SEPARADOS VENCEREMOS

SEPARADOS VENCEREMOS

Covid-19 muda hábitos e o cotidiano em Ribeirão Preto. Com isolamento domiciliar determinado por autoridades, moradores acompanham diariamente o número de ocorrências da doença e criam expectativas so

Texto: MARINA ARANHA Colaboração: PAULO APOLINÁRIO


É um batalhão de pessoas prontas para a guerra. Quem está atendendo, deixa a família em casa para se dedicar ao trabalho. Eles são profissionais fora do normal", afirma o engenheiro  Eric Cônsoli, diagnosticado com o novo coronavírus e liberado, com alta médica, nove dias após a internação. Eric passou sete dias na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Ribeirânia, em Ribeirão Preto, em decorrência de um quadro grave da Covid-19, e se surpreendeu com a quantidade de pessoas trabalhando exclusivamente no tratamento da doença. Na despedida, o engenheiro foi surpreendido por um corredor repleto de médicos e enfermeiros que o homenagearam com uma salva de palmas. “Não esperava que fosse acontecer. Foi muito emocionante”, comenta. O engenheiro sentiu na pele o que, até o dia 7 de abril, 116 pessoas sentiam em Ribeirão Preto. Desde a primeira ocorrência no município, em 21 de março, quando foram confirmados cinco casos oficialmente, o número de pacientes com o novo coronavírus cresceu 2.220% em um período de 17 dias. “Que parte que as pessoas não entenderam que a coisa está feia? Quem puder ficar em casa, fique”, recomenda Eric. Até o fechamento desta edição da Revide, Ribeirão Preto contabilizava 745 notificações de possíveis novos casos da Covid-19, sendo quatro mortes confirmadas. Os sintomas do novo  coronavírus vão de tosse, febre e cansaço a dificuldade para respirar – este último o mais específico e complicador nas ocorrências da doença, determinante para que muitos pacientes precisem fazer uso de respirador nos hospitais.

O Governo do Estado de São Paulo e a Prefeitura de Ribeirão Preto apostam no isolamento social como ferramenta para desacelerar a curva de crescimento e de contágio do novo coronavírus. O Ministério da Saúde também orienta a quarentena, contudo, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) considera os efeitos negativos da medida à economia e minimiza o impacto da doença aos pacientes, tendo chegado a considerá-la uma “gripezinha”. “Esse vírus trouxe uma certa histeria e alguns governadores, no meu entender, eu posso até estar errado, estão tomando medidas que vão prejudicar e muito a nossa economia”, afirmou, em entrevista à Rádio Tupi, criticando as medidas preventivas adotadas em estados. Ainda que exista divergência entre os poderes, os ribeirãopretanos seguem as deliberações estaduais e municipais, estabelecidas por meio de decretos, que determinaram a suspensão de atividades comerciais em diversos segmentos, além da orientação para que não saiam de casa. Assim, a paisagem na cidade mudou, especialmente nos primeiros dias de cumprimento dos protocolos. Imagens de espaços movimentados cotidianamente deram lugar a ruas desertas e portas de estabelecimentos cerradas.

Segundo o secretário de Saúde de Ribeirão Preto, Sandro Scarpelini, o isolamento social pode ajudar a limitar a velocidade de crescimento dos casos da doença na cidade. “Vários gráficos demonstrativos circulam tanto na literatura científica médica, quanto na leiga, demonstrando esses resultados. Um dos mais significativos foi a comparação entre as cidades italianas de Bergamo e Lodi”, afirma Sandro. As cidades citadas pelo secretário estão na Lombardia. Lodi entrou duas semanas antes de Bergamo com técnicas de isolamento, o que resultou em diferenças substanciais no índice de casos e de mortalidade pelo novo coronavírus. Com isso, o prefeito Duarte Nogueira (PSDB) iniciou a publicação de decretos em 16 de março, reunindo e complementando medidas que reforçam o distanciamento social. Inicialmente, foram suspensas as aulas das unidades escolares municipais, assim como o trabalho in loco de servidores acima dos 60 anos – considerada faixa etária de risco no contágio da Covid-19. Em 19 de março, foi declarada a situação de emergência na saúde pública, por meio do decreto 69, que suspendeu todos os eventos públicos e privados de qualquer natureza, visitação em hospitais, atividades em feiras (exceto feiras livres), atividades em cinemas, clubes, academias e teatros, além do funcionamento de shoppings e restaurantes (sendo liberada apenas a opção de delivery).

Quatro dias depois, a Prefeitura de Ribeirão Preto decretou estado de calamidade pública, mantendo a restrição de atividades nos estabelecimentos do município e instaurando o Comitê Administrativo Extraordinário Covid-19, com membros da administração direta que devem assessorar Nogueira quanto às medidas a serem tomadas para conter a pandemia. Em 6 de abril, todos os decretos foram alterados pelo prefeito, a fim de prorrogar a quarentena na cidade até 22 de abril. Dessa forma, os serviços indicados seguem suspensos e o funcionamento irregular é fiscalizado. Só no dia 7 de abril, uma operação do Departamento de Fiscalização Geral, da Guarda Civil Metropolitana, do Ministério Público e da Polícia Militar lacrou cinco estabelecimentos de Ribeirão Preto. Um salão de beleza, uma loja de material escolar, uma tabacaria, duas lojas de colchões e um lava-jato foram lacrados. Os proprietários foram autuados e multados e responderão por crime à saúde pública. “Em hipótese alguma esses estabelecimentos podem permitir a aglomeração de pessoas. O decreto municipal permite apenas que funcionem no sistema delivery e drive-thru”, afirmou o chefe da Fiscalização, Antonio Carlos Muniz, durante a operação. O descumprimento do decreto municipal pode ser denunciado pelos telefones 156 ou 153.

A expectativa do poder público municipal é de que as medidas de isolamento social reduzam a propagação da doença em Ribeirão Preto e permitam o “achatamento da curva” de contágio, evitando um pico de contaminação que superlote os hospitais e os leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Até o fechamento desta edição, estava mantida a quarentena até 22 de abril no município, sem previsão de prorrogação ou suspensão da medida. Prevenção e paciência são as palavras de ordem.

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