Sem parar de crescer
Saúde, construção civil e agronegócio se destacam na região mesmo em época de retração de investimentos
O que leva uma empresa a investir no Brasil em um cenário econômico marcado pela incerteza e pela volatilidade? Em Ribeirão Preto e na região, investidores resolveram contrariar o senso comum e, nos últimos anos, apostaram em suas respectivas áreas de mercado e na capacidade de recuperação da economia local. Essas apostas assumem uma dimensão ainda maior quando comparadas a alguns indicadores atuais da economia brasileira, especialmente no primeiro semestre deste ano. De acordo com informações do Trending Economics, sistema que monitora diariamente os números de governo e do mercado, o panorama atual está marcado por um misto de preocupação com indefinições: a dívida pública, em 2018, chegou a quase 78% do Produto Interno Bruto (PIB), ante 52% em 2010, e a taxa geral de crescimento do PIB é de - 0,2%.
Mesmo assim, desde 2016, pelo menos três projetos implantados em Ribeirão Preto pela iniciativa privada resultaram em investimentos superiores a R$ 1 bilhão, sobretudo nas áreas de construção civil e saúde. O mais recente é, também, o mais impressionante. O Vida Nova, empreendimento da Construtora Pacaembu, localizado na zona Norte de Ribeirão Preto, foi finalizado em julho de 2018 e é o maior bairro planejado de casas do país, construído com financiamento da Caixa Econômica Federal. As obras começaram em 2017 e, até a conclusão, foram investidos R$ 847 milhões, de acordo com informações da construtora. No total, são 6.991 moradias, que abrigam cerca de 30 mil pessoas — quase a população do município de Cravinhos — distribuídas por 2,8 milhões de metros quadrados, área equivalente a quase 300 campos de futebol. Além dos terrenos voltados para moradia, o Vida Nova também tem outros 761 lotes direcionados às áreas de comércio e de serviços. Um dos últimos, um terreno de 10 mil metros quadrados, foi adquirido na primeira quinzena de agosto deste ano pela rede Savegnago. Uma vez pronto, o supermercado vai ser um dos 51 que a rede pretende instalar no interior do Estado de São Paulo até o próximo ano.
De acordo com o diretor comercial da Pacaembu Construtora, Fred Escobar, a ancoragem para investimentos dessa magnitude está, sobretudo, na solidez e no potencial econômico do município e da região. “A Pacaembu Construtora acredita no potencial de Ribeirão Preto e, por isso, investiu e cresceu junto com a cidade nos últimos anos. O seu povo trabalhador e a receptividade dos órgãos públicos fizeram com que o maior bairro planejado do Brasil fosse construído e entregue em tempo recorde no município. Esse empreendimento proporciona à Pacaembu a quinta posição no Ranking Geral da Engenharia do Brasil, em 2018”, afirma. O Centro Comercial e Industrial Pacaembu, o primeiro que a empresa implanta dentro de um bairro planejado, possui 175 terrenos e foi desenvolvido para que os moradores do Vida Nova Ribeirão possam trabalhar próximos de suas residências. “O que nos motivou a acreditar nesse moderno centro comercial e industrial foi o potencial econômico da população do entorno, estimado em R$ 250 milhões. Estamos entregando moradia digna e emprego na porta de casa”, explica o diretor comercial, Fred Escobar.

A própria rede de supermercados Savegnago, com sede em Sertãozinho, é exemplo de grupo da região que não se retrai nem em tempos de crise. Até o final de 2020, o plano de expansão da rede segue com a inauguração de mais sete lojas em Ribeirão Preto, Campinas, Franca e Limeira. Desde o início do ano, e até concluir esta etapa de expansão, o investimento do grupo nas novas unidades será da ordem de R$ 300 milhões. “Mesmo com o cenário apresentando muitos desafios, a rede Savegnago não deixou de seguir com os investimentos previstos no plano de expansão. Entendemos que devemos estar sempre em movimento, analisando possibilidades que nos permitam crescer e encantar os clientes”, afirma Chalim Savegnago, presidente-executivo do Savegnago Supermercados. “Agregada às aberturas, também estamos reinaugurando e reformulando algumas unidades, de forma a padronizar todas as lojas. Nosso negócio é a extensão da casa dos clientes e, por isso, a prioridade é recebê-los com atendimento acolhedor e de qualidade. Isto é sem dúvidas um diferencial para os empresários nos momentos de instabilidade, conhecer o seu cliente e propor serviços e produtos que interessam verdadeiramente”, completa Chalim.
Além da Pacaembu Construtora, outro gigante da construção civil também tem realizado investimentos pesados em Ribeirão Preto. De acordo com o diretor comercial da MRV Engenharia, Breno Mendes Vilela, a empresa pretende lançar, ainda em 2019, três empreendimentos na cidade, que irão abrigar cerca de mil famílias. No total, esses três residenciais exigiram investimentos estimados em cerca de R$ 15 milhões e a contratação de cerca de mil trabalhadores, direta ou indiretamente. Esses três novos empreendimentos se somam aos cerca de 40 que a MRV já construiu desde a sua chegada à cidade, em 1997. Um dado divulgado pela empresa mostra que, de cada 20 moradores de Ribeirão Preto, um mora em um apartamento da construtora. “Além da vida de nossos clientes, também transformamos as regiões onde atuamos. Só nos últimos três anos, investimos mais de R$ 28 milhões em melhorias para a cidade de Ribeirão Preto”, comenta o diretor da MRV. Essas benfeitorias referem-se, basicamente, a contrapartidas das construções, como a abertura de novas vias e a implantação e melhoria de escolas e praças.

Alto Padrão
Atuando no mercado de imóveis de alto padrão, a Habiarte Construtora e Incorporadora completou 34 anos em Ribeirão Preto em julho deste ano. Nessas quase três décadas e meia de atuação, já foram entregues mais de 40 empreendimentos e 3.300 unidades. Os lançamentos mais recentes ocorreram em 2018: as torres de mansões suspensas Cidade de Vancouver e Cidade de Montreal, no bairro Ilhas do Sul. Neste ano, haverá mais um novo empreendimento da marca. Entre imóveis em fase de lançamentos e de obras, atualmente a Habiarte soma R$ 480 milhões em Valor Geral de Vendas (VGV). Para o diretor comercial da empresa, João Marcelo de Andrade Barros, o fato de a construtora atuar no segmento de alto padrão não a torna imune aos reflexos da crise, mas é possível prever com maior precisão o movimento do mercado. “O setor (de alto padrão) tem seus momentos de menor ou maior velocidade de vendas. Porém, é um nicho em que o comportamento do cliente é um pouco mais previsível do que nos padrões mais econômicos, que dependem do humor do mercado e da economia. A Habiarte vem percebendo que o desempenho no segmento de imóveis de luxo é mais estável: quando a economia está bem, as vendas melhoram, e quando ela vai mal, não pioram tanto. Isso faz com que consigamos uma maior previsibilidade em relação ao futuro”, destaca o diretor.

Se este cenário permanecer, pelo menos mais quatro novos empreendimentos serão lançados no próximo ano. “A Habiarte tem uma convicção muito grande de que o mercado imobiliário continuará em crescimento, dado o cenário de juros baixos e inflação controlada, além do déficit habitacional, que é grande no país. Não nos preocupamos tanto com o momento, mas sim com a tendência. Acreditamos que o imóvel é um produto pelo qual sempre vai haver demanda, podendo ser maior ou menor em diferentes épocas, mas que sempre existirá”, completa Barros.
Saúde
Não é só o setor da construção civil que vai bem em Ribeirão Preto: a saúde também tem recebido investimentos pesados, especialmente a partir da segunda metade desta década. Nos últimos três anos, só dois empreendimentos nessa área exigiram R$ 250 milhões na construção de um hospital e de um centro médico.
Em 2016, a Unimed Ribeirão Preto aplicou cerca de R$ 150 milhões na construção de seu hospital, que possui 24.364,43 m² de área construída na marginal da Rodovia José Fregonezi, que liga Ribeirão Preto a Bonfim Paulista. O hospital tem dez salas de cirurgias no bloco cirúrgico geral, sendo uma de hemodinâmica, duas salas de cirurgias no hospital dia e 133 leitos ativos no total — 112 em unidades abertas de internação e outros 21 de UTI (11 de UTI Geral e 10 de UTCA - Unidade de Terapia Cardiovascular Avançada). De acordo com o diretor-presidente da Unimed Ribeirão Preto, Gustavo Ribeiro de Oliveira, a crença no potencial da cidade e da região também está por trás dos investimentos da cooperativa no município. “Por meio de um trabalho consistente e estruturado, a Unimed Ribeirão Preto acredita na cidade e no país. A geração de empregos, o investimento sistematizado e planejado é fundamental para contribuir para o desenvolvimento sustentável da sociedade. Além disso, aprimorar a qualidade no atendimento ao cliente é a nossa prioridade”, conclui.

Na área da saúde, além dos investimentos feitos pela Unimed, outro empreendimento de grande porte também surgiu na cidade em pleno período de crise econômica: o Centro Médico RibeirãoShopping. Com investimentos estimados de R$ 100 milhões — dos quais R$ 36 milhões foram realizados pela Multiplan, proprietária do centro comercial, e o restante das clínicas em obras e compra de equipamentos —, o espaço surgiu há cerca de dois anos e abriga um complexo com 30 clínicas, distribuídas em áreas como Neurologia, vascular, Radiologia, Gastrenterologia, Proctologia, Urologia, Dermatologia, cirurgia plástica, reprodução humana, Ginecologia, Oftalmologia, Cardiologia, Ortopedia, Anestesiologia e Odontologia, assim como um laboratório de análises clínicas, centro de imagens e um day hospital.
Além disso, o Centro Médico também possui agência bancária, cafeteria e um auditório com capacidade para 200 pessoas. “O complexo vem mudando o jeito de prestar serviços de saúde em Ribeirão Preto e região. Prova disso é o número de atendimentos nas clínicas, que praticamente dobrou em 2019. Com certeza, estamos transformando o conceito de atendimento em saúde, agregando qualidade, logística e bem-estar”, acrescenta Rodrigo Nóbrega, da Associação do Centro Médico RibeirãoShopping. Com um total de quase 12 mil metros quadrados de área construída, o projeto do Centro Médico foi um dos vencedores do XIII Grande Prêmio de Arquitetura Corporativa, um dos principais da América Latina, na categoria “Saúde - Edifícios de Saúde”. Também levou o prêmio Ouro na categoria “Expansão e Revitalização” no prestigiado Prêmio Abrasce 2018. “Os pontos fortes do Centro Médico RibeirãoShopping são a possibilidade de o paciente resolver tudo num só lugar, consultas e exames, com conforto e praticidade, e a sinergia não apenas com o centro de compras, mas com todo o complexo multiuso no qual o shopping está inserido, incluindo centro de eventos, duas torres comerciais e um hotel”, destaca João Fernandes, superintendente do RibeirãoShopping.

Grupos de Ribeirão Preto também fizeram parte de um pacote de investimentos que grandes redes nacionais da saúde realizaram nos últimos dois anos. O mais recente ocorreu em maio, quando a terceira maior operadora de saúde do país, a Hapvida, com sede em Fortaleza, anunciou a compra do Grupo São Francisco por cerca de R$ 5 bilhões. Na negociação, foram incorporados os oito hospitais próprios, operadoras e planos de saúde e odontológicos, além de empresas de resgate rodoviário e saúde ocupacional do São Francisco, que tem 1,8 milhão de clientes, consolidando a Hapvida como a maior operadora do país, servindo mais de 5,8 milhões de beneficiários, em todas as regiões brasileiras. Como parte da estratégia de crescimento, o Grupo São Francisco inaugurou, em 1º de julho deste ano, o São Francisco Mais Saúde, complexo com 4.400 m² de área construída e aproximadamente 10 mil m² de área total, com capacidade de realizar até 40 mil atendimentos por mês em mais de 30 especialidades médicas reunidas em um só lugar.
Na nova unidade, o fluxo foi desenhado a partir do modelo Smart Track, uma espécie de circuito que padroniza a sequência do atendimento. O formato é usado em algumas das maiores redes de hospitais do mundo. “Oferecemos o que há de mais inovador em experiência do paciente. Isso porque reunimos dois conceitos importantes: o centro integrado e o Smart Track, que tornam a atenção à saúde ainda mais acolhedora e assertiva”, afirma Lício Cintra, CEO do Grupo São Francisco (GSF), do qual a São Francisco Saúde faz parte. “Os pacientes que estão passando pelo atendimento inicial, por exemplo, não encontrarão com quem aguarda exames, melhorando a velocidade no atendimento e minimizando o tempo de espera em locais de muito fluxo”, completa Cintra.

Ainda na área da saúde, em 2017, a holding Hospital Care, dos fundos Bozano e Abaporu, anunciou a compra do controle acionário do Grupo São Lucas, em um investimento inicial estimado em R$ 300 milhões. A previsão é que sejam investidos entre R$ 30 milhões e R$ 60 milhões até 2020, para a implantação de 40 novos leitos hospitalares, 20 UTIs e 20 leitos normais. Entre as ações de expansão e de modernização realizadas mesmo em tempos de recessão, destacam-se a reestruturação da Unidade de Pronto Atendimento, oferecendo mais conforto e segurança aos pacientes que necessitam de atendimento de emergência/urgência, 24 horas por dia; a inauguração do primeiro Centro de Trauma privado do país, setor preparado para receber casos de alta complexidade, com assistência completa e especializada ao politraumatizado; a abertura da nova UTI Modelo do Hospital Ribeirânia, com 20 novos leitos, sendo três específicos para isolamento; a compra, em outubro de 2018, do controle acionário do Hospital Especializado, unidade de referência em procedimentos de alta complexidade em politraumatizados, queimaduras e cirurgia plástica reparadora; e a aquisição, em março deste ano, do robô cirúrgico Da Vinci, para utilização em procedimentos de diversas especialidades médicas. “Crise todo mundo tem, todo mundo passa por ela, mas o fato de ocorrer uma crise não quer dizer que você tenha de ficar retraído. Encontramos boas oportunidades de crescer durante esse período. A saúde é um setor um pouco mais resistente nesses casos, pois é uma das primeiras preocupações das pessoas. Apesar de termos uma crise prolongada, a saúde perdeu poucos usuários, principalmente em algumas regiões. Ribeirão Preto foi uma delas, onde não teve uma perda tão grande de usuários do sistema de saúde suplementar. Houve oportunidades boas para crescer e nós aproveitamos isso, conseguimos um investidor que acredita no nosso projeto e conseguimos ampliar muito nossas ações”, analisa Pedro Palocci, presidente do Grupo São Lucas, que ainda analisa as perspectivas para o futuro. “A ideia é criar um sistema de saúde, nos próximos dois anos, baseado nos hospitais terciários: São Lucas, Ribeirânia e Especializado. Pretendemos ampliar o atendimento para um nível secundário e, inclusive, em atenção primária à saúde. Assim, expandiremos nossas atividades em um raio de 100 quilômetros ao redor de Ribeirão Preto”, planeja.

Agrishow
Com ou sem crise, um evento em Ribeirão Preto ultrapassa mais de um quarto de século de existência e se firma como um importante gerador de negócios para o município e o país. Realizada entre 29 de abril e 3 de maio de 2019, a 26ª edição da Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação (Agrishow) atraiu 159 mil visitantes — na sua maioria compradores e produtores rurais de pequeno, médio e grande porte — e realizou cerca de R$ 2,9 bilhões em negócios. O valor representa quase 90% dos cerca de R$ 3,3 bilhões que a Prefeitura de Ribeirão Preto estimou para o orçamento deste ano e significa um aumento de 6,4% em relação ao volume de negócios realizados na edição do ano passado. Um dos locais de maior importância econômica da feira, a 20ª Rodada Internacional de Negócios reuniu 15 compradores de países, como Argentina, Austrália, Chile, Colômbia, Etiópia, México, Nigéria e Peru, além de outras 52 empresas brasileiras.

No total, de acordo com informações da organização, foram realizados US$ 32,9 milhões (R$ 132,3 milhões) em negócios, já concretizados ou com fechamento esperado até 2020. A cifra representa um aumento de 37% em relação ao mesmo volume de negócios fechados na Rodada Internacional de 2018, que foi de US$ 24 milhões (R$ 96,4 milhões). Para o presidente da Agrishow, Francisco Maturro, a 26ª edição da feira consolidou a sua importância nos cenários nacional e internacional. “Em seu Jubileu de Prata, a Agrishow 2019 fortaleceu, ainda mais, a reputação da importante feira do agronegócio em nível mundial. Neste ano, o destaque foi para a conectividade e a tecnologia como aliadas para aumentar a produtividade e eficiência no campo e a incorporação de importantes segmentos da cadeia produtiva, como a área de insumos”, afirmou. A 27ª Agrishow será realizada em Ribeirão Preto, entre os dias 27 de abril e 1º de maio de 2020.
Texto: José Manuel Lourenço