Sobre livros e leituras

Sobre livros e leituras

Com o tema “As histórias que os livros contam e as leituras que a gente faz, Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto chega à maioridade em 2018

No calendário ribeirãopretano, alguns eventos são especialmente esperados pela população, uma vez que já foram incorporados à tradição cultural da cidade. A Feira Nacional do Livro é um deles. Em 18 anos de história, o evento trouxe à cidade expoentes da literatura e de diversas artes dos mais variados cantos do Brasil. No ano em que atinge a maioridade, a Feira cresce em projetos e em números. O Combinando Palavras, que promove o encontro de estudantes da rede pública de ensino com escritores, atenderá, em 2018, alunos da rede municipal, estadual e do Educandário, o que significará o envolvimento de aproximadamente sete mil alunos, dois mil a mais do que os participantes no ano passado. 



A pesquisa “Perfil do Leitor de Ribeirão Preto, realizada pela Fundação do Livro e da Leitura de Ribeirão Preto e coordenada pela Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP), mostrou que o projeto vem respondendo com êxito as demandas do município no que se refere à formação de leitores. O trabalho, realizado por meio do Centro de Informação e Comunicação (CIC), resultou em um mapa com os principais índices de leitores ribeirãopretanos e onde eles estão na cidade. “Entre muitos índices importantes, a pesquisa mostrou onde estão os leitores e os não-leitores da cidade. Nossa proposta é atuar muito pontualmente em algumas localidades, mas especialmente junto às escolas, como já fazemos com o projeto Combinando Palavras”, comenta Adriana Silva, presidente da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto. 

Segundo a presidente, a programação da Feira foi pautada pela qualidade. “Nossa meta tem sido fortalecer a qualidade dos projetos literários que a Feira do Livro de Ribeirão Preto abriga. A ampliação do número de visitantes é uma consequência deste aprimoramento. Assim, toda a nossa atenção está focada na programação. Temos nos dedicado a criar estratégias de formação de público para a literatura. Fechamos parcerias com as universidades, com as escolas e, com bastante antecedência, articulamos cada atração literária com o perfil do seu público. Isso deu muito certo nos últimos anos. Nenhum espaço sem plateia. Essa é a meta. Aproveitar a Feira do Livro”, analisa Adriana. 

Idealizadora do projeto Combinando Palavras, a professora Heloísa Martins Alves é uma das homenageadas de 2018. “São 12 anos de muita luta e perseverança. Escrever um projeto não é uma tarefa nada fácil, mas o mais difícil é manter esse projeto para que alunos e professores participem, abraçando a causa com amor e comprometimento para formarmos uma nova geração de leitores e também de futuros escritores”, destaca a professora. “Fico muito feliz por ter tido a oportunidade de deixar um legado para Ribeirão Preto e região dentro da rede estadual e para a rede municipal, dando a oportunidade de o aluno ter o contato direto com o autor. Sou coordenadora do projeto desde o início e hoje tenho a honra de ser curadora do mesmo”, frisa a homenageada, que também é autora de cinco livros, entre eles, “Luzes de Neon” e “Artes Visuais e Documentação”.



A arte visual é outro aspecto do trabalho de Heloísa, que acredita que outras artes complementam a compreensão da magnitude de uma obra literária. Ao lado de Camilo Xavier, autor local homenageado, fez parte do núcleo fundador da Incubadora Cultural, projeto realizado em parceria com a USP que desenvolveu concursos literários entre os alunos e resultou na publicação de livros. 



Camilo Xavier foi professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) por 37 anos. Ao se aposentar na Medicina, deparou-se com a ideia de se tornar escritor. “Foi um salto bem grande, que encarei com disposição e vontade”, frisa o médico. “Passei a frequentar as academias e os centros literários locais. Fui admitido na Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto e, depois de algum tempo, também na Academia Ribeirãopretana de Letras. Nas duas, após a eleição, fui conduzido às respectivas presidências, onde exerci em cada uma delas mandatos por dois anos”, completa o escritor.

Para o professor, participar de projetos como a Incubadora Cultural significa a possibilidade de retribuir ao Ensino Público muito do que aprendeu em sua formação, do Ensino Fundamental à Universidade. “Criar redes de comunicação educacionais dirigidas a jovens estudantes é gratificante, por lidarmos com pessoas em formação. Configura-se como um compromisso inarredável. Coloca-nos à frente dos fatos, aproveitam-se as potencialidades, acrescentando benefícios incalculáveis aos participantes”, declara Camilo. Entre as obras do autor estão “Fugas Cronológicas”, “Trilhas e Travessias”, “Alcance”, “Volterra”, “Espiral”, “Alvoroço” e “88.com”.

Para Sérgio Roxo da Fonseca, patrono desta edição da Feira, a leitura é importante para formar cidadãos conscientes. “Ler transforma a palavra escrita no principal instrumento que temos para compreender o passado, permitindo realizar a previsão do futuro sem sair do presente”, aponta Sérgio. O procurador aposentado foi também professor por muitos anos, atividade pela qual é apaixonado ainda hoje. “A atividade do professor está firmada no diálogo entre ele e os alunos. Pelo diálogo, tanto um quanto os outros conseguem ver o passado com o olhar no presente para projetar o futuro. Com certeza, a sala de aula transforma-se no cenário próprio para bem entender a existência”, analisa Sérgio.



Entre os clássicos de sua história, o patrono destaca “Corpus Juris Civilis”, obra que reúne todo o Direito Romano clássico, reescrita pelo Império do Oriente. “Como obra literária, o livro que mais me impressionou e que li mais de uma vez foi ‘Dom Casmurro’, de Machado de Assis”, continua Sérgio Roxo. Para o procurador aposentado, tornar-se patrono da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto foi motivo de alegria. “Senti fortíssima emoção ao ser convidado, especialmente por não me considerar merecedor de tão grande lembrança”, expõe modestamente.

O Uruguai é o país homenageado pela feira. O escritor é Sérgio Buarque de Holanda e Antônio Cândido, o autor educação. Marina Colasanti completa a lista de homenageados, como autora infanto-juvenil.

Troca de ideias

Parceria entre o Sesc, a Fundação do Livro e Leitura e a Divisão Regional de Ensino, vinculada ao Governo do Estado de São Paulo, o Combinando Palavras chega ao segundo ano. O projeto passa a atender, também, estudantes da rede municipal de ensino e da Fundação Educandário. Na programação exclusiva para os estudantes estão Marina Colasanti, Pedro Bandeira, Alice Ruiz, Cristovão Tezza, Fernando Bonassi, Elisa Lucinda e Eliane Brum.



Para participar dos encontros, os alunos passam por um trabalho de formação de leitura, com atividades extras em sala de aula, no primeiro trimestre do ano. No dia do encontro, os estudantes apresentam seus trabalhos, prestam homenagens e realizam apresentações para o autor convidado. “Trabalhei mais com Alice Ruiz e foi uma experiência única. Pesquisar mais e produzir um material sobre a autora foi muito emocionante. Eu já li algumas entrevistas da escritora em que ela destaca a ambiguidade, comum ao ser humano. Na hora que li, fiquei arrepiado, pois foi muito extremo. Alice Ruiz faz com que voemos em seus textos”, relata Igor Aparecido Barbosa Teodoro, estudante de 18 anos da Escola Estadual Djanira Velho I.



Igor trabalhou com o texto “Ladainha”, de autoria de Alice. “É um texto que mostra que a mulher pode ser sozinha em tudo o que sonha”, completa o estudante. Para ele, o Combinando Palavras traz conhecimento. “Um exemplo é a obra da escritora Eliane Brum. Ela escreve sobre a vida que ninguém vê. Se não tivéssemos lido suas obras, não saberíamos.

Por exemplo, a escritora mostra em seus textos o quanto a saúde pública deixa a desejar no Brasil e, por causa disso, muitas pessoas acabam morrendo. Além de trazer esse conhecimento, o Combinando Palavras nos coloca frente a frente com os autores e nos permite escutá-los. Vemos pelas telas, depois estudamos sobre eles e ainda temos a oportunidade de conhecê-los”, conclui Igor.

A expectativa para os encontros deste ano entre os colegas é grande. “Colocamos muito empenho nesse projeto. Foram dias estudando, pesquisando, lendo entrevistas, crônicas e livros para descobrirmos qual texto nos tocaria mais para ser trabalhado. Por isso, fica uma enorme expectativa de entregarmos os textos produzidos graças a muitos estudos”, destaca Igor. 

Para Adriana Silva, com o Combinando Palavras, a Fundação passou da base da difusão para a formação de leitores, papel que pretende, agora, consolidar. Para Mauro Jensen, gerente do Sesc Ribeirão Preto, independentemente do número de leitores que o projeto possa produzir, interessa ao Sesc pensar na qualidade do que se lê.

As leituras que a gente faz

O tema “As histórias que os livros contam e as leituras que a gente faz” propõe que todo leitor tem direito a um clássico. Nos oito dias de Feira, Ignácio de Loyola Brandão, César Nunes, Marisa Lajolo, Renato Janine Ribeiro e Renan Inquérito participam do “Clássicos da minha história”. Esses convidados irão selecionar um autor de quem já gostaram muito para falar sobre as leituras de sua obra durante a vida.

O time de escritores tem a missão de escolher um ou mais clássicos literários de suas vidas para apresentar ao público. “Vinte mil léguas submarinas”, de Júlio Verne, e “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe, foram os eleitos Ignácio de Loyola Brandão. Já para o doutor em Filosofia e Educação, César Nunes, o clássico é “O banquete”, de Platão.



Para além dos convidados, os participantes do Combinando Palavras também elegem seus clássicos. Miriã Oliveira dos Anjos, que cursa o Ensino Médio na Escola Estadual Sebastião Fernandes Palma, o “Manual para românticas incorrigíveis”, de Gemma Townley, é uma obra pela qual ela tem carinho. “É um romance de uma jovem adulta que passa a morar sozinha, encontra obstáculos para se firmar no emprego e estabelecer uma vida independente, mas não deixa de viver suas paixões. Eu me identifiquei muito com a história porque, desde bem novinha, sempre admirei mulheres independentes que via ao meu redor. Ler uma história semelhante só me fez ficar mais fascinada pela leitura”, conta a jovem leitora.

Foto: Roberto Galhardo
Texto: Tainá Colafemina

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