Sintonia e cumplicidade

No instrumento e na vida, Meire Genaro e Gilda Montans constroem uma parceria vitoriosa

São inúmeros os fatores que podem unir o destino de duas pessoas. No caso de Gilda Montans e Meire Genaro não resta dúvida: o protagonista do encontro foi o acordeon, um instrumento que, dono de uma belíssima sonoridade, representou o glamour do final da década de 50, quando teve início o contato musical entre elas. Na época, a harmonia do som do instrumento era mesclada à beleza de moças em trajes de gala, o que tornou o acordeon muito atrativo para as mulheres. Foi nessa fase que Meire, aos 13 anos, começou a ter aulas com Gilda, na casa da professora, na época, localizada à rua Sete de Setembro.

Nascida em Altinópolis, Gilda começou a tocar acordeon no internato, no Colégio Santa Úrsula, em 1950, aos 11 anos. “O acordeon foi uma opção do meu pai, apaixonado pelo instrumento. Havia um acordeon em casa e nossa família era muito ligada à música: minha irmã e minha mãe tocavam piano, minha mãe tocava na época do cinema mudo em Altinópolis”, conta. Apesar da escolha do instrumento não ter sido exatamente de Gilda, não demorou muito para que se apaixonasse por sua sonoridade.

Em 1955 ela foi estudar em São Paulo. “Eu ia de avião, pegava um taxi em Congonhas, seguia para a Avenida Angélica, onde ficava o Conservatório Brasileiro de Harmônica, passava o dia e voltava de avião. Em 1958, formei-me professora e, em 1960, tornei-me virtuose de acordeon”, recorda.

A cada 15 dias, refazia o percurso.  No ano seguinte, já dava aulas no Conservatório Musical de Ribeirão Preto.

A musicista também é graduada em Instrumento, Educação, Artística e Educação Musical pela UNAERP, mestra em Pedagogia Musical pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, além de membro da Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto (ALARP) e de ter sido condecorada com a Medalha de Ouro no concurso do Conservatório Brasileiro de Harmônica. Atualmente, compõe arranjos, faz transcrições para o duo e estuda acordeon. Foi docente do curso de Musicoterapia, Graduação em Instrumento e Educação Artística na UNAERP, onde foi chefe de departamento e diretora do Centro de Comunicação e Artes. 

Assim como Gilda, o amor de Meire pela música foi incentivado pela família: sua madrinha tocava piano, o pai era técnico de rádio e passava horas ouvindo música clássica. “A música erudita foi um dos fatores que motivaram fortemente a minha vida. Quando meu pai percebeu que eu tinha jeito com o acordeon, procurou Gilda. Ele tinha gosto em me ver tocar, já conhecia a música de ouvido”, destaca Meire. A musicista formou-se professora em 1962 e, dois anos depois, tornou-se virtuose do instrumento pelo Conservatório Musical de Ribeirão Preto. Também é graduada em Instrumentos pela UNAERP, onde foi aluna de Gilda. Tempos depois, Gilda colaborou para que a aluna se tornasse professora no conservatório onde havia se dedicado quando era aluna. Hoje, é professora de acordeon e de Teoria Musical, realiza pesquisas e atividades de extensão em Ribeirão Preto e na região.

Ribeirãopretana, Meire é uma instrumentista de técnica apurada — um dom que Gilda logo percebeu que afloraria na aluna logo de início. “Ela era uma aluna. Tínhamos um grupo forte de sete instrumentistas, o Conjunto Alvorada de Harmônicas, que tocava na região de Ribeirão Preto. Eu fazia coisas ousadas, como transcrições de orquestra para acordeon. Parece que estive preparando a Meire para tocar comigo a vida inteira: era para ela que passava as partituras mais difíceis”, afirma a musicista. “Tudo que a Gilda trazia de conhecimentos adquiridos em simpósios, cursos de extensão e de congressos, passava para mim e eu era muito estudiosa”, acrescenta Meire.

No encontro, descobriram uma grande sintonia e harmonia, ingredientes indispensáveis para que a fluência da música. A amizade entre elas também aflorou desde a época em que eram professora e aluna. Os vínculos se fortaleceram e culminaram na formação do duo, em 26 de novembro de 1986. “Apresentávamos repertórios eruditos, até eu ser chamada para tocar para jovens. Percebi que estávamos fora do contexto cultural e começamos a incluir músicas populares, como choros e valsas. Anos depois, comecei a compor”, explica Gilda. Sua primeira composição foi o Hino de Altinópolis em 1996.

O treino e o estudo são sistemáticos para as musicistas, independente da agenda de shows. Segundo Gilda, há um respeito mútuo entre elas. “O elemento mais importante da nossa permanência é o profissionalismo, o que resultou, hoje, em duas artistas musicalmente muito mais maduras”, ressalta Gilda.

Do choro ao consolo
Segundo Gilda, o profissionalismo também contribuiu para o refinamento de suas próprias vidas. Trabalhar em equipe enaltece e enobrece, pois é um encontro que acontece tendo como finalidade a formação e a criação. “Quero pesquisar sempre, fazer coisas que ninguém fez — um som diferente, uma nova forma de executar o instrumento”, reforça Gilda. Para Meire, a parceria faz bem para a mente e para o espírito. “A gente se educa: o respeito, a perseverança e a humildade norteiam nossa relação”, ressalta. Da mesma forma que dividem os sons do choro no palco, partilham os momentos difíceis fora dele. “Essa parceria é para a vida porque nos reveses também estamos lado a lado”, afirma Meire, referindo-se ao apoio recebido da amiga na ocasião da perda da filha, uma história bem conhecida por Gilda. “Eu também perdi um filho, em 1988, e a Meire assistiu a esse choro com paciência, consolando-me. A música foi meu lenitivo. Na época, pensei, quero fazer música e cuidar das flores. Hoje, faço exatamente o que planejei”, assegura Gilda, contemplando seus belos canteiros. 

Transpondo fronteiras
Entre 1995 e 1996, quando o duo lançou o CD “Rosa”, um grupo italiano de acordeonistas esteve em Ribeirão Preto para participar de dois encontros internacionais de Acordeon. “Foi quando fomos convidadas para tocar no 21° Concurso Internacional de Filarmônica em Castelfidardo, na Itália, um dos mais importantes da Europa”, conta Gilda. O duo tocou no Concerto de Abertura do evento representando o Brasil. Também tocou em Castelnovo ne’ Monti, no Instituto Musicali “C. Merulo”. Ao comentar o CD “Rosa”, o acordeonista italiano Paolo Gandolfi  atestou-lhe um valor artístico de nível internacional. Através do músico, houve mais duas turnês do duo na Itália, em 1999 e 2002. E a relação com o país se estreitou: a música “Mistrri della Foresta-Impressioni Sonore per Fisarmonica e Pianoforte” (2010), de Gilda, foi editada na Itália. No Brasil, o duo participou de importantes projetos, como “O Brasil da Sanfona CD e DVD”; apresentou-se em várias cidades brasileiras através do Sesc e tocou no Festival Da Serra da Capivara, no Piauí, além de ter participado de encontros de acordeonistas em vários estados brasileiros. A música “As Meninas”, composta por Gilda Montans, faz parte do CD da Rádio USP de Ribeirão Preto. O duo também participa do álbum “Grandes Acordeonistas do Brasil — Os maiores nomes do acordeon reunidos para um grande tributo à música regional brasileira”. Nos 10 encontros de acordeonistas ocorridos na fazenda de Gilda,  estiveram presentes músicos como Dominguinhos, Mário Zan, Toninho Ferraguti e Adelar Bertucci.

Um duo que faz história 
O show “Gilda & Meire: 25 anos em duo”, realizado no Theatro Pedro II no dia 19 de outubro, celebrou o aniversário da parceria. O próximo CD, “Gilda Montans e Meire Genaro: 25 anos em Duo”, será concluído, provavelmente, no segundo semestre de 2012. Além de seis músicas autorais de Gilda, da homenagem feita por Dominguinhos em notas musicais ao duo com a composição “De leve” e das obras de Luiz Gonzaga, Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga, o novo álbum resgata a obra de músicos ribeirãopretanos como Manoel Silva, Edinho Penha, Altamir Penha e Walter Neto. Este será o terceiro CD do duo, que lançou “Rosa”, em 1996, e “Sanfonias”, em 2001.

Texto: Carla Mimessi
Foto de capa: Júlio Sian

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