Sob a ótica das religiões

Sob a ótica das religiões

Católicos, judeus, evangélicos e espíritas celebram a Páscoa de formas diferentes. Saiba as particularidades do significado dessa data para as doutrinas

Celebrar a vivência eterna de Cristo; lembrar sua trajetória de paixão e sofrimento até a cruz; recordar o sangue do cordeiro pintado nas portas das residências israelitas como livrador da morte e prognóstico do que Jesus faria no futuro. Esses são alguns significados da Páscoa segundo as religiões católicas, judaicas, evangélica e espírita. 

Historicamente ligada ao catolicismo e ao judaísmo, a data comemorativa existe antes mesmo do nascimento de Jesus Cristo, quando, na antiguidade, era celebrada em memória da libertação dos judeus da escravidão do Egito. Para os católicos, a data é considerada a mais importante do ano, pois significa a ressurreição de Jesus Cristo, símbolo da vitória. 

Segundo Paulo Henrique Mourão e Érika Silva Alves Mourão, católicos praticantes, a Páscoa é a certeza de que Jesus Cristo Ressuscitou. Para os católicos, Deus não permite que a morte vença e, sim, dá novamente a vida a Jesus a partir da ressurreição. "Ao refletirmos sobre vida e morte, chegamos à verdadeira importância desse ato, que nos faz ressurgir junto com Jesus, de quem recebemos uma vida nova", pontuam. 

A liturgia católica aponta que a Páscoa dura 90 dias. As celebrações começam na quarta-feira de cinzas, primeiro dia da Quaresma, e o tempo pascal perdura por mais de 50 dias. A semana da Páscoa é chamada de “Semana Santa”. Na quinta-feira, ocorre o ritual de “lava-pés”, ato de lavar e beijar os pés nas missas. A “Sexta-feira da Paixão” representa o dia em que Jesus foi crucificado e morto, e, por isso, é “guardado” pelos fiéis: não se divertem e não comem carne em respeito a Cristo. Já no sábado, as cerimônias religiosas, conhecidas como “Vigília Pascal”, são celebradas em respeito ao sacrifício de Jesus pelos homens. O domingo é caracterizado pelas festas, pois seria o dia em que Jesus ressuscitou.

Entre católicos, protestantes e ortodoxos, não há diferença na razão pela qual se celebra a Páscoa. Para todos, o momento é de lembrar a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Contudo, há diferenças no modo como a data é vivida. Os ortodoxos seguem o calendário juliano, e não o gregoriano, adotado nos países ocidentais. Com isso, a celebração da ressurreição de Cristo acontece sempre em datas diferentes, quando comparada a dos católicos. Já nas igrejas Luterana e Anglicana, o culto é mantido na Sexta-Feira Santa e no domingo da Ressurreição. Em todas essas igrejas, é comum haver apresentações teatrais relembrando as últimas horas de Cristo. 

Nascido em uma família espírita, Paulo Henrique começou a viver a Páscoa após a sua conversão ao catolicismo. Agora casado e próximo de se tornar pai de uma menina, o jovem empresário revela que a vivência em Cristo o faz renascer a cada dia. "Nossa família, a Érika, eu e a Liz, que deve nascer nos próximos dias, procura viver o que a Bíblia pede. Por isso, durante a Páscoa, seguimos o Tríduo Pascal: quinta, sexta e sábado", revela. O jovem costuma participar como um dos apóstolos na missa de Lava Pés e, ao lado da esposa, tem a Sexta-Santa como um dia de reflexão, jejum e oração. “Atualmente, a Páscoa se tornou um período de consumo intenso. Como pais, nos preocupamos em passar o verdadeiro sentido da Páscoa para nossos filhos e a partir do nosso testemunho em casa. Às vezes, o que falta no católico é viver verdadeiramente o que é ser católico e para isso basta seguir o evangelho”, esclarece Érika.

Apesar da essência da Páscoa ser Jesus Cristo, o feriado cristão está diretamente ligado às práticas do judaísmo. A libertação do povo da escravidão no Egito, que teve como protagonista Moisés, tornou-se o principal motivo de celebração dos judeus. Com isso, a Páscoa — ou Pessach, em hebraico — passa a ser lembrada como a passagem da escravidão para a liberdade. 

O judeu Rogério Garólfalo explica que o Pessach é como um memorial, que narra também a última praga — quando ocorreria a morte dos primogênitos, os judeus mataram um cordeiro, e o sangue desse cordeiro foi pintado nas portas das casas; esses lugares seriam poupados da praga. “É uma obrigação do judeu contar a história do seu povo para a sua família durante o Pessach. Por isso, as celebrações são feitas em casa com a família reunida", ensina.

Na noite da celebração da Páscoa, as casas devem estar limpas e arrumadas. Um conjunto específico de talheres é utilizado na celebração. Além disso, qualquer tipo de alimento fermentado tem o seu consumo proibido. “Os judeus expulsos não tiveram tempo de fermentar o pão e o levaram antes que pudessem ter preparado. Por isso, nós limpamos a casa antes do dia 14 de Nissan. Todos os alimentos que contêm fermentos são doados”, expõe Rogério. No dia anterior ao Pessach, a família deve jejuar em homenagem aos primogênitos que não foram atingidos pela última das maldições egípcias. Daí em diante, várias refeições e narrativas são intercaladas como a forma de reforçar o significado da Páscoa para os judeus. 

No decorrer de Pessach, cada um dos alimentos empregados relembra a experiência dos judeus no tempo em que viveram no Egito, as dez pragas impostas e os milagres divinos que os retiraram daquele lugar. "Isso tudo é trazido na celebração de Pessach. O que eu tenho em mãos chama-se Keará e, ao lado dele, na mesa, ficam outros utensílios que colocamos justamente para lembrar essa história", conta Rogério. O Betsá, ovo cozido, representa o sacrifício de Chaguigá, levado ao Templo Sagrado em Pessach; o Zerôa, osso queimado, simboliza o cordeiro pascal e remete ao fato de D'us haver tirado o povo do Egito com "seu braço estendido". O Maror, ervas amargas, remetem à amarga escravidão do povo judeu no Egito. A Carpás, batata cozida, é mergulhada na água salgada e recorda as lágrimas derramadas pelos antepassados; a Charosset, uma mistura de maçãs, peras e nozes raladas, lembram a textura e a cor da argamassa usada no Egito para fabricar tijolos; e o Chazeret, mais ervas amargas para serem ingeridas no "sanduíche".

Para os judeus, a intenção do mandamento escrito em Êxodo pede que todos os membros da família participem das narrativas e da liturgia, e que a festa seja uma ferramenta didática para ensinar as crianças. “Yeshua, quando celebrou o último jantar de Páscoa com os discípulos, seguiu a tradição judaica vigente em sua época e até os dias de hoje”, argumenta Rogério. 

Como todos os cristãos tradicionais, os evangélicos também creem na ressurreição do corpo. Para eles, a Páscoa evangélica é o renascimento espiritual, o símbolo pascal é a renovação para uma vida nova. Por isso, esse é um período de estudo sobre os últimos dias da vida de Jesus de Nazaré, o Messias. O domingo de Páscoa representa a grande festa da vida, os fiéis desta religião acreditam que essa é a melhor época para refletir o sentido da renovação da existência humana. 

O médico Heitor Ricardo Cosiski Marana comenta que a Páscoa é vivida com reverência e consternação em memória ao sacrifício de Jesus, mas, ao mesmo tempo, com alegria pela vitória na cruz e a Ressurreição. "Temos sempre uma reunião familiar de confraternização e também na Igreja, onde celebramos com louvores comemorando com alegria e ministração de uma palavra bíblica", explica o médico. Não há restrição quanto a alimentos, nem mesmo aos chocolates, mas fica claro que eles não são o motivo da festa. 

Heitor declara que na sua família essa e outras tradições são transmitidas oralmente de geração para geração e ensinados nas escolas Bíblicas dominicais, na própria igreja. "Em nossa casa, mantemos sempre um memorial contínuo, com uma pequena vasilha contendo azeite, outra com suco de uva, como se fosse vinho e ramos de trigo", continua. O azeite simboliza a unção do Espírito Santo deixado por Cristo até o dia do seu retorno, o suco de uva representa o sacrifício redentor e libertador de Jesus e o trigo significa o pão vivo que desceu do céu para salvar, como o cordeiro que salvou o povo de Israel no Egito na noite da passagem.

Já as testemunhas de Jeová celebram a última refeição de Jesus, chamada na religião de “Refeição noturna”. Os fiéis acreditam que a data deveria ser comemorada, de acordo com as escrituras, até que o verdadeiro cordeiro de Deus estivesse na terra. Como ele não está mais, a celebração não deveria acontecer. 

Seguidor da doutrina espírita, Paulo Albano comenta que a Páscoa, assim como o Natal e outras datas "comemorativas", constitui-se hoje em um dia essencialmente comercial. "Respeito as pessoas e as religiões que comemoram a Páscoa, cada uma a sua maneira. Todavia, na doutrina espírita, não há comemoração da Páscoa", declara Albano. 

Por sua vez, a doutrina espírita explica que pensar a Páscoa pela ressurreição de Jesus é uma prova concreta de que o espírito não morre, apenas o corpo. A Páscoa é um momento de reflexão para os seguidores desta doutrina, que devem enxergar em Jesus a primeira demonstração de imortalidade. 

Albano comenta que o principal acontecimento que justificou e deu origem a tal comemoração — a ressurreição de Jesus — é contestado pelo espiritismo, afirmando que a ressurreição física é cientificamente impossível. De acordo com a doutrina espírita, Jesus apareceu aos seus discípulos com o seu corpo espiritual. "Significado maior teve a sua missão, sua obra na breve passagem por este planeta", expõe. 

A doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, não possui nenhuma espécie de culto a simbologias ou ritos. O sentido da renovação da Páscoa para os cristãos espíritas se concretiza na renovação de si mesmo, na melhoria íntima e na evolução espiritual. "Nós, espíritas, comemoramos todos os dias a Páscoa, a vitória do renascimento, quando praticamos o amor ao próximo, o perdão e a caridade. Quando conseguimos evoluir e compreender que nossa escolha é a semeadura que resultará na colheita obrigatória do que plantamos, entenderemos que ninguém será responsável pelo nosso sofrimento nem sofrerá por eles no nosso lugar", conclui Albano. 

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