Símbolo de uma época

Símbolo de uma época

Representante não apenas da arquitetura e da religiosidade, mas também da história e da cultura ribeirãopretanas, a Catedral Metropolitana de São Sebastião tem sua preservação ameaçada

O ano de surgimento de Ribeirão Preto remonta a uma época de efervescência migratória que teve início no final do século XVIII. Naquele período, mineiros, produtores de algodão e, futuramente, de café, desembarcaram na região, com o advento da linha férrea da Mogiana, em busca de vida nova. 

A data da criação oficial do município é de 1856 e a prosperidade que a terra oferecia na época pode ser reconhecida atualmente no avanço do número de moradores. Menos de 20 anos após a data da criação oficial, em 1872, o município contava com pouco mais de cinco mil habitantes. Catorze anos depois, o número de pessoas duplicou e atingiu a marca de aproximadamente 10,5 mil moradores.   

A expansão não parou e a cidade continuou a crescer e a acumular riquezas.  Um relatório oficial, hoje de posse do Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto, escrito em 1903 pelo então prefeito Manoel Aureliano de Gusmão, revela que mais de 50 mil habitantes transitavam pelas ruas da cidade recém-fundada.  

Enquanto a cidade crescia, começava a tomar forma um projeto de 1900: a construção da Igreja Matriz da cidade. Antes disso, uma capela existiu – até o final do século XIX – na região onde hoje está situada a Praça XV de Novembro. No local, a movimentação cultural era intensa por conta do Teatro Carlos Gomes, o que pode ter influenciado na decisão de mudar de endereço. “Conta-se que a decisão de instalar a igreja em novo local surgiu porque o teatro era considerado um local de atrações mundanas”, conta a arquiteta Ana Carolina Gleria, aluna do Doutorado de História e Teoria da Arquitetura e Urbanismo da USP de São Paulo.

A mudança, conta Gleria, marca também o crescimento da cidade. “Naquela época, muitos prédios foram construídos como símbolo do enriquecimento da cidade, com investimento dos barões do café. O principal símbolo religioso passou de uma pequena capela para a atual catedral, sendo, hoje, a representação da grandiosidade das obras daquela época”, completa a especialista. 

De matriz à Catedral

Mesmo com a morosidade na execução das obras da Catedral Metropolitana, Dom Alberto José Gonçalves toma posse como Bispo em 1909 e assume os trabalhos de ampliação e finalização das obras que se arrastavam.  “Com a sua chegada e a criação da Diocese de Ribeirão Preto, a matriz foi concluída e elevada a Catedral”, conta a historiadora Nainôra Maria Barbosa de Freitas. Doutora em História pela Unesp e pesquisadora na área de celebrações, religião e gastronomia, Nainôra destaca ainda que o prédio é um ícone de extrema importância para a cidade. “Não só pelas festividades religiosas, mas também pelas negociações e tratativas que sediava”, aponta.

Arte sacra

O imóvel recebeu as tintas das mãos do pintor Benedicto Calixto. Em seis anos, de 1916 a 1922, o artista concluiu a encomenda feita pelo próprio bispo. Calixto se deslocava de trem para trabalhar nos afrescos da Catedral e, quando estava na cidade, hospedava-se no Palácio Episcopal. As seis telas que retratam a vida de São Sebastião, padroeiro da cidade, chegaram uma a uma, vindas de Santos, do ateliê do pintor. 

Calixto executou também outras imagens com temas religiosos e edificantes, como a pintura da Sagrada Família. Por volta de 1918, a construção foi terminada, faltando apenas partes da decoração interna. “A catedral é linda e rica. Além das obras de Benedicto Calixto, há um candelabro do mundo judaico. No fim da tarde, o reflexo do sol se pondo nos vitrais projeta cores lindas em seu interior. É uma coisa maravilhosa”, destaca a historiadora.

A professora Maria de Fátima Garcia de  Mattos, doutora em História da Arte pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), destaca a importância da Catedral como bem patrimonial, histórico, artístico e cultural na história da cidade e da comunidade religiosa que abriga. “Essa importância foi reafirmada em 2014 pelo Condephaat”, completa.

Rachaduras

Com divergências na data exata de sua fundação — a sagração da antiga igreja matriz como Catedral data de meados de 1916, embora, anos antes, celebrações já eram realizadas no local —, a Catedral Metropolitana, então, está para completar cem anos.

 Nas condições de hoje, o prédio paga o preço cobrado pelo tempo e pela ausência de manutenção e de planejamento — como um Plano Diretor, que poderia proteger o patrimônio histórico e cultural da cidade. 
O aumento no fluxo do trânsito na cercania da Catedral, incluindo veículos pesados, pode estar causando rachaduras que agora dividem espaço com os afrescos. Um estudo de engenharia, realizado há quatro anos pela empresa Falcão Bauer, indicou que as rachaduras e o intenso tráfego naquela região podem estar relacionados. 

O engenheiro civil Anderson Manzoli, especialista em transportes, conta que é necessária uma análise criteriosa para saber qual a distância do bulbo de tensão que um veículo provoca ao passar pelo pavimento. “Se a igreja está em um ponto onde a vibração já não é mais significativa, então pode descartar que o problema seja a passagem de veículos, no caso, dos ônibus”, explica o especialista. 

Manzoli destaca, ainda, que as rachaduras podem estar relacionadas ao aumento do fluxo de trânsito, mas, a culpa não é diretamente dos ônibus. “O que pode estar acontecendo é que, com o fluxo, alguma tubulação existente nas proximidades se rompeu, não que o ônibus, diretamente, causou a vibração que quebrou a fundação da igreja. Os vazamentos de água ou esgoto podem provocar o recalque diferencial que provocou a trinca na igreja. Não descarto a hipótese de que sejam os ônibus, mas é preciso analisar cuidadosamente”,  completa. 

Proteção

O Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) aprovou, em 2014, o tombamento do conjunto da Catedral, formado pela Praça das Bandeiras e pelo Palácio Episcopal. Com o processo de tombamento, as obras só são liberadas com a aprovação do Conselho, ligado ao Governo do Estado de São Paulo. No início de abril, o órgão aprovou a execução do projeto da Estação Catedral, que implantará cinco terminais de embarque e desembarque de passageiros no entorno da Praça das Bandeiras. A decisão chocou especialistas ligados à proteção do patrimônio histórico e cultural. “A Praça da Sé, em São Paulo, é fechada para o trânsito de veículos na parte da frente e em uma das laterais, o trânsito em frente ao Theatro Pedro II também é, com exceção de quando funciona como estacionamento. Por que querem construir em frente à Catedral?”, questiona Nainôra Maria Barbosa de Freitas.

Patrimônio em cheque

Com a autorização do Condephaat, emitida em março deste ano, para a implantação do polêmico projeto da “Estação Catedral”, a Prefeitura Municipal deu início às obras de uma das plataformas, na rua Visconde de Inhaúma. O Poder Executivo defende que o projeto é importante para a mobilidade urbana, pois, na Praça das Bandeiras, concentra-se grande número de usuários do transporte público e a obra beneficiará os passageiros. Mas há quem discorde.

Para secretário executivo do Fórum das Entidades de Ribeirão Preto (FERP), o engenheiro Cantídio Maganini, o projeto tem um lado que ele considera nefasto. “A proposta não contribui, de fato, para a mobilidade urbana. Serão 109 ônibus por hora somente em frente à Catedral, mas a mobilidade deve levar em conta os pedestres e os ciclistas. A melhor opção seria revitalizar a praça e fazer um imenso calçadão, com opções de plataformas leves na Mariana Junqueira e na Praça Carlos Gomes”, destaca Maganini. 

A decisão da prefeita Dárcy Vera (PSD) fez com que manifestantes contrários à implantação das plataformas se reunissem em frente ao Palácio do Rio Branco, sede Prefeitura Municipal – que também é patrimônio tombado e sofre com a ação tempo. Embora a situação atual possa parecer complicada para a Catedral Metropolitana de São Sebastião, fiéis, representantes da igreja, do Poder Legislativo e de entidades lutam para reparar a ação do tempo e o descaso com o bem público. 

Arquitetos da Catedral (O charme Art Noveau)

O projeto arquitetônico foi assinado Carlos Eckman (1866-1940) e Victor Dubugras (1868-1933), escolhido por meio de um concurso público. Nascido Karl Wilhelm Ekman, em Garvargatan, Estocolmo, Suécia, Carlos  foi naturalizado brasileiro, mas morou em diversas cidades, incluindo Nova Iorque e Buenos Aires, antes de se mudar, em 1894, para a capital paulista. Ao lado do francês Victor Dubugras (1868-1933), ajudou a inserir o “art nouveau” em São Paulo. “Eles são de uma época em que a arquitetura era muito mais do que projetar um local para abrigar. Eles mesclaram muito bem os elementos da art nouveau e do ecletismo à arquitetura da época”, destaca Ana Carolina Gleria.   

De acordo com o arquiteto urbanista Domingos Guimarães, pesquisador na área de patrimônio e identidades culturais, Dubugras é conhecido pela sua postura antiacadêmica. “Ele utilizava o concreto armado como sistema de racionalização do projeto, considerado um dos percursores do movimento moderno no Brasil”, explica o especialista.

Ekman e Dubugras, vieram ao Brasil atraídos pelas oportunidades profissionais oferecidas pelo país num momento de grande pujança econômica, intensa urbanização e desenvolvimento do mercado da construção civil.

O artista e suas obras na Catedral

“Benedicto Calixto frequentou a Académie Julian em Paris e foi um dos quatro pintores mais importantes na passagem do século XIX para o XX no Brasil. Suas obras na Catedral de Ribeirão Preto integram a terceira e a última fase da sua produção ligada a assuntos religiosos. São considerados seis painéis, pintados entre 1916 e 1922, em que afirma a fé cristã de São Sebastião, perseguido pelo Imperador Romano Diocleciano nos primeiros séculos desta era. Essas obras foram encomendadas por Dom Alberto José Gonçalves e, segundo consta, viajava de trem a Ribeirão para pintar as paredes. Além disso, possui mais cinco obras: a pintura no tímpano da porta da antiga sacristia, representando a Fuga da Sagrada Família para o Egito; a que está no tímpano da porta da Capela do Santíssimo; a pintura da parte superior da abside central da Capela do Santíssimo; os cortinados ornamentados pintados no presbitério, e um singelo vaso de flores sobre um pedestal pintado na simulação de um nicho parietal. ao lado do altar-mor”. Professora Maria de Fátima Garcia de Mattos, doutora em História da Arte pela ECA.




Texto: Bruno Silva

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