Sensibilidade que acolhe
No Hospital Estadual de Ribeirão Preto e no consultório, a psicóloga Beatriz Ferreira Neves contribui para disseminar autoconhecimento e conforto
Formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com mestrado em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), Beatriz Ferreira Neves possui 22 anos de carreira. Antes de enveredar para esta área, no entanto, prestou vestibular para Letras, ainda que a mãe, dona Zenaide, já dissesse que ela deveria ser psicóloga. A influência da matriarca, que era enfermeira, foi determinante na vida dos quatro filhos. A mãe, que faleceu há quatro anos, dizia que o filho mais velho seria médico, ainda que ele estivesse cursando Agronomia, que a mais velha seria enfermeira, assim como a mais nova, mesmo que ela já estivesse se formando em Zootecnia. Acertou em todas as previsões.
No caso de Beatriz, a confirmação das suposições de Zenaide veio seguida de uma carreira consolidada. Em sua trajetória, aprendeu a conciliar o atendimento clínico e hospitalar e, hoje, é responsável pelo serviço de Psicologia do Hospital Estadual de Ribeirão Preto. Já passou por diversas instituições de saúde, incluindo o Hospital de Câncer de Ribeirão Preto e o Hospital das Clínicas, tendo dado aulas em diversas disciplinas da área. Pós-graduada em Cuidados Paliativos e Psico-oncologia, foi desenvolvendo as próprias técnicas de atendimento no ambiente hospitalar, com forte influência da Psicanálise, que utiliza no acompanhamento de pacientes e também de familiares. De acordo com Beatriz, a predominância feminina na Psicologia passa pela questão cultural, mas também está atrelada à natureza da profissão.
Revide: A que atribui o fato de a Psicologia ter ampla participação feminina?
Beatriz: Realmente, pode-se verificar a predominância das mulheres na Psicologia desde a procura pelos exames vestibulares. Considerando universidades públicas e particulares, sete em cada dez candidatos às vagas do curso são mulheres. Nas salas de aula, considerando grupos de 40 alunos, quase 30 são do sexo feminino. As razões para um cenário como esse, na minha opinião, são várias. Penso que as disciplinas oferecidas na área de humanas são mais abertas e convidativas, o que está alinhado ao perfil das mulheres. Existe, ainda, uma extensa lista de outras questões culturais, que envolve o cuidar emocional, o escutar e o compreender, atrelados a capacidade de comunicação. Esses recursos são bastante ligados ao universo do feminino.
Quais são as particularidades da Psicologia Hospitalar, que está entre suas especialidades?
A Psicologia Hospitalar busca compreender e tratar dos aspectos psicológicos em torno do adoecimento. Isso porque tanto a Medicina quanto a Psicologia aceitam que a doença é um fenômeno bastante complexo, com dimensões biológicas e também psicológicas e culturais. Sendo assim, podemos dizer que todas as doenças apresentam aspectos psicológicos e, por isso, os pacientes podem se beneficiar, e muito, com o trabalho realizado por meio da Psicologia Hospitalar. É preciso reforçar, no entanto, que cada paciente é único e que a doença e a hospitalização dificultam a expressão da subjetividade de cada um. Dentro desse contexto, o papel do psicólogo junto ao paciente hospitalizado é se colocar como um facilitador no processo de expressão dessa subjetividade, ou seja, permitir que o indivíduo seja ele mesmo, e não apenas mais um paciente. Além disso, também é nosso papel contribuir para a elaboração simbólica do adoecimento de cada pessoa hospitalizada.
Quais são as especificidades da Psico-oncologia?
Assim como a Psicologia Hospitalar, a Psico-oncologia integra o guarda-chuva da Psicologia da Saúde, portanto, é uma especialidade interdisciplinar. Sua base de estudos é, basicamente, a influência de fatores psicológicos no desenvolvimento da doença e no tratamento de pacientes com câncer. Na prática, as intervenções do psicólogo objetivam reduzir o sofrimento do paciente durante o processo do adoecimento, oferecendo suporte emocional, auxiliando na redução do estresse e no processo de enfrentamento da doença.
A que se refere a área de Cuidados Paliativos?
Podemos dizer que esta é uma especialidade nova. Os Cuidados Paliativos, como área específica, surgiram por volta da década de 1960, na Inglaterra, com Cicely Saunders, que era enfermeira e, depois, graduou-se também como assistente social e médica. De acordo com a definição da Organização Mundial de Saúde (OMS), “Cuidados Paliativos consistem na assistência promovida por uma equipe multidisciplinar, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida do paciente e de seus familiares diante de uma doença que ameace a vida, por meio da prevenção e do alívio do sofrimento, da identificação precoce, da avaliação impecável e do tratamento da dor e dos demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais.” Essa conceituação é de 1990, mas segue bastante completa.
Qual é o trabalho realizado?
A proposta é acompanhar o paciente em sua trajetória até o final de vida, promovendo o alívio da dor e de outros sintomas desagradáveis. O objetivo não é acelerar ou adiar a morte, mas colocar ênfase na vida que ainda pode ser vivida apesar da morte ser um evento esperado a qualquer momento. Buscamos integrar os aspectos psicológicos e espirituais no cuidado ao paciente e observá-lo de maneira integral, multidisciplinarmente. Faz parte do nosso papel, ainda, oferecer suporte aos familiares durante a doença e também na hora do luto. Estes são alguns dos princípios sempre reafirmados pelos profissionais dedicados aos Cuidados Paliativos.
Que tipo de auxílio pode ser oferecido a pacientes em situações extremas de saúde?
O conforto é sempre nosso foco principal — aqui, falo de conforto físico, psíquico, social e espiritual. Em primeiro lugar, fazemos uma avaliação cuidadosa de cada paciente, o que nos permite desenvolver um bom planejamento dos cuidados necessários para o conforto do paciente. Desde essa análise, é importante garantir um olhar amplo e multidisciplinar, considerando o indivíduo por inteiro. Nesta integração de condutas, construímos uma espécie de rede de proteção para o paciente, que nada mais é do que um sistema de suporte capaz de garantir o máximo de qualidade de vida para o indivíduo e também para os seus familiares.
A morte faz parte da sua rotina, certo? O que vem aprendendo com ela?
Sim, mas não podemos esquecer que a vida também está ali presente. A equipe de saúde deve estar focada em ajudar o paciente a viver bem até os últimos segundos. A convivência com o fim da vida nos ensina a refletir mais sobre a nossa própria história, assim como sobre a importância de vivenciar nossas experiências com profundidade, conscientes da brevidade do nosso tempo. Aprendemos que não há controle possível sobre o estar vivo e sobre a duração da nossa existência. Com isso, descobrimos a importância do perdão, da família, da solidariedade e da generosidade. Entendemos, ainda, que bens materiais perdem completamente o valor no momento da perda de quem se ama. Por outro lado, como também entramos em contato com situações de abandono e de muita solidão, aprendemos a ser, talvez, a única pessoa a acompanhar um paciente em seus momentos finais, a segurar sua mão e esperar sua partida. No universo do que envolve o final da vida, aprendemos que a forma como vivemos estará muito presente na forma como morreremos.
Como lidar com a situação de cada paciente e não se envolver emocionalmente?
A experiência de mais de 20 anos ajuda bastante na diferenciação entre o pessoal e o profissional, o que não quer dizer que eu não me aproxime do paciente — pelo contrário, posso garantir que é possível ficar junto sem se misturar com a dor e o sofrimento do outro. Aliás, essa é a única maneira de ajudarmos na compreensão e no crescimento do outro. Em toda abordagem inicial, procuro sempre deixar claro para o paciente o quanto ele faz parte do processo que passaremos juntos.
Quais são as principais características desse contato?
Existe uma troca muito grande: ao mesmo tempo em que ajudo meus pacientes, aprendo com eles e fortaleço minha resiliência. À medida que reforçamos este vínculo, o tratamento flui e os resultados aparecem, o que é muito gratificante. Quando somos procurados pelos familiares após o óbito do paciente, seja para agradecer ou para pedir ajuda, sabemos que um trabalho positivo foi feito, pois isso significa que eles se sentiram acolhidos, ouvidos e cuidados.
Qual é o seu papel dentro do Hospital Estadual de Ribeirão Preto?
Hoje, o papel do psicólogo na instituição de saúde é essencial dentro da equipe multiprofissional. Nesse ambiente, realizamos avaliações e atendimentos a pacientes internados, assim como reuniões com familiares, orientações a acompanhantes, discussões multidisciplinares de casos e planejamento de tratamentos. Também atuamos como facilitadores na comunicação dentro da própria equipe médica. Eu faço parte de um grande time multiprofissional formado por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, assistentes sociais, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais.
Atualmente, qual é a sua ligação com a área acadêmica?
Hoje em dia já não dou aulas, mas as atividades de supervisão realizadas dentro do Hospital Estadual me colocam em contato com a academia. Sou supervisora do Programa de Aprimoramento Profissional em Psicologia Clínica e Hospitalar e no Programa de Residência Multiprofissional em Atenção Integral à Saúde, ambos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP), da USP.
Diante de tantas atribuições, como consegue manter sua atuação clínica?
Minha rotina no consultório começa quando termina o período dedicado ao Hospital. Manter essas duas frentes de atuação me colocam constantemente em movimento, estudando cada vez mais. Diferente do que ocorre no ambiente hospitalar, onde o suporte psicológico costuma ser mais pontual, a clínica, geralmente, permite que as questões do paciente sejam trabalhadas com mais tempo.

Qual é o perfil do paciente que procura o consultório de um psicólogo?
Diria que todos os conflitos se baseiam em uma dissonância, quando não entendemos aquilo que está acontecendo conosco. Está certa a afirmação que diz que o consultório do psicólogo não é ideal para quem tem problemas — afinal, todos temos —, mas para quem deseja entender e resolver os problemas que tem. O objetivo da psicoterapia é levar ao autoconhecimento e, consequentemente, a escolhas e posturas adotadas com consciência.
Ainda existe certo preconceito com o divã?
Acredito que, hoje, as pessoas já têm um melhor entendimento sobre o trabalho de psicólogos e também de psiquiatras. Já está ultrapassada a ideia de que o consultório desses profissionais é reservados a “loucos”. Todas as pessoas que desejam se conhecer melhor podem se beneficiar das sessões de psicoterapia. Diria até que, atualmente, o consultório do psicólogo carrega certo status.
Como faz para conciliar profissão e vida pessoal?
O dia a dia profissional também inclui cursos e grupos de estudos. Para dar conta, a correria é grande, mas já foi mais intensa. Isso porque meus filhos — são três — já voaram do ninho e já me deram duas netas. Em casa, atualmente somos somente eu, meu marido e um filho peludo, um shi tzu que se chama Mário e consegue ser o centro das atenções.
Acredita que a capacidade multitarefas da mulher é mesmo natural?
Acredito em capacitação e motivação. Quando somos capacitados para algo e sentimos motivação para realizar determinada tarefa, tudo fica mais fácil e acontece naturalmente.
Nos universos onde transita, como avalia as conquistas femininas até aqui?
Grande parte do tempo que dedico ao trabalho é passado dentro das enfermarias do Hospital, onde boa parte dos profissionais é formada por mulheres. No meio acadêmico, posso dizer que também percebo uma predominância feminina. Assim como em outras áreas, a mulher tem mostrado competência para ocupar os mais diversos cargos, inclusive de liderança. Acredito que características femininas como a sensibilidade, a capacidade de observação, a empatia, a capacidade analítica e de planejamento e, principalmente, a capacidade de acolher legitimam o papel feminino na construção e na manutenção de uma sociedade mais harmônica.
O que ainda falta conquistar?
As mulheres precisam se conscientizar da grande capacidade que possuem para ocupar posições de liderança em várias organizações, públicas e privadas. Penso que elas ainda se intimidam bastante diante de uma sociedade que ainda é muito masculina, mas vejo também que a ascensão feminina será inevitável e, em breve tempo, será bem mais real. Outra questão muito importante é a equiparação salarial, que ainda não é realidade em todas as áreas. Isso precisa ser mudado.
Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Julio Sian