Sociedade em transformação

Sociedade em transformação

O sociólogo Wlaumir Doniseti de Souza defende uma reavaliação de posturas para a construção de um mundo mais harmônico

Várias modificações vêm ocorrendo na sociedade brasileira no último século, alterando costumes, padrões e modelos familiares. A principal questão é: até que ponto a sociedade está pronta para incorporar as mudanças nos papéis sociais e nas instituições?

Filósofo, pedagogo, mestre em História e doutor em Sociologia, Wlaumir Doniseti de Souza analisa polêmicas acerca do tema. Autor de “Anarquismo, Estado e pastoral do imigrante”, (Editora da UNESP), Wlaumir pesquisou imigração, igreja, partidos e eleições. Hoje estuda as relações de gênero e é membro do Grupo de Trabalhos de Gênero da Associação Nacional dos Professores Universitários de História (ANPUH).


As separações estão aumentando. O que torna os relacionamentos menos duradouros e mais descartáveis?
Wlaumir - Até meados da década de 1960, o casamento era a união de famílias com interesses e valores próximos. A partir da década de 80, o poder familiar de constranger a um casamento interessante aos seus membros cedeu espaço ao desejo do sujeito, estimulado a escolha individual em quase todas as esferas da vida pessoal. O desejo e o direito de escolha do indivíduo passaram a ser valorizados. O casamento tradicional perdeu espaço, pois o desejo não é eterno e é inconstante como as pessoas. Diante de uma sociedade de consumo que estimula desejos artificiais, surgiu um estilo de vida em que se consome tudo e mitos produzidos. A emancipação feminina também teve papel fundamental: a mulher condenada a permanecer ao lado do marido para ser respeitada e admitida em sociedade agora pode se manter na vida social independente do marido.

Como conseguir harmonia no modelo familiar contemporâneo, com madrastas, padrastos e meio-irmãos?
Wlaumir - A família sagrada, harmoniosa e feliz é um mito. Hoje, seus membros frequentam lugares e grupos diferentes, o que implica na diversidade de valores no mesmo espaço. A saída está em aliar a diversidade a um diálogo crescente em favor do respeito das múltiplas gerações envolvidas. Sem isso, não haverá compreensão entre pais e filhos. O afeto é fundamental, mas como desenvolvê-lo se os membros da família estão preocupados com projetos individuais e com o labor diário?

Qual é a sua opinião sobre a lei que proíbe os pais de baterem nos filhos?
Wlaumir - A violência física historicamente é a linha divisória entre o civilizado e a “barbárie”. Como se pode educar para a liberdade, a tolerância, o afeto, a diversidade e a pluralidade se a forma de educação é a violência? O que nos falta são adultos maduros. Produzimos, hoje, indivíduos incapazes de suportar responsabilidades de modo consciente e reflexivo. A criança precisa de um adulto coerente com os valores que defende, com a capacidade de falar e de orientar com autoridade, sem privá-la da escolha. Assim, a lei vem no lugar da aprendizagem adulta. Ou seja, faz-se na lei o que deveria ser feito no processo educativo.

Dados divulgados pelo IBGE mostram o crescimento expectativa média de vida. Como se preparar para lidar com uma população mais idosa?
Wlaumir - Nos anos de vida em que nossos corpos contam com energia e disposição, não dispomos de tempo para lazer, devido ao trabalho e aos projetos de acúmulo material. Na velhice, a questão se altera: há tempo de sobra, mas nem sempre dispomos de
um corpo capaz de realizar projetos. Necessitamos de um plano social em que se viabilize, além da saúde física, o bem-estar mental, o lazer e a produção, em outra escala. Hoje, os mais pobres tendem a envelhecer em piores condições. Mais do que assegurar pensões, precisamos garantir  qualidade de vida.

O jovens parecem menos dispostos a cuidar dos idosos. Esta é uma geração mais egoísta?
Wlaumir - O idoso era valorizado por ser referência da memória viva da comunidade e como detentor de um saber passado oralmente. Hoje, a produção do saber foi transferida dos mais velhos para as instituições e corporações, o que retirou do idoso uma de suas funções: a manutenção da memória. A velocidade da produção do conhecimento descarta informações e as refuta rapidamente. O novo passou a ser valorizado da aparência da pele aos produtos de consumo e o idoso passou a ser visto como um ser incapaz de acompanhar as inovações, perdendo espaço social. A falta de cuidado familiar representa um problema de bem-estar social que poderá se ampliar na medida em que a longevidade se expande.
O excesso de consumismo e a individualidade são questões a
serem pensadas e sentidas em nova dinâmica.

Alguns afirmam que os “teens” são individualistas e que não estão acostumados a serem contrariados. O que acha dessas afirmações? 
Wlaumir - Crianças e adolescentes são produtos do mundo construído pelo adulto. O que assusta o adulto é ver no jovem o espelho de si mesmo, da sociedade que construiu, do mercado que deseja, do lucro a qualquer custo, sem pensar nos valores que defende. Esse modelo social só se concretiza diante da negação dos valores tradicionais, do papel do idoso e do professor. O adolescente precisa perceber que não está sendo contrariado, mas posto diante de possibilidades que implicam responsabilidades. Se o adulto não consegue argumentar com o adolescente de modo crítico e construtivo, não tem razões para aceitar algo que é imposto pela palmada ou pela autoridade. O individualismo “teen” é a demonstração do que se defende em larga escala ao lado de seu subproduto: um adulto consumista, imaturo, incapaz de pensar o significado da vida e as implicações dos valores que defende.

Fotos: Carolina Alves

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