Sem parar
Setores considerados essenciais e os que ganharam mais destaque com o isolamento social conseguiram manter o ritmo em Ribeirão Preto, mesmo durante a crise causada pela pandemia
Texto: Raissa Scheffer
A crise causada pela pandemia do novo coronavírus estagnou vendas e fechou postos de trabalho. Com o distanciamento social, lojas fechadas e serviços em geral suspensos, 67% dos empresários de Ribeirão Preto correm o risco de fechar as portas ou ficar em uma situação de difícil recuperação, segundo pesquisa feita pela Associação Comercial e Industrial (Acirp). Contudo, setores considerados essenciais e os que ganharam mais destaque com o isolamento social conseguiram manter o ritmo no mercado local, com geração de empregos e negócios, mesmo no cenário desfavorável.
O economista Luciano Nakabashi, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de USP Ribeirão Preto (FEA-RP/UP) explica que, com a crise global, todos os setores foram afetados de alguma forma, alguns em maior, outros em menor grau. “Mas, com as necessidades que nasceram com a pandemia, alguns segmentos conseguiram manter negócios e aumentaram a demanda, como algumas áreas da saúde, alimentação, tecnologia e construção civil”, diz.
Na saúde, a linha de frente de combate à Covid-19 nos hospitais demandou mais equipamentos e profissionais. Somente no Grupo São Francisco, que faz parte do Sistema Hapvida, foram geradas aproximadamente 260 vagas. Por conta da demanda, a gerente de RH do Grupo, Lange Velludo, afirma que recrutar profissionais qualificados é um dos desafios. “Afinal, todas as empresas da área da saúde estão passando pelo mesmo momento”, considera.
Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério da Economia, neste ano, além da saúde, agropecuária e construção civil lideram a geração de empregos em Ribeirão Preto.
Financiamentos imobiliários em ribeirão preto cresceram 1,5% em maio
Do campo aos canteiros de obra
O economista Luciano Nakabashi explica que, no caso da construção civil — considerada setor essencial — os negócios se mantiveram, principalmente, por conta da queda nos juros, o que incentiva o investimento em imóveis. Segundo o Boletim de Crédito, elaborado pela da FEA-RP/USP, os financiamentos imobiliários em Ribeirão Preto registraram alta de 1,5% em maio.
Ricardo Telles, diretor Presidente da Perplan Urbanização e Empreendimentos, conta que a empresa se adaptou bem a esse novo momento, com rotina adaptadas às novas normas de segurança e com estratégia de não reduzir jornada e nem salários. "Mantemos o projeto de crescimento no longo prazo. Durante a pandemia, as contratações foram ações já programadas e feitas para substituir pessoal”, pontua.
Ainda segundo Telles, a expectativa para o fechamento do ano é positiva. “Nossos resultados em maio, junho e julho foram bem acima do que esperávamos. As vendas ganharam muita velocidade por conta da queda da taxa de juros no país. Um período ruim foi o final de março e o começo de abril, quando toda a sociedade estava tentando entender o que acontecia e o como seria o futuro a partir daquele momento. Depois da segunda quinzena de abril, tudo praticamente voltou ao normal em nosso setor, com obras mantidas e vendas aquecidas”, explica.
No campo, a pandemia trouxe evolução, principalmente na forma como os processos são desenvolvidos. Alguns segmentos, inclusive, conseguiram aumentar o faturamento com a demanda gerada na pandemia. “Aumentaram a alimentação em casa e a venda de alimentos. Principalmente no início do isolamento, com a dúvida se haveria algum período de desabastecimento”, analisa Luciano Nakabashi, que também destaca a alta do dólar como incentivador das exportações — na região de Ribeirão Preto, as exportações de açúcar ajudaram a fomentar o setor.
Por outro lado, o cenário para o etanol se mostrou menos favorável nessa pandemia. Primeiro, por conta da competitividade com a gasolina e, segundo, pela queda no consumo por causa do isolamento social, segundo Monika Bergamaski, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio da Região de Ribeirão Preto (Abag). Monika afirma que os segmentos agro estão conseguindo prosperar no cenário de crise global, apesar da alta nos custos, com a readequação aos novos protocolos. Produtos como laranja e cafés convencionais — mais consumidos nas casas das famílias — ganharam destaque. “O agronegócio é o motor da economia e um dos únicos setores que empregou nesse tempo todo de pandemia”, argumenta.
Jessika Monassi, diretora administrativa e financeira do Grupo Tracan, de máquinas agrícolas, destaca que foi preciso se reinventar por conta dos novos protocolos, e alguns obstáculos surgiram por conta da insegurança causada pela pandemia, mas o setor seguiu com fôlego. “O agro não parou em nenhum momento, mesmo com todas as adaptações”, relata. Ela conta, ainda, que, em julho, a empresa voltou a contratar. “Eram vagas que estavam aprovadas e que preferimos congelar até termos mais segurança do cenário”, explica.
Inovação
Segundo Fabio Augusto Ennor Fernandes, presidente do Lide Ribeirão Preto, uma organização que reúne empresários da região, todo o mercado sentiu o baque da crise, mas determinados setores ganharam destaque, como o de tecnologia. “Foi preciso desenvolver essa pavimentação digital, o que trouxe a oportunidade de otimização de processos, como nas contratações. Momentos de estresse são importantes para acelerar determinadas necessidades. Claro que a crise trouxe danos irreparáveis, mas precisamos jogar com as cartas que temos, aprender e evoluir em momentos difíceis”, analisa.
Com o apelo ao distanciamento social e à ampliação tecnológica, soluções que contribuem para facilitar o dia a dia em diversas áreas ganharam ainda mais destaque durante a pandemia do novo coronavírus. A empresa Dryve, startup que comercializa veículos seminovos de forma 100% on-line, ampliou o quadro e contratou 116 profissionais em um processo digital que começou em maio. “A resposta do mercado à nossa proposta de trabalho agradou e nosso crescimento aconteceu muito acima do previsto, assim, as contratações ocorreram conforme a demanda do crescimento. Quanto ao cenário de pandemia, nosso trabalho teve de se adequar ao novo normal, assim, de forma remota, desenvolvemos nossas atividades. Nossa plataforma digital veio ao encontro das necessidades que surgiram nesta situação, o que manteve a linha de ascensão”, explica Paulo Aiello, diretor comercial da Dryve.
Murilo Pascoal, diretor de arte da empresa, foi um dos contratados no processo, também feito a distância, digitalmente. “Senti mais confiança no meu trabalho, pois sei que em tempos de crise não é fácil conseguir uma colocação no mercado”, afirma o profissional, que também encarou com facilidade o processo on-line de seleção. “Foi muito tranquilo. Fiz entrevistas remotamente com diretoria e RH e me senti a vontade com isso”, conta Murilo, que também aumentou o uso da internet para outras necessidades do dia a dia, como alimentação, farmácia e mercado.
Demanda essencial
O formato on-line de vendas também mexeu com um setor já tradicional, mas que ganhou ainda mais destaque na pandemia: o de supermercados. Com restaurantes fechados e a rotina em casa mais intensa, a necessidade por compras aumentou e puxou a demanda por mão de obra nesses estabelecimentos.
Na rede Savegnago, cerca de 1.600 empregos foram gerados durante essa pandemia. Segundo o presidente-executivo da rede, Sebastião Edson Savegnago, o Chalim, além das novas lojas em Campinas, Limeira e Araraquara, que abriram 800 novas vagas, a reposição de funcionários afastados por conta da pandemia também precisou ser feita. “Tivemos 600 funcionários suspensos, por serem de grupos de risco e também aprendizes. Além disso, colaboradores que contraíram a doença ou apresentaram sintomas também precisaram ser repostos, pois a demanda nas lojas aumentou, além dos cuidados com limpeza e orientação de fluxo”, conta.
Ainda segundo ele, a demanda do e-commerce da rede cresceu 300% desde o início da pandemia, o que mobilizou 90 profissionais para a área. “Precisamos criar 800 novas vagas para suprir essas demandas e garantir um atendimento seguro e de qualidade aos clientes, tanto no ambiente físico quanto no digital, além das novas lojas que já estavam programadas e foram abertas neste ano. Tudo com processos de seleção totalmente on-line. Os profissionais só tiveram o contato pessoal quando começaram a trabalhar”, conclui o presidente.