marcela pretende conhecer mais lugares do planeta

Catálogo virtual 

Outra característica do Nômade Digital é trocar o trabalho por uma viagem ou estadia. O professor universitário Paulo Eduardo Canedo Nabas já dá os primeiros passos nesse sentido. Fotógrafo freelancer de bancos de imagens de sites oficiais como Shutterstock, iStock e Adobe Stock, alia a paixão fotográfica ao gosto pelas aventuras. 

Em 2012, ele se arriscou na fotografia e comercializou os cliques da viagem que fez à Europa. Tornar-se um Nômade Digital está nos planos futuros do professor, que juntou o útil ao agradável com a venda das imagens. No passaporte, Paulo tem os carimbos de países como Itália, Holanda, Alemanha, República Tcheca, Áustria, Eslováquia, Hungria, Inglaterra, Bélgica, Irlanda, França, Espanha, Estados Unidos, Peru, Paraguai, além de vários destinos no Brasil.

Seja como designer ou fotógrafo, Paulo consegue exercer sua função a partir de qualquer lugar do mundo. O que hoje é um feliz acaso, ele pretende transformar em hábito cotidiano. “Gostaria muito de trabalhar e viajar ao mesmo tempo, pois é uma das minhas maiores paixões. Neste momento ainda não consigo me desvincular do modo tradicional de trabalho, mas é um objetivo futuro”, declara. 

Para ele, o segredo está no planejamento. Meses antes de viajar, Paulo organiza os roteiros, as atividades que mais gostaria de fazer e os lugares que gostaria de visitar para otimizar o tempo. Em suas viagens, o fotógrafo procura economizar. “Ter amigos no exterior ajuda muito”, brinca. “Quando não é possível me hospedar na casa de um deles, fico em albergues, hotéis ou outras opções mais em conta. O planejamento financeiro é importante, também, para garantir a tranquilidade da viagem. Muitas vezes, a alimentação é feita no improviso”, acrescenta.

Paulo usa a fotografia como ferramenta em suas viagens e pretende, futuramente, tornar-se um Nômade Digital

Nômades em dose dupla

Os xarás Bruno Muratori, de 30 anos, e Bruno Carvalho, de 26 anos,  colocaram nas bagagens o sonho de conquistar o mundo e muita força de vontade para trabalhar sem fronteiras. A ideia surgiu depois de um mochilão pela América do Sul, onde os amigos passaram 30 dias percorrendo cidades da Bolívia, do Peru e do Chile. 

O contato com pessoas de diferentes nacionalidades e culturas que também viviam em viagens pelo mundo despertou o interesse da dupla em se aventurar a outros destinos. Muratori atuou como gerente bancário durante sete anos, porém, com a crise de 2013 repensou a profissão e partiu para a Irlanda, onde morou por dois anos. Voltou com o sangue mochileiro correndo nas veias. Já Carvalho é formado em enfermagem e trabalha no Serviço de Hemodinâmica do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Viajar sempre foi sua atividade preferida. 

Bastaram os mesmos ideais para os dois traçarem o projeto “Viajando com o Xará”, que tem como principal objetivo atravessar a China até a Europa, de carona, acampando e trocando trabalho por hospedagem e alimentação. Os dois esperam apoio de aplicativos que possibilitam o intercâmbio de informações, como o Cauchsurfing  e World Packers. 

Depois de um ano de planejamento e de muita criatividade, o projeto tomou forma  e, em dezembro, os dois embarcaram para a China. “O relato das experiências vividas por outras pessoas que já passaram por essa situação foi o que mais nos motivou e nos ajudou a direcionar nossas ações”, destaca Muratori. 

“O relato das experiências vividas por outras pessoas que já passaram por essa situação foi o que mais nos motivou e nos ajudou a direcionar nossas ações”, destacam Bruno Muratori e Bruno Carvalho

Muita pesquisa em blogs e vlogs de viagem, canais do YouTube e livros foram essenciais para nortear o roteiro dos amigos. A partir das informações, o trajeto e os países almejados, a dupla começou a criar a forma e o roteiro flexível de locais, que está quase pronto. “A internet facilita muito o planejamento, com a troca de experiências, a facilidade de informação e a disponibilidade de programas de auxílio aos viajantes. Sem dúvida, tudo isso será fundamental para o sucesso da viagem”, acrescenta. 

Para Carvalho, as experiências que o “Viajando com o Xará” poderá lhes proporcionar é o maior atrativo da aventura. “Lidar com situações totalmente fora da nossa rotina e da zona de conforto, conhecer pessoas, lugares e culturas diferentes das que já estamos habituados é o que abrirá nossa mente para algo que jamais imaginamos presenciar e sentir, tanto fisicamente quanto espiritualmente. É isso que nos motiva: a mudança e a renovação de conceitos e ideias é algo que nos fascina e nos dá coragem para seguir”, conta, ansioso.

O planejamento começou com a rota dos países que mais gostariam de conhecer. Em princípio, definiram os continentes avaliando a logística, média de custo de vida dos países, períodos do ano mais indicados para visita, datas festivas, obstáculos para obtenção de vistos e, claro, sonhos e vontades pessoais. Assim nasceu o roteiro para os primeiros seis meses de aventura: China, Tailândia, Indonésia, Laos, Camboja, Vietnã, Myanmar, Índia e Malásia.

A tecnologia como aliada  

Como todo bom Nômade que se preze, os amigos não fizeram diferente e, para registrar os melhores (por que não os piores também?) momentos de cada viagem, criaram um canal no YouTube que acompanha o nome do projeto para mostrar as particularidades individuais de cada país em relação aos hábitos culturais, alimentíceos e a comunicativos das pessoas. 

Seguindo o planejamento, os xarás estão preparados para o inverno chinês de até -10ºC. Para eles, porém, as baixas temperaturas não são problema: vale tudo por uma aventura, para sair da rotina e conhecer lugares e pessoas. Ausência de estabilidade financeira, saudade dos amigos e familiares, falta de conforto e, em alguns casos, enfrentar todo tipo de trabalho para garantir a sobrevivência também são alguns imprevistos que estão lista de possibilidades, mas que não desanimam os Brunos. 

Embora tenham muitos sonhos, os dois também têm consciência das dificuldades. Entre as primeiras, a frequência de postagens no canal da internet, pois segundo eles, possuem pouca experiência com a linguagem digital. “Estamos começando tudo do zero. É uma nova vida e um novo trabalho . Toda essa mudança exige muita dedicação. A incerteza do que está por vir, o fato de aprender a manipular equipamentos de foto e vídeo e complexos programas de edição, habituar-se a um novo perfil de trabalho, desenvolvimento de marketing, por exemplo. São vários desafios para nós”, confessa Muratori.

A longo prazo, os amigos pretendem angariar recursos com a aventura e, a partir de então, gastar pouco e viajar com qualidade, mostrando, de acordo com eles, as qualidades e as deficiências de cada país para reinventarem a maneira de viver ao redor do mundo.  “Com o canal, pretendemos levar um pouco da nossa vivência para as pessoas. Mostrar o que estamos fazendo e nossa maneira de viajar, inspirar pessoas, mostrar que é possível se aventurar pelo mundo. A ansiedade para viver tudo isso é muito grande e estamos com todo planejamento ajustado para lidar com situações que fujam do esperado”, finalizam. 

Planejar é a palavra de ordem

Para que o sonho se torne realidade, alguns aspectos devem ser levados em conta. Veja alguns deles:

1-Tenha um planejamento:
Siga um roteiro com os locais que você quer conhecer e estabeleça um plano de ação.

2-Estabeleça horários:
É importante estabelecer horários de trabalho para ser mais eficiente, organizando o tempo entre os freelances e os passeios.

3-Tenha reservas:
Faça uma caixinha para emergências para cuidar dos imprevistos, assim é possível manter-se por algum tempo em caso de escassez de trabalho.

4-Seja produtivo:
De nada adianta você passar uma semana em uma praia maravilhosa, se ficar o dia todo trabalhando. Quanto mais produtivo você for, mais você terá tempo para aproveitar a vida de nômade!

5-Otimize o tempo ocioso:
É importante usar os momentos pouco atribulados para adiantar os trabalhos, assim há tempo livre para mais passeios.

Para se inspirar

Conheça alguns exemplos de Nômades Digitais, cada um com o seu projeto, vivendo em lugares diferentes, mas com algo em comum: a busca por uma vida livre.

Monday Feelings 
Os brasileiros Tiago Ferraro e Fernanda Kiehl se conheceram quando moravam em Londres. Ele era administrador de empresas e ela, assessora de imprensa. Apaixonados por viajar, passaram mais de dois anos viajando o mundo e, hoje, morando na Itália, possuem uma produtora de vídeos e trabalham fazendo roteiros de viagem personalizados.

Pequenos monstros
Debbie Corrano e Felipe Pacheco são brasileiros e publicitários. Já viveram na Europa, Estados Unidos e Tailândia, mas fizeram de Berlim a sua base. Atuam como freelancers de publicidade dando dicas práticas de como se manter sendo Nômades Digitais.

Clara Baccarin
A escritora ganha a vida escrevendo para diversos sites, além de publicar em sua própria página textos e poesias. Autora do romance “Castelos Tropicais”, “Instruções para Lavar a Alma” e “Vibração e Descompasso”, Clara é aventureira, vive viajando o mundo e mostra que a profissão do escritor se encaixa perfeitamente com o nomadismo digital.

Priscila Kamoi
Natural de Curitiba, após o diagnóstico de câncer de tireoide há seis anos e um cisto no ovário, há dois, decidiu largar o emprego em uma multinacional em 2014 e por em prática o blog “Jornada Kamoi”. Por meio dele, conta sua história, faz roteiros de viagem e publica sua vida como Nômade Digital, por meio da qual já conheceu mais de 24 países.



Texto: Cristiane Araujo
Fotos: Ibraim Leão

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