Sentimentos traduzidos em arte

Sentimentos traduzidos em arte

Com traços singelos e uma explosão de cores, o trabalho da artista plástica Suzana Guimarães consegue tirar os espectadores da zona de conforto, provocando reflexões e emoções

Uma tela em branco e uma paleta de tintas podem proporcionar um infinito de possibilidades criativas. Nas mãos de Suzana Guimarães, esses elementos se transformam em ferramentas poderosas. Com talento, personalidade, inspiração e técnica apurada, a artista plástica ribeirãopretana utiliza esses elementos como matéria-prima para expressar e provocar emoções.

As obras que compõem o portfólio contam com traços delicados e cores fortes em abundância, unindo a realidade e o imaginário para retratar temas variados, como uma paisagem deslumbrante ou uma linda história de amor, por exemplo. Atuando nessa área há 20 anos, Suzana já participou de diversas exposições, tanto coletivas quanto individuais, conquistando um lugar de destaque no universo das artes e a admiração do público.

Atualmente, a artista cuida dos últimos detalhes de sua próxima mostra, “Em tempos de viagem, viajei”, que está prestes a estrear na Adearte Galeria & Store. Nesta entrevista concedida à empresária e fotógrafa Julia Junqueira, Suzana lembra como foram os primeiros passos da carreira, confidencia que a resposta do espectador é sua maior recompensa e revela as expectativas em torno do novo trabalho.

Julia: O que é arte para você?
Suzana: Arte é vida, é uma deliciosa forma de sentir a vida e de expressar os sentimentos.

Julia: Como começou sua paixão pelas artes plásticas?  O que levou você a pintar?
Suzana: O interesse pela pintura surgiu quando perdi o meu filho. Foi um momento muito difícil, que criou em mim um imenso vazio. Como forma de superar a tristeza, busquei me envolver com atividades diferentes, que me tirassem da rotina habitual, onde a lembrança dele ainda era extremamente marcante. Queria fazer algo que não havia experimentado. Em algumas viagens e visitas a museus e galerias, comecei a apreciar as obras de arte sob uma nova perspectiva e quis conhecer um pouco mais sobre esse universo tão rico. A pintura me proporcionou um recomeço. Nessa relação com as telas e pincéis, eu estava sozinha. Meu filho nunca esteve inserido nesse contexto e isso me ajuda a enfrentar a dor da ausência, mas, é claro, ele está sempre presente nas minhas emoções.

Julia: Como se sentiu quando descobriu que tinha esse talento para a pintura?
Suzana: Não tenho palavras para descrever como me senti. Foi algo muito natural, nato. Descobri que as cores estavam dentro de mim e, de frente com a tela, elas saíam como uma explosão, expressando os momentos e as histórias que colecionei ao longo da vida. Tive uma professora, mas nunca me prendi a padrões pré-estabelecidos ou tendências. Por exemplo, há 20 anos, quando comecei, as obras eram bem sóbrias. O monocromático, especialmente com base no preto, no cinza e no branco, era predominante. Já eu contrariava as referências e usava cores em abundância, sem nenhum medo de errar. Algumas pessoas até se assustavam, mas eu tinha que respeitar o meu gosto, o meu senso de estilo. Fiquei livre para desenvolver um jeito próprio de pintar, com personalidade. Tanto é que quem vê um dos meus trabalhos o identifica imediatamente.

Julia: Fazer arte, de certa forma, é uma missão?
Suzana: Sim, é uma missão maravilhosa e gratificante. Estamos inseridos em um mundo onde tudo é minuciosamente programado. As agendas ficam repletas de compromissos e o tempo se esvai com uma facilidade absurda. Em meio a tanta correria, o ato de sentir ficou um pouco esquecido. Parece que as pessoas não se permitem uma pausa para curtir as emoções. Nós, artistas, temos o poder de romper esse clico vicioso. Através do nosso trabalho, conseguimos provocar reflexões e despertar sensações antes adormecidas. Já vi gente sorrindo, chorando e se arrepiando diante das minhas telas. Fico imensamente feliz com essa resposta do público. É o maior reconhecimento que eu poderia ter.

Julia: Qual seu artista plástico preferido? Você tem influências dele nas suas obras?
Suzana: Sem dúvidas, Henri Matisse. Foi o primeiro artista que conheci mais a fundo, quando tinha 39 anos, e, aos 41, comecei a pintar. A influência dele nas minhas obras é muito grande, especialmente em relação às cores e à minha maneira de pintar.

Julia: Qual a técnica que você usa para desenvolver os seus trabalhos?
Suzana: Em desenhos com traços despretensiosos, retrato situações corriqueiras. São os meus momentos, minhas histórias, minhas vivências que vão para a tela e acabam causando no espectador um sentimento de identificação e de cumplicidade com aquela cena. São vasos, flores, janelas, cadeiras, paisagens e muito mais. Quanto às cores, misturo roxo com laranja, com amarelo e com verde, por exemplo, sem maiores preocupações. Não fico pensando demais. Apenas deixo que a emoção me conduza. Já na parte técnica, no início, utilizava tinta de parede para compor minhas obras. Hoje, uso a tinta acrílica e, depois, faço os últimos retoques com a tinta a óleo.

Julia: Além das cores, o seu portfólio é marcado por um toque de poesia. Essa interpretação das suas telas tem algum elo com a sua formação em Letras?
Suzana: Acredito que exista sim uma ligação, mesmo que seja de forma inconsciente. Tinha uma afinidade muito grande com a Filosofia e a Literatura. Até hoje tenho vontade de escrever um livro. Um dia ainda vou realizar esse desejo. Em resumo, sou uma pessoa que adora se expressar. Para isso, recorro a todos os recursos que tenho em mãos, tanto as palavras quanto as artes plásticas. Acabo misturando um pouco dos dois e consigo traduzir sentimentos e poesia em formas e tonalidades.

Julia: O mundo, de uma maneira geral, está precisando de mais cor?
Suzana: Com certeza. As cores são absolutamente essenciais, pois trazem alegria, leveza e bem-estar. Depois de um período cinzento, em que todos pareciam um pouco apáticos e tristes, podemos dizer que as cores, felizmente, estão brotando outra vez. É nítido que as pessoas têm buscado cada vez mais essa relação próxima com as tonalidades, seja nas roupas, nos acessórios ou na decoração da casa.

Julia: Como você avalia o interesse pela arte no Brasil?
Suzana: O interesse existe, mas ainda é pequeno. Os brasileiros não conhecem muito sobre arte, não é um assunto que tenha tanta força na nossa cultura, que aprendemos desde o berço e cultivamos ao longo dos anos. Tem gente que nem sabe que a cidade conta com uma galeria em plena atividade, trazendo o trabalho de diversos artistas importantes. Várias pessoas se sentem desconfortáveis em um ambiente de arte, têm receio de entrar e simplesmente visitar uma exposição. Ficam tímidas, sentem vergonha diante do desconhecido. Porém, quando essa barreira é quebrada, conseguimos notar claramente a emoção do espectador diante da obra. Nessa hora, não é preciso ter estudo e nem dominar o assunto. A relação é baseada puramente no sentimento. Mesmo que a pessoa não consiga classificar, interpretar ou expressar o que está vendo, indiscutivelmente, ela sente.

Julia: Como as pessoas interpretam a arte?
Suzana: Isso é algo extremamente particular. Depende do que essa pessoa é, de como se sente, das experiências que teve e da bagagem de vida que construiu. São inúmeros fatores, questões muito pessoais, íntimas, que vão definir com o que ela vai se identificar e se emocionar. As obras podem ter infinitas interpretações e isso é fascinante.

Julia: Qual sua sugestão para que as pessoas visitem mais exposições ou se interessem pelo trabalho dos artistas locais?
Suzana: Percebo que os brasileiros estão viajando bastante para o exterior e vejo isso com bons olhos. Lá fora, passear por um museu ou uma galeria é muito comum e faz parte do programa turístico. Está no pacote. Através dessas visitas, a população acaba desenvolvendo gosto pela arte. A minha sugestão é que essas pessoas tragam esse hábito para o território nacional. Vale muito a pena conhecer melhor a arte e seus encantos. As instituições e os meios de comunicação, por sua vez, precisam se esforçar mais para ampliar o alcance da divulgação das exposições promovidas no Brasil. Muitos trabalhos interessantes chegam até aqui, mas passam completamente despercebidos do grande público.

Julia: A sua próxima mostra, “Em tempos de viagem, viajei”, começa no dia 7 de maio, na Adearte Galeria & Store. O que o público vai encontrar em exposição?
Suzana: Esse trabalho foi realmente especial. Passei por um processo precioso durante a produção dessas telas. Nesse caos do mundo moderno, onde não temos tempo para mais nada, consegui fazer uma pausa. Sem sair de casa, pude realizar uma viagem interna sem limites, no tempo, no espaço e no imaginário. Revisitei lugares que me marcaram, paisagens que ficaram na minha memória, momentos inesquecíveis e lembranças que guardo no coração. Tudo isso está devidamente registrado. Cada detalhe foi feito com imenso carinho e esmero para chegar neste resultado que o público poderá conferir em breve. São telas e papeis com uma narrativa aberta, um convite para que o espectador mergulhe no cenário e resgate suas próprias recordações. Rio de Janeiro, Saint-Tropez e Paris são algumas das cidades que retratei nessa mostra. As cores, é claro, são protagonistas absolutas. Estou muito satisfeita e orgulhosa.

Julia: Apesar da sua experiência, você ainda sente aquele frio na barriga?
Suzana: Esta será a minha nona exposição. Já participei de cinco coletivas e três individuais. Com a experiência que adquiri no decorrer dos anos, sinto-me mais segura com o meu trabalho e confortável com a situação. Mesmo assim, o frio na barriga, mesmo menos intenso, nunca me abandona. Essa ansiedade é normal. Eu me exponho para o público junto com as minhas obras. Elas refletem quem eu sou, o que sinto e como me relaciono com o universo ao meu redor. É algo profundo.

SOB MEDIDA PARA EMOCIONAR

 “Não é de hoje que acompanho o talento de Suzana Guimarães. Suas telas, elaboradas com cores vibrantes e lúdicas, despertaram meu interesse de imediato. Com o passar do tempo, tive a oportunidade de conhecer melhor a sua obra e a sua história de vida, o que me fez admirá-la ainda mais. Após a perda do filho, Suzana buscou e encontrou na arte um recomeço, uma forma de superação. Ao contrário do que se possa pensar, a tristeza não tem espaço em seu portfólio. A alegria é predominante e contagiante. Os sentimentos são passados com tanta simplicidade e sinceridade que o público acaba se identificando profundamente com o que vê. Como assumi a direção da Adearte Galeria & Store logo após a última mostra que ela realizou no local, nutria o desejo de, um dia, trabalhar com essa artista. Esse momento especial finalmente chegou com a exposição “Em tempos de viagem, viajei”. É uma produção extremamente cuidadosa, em que cada detalhe foi pensado para emocionar. Tenho certeza de que todos ficarão encantados com o resultado.”
Julia Junqueira, empresária e fotógrafa

Texto: Paula Zuliani
Fotos: Julio Sian

 

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