Sensibilidade que cura
Para oncologista, é preciso entender as demandas do paciente com câncer e de seus familiares e nunca sacrificar a qualidade do tratamento
A evolução da Medicina nos últimos anos é incontestável. Nas mais diversas especialidades, os avanços proporcionados pela ciência foram impressionantes. Na Oncologia, que lida com o tratamento de câncer, houve um enorme desenvolvimento, acompanhado de perto pelo especialista Aurélio Julião de Castro Monteiro.
Natural de Araraquara, ele é formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP). Em sua carreira, acompanhou as principais transformações das últimas três décadas. Por isso, comemora, apesar do crescimento do número de casos de câncer na atualidade, a mudança de paradigmas em relação à doença, que já não é mais sinônimo de perda.
Na conversa com José Carlos Carvalho, presidente da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (ACIRP) — de quem é companheiro no Rotary Club de Ribeirão Preto —, Julião revela a sensibilidade de um médico que, além da busca constante por atualização em sua especialidade, já enfrentou a doença.
O especialista viveu a perda do pai para um câncer antes mesmo de se tornar um oncologista e, em 2005, iniciou seu próprio tratamento. Para ele, entender as demandas do paciente com câncer e de seus familiares e nunca sacrificar a qualidade do tratamento oferecido são regras fundamentais para o exercício da Oncologia.
Carvalho: Por que escolheu a Medicina?
Julião: Até o terceiro ano do Colegial, eu tinha a firme convicção de que faria engenharia. Seis meses antes do vestibular, mudei de ideia e optei pela Medicina. Ingressei na Faculdade e me formei em 1974. Durante o curso, em 1972, meu pai, que era médico sanitarista, descobriu um câncer que o levou à morte em um ano. Nesse período, observar a maneira como ele foi tratado por seus médicos, com extremo respeito, foi muito marcante. Em janeiro do ano seguinte, meu segundo irmão, que era presidente do Centro Acadêmico de sua faculdade, foi preso pela Operação Bandeirantes, uma organização paragovernamental. Então, estavam postas três situações: a perda do meu pai, e eu era o filho mais velho; a prisão do meu irmão — nós éramos em quatro; e o curso de Medicina. Nessa fase, eu estudava durante a semana e viajava a São Paulo, nos fins de semana, para procurar meu irmão, já que não sabíamos onde ele estava preso. Tudo isso, sem revelar nada à minha mãe, que já estava sofrendo com a morte do meu pai. Talvez com isso, eu tenha aprendido a nunca desistir de perseguir qualquer luz no fim do túnel, independente das intempéries. Depois de muita busca, encontrei meu irmão em um prédio que já não existe mais na Rua Tutoia. Por meio de uma ligação anônima, minha mãe também descobriu sobre a prisão, mas o importante é que essa história teve um final feliz.
Carvalho: Ao concluir a Faculdade, a escolha pela Oncologia foi natural?
Julião: Achava que me formaria, faria residência médica em Ginecologia e Obstetrícia em Ribeirão Preto e trabalharia em Araraquara. Foi isso que aconteceu: comecei a residência médica nessa especialidade, na Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas, e comecei a trabalhar. Naquela época, meus colegas se orgulhavam pelas incisões mínimas e suturas perfeitas, no que eu não via nenhum prazer. Eu gostava de ir ao fundo do corredor do terceiro andar, até aos finais de semana, e tratar dos pacientes com câncer. Fui percebendo, então, que o caminho da Ginecologia e Obstetrícia não era para mim. Por isso, conversei com o chefe do departamento, que achou bom que eu gostasse também da Oncologia, mas tentou me convencer a terminar a residência já iniciada. Mas eu pedi demissão imediatamente e comecei tudo outra vez na Oncologia Geral. Sinceramente, não sei dizer se essa escolha tem relação com a doença do meu pai ou se vem de outra tendência pessoal, mas o mais importante é que me sinto bem com o que eu faço.
Carvalho: Quais são os pilares de sustentação de um paciente em tratamento de câncer?
Julião: Um deles é a busca pelo conhecimento, que é uma obrigação. Diante do paciente, o médico é sua única esperança, portanto, tem que estar munido de todos os recursos à disposição. E a história da Oncologia mudou muito nos últimos anos, principalmente na última década. Quando lembro como era a Oncologia há 15 anos, surpreendo-me com o que éramos capazes de fazer. Com essa evolução, mais pacientes ficarão curados. Outro pilar é o relacionamento médico-paciente. A pessoa enfrenta as intempéries da doença, as dificuldades de seus planos de saúde e tudo mais que for necessário, mas não permite a quebra do vínculo com seu médico, relação que se estende às famílias. É interessante que, em algum ponto da minha vida, eu também pude ver o quanto é importante ter seu médico. O terceiro pilar é acreditar que nada pode sacrificar a qualidade do atendimento. Os profissionais que conseguem fazer isso podem dizer que praticam a Medicina da maneira mais prazerosa possível.
Carvalho: E para o paciente, o que é mais importante?
Julião: A busca pela vida, que é inerente ao ser humano. Em segundo lugar vem o medo do sofrimento que a doença pode trazer — e, aqui, vale ressaltar que a realidade de hoje não é a mesma de 30 anos atrás. O terceiro ponto importante é que cada paciente tem seus valores, mas todos, à sua maneira, passam a ver a beleza da vida e o prazer que há em viver com a família e com a natureza. Para isso, eles possuem alguns apoios fundamentais, que são os médicos, os familiares e todas as pessoas que exercem papeis relevantes dentro das organizações com qualidade, onde esses pacientes estão sendo tratados. Antes de tudo, o que eles querem é viver, ter qualidade de vida e desfrutar da companhia das pessoas que amam, fazendo o que gostam.
Carvalho: Dá para saber, por sua vivência na Oncologia, por que o câncer está se propagando cada vez mais?
Julião: Nos países mais desenvolvidos, a mortalidade por câncer está caindo, lentamente, mas caindo. Já nos países em desenvolvimento, a incidência do câncer e a mortalidade estão aumentando. Assim, podemos afirmar que recursos financeiros são fundamentais para tratar um câncer. Além de verba, a população dos países desenvolvidos é mais educada. Nos países subdesenvolvidos, é importante que haja um investimento pesado na educação, para que as pessoas possam participar do tratamento de maneira mais proativa. O tipo de vida que levamos hoje também conta muito: é uma vida carregada de estresse, o tabagismo ainda é algo presente, não há qualidade na alimentação e a poluição, de toda forma, está constante. Então, infelizmente, espera-se que a incidência de câncer provoque um boom tão grande que, em 2030, não haverá médicos suficientes para cuidar de tantos pacientes.
Carvalho: O que o motivou a criar a Fundação Sobeccan e, consequentemente, o Hospital do Câncer de Ribeirão Preto?
Julião: Quando começamos atender pacientes que tinham seus tratamentos patrocinados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), as verbas eram muito irregulares. Não há situação pior do que falar para um paciente que ele precisa se tratar, mas que nós não temos dinheiro para comprar seus remédios. Talvez pior ainda seja começar um tratamento e ter que interrompê-lo no meio do caminho por falta de recursos. Existia um grupo de voluntários, familiares de ex-pacientes dispostos a se unirem para criar uma associação. Esse grupo foi rapidamente alavancado, pois parecia que a comunidade de Ribeirão Preto estava esperando por isso. A associação logo se transformou em fundação, onde os instrumentos de controle são maiores. Essa mudança teve o trabalho ativo do professor Alberto Borges Matias, da FEA-RP. A Fundação Sobeccan tem participação da comunidade e copaternidade da FEA-RP.
Carvalho: Quais foram os passos seguintes?
Julião: Em 2006, estávamos sem espaço próprio e o então prefeito Gilberto Maggioni, que é rotariano, doou uma extensa área para a Fundação, que começou a construir seu hospital, com 600 m². Mas a vida prega peças, às vezes, irônicas. Em 2005, fiquei doente. Para um oncologista, o que poderia ser pior? Um câncer. Como sempre fui muito cuidadoso, a doença foi detectada em uma fase inicial e fui me tratar. Nesse momento, pedi ao amigo Antônio Carlos Maçonetto que assumisse o trabalho. Assim, a Fundação passou para as mãos do Maçonetto, que é o atual presidente. E a história seguiu naturalmente, já que a Fundação se perpetua. O Maçonetto conseguiu dobrar a área da Sobeccan e está em busca de novas parcerias. Se você me perguntar por que ela não é atribuída pelas autoridades para tratar os pacientes da região, direi que, por trás de tudo isso, existe uma questão econômica: é mais fácil colocar o paciente no ônibus e mandar para outra cidade do que mantê-lo em Ribeirão Preto. Hoje, sabemos que a fila de espera para um tratamento oncológico completo no HC pode ser longa demais para enfrentar determinados tipos de cânceres. Um exame para diagnosticar câncer de próstata demorava cerca de seis meses! Nós oferecemos ajuda para zerar essa fila às autoridades locais, mas a proposta não foi aceita. Qual é a contrapartida? Do outro lado, estão os pacientes e, para eles, o que menos deve pesar é a razão econômica. Eles querem viver, ter qualidade, aproveitar a família, etc.
Carvalho: Que trabalho é realizado no InORP?
Julião: O Instituto Oncológico de Ribeirão Preto presta todo o tratamento clínico a pacientes com câncer. Procuramos tratar o paciente e a sua família. Câncer, na grande maioria das vezes, é uma doença do idoso: quanto mais a população envelhecer, maior será a incidência da doença. Tratar um idoso, com características, propriedades e tolerâncias diferentes de outras faixas etárias, exige outras demandas. Por isso, criamos uma área que só lida com a parte oncológica geriátrica. Estatisticamente, sabemos que cerca de 60% dos pacientes com câncer que seguem um tratamento correto ficam curados. Os outros 40% não vencem a doença, e esses merecem abordagens médica, psicológica, fisioterápica e familiar diferentes. Esse é o poder da humanização do tratamento, que eu não vejo de outra maneira.
Carvalho: Como se sentiu ao receber o título de cidadão de Ribeirão Preto e de Monte Alto?
Julião: Confesso que me surpreendi, pois prefiro ficar no meu canto. Se por um lado é importante para as pessoas verem seu médico, seu amigo, homenageado, por outro lado, aumenta minha responsabilidade sobre todas as atitudes da minha vida, mas também serve de estímulo. Estímulo para lutar para que a Oncologia no Brasil quebre velhos paradigmas. A perseguição pelo bom resultado tem que ser obsessiva. A minha luta é por mim e pelos meus pacientes.
Carvalho: Como avalia sua participação em outras entidades da cidade, como o Rotary Club?
Julião: Estudei em escola pública durante toda a minha vida, portanto, nunca paguei um tostão pela minha educação. Enxerguei no Rotary uma oportunidade de devolver aquilo que a vida me deu. O Rotary Club tem uma característica muito importante: multiplica ações de uma maneira incrível, atuando naquilo que é mais necessário: cuidar da infância, da saúde das pessoas, da comunidade. O trabalho é totalmente voluntário no mundo inteiro. Além disso, propicia a sensação de que estou atuando na minha cidade, no meu Estado, no meu país e no mundo inteiro. Um pequeno gesto feito em Ribeirão Preto pode repercutir na África, por exemplo. A erradicação da poliomielite, que praticamente não existe mais, teve a participação dos rotarianos.
Carvalho: Com tantas atividades, tem tempo para manter um hobby?
Julião: Gosto de correr. Cada corrida que eu começo, dedico às pessoas que estão lutando contra o câncer. No momento do início da corrida, quando a adrenalina sobe, eu penso neles e é isso que me põe para frente. Outra coisa que me sustenta é a minha família, minha mulher e meus dois filhos.
Carvalho: Qual a interferência da sua família no teu lado profissional?
Julião: Tenho um casal de filhos e a Marina escolheu a Medicina. Em casa, as escolhas sempre foram muito liberais. Enquanto um foi para a Administração, a outra escolheu a Medicina. Em um dado momento, comecei a levar a Marina a congressos de Oncologia, sutilmente tentando induzi-la na escolha da especialidade. Mas um dia, ela me comunicou que, apesar de gostar muito de me acompanhar, ela partiria para a Ortopedia, e eu respeitei. Hoje, ela é especialista em pé e muito envolvida na profissão. Meus dois filhos têm muita ascendência sobre mim. Minha mulher é fundamental. Sei que se não fosse ela, não chegaria aonde estou. Por isso, sou eternamente grato.
Carvalho: Quais são seus próximos projetos, profissionais e pessoais?
Julião: Para um futuro bem próximo, imagino atuar na educação de pacientes com câncer. Acho que a verdade liberta e conhecer a doença, como enfrentá-la e onde buscar recursos para tal são passos fundamentais para essa luta.
Carvalho: Para encerrar, o que Ribeirão Preto tem de melhor e de pior?
Julião: O melhor da cidade são as pessoas que vivem aqui. Sou de outra cidade e, como eu, há muitos cidadãos de fora. Isso, de alguma maneira, liga as pessoas entre si e liga, também, à cidade, já que todos têm vontade de lutar por Ribeirão Preto. Esse é o ponto principal dessa cidade de forasteiros. O pior é a pequenez das pessoas que exercem o poder público na nossa cidade.
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“Na lista de diversos fatores que me fazem admirar o doutor Aurélio Julião está sua postura extremamente reservada, que não permite ostentar todas as virtudes e a qualificação profissional adquirida. A simplicidade dele no exercício de sua profissão faz com que eu tenha por ele uma enorme admiração. Outro item importante é que ele tem um grande espírito humanitário. O doutor Julião é um médico exemplar. Além disso, há o valor da família, sempre unida e presente, mas com discrição. Talvez por isso mesmo ele tenha alcançado sucesso como médico e como empresário. Por último, mas não menos importante, todas as atitudes que pude acompanhar junto ao Rotary só ajudaram a reforçar minha admiração”. José Carlos Carvalho, presidente da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto
Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Ibraim Leão