Sucesso através das mãos

Doutor em piano, um dos fundadores do departamento de música da ECA-USP em Ribeirão Preto, Corvisier trabalha pela divulgação da cultura musica

Não fosse a avó tê-lo conduzido às aulas de piano, ainda menino, talvez a história de Fernando Corvisier fosse outra. Não teria sido vencedor do concurso para solista da Orquestra Sinfônica da Universidade Gama Filho, aos 16 anos. Também não teria ganhado uma bolsa de estudos do Conselho Nacional para Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para estudar em Paris, na École Normale de Musique Alfred Cartot. Não fosse essa a versão da história, certamente hoje ele seria um jornalista e não um reconhecido bacharel em piano formado pela Academia Lorenzo Fernandez, solista de inúmeros festivais de música de câmara e cursos de alta interpretação pianística, vencedor de prêmios e professor do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto (ECA-USP/RP).

Graças à generosidade e à sensibilidade da avó e de toda a família — que sempre cultivou hábitos musicais —, Fernando Corvisier iniciou seus estudos de piano, com a eminente pianista Dyla Josetti, no Rio de Janeiro, desenvolveu sua habilidade natural para o instrumento e alcançou projeção internacional nessa difícil carreira artística. “Esse é um mercado muito competitivo, pois há pianistas de altíssimo nível. No Brasil, é ainda mais complicado. A não ser que você tenha ganhado um prêmio e conquistado certa projeção, como foi meu caso, dificilmente encontra alguém disposto a investir na carreira de um jovem iniciante. Os empresários estão interessados em grandes nomes”, explica o pianista.

Se por força do destino, da sorte, da perseverança ou de todos esses elementos juntos, não se sabe, mas de fato o piano transformou a vida deste homem. Impossível calcular as incessantes horas debruçado sobre o instrumento. Tampouco expressar, senão em som, o prazer dessa entrega. “São vários fatores que precisam estar bem alinhavados para se alcançar realização. Acho que tive sorte, mas também tive que lutar muito pela minha trajetória. Fui afortunado em alguns caminhos, como ter o apoio irrestrito dos meus pais para me dedicar ao estudo de música, que é dispendioso, e conseguir uma bolsa, assim que acabei o curso de graduação, para viver e estudar na França, o que me deu ‘segurança’ até determinado momento. Mas não se traça o próprio destino sem perseverança. É difícil, mas é preciso insistir e acreditar que realmente pode acontecer”, afirma.

Trajetória

Foi essa obstinação a grande responsável por, hoje, Fernando dedicar as manhãs ao piano e as tardes ao ensino. Depois de muitos mergulhos pelo campo da música, entre o curso de verão do Mozarteum de Salzburg, na Áustria, na classe de Germaine Mounier (em 1982), os master classes ministrados por nomes consagrados como Helena Costa, Hans Leygraf, Tatiana Nicolaieva e Antonio Janigro, as orientações exclusivas de pianistas como Edson Elias (1983) e Jacob Maxin (1985) e o trabalho como assistente do ilustre pianista brasileiro Luis Carlos de Moura Castro, na Hartt School of Music (EUA), entre 1992 e 1994, Corvisier ingressou no Curso de Doutorado da Universidade de Houston, no Texas (1995). Este foi o marco decisivo para a consolidação de sua atuação acadêmica.

Tendo como orientadores pianistas atuantes no cenário internacional da música erudita — Ruth Tomfohrde, Abbey Simon e Horacio Gutiérrez —, o pianista desenvolveu a tese de doutorado “As Dez Sonatas para Piano de Almeida Prado” onde descreveu, por meio de uma análise estética, a evolução da linguagem pianística do compositor brasileiro que, até então, não havia sido objeto de estudo.
Foi professor assistente de piano na classe de Ruth Tomfohrde, integrante do corpo docente da Escola Preparatória da Universidade de Houston e participou de bancas nacionais de piano no Texas. De volta ao Brasil, atuou como professor visitante no programa de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNI-RIO) e, desde 2002, é professor doutor em piano do Departamento de Música da ECA-USP/RP, sendo um de seus fundadores. “A importância do trabalho acadêmico está na oportunidade de compartilhar os conhecimentos adquiridos e se reciclar”, afirma o professor. Segundo ele, as aulas no departamento de música também significam a oportunidade de contribuir para o enriquecimento cultural da cidade.

Nos últimos oito anos, Corvisier organizou uma série de master classes para o aprimoramento musical dos alunos do departamento, procurando sempre estabelecer intercâmbio com outras instituições nacionais e internacionais e grandes nomes da música.
Em 2007, foi curador e diretor artístico da Temporada de Música de Câmara promovida pela Sociedade Pró-Música de Ribeirão Preto com o apoio da fundação do Theatro Pedro II e da Universidade de São Paulo. De janeiro de 2008 a dezembro de 2009 ocupou o cargo de Coordenador do Departamento de Música da ECA-USP/RP buscando torná-lo um polo irradiador de cultura musical e educação.

Carreira

Paralelamente aos estudos, Corvisier deu prosseguimento ao trabalho como solista. A conquista do IV Prêmio Eldorado de Música, realizado em São Paulo, em 1987, projetou de maneira considerável sua carreira no cenário musical brasileiro. Um dos prêmios desse concurso foi a gravação de um LP, onde registrou as Variações sobre um tema original, opus 21, de Brahms, e a Sonata para Piano, do compositor argentino Alberto Ginastera. A ótima repercussão do trabalho perante a crítica especializada rendeu, no mesmo ano, um convite do pianista João Carlos Martins para gravar “As Quatro Estações”, de Vivaldi, transcritas para dois pianos pelo compositor Almeida Prado.

Mais tarde, em 1989, formou com a pianista Fátima Monteiro, que viria a se tornar sua esposa, o Duo Corvisier, realizando diversos recitais e se dedicando a uma pesquisa constante de repertório, tanto clássico quanto contemporâneo. “O trabalho do intérprete exige estudo, como procurar repertórios novos e adquirir outras linguagens. Não se pode apenas trabalhar com compositores que já morreram”, indica o pianista, afirmando que é preciso se dedicar a também à música escrita na atualidade.

Entre as apresentações internacionais mais importantes realizadas pelo pianista, destaca-se sua participação como solista junto a Houston Civic Orchestra. Também realizou diversos recitais na cidade de Hartford e, com o Duo Corvisier, um importante recital na Fundação Rosa Ponselle, em Meriden, Connectcut.

De volta ao Brasil, teve a carreira solo intensificada. Apresentou-se como solista da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto e da Orquestra de Câmara da Universidade de São Paulo. Realizou
também diversos recitais em importantes salas de concerto do Brasil, dos quais destaca a apresentação no Teatro Pedro II de Ribeirão Preto.
Continua a se apresentar com regularidade no Duo Corvisier, piano a quatro mãos e dois pianos, divulgando principalmente obras de compositores brasileiros. Em 2006, o duo apresentou-se em recital na primeira Jornada Internacional sobre Investigação de Música Latino Americana, na Universidad de Cuyo, em Mendoza, na Argentina. Em 2007, no congresso de performance musical na Universidade de Aveiro, Portugal, realizou uma palestra-recital em que foram discutidos aspectos interpretativos nas obras “Frevo para piano a quatro mãos” e “Tango para piano a quatro mãos”, de Ronaldo Miranda.

Todas essas conquistas só foram possíveis por conta da dedicação incondicional à profissão. “Sem disciplina no trabalho não se consegue atingir todo o potencial. Tocar em um concerto exige meses de preparo, são necessárias quatro ou cinco horas de estudos por dia, pois tocar sem partitura exige muito da memória. Não basta treinar a parte técnica, motora, mas a auditiva também é muito importante, assim como a emocional. Enfim, são várias etapas que exigem dedicação. Um instrumentista pode, facilmente, tocar até os 90 anos de idade, mas é um trabalho que exige muito, porque precisa de regularidade de estudo”, afirma.

Com incontestável “know-how” para abordagens críticas, Fernando discorre sem delongas sobre a formação de público para a música erudita, principalmente no Brasil, abordando, para isso, a necessidade de se incluir a música no currículo escolar. “Existem diversos elementos que não foram explorados em sua magnitude. Há um enorme potencial desperdiçado de jovens talentos que, com um bom referencial, poderiam se destacar. As coisas melhoraram bastante, a Orquestra Sinfônica de São Paulo criou um alto patamar de profissionalismo, o que é muito bom, mas a música popular ainda está muito mais próxima da comunidade do que a erudita, que exige outro nível de percepção”, destaca.

Em Ribeirão Preto, o Juventude tem Concerto realiza um bom trabalho na formação de plateia jovem, na opinião do pianista, mas ainda há muito a ser feito nesse sentido. “O Brasil não tem uma tradição no mercado erudito. Aliás, a própria nomenclatura provoca um certo distanciamento, criando uma referência elitizada para a música erudita. Na verdade, as grandes obras não fazem distinção de mensagem. Ocorre que assistir um concerto exige certa dose de concentração e
se você nunca foi exposto a essa linguagem, se não foi habituado a ela desde pequeno, dificilmente vai achá-la interessante”, conclui.

Texto: Yara Racy
Fotos: Júlio Sian

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