Solidariedade como herança

Solidariedade como herança

Mara Pereira Alvim recebeu dos pais, Osvaldo e Maria, o dom da solidariedade

Dividir aquilo que se tem com quem mais precisa é uma realidade que a empresária Mara Pereira Alvim vivencia desde muito pequena. Natural de Mirassol, no interior paulista, recebeu dos pais, Osvaldo e Maria, o dom da solidariedade que, hoje, compartilha com a família. Desde as brincadeiras de criança, quando transformava lençóis em circo no quintal e já cobrava ingressos dos amigos, que vinham em forma de produtos para doações, Mara transforma a realidade de crianças carentes dando novas oportunidades a famílias atendidas pelas diversas instituições e órgãos que apoia. Entre eles, o Hospital do Câncer, o Conselho da Associação das Mulheres Amigas de Ribeirão Preto (AMARP), o Fundo Social de Solidariedade e a Liga das Senhoras Católicas, mantenedora da Creche Modelo, onde atua como presidente desde 2011.

Atuante e completamente envolvida com as causas sociais da cidade, desde os 19 anos, quando aqui chegou, Mara não se intimida diante dos desafios imppostos pela vida. Foi exatamente essa característica de sua personalidade que chamou a atenção de Raimar Oliveira. Na conversa, acompanhada pela jornalista Rose Rubini, Raimar pergunta um pouco mais sobre as características de Mara, assim como sobre os projetos e sobre um novo formato para o Terceiro Setor.

Raimar: O que a levou a se envolver com o Terceiro Setor?
Mara: Desde muito pequena, via meus pais envolvidos em ações solidárias, ajudando o próximo e sendo exemplo. Aprendi cedo que, se temos muito, podemos dividir com quem tem menos. Uma vez, meu pai soube que um circo que passava pela cidade pegou fogo, deixando a trupe inteira sem nada. Sensibilizado, ele foi ao banco, comprou uma lona nova e doou aos integrantes do circo para que eles pudessem continuar viajando. Minha mãe conta que eu brincava de circo no fundo do quintal com os amigos e já pedia produtos, como sabonetes e caixas de fósforos, como entrada. Depois, recolhia tudo e pedia para que ela desse a quem precisasse. Na escola, fazíamos peças em crochê, vendíamos e comprávamos mantimentos para os mais necessitados com o dinheiro arrecadado. Outras vezes, saíamos pela rua pedindo donativos de casa em casa. Isso sempre fez parte da minha vida. Não consigo ver uma situação difícil e dizer que não tenho nada a ver com aquilo e simplesmente virar as costas. Tem situações que não podemos resolver, mas talvez possamos direcionar para alguém que possa.

Raimar: Como ocorreu o envolvimento com as causas sociais em Ribeirão Preto?
Mara: Cheguei à cidade aos 19 anos e não demorou muito para me familiarizar com os projetos sociais. Comecei a participar dos chás beneficentes, realizados pela Liga das Senhoras Católicas, na época, comandada por Julieta Taranto. Pouco a pouco, fui conhecendo o trabalho desenvolvido por todas as instituições ribeirãopretanas, fazendo amizades e, quando eu vi, já estava chegando às pessoas que precisavam de mim, envolvida com muitas instituições. Daí veio o convite da prefeita Dárcy Vera para assumir o Fundo Social de Solidariedade, que foi uma experiência fantástica. Agradeço muito pela oportunidade que tive.

Raimar: Essa experiência, de fazer parte de um braço da administração pública municipal, foi positiva?
Mara: Aprendi muito dentro do poder público. No Fundo Social, pude vivenciar o outro lado. Foi um trabalho rico de experiências fantásticas. Conheci pessoas e instituições maravilhosas que não sabia que existiam em Ribeirão Preto, uma outra realidade. De um modo geral, tudo isso foi muito bom, mas entrei para ficar quatro anos. Cumpri o meu papel.

Raimar: Qual a importância do Terceiro Setor na criação de um país mais justo, solidário e com oportunidades?
Mara: As instituições não devem trabalhar só o assistencialismo, mas empenharem-se em oferecer oportunidades, por meio de projetos. Lógico que, num primeiro momento, a condição assistencial para uma pessoa que não tem condição de se manter, como um idoso, uma criança, um deficiente, é prioritária. Esses indivíduos recebem toda a ajuda que precisam. Mas dentro da instituição, é preciso entender que isso não basta. É importante realizar projetos, capacitar essas pessoas assistidas. Eu, que trabalho com crianças, mantenho nelas o meu foco integralmente e busco conhecer a realidade das famílias. Procuro saber, também, o que acontece em volta da instituição, onde e como essas crianças sobrevivem. Trago os pais para a creche e desenvolvo projetos para promover maior interação, gerando oportunidade de crescimento.

Raimar: Que tipo de projetos podem ser feitos?
Mara: Há inúmeras possibilidades. Estou terminando, por exemplo, um projeto de panificação, com os pais das crianças da Creche Modelo. Assim, com que aprenderam, poderão ter uma renda extra, trabalhando em casa ou fora. Neste contexto, todas as instituições podem trabalhar com projetos para capacitar as pessoas, para que tenham renda e oportunidades. O projeto mencionado, conheci enquanto estive no Fundo Social e, depois, desenvolvi na Creche. Muitas mães que aprendem a preparar, pães, bolos, roscas, entre outros produtos. Essas mulheres passam a fazer as receitas em casa e acabam ajudando o marido, quando não sustentam a família inteira sozinhas.

Raimar: E quando as pessoas não têm essa oportunidade?
Mara: Não é simples comandar uma instituição atualmente. Para receber os recursos necessários e fazer cada vez mais, é preciso atender a uma série de especificações e exigências dos órgãos públicos. Para receber verba parlamentar, repasse da Nota Fiscal Paulista ou dos governos, a entidade deve, ainda, apresentar um projeto, seja na área da assistência, da educação ou da saúde. Mas não é fácil conseguir recursos para manter os projetos ativos, pois a liberação dos recursos públicos é morosa e burocrática. Temos que batalhar, ver onde está a verba e correr atrás. Gostaríamos muito que o governo ajudasse mais.

Raimar: O interesse dos empresários em colaborar com as instituições também poderia ser maior?
Mara: Não posso reclamar dos empresários, só tenho que agradecê-los, pois todos os projetos feitos até hoje, em todas as entidades, sempre foram muito bem recebidos. Acho que, no Terceiro Setor, as instituições têm que procurar mais o empresariado e apresentar seus trabalhos. Ainda há muitos querendo ajudar, mas não sabem como. Por outro lado, a entidade precisa garantir transparência na aplicação desses recursos e doações. Tal postura traz credibilidade e abre portas para outros projetos. O número de instituições em Ribeirão Preto é grande e a necessidade, muito maior. Por isso, às vezes, é importante ir até o empresário e se apresentar, mostrar o trabalho e as necessidades.

Raimar: Falta sensibilidade ou informação por parte dos empresários para doar o que já é permitido em lei, como parte do Imposto de Renda?
Mara: Não é que ele não tenha sensibilidade. Às vezes, falta na empresa alguém que cuide só da responsabilidade social, que possa informar-se melhor sobre como fazer. Falta um profissional que receba a instituição para avaliar o que pode ser feito. Hoje, praticamente aquilo que é doado pode ser abatido do Imposto de Renda. Outro exemplo são os recursos da Nota Fiscal Paulista, que precisam ser melhor aproveitados.

Raimar: O que fazer para mudar ou melhorar esse cenário?
Mara: Como nem todas as entidades tem estrutura para capturar recursos, como os provenientes da Nota Fiscal Paulista, criamos o grupo denominado GS3, com cerca de 33 instituições cadastradas. Nosso objetivo é substituir este volume de urnas espalhadas pelo comércio da cidade, e, por meio de um setor estruturado, com equipe, sala e computadores, centralizar a captação e a digitação dos cupons fiscais. As urnas serão padronizadas e já firmamos parceria com os três shoppings da cidade. No momento em que estas urnas entrarem nos grandes centros de compras, outra instituição não poderá mais aderir ao grupo.

Raimar: Acredita que o poder público trabalha em conjunto com as ONGs?
Mara: Acho que, na medida do possível, faz a parte dele, mas tem muita burocracia para conseguir verba pública. A instituição precisa ter a documentação necessária e nem todas possuem essa condição. As creches, por exemplo, têm convênio com a Prefeitura e recursos para o pagamento de algumas despesas, como professores e monitores, mas acredito que poderiam ajudar mais nos projetos, diminuir a burocracia, além de manter o compromisso de manter os recursos em dia.

Raimar: Um setor ou equipe para orientação técnica seria uma alternativa?
Mara: As entidades precisam se profissionalizar. Uma alternativa pode ser a criação de um setor ou de uma equipe dentro da Secretaria de Assistência Social, com pessoal capacitado para orientar as entidades em relação à documentação para a regularização e também para a elaboração de projetos. Os procedimentos precisam ser mais ágeis, pois, em muitos casos, as exigências são tantas que emperram o processo.  

Raimar: Você acredita em parcerias entre segmentos públicos privados?
Mara: Sim. A Creche Modelo, por exemplo, já faz isso, por meio de convênio com a Prefeitura. Quero continuar acreditando que esta fórmula dá certo, porque realmente não conseguiríamos sobreviver sem uma verba pública. Não temos condições de levantar recursos suficientes, dentro do Município, para atender à demanda e às necessidades de todas as instituições atualmente.

Raimar: As leis de incentivo fiscal poderiam ser melhoradas?
Mara: Sim, mas tudo é sempre muito burocrático. O processo é extremamente engessado, a começar pelas leis, que acabam, muitas vezes, dando margem a resultados negativos. Existe muito investidor de fora, mas não há capacitação necessária para parte das instituições para poderem receber esse recurso, bem como, para o desenvolvimento de projetos sociais.

Raimar: A responsabilidade ambiental também é importante?
Mara: Sem dúvida. Nas empresas, o objetivo a ser seguido hoje é a responsabilidade socioambiental, até por questões de mercado. O consumidor quer saber que tipo de envolvimento a empresa tem com questões sociais e também ambientais. Se a empresa atua no município, precisa estar inserida na comunidade, inteirando-se do que está acontecendo e participando da melhor forma possível.

Raimar: Quando o assunto é o voluntariado, acha que o ribeirãopretano é participativo?
Mara: Sem dúvida, eles são maravilhosos, trabalham e participam. Mas é preciso profissionalizar as entidades e organizá-las como uma verdadeira empresa. Acredito que os voluntários vão sumir gradativamente. Isto porque os serviços são perenes e a instituição precisa de uma equipe comprometida e contínua. Quem depende do atendimento conta com o trabalho daquela pessoa, que não pode faltar ou deixar o posto de uma hora para outra. Devemos ampliar as contratações, treinar esse pessoal, para oferecer atendimento cada vez mais adequado e de qualidade.

Raimar: Você acompanha o trabalho de outras entidades dedicadas às crianças e aos adolescentes?
Mara: Conheço muitas instituições, em especial, os Obreiros do Bem, que atendem a crianças de 7 a 14 anos, no contraturno da escola. Lá, as crianças tem reforço escolar, aulas de computação, música e acesso a projetos como o “Tecer Crescendo”, onde as crianças aprendem a trabalhar com tear e fazem tapetes, jogos americanos, entre outras peças. Uma vez por ano, realizam um grande bazar. Além disso, a Entidade tem uma cozinha industrial, construída em parceria com empresários da cidade, onde os jovens e seus pais têm a oportunidade de aprender uma profissão.  

Raimar: Com tantas atividades, sobra tempo para o lazer em família?
Mara: Claro, é importante se cuidar e dividir bem as horas do dia para dar atenção ao trabalho, ao lazer, mas especialmente à família. Quando fazemos eventos, por exemplo, a rotina vira uma correria, mas geralmente dá para conciliar todas as atividades. Nos fins de semana, procuro ficar sempre em família.

Raimar: Assim como você seguiu os passos dos seus pais, suas filhas seguem os seus?
Mara: Sim, as duas trabalham na empresa e, apesar de cuidar do que diz respeito à responsabilidade social, elas me ajudam muito também. Nos eventos realizados entre os amigos delas, sempre existe a preocupação em contribuir com alguma instituição.

Exemplo a ser seguido
“Quando tive a satisfação de ser convidado para ser repórter para a Revide, logo me veio à mente a situação do Terceiro Setor em nossa cidade. Foi esse interesse que me levou, naturalmente, a lembrar da empresária Mara Pereira Alvim. Apesar de pouco conhecê-la, eu a vejo como uma pessoa que transita por este universo com prazer e intensidade. Geralmente, quando a encontro e me pego admirando seu jeito simples, humilde e sincero de ser, a vejo envolvida em ações beneficentes. Seja por meio do trabalho de ONGs, instituições, creches, empresas ou poder público, ela está envolvida, direta ou indiretamente, cobrando, trabalhando, participando, inclusive, da capitação de recursos. Tenho a Mara como um exemplo a ser seguido pelos empresários e pelas empresas de Ribeirão Preto e região, como instrumento de ajuda e solidariedade.”
Raimar Oliveira, empresário

Texto: Rose Rubini | Fotos: Júlio Sian

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