Sinal vermelho
O estresse dos condutores contribui para deixar o trânsito de Ribeirão Preto mais perigoso
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o estresse é uma verdadeira epidemia, afetando mais de 90% da população do redor do globo. A psicóloga e pedagoga Raquel Almqvist explica que a palavra estresse foi aplicada, inicialmente, na Física. Significa o grau de deformidade sofrido por um material quando submetido a um esforço ou tensão. Transportando esse conceito para o ser humano, o termo representa a adaptação do organismo diante de situações de tensão ou consideradas ameaçadoras. O corpo entende que está em perigo e se prepara para lutar ou fugir. “O organismo produz hormônios, especialmente adrenalina e cortisol, desencadeando reações como mãos suadas, aumento da pressão arterial e taquicardia”, descreve. Outros sintomas prevalentes são lapsos de memória, dificuldade de concentração, inquietação, dor de cabeça, no peito e muscular, mal estar, mau humor e cansaço.

O grande problema é ficar exposto a circunstâncias que provocam essas manifestações repetidamente. Nesses casos, o estresse acaba fazendo parte do cotidiano, sobrecarregando a saúde física e mental. “Nos dias de hoje, convivemos com inúmeros desafios, incluindo cumprimento de prazos, acúmulo de atividades, contas a pagar maiores que o salário, conciliação da carreira com a família e medo de perder o emprego. Criamos tantas exigências e expectativas que não conseguimos suportar essa pressão. Como resultado, o alarme natural do nosso organismo passa a ficar ativado constantemente”, enfatiza Raquel. Há, ainda, um fator bastante recorrente que contribui, de forma expressiva, para potencializar esse quadro: o trânsito.
Em Ribeirão Preto, está cada dia mais difícil fugir dos congestionamentos e dos comportamentos inapropriados ao volante, como provocações, gestos, ameaças e agressões. Além de gerar o estresse por si só, o trânsito tem sido utilizado, erroneamente, como uma válvula de escape para extravasar a irritação causada por outros motivos. “Reações hostis estabelecem um círculo vicioso, retroalimentando uma fonte geradora e de descarga do estresse. O condutor se sente protegido dentro de uma armadura de metal. Tem a ideia, ilusória, de anonimato. Existe uma sensação de poder, de autoconfiança, de descaso em relação ao outro e de impunidade. No entanto, infelizmente, um erro pode ser pago com a vida. Muitas vezes, não há uma segunda chance”, reforça a especialista, que atua há 25 anos como consultora na área de Segurança no Trânsito, com foco no comportamento do condutor.
Os riscos do individualismo
Segundo a professora de Psicologia do Trânsito da Unaerp, Gisele Machado da Silva Carita, isoladamente, o estresse não deve ser considerado o responsável pela falta de cordialidade e de respeito nas ruas, mas é um elemento que, associado à incompreensão da coletividade do espaço, a traços de personalidade (agressividade e impulsividade), à fadiga e ao uso de substâncias psicoativas, por exemplo, pode culminar em situações violentas e até criminosas. “Agimos de maneira individual, como se o carro ou a via fossem a extensão da nossa casa ou de nós mesmos. Porém, o espaço é da sociedade, dividido entre motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres. Envolve homens, mulheres, crianças, idosos e pessoas com deficiência, cada um com suas questões e suas particularidades. O conjunto precisa funcionar em harmonia. Quando nos atentamos à essa pluralidade e compreendemos que todos estamos vulneráveis à imprevisibilidade, enquanto nos deslocamos, conseguimos enxergar o próximo e adotar uma atitude mais prudente e defensiva”, ressalta a especialista.

As medidas elaboradas pelos órgãos competentes para tentar minimizar os riscos, melhorar o tráfego e, assim, conter os ânimos, como a obrigatoriedade dos equipamentos de segurança, o controle de velocidade e a Lei Seca, entre outras, são fundamentais, mas, se o motorista seguir pautado somente pelo medo de sofrer alguma penalidade, as regras perdem o sentido. Caso não haja algum sistema de fiscalização, o condutor com esse perfil de orientação à punição tende a ignorar as leis. Por isso, a educação para o trânsito se configura como algo primordial. “A educação permite ao motorista agir de maneira segura para a preservação da vida e do respeito ao próximo, independentemente da presença ou não de fiscalização. Assim, o condutor evita transtornos e se comunica de maneira não violenta, mantendo um ambiente de paz e de equilíbrio nas ruas, avenidas e rodovias”, pontua a psicóloga.

Contextualizando o problema
Normalmente, a falha humana é o gatilho do nervosismo no trânsito e a maior causa de acidentes. A desatenção, a velocidade incompatível com a via — para mais ou para menos —, as mudanças de direção sem a seta indicativa, o desrespeito às distâncias mínimas entre os veículos, as ultrapassagens forçadas e a desobediência em relação às sinalizações, principalmente dos semáforos, são reclamações recorrentes e evidenciam o despreparo de muitos motoristas. “Essa culpa pode ser dividida entre os Centros de Formação de Condutores (CFCs), nova denominação para as antigas autoescolas, e os órgãos fiscalizadores. A maioria dos CFCs deixou de lado a qualidade do ensino e se preocupa quase que exclusivamente com a lucratividade da empresa. Não há um comprometimento em capacitar os alunos. Diversos instrutores, hoje, trabalham com um conteúdo limitado, com foco apenas na aprovação do candidato no exame prático. Do outro lado, os órgãos fiscalizadores também não têm uma atuação ativa e efetiva”, afirma Sérgio Ponze, que ingressou na área em 1994, no setor administrativo de uma autoescola, passou a exercer a função de instrutor a partir de 1998 e, desde 2008, é diretor de ensino.
A lei vigente exige que o futuro condutor aprenda na teoria e na prática. As lições em sala de aula abordam temas como Direção Defensiva, Mecânica, Primeiros Socorros, Legislação de Trânsito e Meio Ambiente, durante nove dias, com uma carga de 4h10min diária, totalizando 45 horas-aula. Na etapa seguinte, o estipulado são 20 horas-aulas, com duração de 50 minutos cada. Segundo Sérgio, a avaliação demanda pouco da habilidade real em dirigir e mais da parte psicológica do candidato para se manter tranquilo para realizar os comandos solicitados no dia do teste.

O diretor explica que a situação, já preocupante, é agravada pela postura de muitos alunos. “Existe uma questão cultural aqui no Brasil que é difícil combater. Vários alunos chegam ao centro de formação interessados somente na Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Poucos buscam, de fato, entender o funcionamento do veículo, as regras e a dinâmica do trânsito. Falta maturidade. Esse é praticamente o primeiro momento que esses jovens estão tendo que agir por conta própria, sem depender dos pais. Algumas vezes, a liberdade acaba sendo confundida com irresponsabilidade. Essa geração tem sido blindada dos problemas e das frustrações. Por conta dessa superproteção, acreditam que nada os atinge e não têm consciência dos riscos e das consequências de suas decisões equivocadas como, por exemplo, assumir a direção alcoolizado ou sob o efeito de drogas”, pontua. Para Sérgio, o caminho da mudança passa pela parte emocional dos jovens, que precisa ser trabalhada, e pela atualização do Código de Trânsito, em vigor desde 1998.
Uma responsabilidade de todos
Manuela Titoto leva e busca os dois filhos em todos os compromissos diários. Portanto, está em constante deslocamento pela cidade. A realidade encontrada nas ruas, segundo a escritora, não é nada amistosa. “Quem é de Ribeirão Preto sabe que, uns dez anos atrás, não havia congestionamento, nem nas maiores avenidas. Esse quadro mudou categoricamente. O fluxo intenso de veículos se tornou um transtorno sentido por todos nos horários de pico. Devemos exigir que medidas sejam tomadas para resolver esse caos. Além disso, o motorista se tornou mais distraído e agressivo, resultado da constante pressa que o mundo moderno requer”, comenta.
Mesmo não tendo se envolvido em nenhum tipo de acidente nem perdido a paciência ao volante, Manuela enfatiza que basta olhar ao redor para presenciar inúmeras infrações. Ela mesma confessa que já praticou algumas no passado. “O uso de celular é o maior problema. Até perdi a carteira de condutora por isso, mas entendi o perigo que causava para mim e para o próximo”, afirma. A compreensão veio por meio da informação. Para atender uma ligação, há um atraso reacional de oito a nove segundos. Para responder mensagens, o atraso vai de 20 a 23 segundos.

A escritora apresenta, ainda, outros números impactantes. “O uso do aparelho na direção aumenta em 400% a possibilidade de um acidente acontecer. É como o bêbado no fim da festa que jura estar apto a pegar o carro. Esse descuido, comum entre nós, custa vidas. Cerca de 150 brasileiros morrem por dia devido ao uso de celular no trânsito. São, aproximadamente, 54 mil óbitos por ano. É muita irresponsabilidade saber disso e continuar a cometer o mesmo erro. Sob o risco de parecer clichê, acho que se cada um fizer sua parte, conseguiremos reverter essa situação”, ressalta. Na tentativa de engajar mais pessoas na causa, Manuela tem uma proposta. “De acordo com o artigo 41 do Código de Trânsito Brasileiro, inciso primeiro, o condutor poderá fazer uso da buzina, desde que em toque breve, para fazer advertências necessárias a fim de evitar acidentes. Então, sugiro que, ao ver um motorista utilizando o celular, a pessoa buzine, levemente, três vezes. Assim, criamos uma corrente de conscientização. É um pequeno alerta, que pode salvar você e o próximo”, conclui.
Nas pistas e nas ruas
Campeão do SuperBike Brasil na temporada 2019, na categoria STK 1000, o piloto de motovelocidade Guto Figueiredo está acostumado a superar a marca de 300km/h nas provas que disputa pelo país. Atuando como atleta desde 2014, o ribeirãopretano não esconde o fascínio pela modalidade. “Sei que parece assustador para quem está do lado de fora, mas é tudo devidamente controlado. Para que a corrida aconteça dessa forma, existe estratégia, planejamento, técnica e tecnologia. O atleta também precisa de preparo físico e psicológico, além de foco e de atenção máxima em cada uma das voltas, pois um erro pode por tudo a perder. A mistura de sensações na pista, entre o medo e a alegria, é inexplicável. Em cada etapa, procuro fazer o meu melhor, aprender com as milhas falhas e me divertir”, resume. Diferentemente da postura competitiva que adota nos circuitos, o piloto salienta que, quando conduz sua scooter pela cidade, só quer tranquilidade.

Segundo ele, o trânsito de Ribeirão Preto é perigoso para os motociclistas. “Sou a favor de mudanças estruturais para preservar a segurança dos condutores, como a criação de um corredor para motos, a exemplo do que tem sido feito em São Paulo. Perdi as contas de quantas vezes fui fechado. Vejo muita gente usando o celular, enquanto está no volante. Por isso, fico sempre concentrado na minha direção e alerta à conduta dos outros também. Sou supercalmo e, mesmo assim, já me estressei. Em certas ocasiões, é inevitável, mas não externo o meu descontentamento. Guardo para mim. Se estou errado, peço desculpas. Lamentavelmente, algumas pessoas não agem dessa forma. Acabam se excedendo, causando acidentes e criando situações desagradáveis”, opina Guto.
Rota alternativa
Estudos mostram que a forma mais simples de reduzir o estresse, de uma maneira geral, é por meio da atividade física. Fazer exercícios estimula a liberação da endorfina, que proporciona uma sensação de bem-estar e diminui o nível de ansiedade. “Porém, antes de tudo, vale a pena fazer uma autoanálise e identificar a origem desse estresse: trabalho, relacionamento, questões familiares ou outras razões. Assim, fica mais fácil encontrar a solução adequada. Se for por causa do trânsito mesmo, a dica é evitar congestionamentos, procurando rotas e horários alternativos. Recorrer a uma carona também pode ajudar”, acrescenta Raquel.
Melhorias em infraestrutura
Nos últimos três anos, a Transerp, por meio da equipe de educação para o trânsito e do Programa Siga Consciente, realizou em torno de 540 ações de conscientização sobre as boas práticas de direção em empresas e escolas, além das abordagens em ruas e avenidas do município, alcançando mais de 92 mil pessoas. Juntamente com as campanhas em datas especiais, como Maio Amarelo e Semana Nacional do Trânsito, esse trabalho gerou uma redução de 34% de mortes nas vias municipais, no acumulado entre janeiro e outubro de 2019 comparado com o mesmo período do ano anterior. “Precisamos disseminar a necessidade de cultivar a direção defensiva, bem como estimular as boas práticas ao conduzir os veículos, sejam automóveis, motocicletas ou bicicletas. Temos que dirigir pensando na segurança da coletividade, com responsabilidade, civilidade e cautela, buscando sempre a prevenção de acidentes”, declara Antonio Carlos de Oliveira Júnior, superintendente da Transerp.

A empresa ainda conduz estudos técnicos e implementa mudanças com o objetivo de melhorar a segurança e a fluidez de veículos em diversos pontos da cidade, deixando os deslocamentos mais rápidos e menos estressantes. Por meio do Programa Ribeirão Mobilidade, já foram entregues três pontes na avenida Dr. Francisco Junqueira, que proporcionaram uma distribuição mais equitativa para acessar ou sair da região Central. As obras do corredor de ônibus da avenida do Café, do viaduto na avenida Brasil sobre a avenida Mogiana e a readequação da praça Hélio Smidt, confluência de três grandes avenidas — Nove de Julho, Antonio Diederichsen e Portugal —, estão em andamento. Haverá, ainda, a construção de um viaduto ligando as avenidas Maria de Jesus Condeixa e Antonio Diederichsen, que formará um grande corredor de trânsito, desde a avenida Barão do Bananal até a Presidente Vargas. O superintendente adianta que, em breve, começam as obras do corredor de ônibus das avenidas Dom Pedro I e Saudade e da rua São Paulo, além de uma ponte sobre o córrego Ribeirão Preto, ligando a rua Pompeu de Camargo à avenida Fábio Barreto.
Texto: Paula Zuliani