Sonho de ciclovias é antigo
Mas nem a chegada de recursos a fundo perdido levou à implantação
Ribeirão Preto já teve, em 1982, um projeto que pretendia implantar 136 quilômetros de ciclovias na cidade.
Elaborado por Carlos Alberto Gabarra, arquiteto ribeirãopretano especializado em projetos para setores públicos, o projeto chamou a atenção de governantes que deram à cidade, a fundo perdido, a implantação da ciclovia.
“Mas o prefeito da época, empolgado com a implantação do Trólebus, não executou o projeto”, lamenta. Na ocasião o prefeito era Antônio Duarte Nogueira (à época no PTB), já falecido.
Gabarra atuou diretamente no setor público de Ribeirão Preto por mais de dez anos – entre 1974 e 1985. O arquiteto realizou, no início da década de 1980, o projeto de implantação de ciclovias, que foi apresentado inicialmente em São Paulo, na Empresa Brasileira de Transportes Urbanos (EBTU), durante um curso que fez na capital.
“O curso foi promovido no Centro de Estudos e Pesquisas de Administração Municipal (Cepam) e foi onde eu apresentei este projeto. Foi o único projeto detalhado a ser apresentado”, recorda.
Segundo Gabarra as fábricas de bicicletas que atuavam na cidade – Caloi, Monark e Brandani –, implantaram alguns suportes para bicicletas. Mas, além disso, nada mais foi feito.
Trólebus impediram ciclovias
Os Trólebus, ônibus movido a energia elétrica, surgiram no Brasil no final da década de 1940. Em Ribeirão Preto os Tróleis chegaram em 1980, através de um programa criado em parceria entre a EBTU, o Ministério dos Transportes e Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O mundo vivia um período de alta de petróleo, o que justificava investimentos em formas alternativas de energia. Este meio de transporte público começou a ser desativado em meados de 1997, com a Empresa de Trânsito e Transporte Urbano (Transerp) tendo prejuízos.
Com a história dos trólebus entrando em uma curva descendente, a dívida com o transporte foi estimada em R$ 7 milhões. Para a renovação da frota seriam necessários R$ 16 milhões, pagos pela Prefeitura de Ribeirão Preto.
Em 1999 todo o sistema de Trólebus foi totalmente desativado e as linhas da Transerp foram transferidas para a iniciativa privada, mediante aprovação da “Lei de Modernização do Transporte Urbano de Ribeirão Preto”, pela Câmara Municipal, alterando o inciso 2º do artigo 163 da Lei Orgânica do Município.
“Na época, o responsável pela instalação do sistema de Trólebus conseguiu convencer o prefeito de que a implantação de ciclovias ia ‘empanar o brilho dos trólebus’. Por conta de uma pessoa, em 1982, Ribeirão Preto perdeu a oportunidade de implantar o primeiro projeto de ciclovias”, afirmou o arquiteto.
No entanto, segundo Gabarra, o projeto de sistema de ciclovias não atrapalharia o projeto de transporte público, pois ele complementava o projeto dos Trólebus.
Muita pesquisa
Em 1980 um dado já chamava atenção e tornava necessário o investimento em infraestrutura para mais segurança aos usuários de bicicletas: a cidade tinha uma frota de aproximadamente 50,4 mil carros contra 62 mil bicicletas.
A pesquisa realizada pela equipe de Gabarra teve início em 1980 e revelou ainda que 33% dos acidentes de trânsito na época envolviam ciclistas e 24% automóveis. Os dados foram coletados na Circunscrição Regional de Trânsito de Ribeirão Preto (Ciretran). “Foi bem exaustivo. Aproveitamos as pesquisas que estavam sendo realizadas para a implantação dos Trólebus e fizemos uma pesquisa voltada para as bicicletas”, conta.
Esteira para pedestres
Paralelo ao projeto de ciclovias, Carlos Alberto Gabarra (foto) apresentou um projeto que, segundo ele, os desenhistas se recusaram a passar para o papel.
Com foco nos pedestres que circulavam no quadrilátero central de Ribeirão Preto, o projeto – que segundo ele recebeu o título de “projeto utópico” e lhe rendeu o título de “louco”, previa a implantação de esteiras para o transporte de pedestres no centro da cidade.
“Com este projeto eu tiraria de circulação os ônibus de 14 metros do centro da cidade. Eles abasteceriam as quatro avenidas que circundam a área. As pessoas poderiam utilizar as esteiras rolantes se quisessem. Haveria uma cruz de esteiras rolantes no centro da cidade”, conta.
A ideia de Gabarra, que teve inspiração no transporte de minério por esteiras, não foi levada a sério. “Pra época eu acho que o projeto era muito revolucionário, mas em se tratando de planejamento urbano tem que se pensar, no mínimo, nos próximos 50 anos. Não existe planejamento urbano para 10 anos”, diz o arquiteto.
Ele acredita ainda que seja possível e economicamente viável ter a bicicleta como meio de transporte em Ribeirão Preto e critica: “falta vontade política e esclarecimento. A Avenida Jerônimo Gonçalves passou por uma revitalização. Já havia um projeto executivo que contemplava um trecho que ia do parque Maurílio Biagi a Praça Amim Calil, exatamente onde mexeram em tudo, mas não implantaram ciclovias”, reforçou o arquiteto.
A implantação de ciclovias na Avenida Jerônimo Gonçalves – trecho que passou pelas obras anti-enchentes-, segundo Abranche Fuad Abdo, secretário de Obras Públicas, não era prioridade. “A prioridade eram as obras anti-enchentes”, afirmou.
No Plano de Mobilidade Urbana, a ser contemplado pelo Plano de Aceleração de Crescimento – PAC2 –, revelou o secretário, está prevista a implantação de 30 quilômetros de ciclovia. A serem implantadas, dentre outras, nas avenidas Recife, Thomaz Alberto Whatelly e Avenida Eduardo Andréa Matarazzo, a Via Norte.
Esperança
Discussões e projetos sobre o tema “implantação de ciclovias em Ribeirão Preto” existem há mais de 30 anos. Adeptos das “magrelas” abraçaram a causa e pedalarão em uma nova bicicletada – movimento pela mobilidade urbana – no dia 30 de janeiro, que sairá da Câmara Municipal e percorrerá a cidade para chamar a atenção da população.
Lamentando o descaso com a questão da mobilidade urbana, o arquiteto Gabarra afirmou que, caso os 130 quilômetros de ciclovia tivessem sido implantados em 1982, e com investimento contínuo, “Ribeirão Preto teria atualmente mais de 300 quilômetros de malha cicloviária”, estima.
Mesmo assim, ciclistas e alguns cidadãos mantêm a esperança de terem uma malha cicloviária que corte a cidade toda.
Bruno Silva
Fotos: Ibraim Leão