Som das ruas
Incomodado com a violência urbana, o compositor sempre esteve envolvido em projetos culturais
Pelas ruas da periferia de Ribeirão Preto é que nascem as rimas de Elieser Pereira, artisticamente conhecido como Leser MC. “Esse apelido rola na minha família desde que eu era pivete”, explica o músico, produtor cultural e técnico de áudio.
Incomodado com a violência urbana, o compositor sempre esteve envolvido em projetos culturais e, desde 2009, passou a escrever as suas próprias canções. Leser conta que o meio em que vive e cresceu influencia muito na sua maneira de criar e interpretar cada canção. “Era uma época muito violenta [2009], estava rolando uma guerra entre bairros e cheguei a ficar várias vezes em meio a tiroteios e armas apontadas pra mim”, recorda o MC.
Durante uma viagem a Salvador, Leser sentiu saudades de sua esposa e, em uma conversa ao telefone, soube que um garoto que morava na mesma rua da casa dele havia sido assassinado. “Tudo isso muda uma composição”, diz.
“Bem que eu queria só falar de amor , mas não dá
Pois acontecem várias ‘fitas’ que me fazem ‘chapar’.
Bem que eu queria só cantar o azul deste céu
Mas o dia ficou cinza e rasguei meu papel” [...]
Foi a maneira que Leser encontrou para expressar, musicalmente, o sentimento que ficou após a triste notícia recebida. “Nossa música tem esse apelo, mas procuro destacar que existem motivos pra sorrir e se orgulhar de morar na periferia, e que esses motivos são bem maiores do que as dificuldades”, enfatiza.
Cultura Marginal
A já conhecida cultura Hip Hop, concebida nas comunidades jamaicanas, latinas e afro-americanas da cidade de Nova Iorque durante a década de 1970, ganhou o mundo e a aceitação do público e hoje, no Brasil, vem se firmando como uma cultura consistente, de forte apelo social. Contudo, Leser afirma que o Hip Hop é um movimento que está à margem da cultura. “É marginal e sempre será. Sempre haverá um grafite ilegal, um ‘tag’ ilegal, sempre haverá um Mc protestando”, completa.
Leser chama a atenção para a grande mudança que vem acontecendo, moldando e aperfeiçoando o perfil do hip hop. O músico ressalta o conhecimento das pessoas envolvidas no movimento. “Posso dizer que são militantes bem preparados musical e tecnicamente. Com estudo e propriedade pra falar de cultura em qualquer aspecto e isso eleva a nossa manifestação ao patamar de outros seguimentos culturais e tem ganhado o merecido reconhecimento”, comemora.
Trabalhos
Leser MC gravou e lançou de forma independente, em novembro de 2009, “Meu Esporte”, álbum recheado de RAP, rimas e poesias que tratam dos fatos cotidianos. Em 2012 lançou um EP, com distribuição limitada, sob o título de “Convicções”. O músico lançou ainda, em 2012, dois vídeo clips que complementam o EP lançado.
Confira aqui: Convicções e Valor.
Atualmente Leser MC está envolvido no Projeto Hu Braza, projeto musical, com banda composta por Adauto Jr. (guitarra), João Nacaratto (contra-baixo), Alex Coelho (bateria). Leser ficará por conta do violão e dos vocais. A banda contará ainda com a participação de um DJ convidado.
“Neste projeto apresentaremos minhas músicas de rap, com muita influência de samba, MPB, baião, reggae, ragga e funk. O nome Hu Braza vem desta mistura de povos, estilos musicais e gírias, uma miscigenação musical”, explica.
Como incentivador cultural e do cenário Hip Hop ribeirãopretano, atualmente o MC também vem trabalhando no Pontão de Cultura Sibipiruna, uma ação da Associação Amigos do Memorial da Classe Operária-UGT (AAMCO-UGT) e coordena o projeto “Mais Cultura” no Centro Cultural Quintino 2 (pelo Programa de Incentivo a Cultura da Secretaria Municipal da Cultura). “Traremos cursos e oficinas com produtores musicais, DJs e alguns Mcs escritores. Essas oficinas acontecerão no Pontão de Cultura Sibipiruna e no Centro Cultural Quintino 2 a partir de 20 de janeiro de 2013”, ressalta o produtor.
Outras Atividades
Nos dois últimos anos Leser realiza o projeto Fábrica de Conhecimento, na Feira do Livro, com oficinas de música, dança, ilustração, arte circense e salão de ideias, que contou com a participação de MV Bill, e apresentações de música local independente. “Houve uma integração entre os adolescente e as oficinas e atividades com turmas esgotadas”, comemora.
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Texto: Bruno Silva
Fotos: Daniel Massa e Daniel Perini