Sonhar é preciso

Sonhar é preciso

O Dia das Crianças é uma bela oportunidade para lembrar como é importante manter os sonhos vívidos e não ter tanto medo de errar

Texto: Luiza Meirelles | Ilustrações e diagramação: Lucas Chaibub
Fotos de capa: Julio Sian / Produção: Marcela Versiani e Mel Cândido
Modelo: Gigi Portugal | Look e roupas: Outlet Kids | Baú: Oficina da Casa
A pequena Bia quer ser cantora e gravar um DVDQuando criança, difícil encontrar quem nunca tenha sido convidado a refletir sobre suas futuras escolhas. Nas aulas de português, por exemplo, sempre chega a hora do fatídico tema da redação: o que você quer ser quando crescer? Nas respostas, sonhos de quem ainda tem a vida toda pela frente e uma liberdade plena para fantasiar. Na fase adulta, é o desejo de voltar no tempo e viver a infância novamente que se torna comum. O escritor Fernando Sabino, que coincidentemente nasceu em um 12 de outubro, Dia das Crianças, sintetizou e imortalizou essa vontade: “Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: o que você quer ser quando crescer? Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino”, afirmou ele, que faleceu em 11 de outubro de 2004, véspera de seu 81º aniversário.

De fato, a infância tem tudo para deixar saudade. Independente das condições sociais, fato é que as crianças vivem intensamente sua curiosidade, espontaneidade e criatividade, sem medo de errar. Isto porque, até 10 ou 12 anos, estão aprendendo a simbolizar e dependem de uma boa dose de fantasia para isso. “As experiências desta fase alicerçam o desenvolvimento intelectual e emocional da criança, seu sentido de identidade e a estruturação de sua personalidade”, explica Guiomar Papa de Morais, psicóloga clínica e psicanalista há mais de 25 anos. Sonhar é fundamental nesse processo. “A linguagem da criança é o símbolo, que ela expressa através de formas concretas, como nas pinturas, na escrita e nos desenhos, e abstratas, como nos movimentos, nas expressões e nas brincadeiras em geral”, exemplifica Yonara Feitosa Caetano de Oliveira, psicopedagoga clínica e institucional. Garantir espaço para essas atividades, segundo a especialista, é uma forma de contribuir para que os pequenos possam construir a si mesmos.

Este ambiente está garantido para Beatriz Silva França, de nove anos, que frequenta o Lar Espírita Casa Caridade Padre Cícero, no Jardim Anhanguera. A pequena, que chegou da Bahia com a família no ano passado, passa todas as manhãs na instituição, onde faz aulas de pintura, mosaico, recreação infantil, informática e muito mais. Superativa, Bia tem suas atividades preferidas: na entidade e na escola, adora cantar e dançar. Por isso, parece estar decidida: quando crescer, quer ser cantora. “Quero aparecer no DVD e cantar com a Ivette Sangalo”, planeja a garota que, neste momento, confessa sua predileção pela cantora carioca Anitta. Para chegar lá, quer fazer aulas de balé e de canto. Apesar da veia artística, na escola, a disciplina favorita é a matemática.

Essa mistura de gostos é normal, assim como a confusão entre sonho e realidade. “O trânsito entre fantasia e realidade é mais livre na infância. O sonhar acaba por ser o substrato para o desenvolvimento da capacidade de pensar”, afirma Guiomar. Nesse contexto, as brincadeiras são fundamentais. “É brincando que a criança passa a conhecer a si mesma e ao mundo. As brincadeiras ajudam na assimilação, inclusive, das regras de convivência e de comportamento. Com diversas atividades, os pequenos também desenvolvem sua inteligência e sua sensibilidade”, garante a pedagoga Andrelaine Milan Gomes, que possui pós-graduação em Educação Artística, Arte Terapia e Psicopedagogia.
Nas aulas de marcenaria, Murilo passou a levar a brincadeira mais a sérioPara Murilo Gabriel Teodoro Almeida, a brincadeira ficou mais séria este ano e virou oficina. Em maio, o estudante do 7º ano do Ensino Fundamental, de 12 anos, passou a fazer aulas de marcenaria na Organização Comunitária Santo Antônio Maria de Claret (OCSA-MC), localizada na zona Norte de Ribeirão Preto. “Um amigo meu me contou que as inscrições estavam abertas e eu resolvi participar”, contou Murilo, que está superfeliz com a produção de sua primeira peça: um lindo banco. “Quero seguir na escola até o final do curso”, afirma, planejando os próximos quatro anos. Além da marcenaria, a engenharia está nos planos do garoto, que gostou de aprender a construir.

Segundo a mãe Cristiane, até o desempenho de Murilo na escola melhorou com esta experiência. “Acho que estou mais responsável”, acrescenta o estudante. Segundo ele, o apoio dos pais é um estímulo a mais para seguir na oficina. “Além de aprender a construir, acho as atividades bem divertidas”, finaliza o aluno, que tem entre seus passatempos preferidos o futebol.

Paixão pelos bichos
Crislaine Alves dos Santos, de 10 anos, nunca teve dúvidas sobre a profissão a seguir. Desde bem pequena, nutre um carinho especial pelos animais. Hoje, ajuda a mãe a cuidar dos dois cachorros da família. “Dou ração e levo para vacinar”, conta a estudante do 4º ano do Ensino Fundamental que também frequenta, no contraturno escolar, as atividades do Sonho Real. Na entidade, adora as aulas de música e de convívio. Ler também está entre os passatempos que mais gosta.

Talvez a certeza da futura profissão tenha vindo juntamente com lições importantes, mas não muito fáceis de lidar. “Quando eu era bem pequena, minha cachorra morreu depois de comer alguma coisa estragada”, recorda a garota. A tristeza, sentimento que se repete sempre que encontra um animal abandonado ou mau tratado pelas ruas, a fez almejar se tornar uma médica veterinária. Focada, inteligente e sossegada, Crislaine não pretende medir esforços para chegar lá. “Eu já estudo bastante e se tiver que viajar para estudar, não vou desistir”, garante a estudante.

Apesar da experiência aparentemente negativa, Crislaine teve a chance de amadurecer com a tristeza que sentiu ao perder seu animal de estimação. “Saber lidar com a dor e a frustração é uma lição que não pode ser ignorada. É preciso desenvolver a capacidade de manter os pensamentos e os problemas dentro da nossa mente para amadurecer”, afirma Andréa Ciciarelli Pereira Lima, psicóloga que integra a Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto e lida com o público infantil há 20 anos.


Talento para a música
Quem já ouviu Nathan Santiago, tocando clarinete afirma que ele possui um grande talento para a música. Seu primeiro contato com os instrumentos musicais aconteceu no ano passado, quando o estudante, hoje com 12 anos, foi convidado a participar do Projeto Suave Som e conheceu a flauta doce. Com a interrupção do trabalho realizado, Nathan se distanciou desse universo, até que uma nova oportunidade surgiu. Em 2013, passou a integrar o Projeto Tocando a Vida e, mais uma vez, se destacou. “Deixei a flauta pelo clarinete quando ganhei o instrumento de um professor. Passei a aprender tudo novamente”, conta Nathan, revelando que a dificuldade foi mudar a forma e a intensidade de lidar com o instrumento.

Em casa, a música também está presente na rotina do estudante, em seus mais diversos estilos, do sertanejo ao funk. Se não está ensaiando, o garoto também se ocupa com as aulas de basquete e de inglês. Segundo os pais de Nathan, as atividades são positivas para o garoto e ajudam a garantir um amplo leque de opções para o futuro. “Tenho liberdade para escolher as aulas que quero fazer. E não costumo deixar as oportunidades passarem”, garante o jovem.

Preste mais atenção
A simbolização é uma ação que tem início muito cedo na vida do ser humano. Pesquisas recentes apontam que este processo começa antes mesmo do nascimento: dentro da barriga da mãe, já é possível perceber sensações como fome, saciedade, dor, sono e bem-estar — e, com elas, nascem as fantasias. “As relações com o ambiente também são estabelecidas rapidamente, especialmente com a mãe ou com quem exerce este papel, o primeiro objeto de contato do bebê”, explica Guiomar.
Por isso, é essencial cuidar da qualidade do ambiente em que esta pessoinha vai se desenvolver. “É importante prover a criança de diferentes experiências, geradoras da vontade de aprender com o que observa e sente, mas sem perder de vista os desdobramentos de tais experimentações. É por isso que os adultos precisam cuidar da interlocução da criança com o novo,  garantindo o desenvolvimento”, avalia a psicanalista.

O cultivo de pensamentos, ações, atitudes e expressões desde a mais tenra idade favorece o despertar da capacidade imaginativa e criativa do ser humano. “Olhar e escutar a criança deve ser uma constante, como forma de integração com a família e com o meio em que ela convive”, acrescenta Yonara. Em um mundo em que a maior demanda é por soluções rápidas e fáceis, esta interação, às vezes, é deixada de lado. “Hoje, o que vemos de maneira geral é a prevalência da aparência em detrimento da profundidade, da valorização das imagens e não dos pensamentos e das emoções. Predomina o flash, rápido e descartável. Tendemos, atualmente, a viver a ‘desinvenção’ da infância e a ‘adolescentização’ da sociedade”, reflete Andréa Cicciarelli. Fica, portanto, um convite à reflexão sobre o que devemos aprender e ensinar aos pequenos de hoje em dia.

Reinterprete a realidade

De acordo com a psicanalista infantil Andréa Cicciarelli Pereira Lima, a capacidade de sonhar serve também para dar novo significado à realidade. Segundo ela, um bom exemplo pode ser visto no cinema, em “As aventuras de Pi”. “O personagem central passa por situações catastróficas e, ainda assim, não sucumbe ao peso de suas experiências. Ao contrário, ele as digere em sua mente, sonha e as transforma em uma metáfora mais tolerável”, explica. Mas, para que isso seja possível, é importante ser capaz de manter os pensamentos e os problemas dentro da mente. “É necessário saber tolerar a frustração, a dor e a angústia, entre outros sentimentos”, acrescenta Andréa.

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