Sentença de vida
O Outubro Rosa, mais do que uma campanha de conscientização para a prevenção, representa um momento de reflexão também sobre a forma de encarar o diagnóstico e o tratamento do câncer de mama
Nos últimos 30 anos, o tratamento do câncer de mama mudou muito. Foram consideráveis os avanços, tanto do ponto de vista clínico quanto cirúrgico e também humano, com o desenvolvimento da reconstrução mamária, maior disponibilidade de técnicas difundidas entre os profissionais médicos. Além disso, ocorreu a implementação de leis garantindo esse direito às pacientes, ponto que pode ser destacado, nesse período, como decisivo para o resgate da autoestima da mulher.
Apesar desta evolução e do maior acesso a informações, receber a notícia do diagnóstico de câncer de mama continua sendo algo delicado. O momento permanece marcado pela incerteza e pelo medo, sendo encarado pela maioria das mulheres como uma “sentença de morte”. “As pacientes relatam como se ‘perdessem o chão’, como se não tivessem a perspectiva do amanhã, do seguimento habitual de suas vidas. Muitas tentam encontrar uma causa e se perguntam o que fizeram para ter a doença ou o que deveriam ter feito para evitá-la, apresentando uma mistura de sentimentos que envolvem medo, raiva, ansiedade e tristeza”, relata Rafael José Fábio Pelorca, médico ginecologista e mastologista, do ambulatório de Mastologia na Unidade do Saúde Plena, do Grupo São Francisco.
Para o médico, a importância do Outubro Rosa está relacionada não apenas ao alerta dado às mulheres para realizarem exames de prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama — afinal, em estágios iniciais, ele possui até 80% de chance de cura —, mas também para informá-las sobre a doença, seus tratamentos e possibilidades de cura. “A desinformação aumenta o chamado ‘medo do desconhecido’. A partir do momento que as pacientes passam a entender melhor a doença e como será o tratamento, a ansiedade diminui”, afirma Pelorca.
Para a oncologista do Instituto Oncológico de Ribeirão Preto (InORP), Mariana Paiva Batista, a tecnologia associada à facilidade de acesso à informação podem ser grandes aliadas na conscientização sobre o câncer de mama quando usadas com critério. “Fontes de informação de qualidade podem trazer um grande benefício às pacientes”, afirma a oncologista.
Segundo Mariana, os tratamentos mais atuais estão relacionados a características moleculares do tumor de cada paciente. São tratamentos cada vez mais dirigidos e individualizados, que visam à maior eficácia e a menores efeitos colaterais. Ainda assim, o investimento no aspecto humano permanece crucial porque o melhor enfrentamento da doença acarreta em melhor saúde mental e, consequentemente, na diminuição dos sintomas de cansaço, dor e melhor qualidade de vida da paciente.
Estimativa publicada no American Journal Psychiatry, em 2008, alerta que 25% das pacientes de câncer de mama podem ter depressão, por isso, é preciso estar atento. A personalidade de cada paciente, seu contexto familiar e a relação médico-paciente são fatores de grande influência para a determinação de seu posicionamento frente à doença, tanto com um posicionamento mais ativo e participativo quanto passivo, segundo Mariana Batista. “A boa saúde mental permite a melhor percepção dos resultados positivos do tratamento, levando a maior êxito em sua realização e maiores chances de sucesso do mesmo”, destaca a oncologista.
Pensamento positivo

A biomédica Izabella Karina Gorni Padilha, de 41 anos, mãe de dois filhos, percebeu um nódulo na axila direita durante o banho e procurou o ginecologista no dia seguinte. “Como estava amamentando, poderia ser algum nódulo relacionado ao leite, mas, no fundo, sabia que o prognóstico não era bom. Nódulo na axila já era o prenúncio de um período de incertezas e medo, muito medo”, conta.
Na mesma semana, Izabella procurou um mastologista e fez exames, incluindo uma biopsia. A descoberta aconteceu às vésperas do Natal e, até a confirmação, segundo ela, foram 30 dias, que mais pareceram 30 anos, pela dor e pelo estresse da dúvida, que considera muito pior do que a certeza do diagnóstico.
Apesar da noção do resultado final, diante do diagnóstico — um carcinoma ductal invasivo de grau 2 na mama direita —, Izabella perdeu o chão e chorou bastante. “Eu, literalmente, morri por alguns minutos, mas renasci para poder me cuidar e cuidar dos meus filhos. Renasci pelo meu marido, pelos meus pais e pela minha irmã. Não foi fácil, fiquei uns três dias fora de órbita, só pensava em como seria o tratamento com um bebê que ainda não tinha nem um ano, mas quando a ficha realmente caiu, decidi que tiraria o melhor que pudesse dessa doença. Não escolhi ter um câncer, mas, ao menos, poderia escolher como passar por tudo o que passei”, relembra a biomédica. A insegurança, a tristeza por estar sendo submetida a uma cirurgia de mutilação e o medo do que viria pela frente, com quimioterapia, efeitos colaterais, olhares de preconceito, foi substituída pela fé, que a guiou e a deixou em pé. Para ela, a cura começa na vontade de lutar. “Sem fé em Deus e remédios na veia, não conseguimos passar por momentos tão difíceis”, alega.
Faz pouco mais de 30 dias que Izabella terminou as sessões de quimioterapia vermelha e branca, que considerou menos terríveis do que imaginava. Agora, está fazendo hormonioterapia e afirma que a vida segue normalmente. “Para falar a verdade, nem lembro que tive a doença”, conta.
Ciente de que precisará fazer exames de controle, ela se apega às chances pequenas de reincidência e acredita que, depois de cinco anos, poderá definitivamente confirmar a cura, pois se sente “limpa, livre, leve e curada”, comenta Izabella.
“Tudo tem uma causa e um efeito, de acordo com nossas ações, nos premiando ou nos corrigindo. Acreditando nisso, nunca questionei, simplesmente aceitei. O câncer foi um grande aprendizado espiritual e emocional. Aprendi a ser forte e a acreditar que tudo vai dar certo”, enfatiza. Uma boa dica para ajudar a manter a autoestima, segundo ela, é ler histórias de superação. “Faz você acreditar que se deu certo para outras mulheres com certeza dará certo para você também”, conclui a biomédica.