Solidariedade para superar a dor
A união da sociedade em favor de mulheres que enfrentam o câncer é essencial em um momento de autoestima abalada e não aceitação do próprio corpo
Receber o diagnóstico de um câncer de mama e lidar com as consequências geradas pela doença é um desafio. Geralmente, quem enfrenta o problema tem a autoestima fragilizada após perder os cabelos ou os seios, o que provoca grande impacto psicológico e emocional. A qualidade de vida, tanto das pacientes quanto da família, é afetada e, para isso, todo apoio é bem-vindo para enfrentar um momento delicado. Para driblar as dificuldades características dessa etapa, a sociedade se une para oferecer serviços gratuitos, principalmente às populações carentes. Hospitais e ONGs, por exemplo, auxiliam as mulheres, seus familiares e cuidadores. As ações distribuem desde próteses mamárias e perucas até alimentos e assistência social e psicológica.
No Brasil, assim como em Ribeirão Preto, há inúmeros trabalhos voltados para essa área. A Associação Brasileira de Combate ao Câncer Infantil e Adulto (Abraccia) recebe pacientes de todo o país em tratamento na cidade. A entidade, que completa 21 anos neste mês, foi fundada por um grupo de pessoas que enfrentaram o câncer e perceberam que ajudar o próximo seria um caminho para a cura. Hoje, a Abraccia é totalmente mantida por doações e trabalha, primordialmente, com a difusão de informações para prevenir o câncer. Além disso, oferece à população carente em tratamento medicamentos, cestas básicas, transporte, alimentação especial, entre outros recursos. A Associação ainda disponibiliza hospedagem para até 20 pacientes e acompanhantes. Tanto para pessoas de Ribeirão Preto e região, quanto para quem vêm de outras regiões à procura de tratamento.
Depois de quase 21 anos como presidente da instituição, Inês Sonia Garcia Bestetti, 75 anos, hoje é tesoureira da Abraccia. Durante todo esse período, dividiu seu tempo entre o trabalho voluntário, a casa e a própria saúde. Foi a partir da descoberta de um câncer de mama que Inês passou a atuar diretamente pela conscientização das mulheres sobre a importância do diagnóstico precoce na direção da cura da doença. “Inicialmente foi chocante lidar com essas pessoas. Depois percebi que dava para lutar e vencer, como eu e tantas outras mulheres fizemos”, ressalta. Inês realizou a retirada total da mama e está curada. A experiência — vivida ou observada pelo lado de fora — dá a ela a segurança necessária para aconselhar as mulheres sobre a própria saúde. “Estejam atentas à mama constantemente e procurem atendimento ao menor sinal de problema”, afirma.

Confiança abalada
É grande o impacto que a doença costuma causar na autoestima. Isso porque muitos tratamentos levam à perda total ou parcial das mamas, o que exige da paciente um intenso processo de aceitação do próprio corpo. Justamente para dar sua contribuição nesse sentido o Lions Club, ONG de origem americana que objetiva prestar serviços à comunidade, mantém um projeto de distribuição gratuita de próteses mamárias externas de polietileno.
No dia 6 de outubro, o clube cadastrou diversas mulheres sem condições financeiras interessadas em receber as próteses, feitas sob medida. Em caso de cirurgia recente, as pacientes receberam um travesseiro para ser colocado debaixo do braço e amenizar dores e cansaço. As próteses vieram da Associação Sempre Viva, de Catanduva (SP). “A autoestima é muito importante. Nesse momento, essas mulheres estão tão fragilizadas e sensibilizadas que todo apoio psicológico é bem-vindo. Quando realizamos o nosso trabalho, prestando essa ajuda, também somos beneficiadas porque pensar no próximo faz bem”, destacou Luceli Pupin, presidente do Lions Clube Jardim Paulista.

Há nove anos, Dulcenéia Gomes, de 60 anos, descobriu que tinha o câncer de mama. Antes do diagnóstico, passou por diversas consultas. Os médicos garantiram, em mais de uma situação que o caroço que ela sentia ao toque dos dedos era uma queloide, e não sinalizava um tumor. Foram anos de luta até vencer a doença e, no ano passado, deixou de tomar os remédios do tratamento. Há um ano, teve o auxílio saúde cortado e até hoje não conseguiu se aposentar. De lá para cá, está em busca de uma fonte de renda, porque vive sozinha e conta, principalmente, com a ajuda dos filhos. Não conteve as lágrimas ao explicar como, durante todo esse tempo, conseguiu lidar, concomitantemente, com o câncer de mama e com a depressão, mal que passou a fazer parte do seu dia a dia depois de perder um filho assassinado em Ribeirão Preto. “Atualmente, o que mais me deprime é querer trabalhar, mas não conseguir”, acrescentou Dulcenéia.
Ao falar da autoestima, ensaiou um sorriso. Dulcenéia foi uma das beneficiadas pela prótese mamária do Lions. Quando descobriu que as próteses externas estavam sendo distribuídas gratuitamente, cadastrou-se e, em 15 dias, recebeu o que tanto desejava. “Antes eu improvisava com fraldas ou meias, mas sempre caía. Depois que recebi a prótese ficou bem melhor. Chegou em boa hora, nem acredito que vou passar o Natal com seios. Com a prótese, pelo menos parece que é a mama verdadeira, o que traz grande alívio. Só Deus para iluminar essas pessoas”, agradece.
Gratidão compartilhada
Uma iniciativa que nasceu há mais de quatro anos e tenta amenizar os danos causados pela quimioterapia e pela radioterapia, o grupo “Lencinho com Carinho” foi criado por Adriana Turrini, em agradecimento à cura de uma pessoa querida. O que seria uma ação local se transformou em trabalho expandido pelo país e pelo exterior. Os lencinhos já chegaram até Sevilha, na Espanha, e Cidade do Cabo, na África do Sul. Inicialmente, Adriana confeccionava os lenços sozinha, porém não dava conta de tantos pedidos. Assim criou o dia das “Meninas Bordadeiras”.
Atualmente, 25 pessoas se alternam às segundas-feiras e pelo menos seis trabalham externamente. “Decidimos produzir os lencinhos para atender a quem enfrenta a dor e a incerteza, muitas vezes, somadas à solidão, de uma forma que pudesse se olhar e sentir a autoestima aumentar”, destacou.
O projeto, que já doou mais de 19 mil peças, entre lenços e toucas, está sediado em uma sala cedida pela Associação Espírita Mariano do Nascimento. “Muitas são as histórias que nos emocionam, mas uma em especial mexeu com todas nós”, continua a idealizadora. Certo tempo depois de ter recebido nossa peça, uma senhora enviou uma foto dela no altar usando o lencinho feito pelas meninas. A ocasião era o casamento do filho, quando a mãe do noivo sentiu-se uma rainha. “Temos certeza de que cada pontinho que damos para fazer um lenço vai acompanhado de um sentimento do bem, uma emoção positiva, uma oração e o desejo de que quem o receba saiba que não está só”, conclui Adriana.
Movido por voluntários
Imagine um lugar que presta serviços de excelência gratuitamente à população carente. O Hospital de Câncer de Ribeirão Preto, mantido pela Fundação Sobeccan, é uma instituição oncológica, especializada no diagnóstico e no tratamento de câncer de mama e de colo de útero. Atende a 27 cidades da Região Metropolitana de Ribeirão Preto com serviços voltados, também, para áreas de pesquisa, prevenção e assistência do câncer. A fundação de direito privado, sem fins lucrativos, conta com o apoio de voluntários e da comunidade, por meio de doações que mantêm os serviços ativos. Hoje, são prestados cerca de 800 atendimentos mensais.
“Ainda não somos reconhecidos como hospital oncológico porque precisamos de outras atividades, como atendimento infantil. Para fazermos isso, no entanto, precisamos de verba”, elucida Rose Marques, presidente do Hospital. A comunidade pode contribuir doando fraldas geriátricas, lenços, turbantes, cestas básicas, perucas, entre outros itens. Selma Ceda Carvalho, de 79 anos, é uma das voluntárias que se dedicam intensamente ao trabalho de apoio às pacientes. Integrante da instituição desde a criação, conta que cada tijolo do hospital tem uma história. “É um prazer muito grande ajudar, ouvir, acolher e amenizar a dor do outro. Você dá e recebe muito mais”, garante a voluntária.

O Hospital já possui um projeto de expansão. Segundo Rose, alguns arquitetos e engenheiros parceiros trabalham para transformar este sonho em realidade. A ideia é criar três andares, onde 1.000 pessoas poderão ser atendidas diariamente. “Uma das nossas prioridades é o atendimento humanizado. As pessoas já entram aqui totalmente debilitadas e, se não forem devidamente acolhidas, não serão atendidas como merecem”, ressaltou a presidente.
Devolvendo sorrisos
Manter o sorriso bonito durante ou depois de um tratamento oncológico contribui para a manutenção da autoestima. Esta é a área de atuação do cirurgião dentista Juliano Abreu Pacheco, cujo trabalho ajuda a minimizar os efeitos citotóxicos da quimioterapia, da radioterapia e de bloqueadores de hormônios. O especialista atua de maneira complementar no estado geral das pacientes dentro da equipe multidisciplinar do Hospital de Câncer de Ribeirão Preto. Há cerca de dois anos implementou, voluntariamente, um sistema de protocolos que vem obtendo repercussões sistêmicas positivas junto às pacientes.
Juliano coordena o recém-criado Departamento de Ensino e Pesquisa (DEP) e, embora este seja um campo ainda em construção, já publicou, em 2018, cinco artigos internacionais em jornais da Europa, dos Estados Unidos e do Oriente Médio. Esse reconhecimento é importante para atrair investidores estrangeiros. “Sinto-me honrado por fazer parte desta história e pela oportunidade que recebi da diretoria do Hospital, pois o aprendizado que acumulo, diariamente, mostra a importância de lutar dia a dia pelo bem mais precioso, que é a vontade de viver e de praticar o bem. Esta energia espontânea faz com que meu amor pela Sobeccan cresça todos os dias”, garante o cirurgião dentista.
Texto: Bruna Romão | Fotos: Ibraim Leão