Sorrir faz bem
Muitas vezes, é preciso perdê-lo para valorizá-lo; Considerado o “cartão de visitas” pessoal, o sorriso expressa a natureza da alma, contagiando com sua alegria onde quer que se apresente
A celebração do Dia Nacional do Dentista, em 25 de outubro — dia dedicado a conscientizar a sociedade sobre a importância de manter uma boa higiene bucal — surge oportuna também para a abordagem de um tema diretamente relacionado à profissão e de muita relevância, embora pouco comentado: o valor do sorriso. Pode parecer banal, mas o riso desempenha papel fundamental na saúde física e nas relações sociais do indivíduo.
Segundo uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), realizada com 1.612 jovens, o estado dos dentes interfere muito na autoestima. Em outra análise, divulgada em 2006 pela Escola de Medicina da Universidade Loma Linda, na Califórnia (EUA), o sorriso aparece como colaborador direto do aumento da produção e da atividade das células NK (Natural Killers), responsáveis por destruir vírus e até tumores presentes no organismo.
A ciência comprova, ainda, que o sorriso induz o cérebro a liberar endorfina, neurotransmissor relacionado às sensações de prazer e de bem-estar, além de contribuir com os sistemas cardiovascular, respiratório e imunológico. Isso porque, quando se sorri, há um aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, que provoca a vasodilatação das artérias e o aumento do fluxo de sangue para todo o organismo. Os pulmões passam por uma hiperventilação, que eleva a concentração de oxigênio na circulação sanguínea e resulta em melhor distribuição de oxigênio nos tecidos. Aumenta, ainda, a quantidade de saliva e, consequentemente, o nível de imunoglobulina, substância capaz de combater gripes e resfriados.
Para o doutor Walter Raucci Neto, professor do Curso de Odontologia da Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP),
quando um indivíduo busca o cirurgião-dentista para tratamento estético, sua principal aspiração e? ser reconhecido como bonito ou, no mínimo, normal, por si mesmo e pela sociedade, eliminando características desagradáveis do sorriso e da face. Porém, além do comprometimento estético, a perda de um ou vários elementos dentais também é uma questão de saúde porque pode provocar inúmeras alterações na cavidade bucal, sejam relativas à mordida, à perda de função e à dor na articulação temporo-mandibular. A preocupação com a manutenção de um sorriso bonito, portanto, tem mais fundamento do que se imagina.
Benefício psicológico
Além dos benefícios físicos, há fatores psicológicos relacionados à estética do sorriso. “Existe um consenso relacionando um sorriso esteticamente harmônico às condições de saúde, bem-estar, autoestima, jovialidade, higiene pessoal e sucesso. Atualmente, a estética está diretamente relacionada à apresentação de uma boa aparência e toma dimensões importantes tanto do ponto de vista pessoal quanto do aspecto profissional”, afirma Neto.
Estimativas da saúde bucal no Brasil aponta para, aproximadamente, 30 milhões de indivíduos desdentados, total ou parcialmente, que necessitam de algum tipo de prótese dentária. Consideradas substitutas artificiais para os dentes que foram perdidos, elas devolvem, além da função mastigatória, também a fonética e a estética — literalmente, devolvem o sorriso ao paciente.
Atualmente, segundo o professor, há várias opções para a reabilitação oral, incluindo próteses adesivas, parciais fixas, parciais removíveis e próteses totais, aliadas ou não à utilização de implantes dentais. A busca pelo sorriso perfeito envolve tanto tratamentos para alteração da cor quanto da forma ou posição dos dentes.
Pesquisas na área da odontologia apontam que pelo menos 30% da população está insatisfeita com a cor ou com a tonalidade de seus dentes. Isso explica porque o clareamento dental e as restaurações diretas com resina composta constituem os procedimentos mais utilizados na Odontologia Restauradora atual. Afinal, elas possibilitam a conservação das estruturas dentais e apresentam resultados estéticos satisfatórios. “O impacto gerado por esses procedimentos é evidente. Segundo um estudo de 2014, o clareamento dental pode melhorar a autoestima do paciente, inclusive, conferindo maior segurança para sorrir e expor a cavidade bucal sem constrangimento. De fato, quando os procedimentos restauradores são associados ao clareamento o efeito é ainda maior”, ressalta o professor Walter Neto.
Para o professor, a prática odontológica tem mostrado que a reabilitação oral é capaz de transformar a vida do paciente, pois as pessoas relatam que a ausência de dentes influencia diretamente em seu cotidiano, seja por reduzir a segurança ou a confiança nas relações interpessoais ou pela própria condição funcional da ausência dental afetar a qualidade mastigatória. “Mais do que restituir os dentes perdidos e restabelecer a função mastigatória, ao procurar o tratamento reabilitador, os pacientes buscam renovar a imagem pessoal, social e, portanto, sua qualidade de vida”, finaliza Neto.
Sorriso renovado
Adelina Duarte, de 56 anos, voltou a sorrir e a se alimentar sem medo depois de participar do “Implante seu Sorriso”. O programa integra a escola de implantodontia Inplantcenter, ligada ao Instituto Ronaldo Silva. Foi criado há 20 anos com o objetivo de resgatar a autoestima dos menos favorecidos economicamente. O projeto já atendeu mais de cinco mil pessoas.
De acordo com o doutor Ronaldo Silva, pesquisas realizadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) estimam que aproximadamente 15% dos brasileiros, ou 30 milhões de pessoas, pertençam ao grupo de desdentados totais. “Esse número está representado em diversas categorias socioeconômicas, mas pessoas com condição mais baixa respondem por mais da metade do total de desdentados, não só no Brasil, mas no mundo todo, incluindo os países desenvolvidos”, avalia.
A projeção de queda nesses números nas próximas décadas, na visão do implantologista, parece bastante satisfatória. “Um dos motivos desse otimismo está baseado na ação de programas como esse, do Instituto, que beneficiou dona Adelina, ou como o ‘Brasil Sorridente’, do Governo Federal”, conclui Ronaldo Silva.
Adelina teve todos os dentes extraídos aos 12 anos e, embora utilizasse a conhecida “dentadura”, não se sentia a vontade para mastigar, sorrir e, muitas vezes, até falar. “Não podia sequer ralhar com meus netos porque corria o risco dos dentes saltarem. Ficava insegura, não podia comer carne, maçã, cana-de-açúcar, pé de moleque ou, simplesmente, chupar uma laranja. Era ridículo”, recorda.
A vontade de retomar o controle de si mesma era tanta que, no dia seguinte ao implante e instalação da prótese — procedimento que levou cerca de duas horas — Adelina não conteve o desejo de anos de comer carne sem receio e se fartou em um churrasco. “Agora, trituro nos dentes até ossinho de frango”, ri de si mesma. Feliz, finaliza dizendo “hoje, eu posso sorrir”.
Sorrir faz parte
A importância do sorriso — sua origem, seus aspectos físicos e sua diferenciação — aparece descrita em detalhes na tese de mestrado “O Sorriso Humano”, desenvolvida para a Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa por Marilisa da Silva Mesquita. “O sorriso é um fenómeno biologicamente determinado, inato ao ser humano, que revela e comunica o estado emocional do indivíduo, assumindo-se como um instrumento determinante nas relações sociais. É um comportamento que facilita a vinculação física e psicológica entre as pessoas”, afirma a autora.
O texto aborda o sorriso como resultante de processos físicos comuns a todos os seres humanos e considera a expressão da alegria, que transcende barreiras linguísticas e culturais. Pontua, ainda, apesar de ser universal e inato, a possibilidade do sorriso ser burlado com a experiência, pois existem culturas que estabelecem parâmetros de manifestação das emoções, consequentemente, ditando “regras de exibição, inibição ou dissimulação” do sorriso.
Marilisa relata diferenças na expressão do sorriso de acordo com a cultura (ocidental ou oriental) e o gênero (masculino e feminino). Os americanos, por exemplo, concentrariam mais o sorriso na boca, enquanto os japoneses direcionariam mais a atenção para os olhos. O sorriso do homem seria mais racional e intencional e o da mulher, mais sentimental e espontâneo. Além disso, as mulheres exibiriam mais frequentemente o sorriso do que os homens.
Em seu trabalho, a autora classifica o sorriso em dois tipos básicos: o social (falso ou voluntário) e o espontâneo (genuíno ou involuntário). Os dois tipos de sorriso são executados por conjuntos diferentes de músculos faciais que são, por sua vez, controlados por circuitos cerebrais distintos. O movimento involuntário emerge, principalmente, dos núcleos subcorticais e surge na face via sistema motor extrapiramidal. O movimento voluntário, por sua vez, é recrutado pela vontade e tem origem no córtex cerebral motor; surge na face via sistema motor piramidal.
Um sorriso social utiliza apenas os músculos da parte inferior do rosto, é mais breve e mais assimétrico do que um sorriso espontâneo. Resulta da elevação do lábio superior em direção ao sulco nasolabial, expõe os dentes e em alguns casos a gengiva. É reproduzível, pois os músculos envolvidos podem ser controlados.
Já a expressão genuína do sorriso envolve o rosto inteiro e implica sempre na contração de dois músculos: o zigomático maior, um músculo especialista, difícil de controlar voluntariamente e que desempenha uma função imprescindível, porque confere a aparência feliz. Nesse tipo de sorriso espontâneo, há uma total expansão dos lábios, com máxima exposição dos dentes anteriores e maior exposição gengival, que pode não ser considerada tão estética.
Em resumo, Marilisa explica que o sorriso tem início em processos mentais e no componente fisiológico, caracterizado pela curvatura ascendente das comissuras labiais e que pode ser classificado como fechado, superior e largo, derivado da maior ou menor intensidade do movimento muscular. “O sorriso é um indicador de sentimentos positivos, sendo reconhecido e interpretado universalmente como expressão facial da alegria, mas pode estar associado a outros sentimentos, e é frequentemente utilizado em contextos sociais como dissimulação de emoções negativas, favorecendo uma percepção agradável do indivíduo”, classifica a autora.
Como bem define Antoine de Saint-Exupéry, o poder do sorriso é grande e saber sorrir é muito importante. “No momento em que sorrimos para alguém, descobrimo-lo como pessoa, e a resposta do seu sorriso quer dizer que nós também somos pessoa para ele”, destaca o escritor de O Pequeno Príncipe.
O autêntico sorriso
No sorriso espontâneo verifica-se uma simetria entre as partes direita e esquerda da face.
A exposição dos dentes é outra característica importante, que destaca a autenticidade, pois 90% dos sorrisos genuínos mostram os dentes.
A duração também denuncia o sorriso verdadeiro — aproximadamente 10 segundos — ele demora mais tempo a instalar-se no rosto e desaparece lentamente.
Tipos de sorrisoFace neutra ou sem sorriso - Não apresenta alterações fisiológicas no conjunto; não há movimento dos músculos; os lábios permanecem unidos, sem elevação das comissuras labiais e sem exibição das arcadas dentárias.
Sorriso fechado - O rosto não apresenta alterações fisiológicas significativas; o movimento muscular é reduzido; os lábios permanecem unidos; elevação das comissuras labiais sem exposição dos dentes.
Sorriso superior - O rosto sofre alterações fisiológicas significativas; o movimento dos músculos ocorre com maior intensidade, sendo no entanto menos intenso que no sorriso largo; os lábios encontram-se separados; elevação das comissuras labiais com exposição da arcada dentária superior.
Sorriso largo - O conjunto do rosto apresenta alterações fisiológicas significativas; movimento intenso dos músculos; lábios separados, elevação das comissuras labiais com exposição dos dentes superiores e inferiores.
Texto: Yara Racy