Sucesso na adversidade
Com planos ambiciosos para o Grupo São Francisco ainda em 2018, o diretor-presidente Lício Cintra pretende avançar em regiões do Brasil, crescer acima de 40% e posicionar o grupo entre os melhores
É no cenário adverso das nossas vidas que criamos as oportunidades”. Com essa afirmação, o presidente do Grupo São Francisco, Lício Cintra, apresenta o que, para ele, seria a atitude ideal das empresas brasileiras diante de um período de crise. Com experiência na área comercial de multinacionais e vivência fora do país, por um momento, Lício pretendeu se tornar engenheiro elétrico, entretanto, a visão empreendedora lançada para os negócios sempre presente em sua vida levou o executivo a assumir a área comercial do Grupo em 2005. Tamanha dedicação tem rendido números satisfatórios: em junho de 2018, houve um aumento de 32% no número de vidas atendidas pelo São Francisco, frente a junho de 2017.
Diante de uma das maiores crises brasileiras — econômica, social e, principalmente, política —, o Grupo São Francisco contraria as tendências e segue promovendo emprego, gerando lucro e captando clientes acima das expectativas para o período. A operadora de planos de saúde conta com um 1,2 milhões de beneficiários, sendo, aproximadamente, 60% da São Francisco Saúde e 40% da São Francisco Odontologia.
Na entrevista a seguir, o gestor apresenta os pilares e os valores que sustentam a empresa, bem como as bases de sustentação do negócio. Além disso, compartilha sua opinião sobre como empreender em um país pautado pelo lucro imediato. “O empreendedorismo, para mim, está relacionado ao inconformismo, quando a pessoa não está satisfeita com o modelo vigente e questiona o ambiente de trabalho, independente da sua posição e do segmento da empresa. É uma questão de dosar ansiedade, oportunidade e foco”, argumenta.
Qual foi sua trajetória profissional até chegar ao Grupo São Francisco?
Nasci em Araçatuba. Mudei-me para São Paulo em 1996 para estudar Engenharia Elétrica, na Universidade Mackenzie, mas, no terceiro ano da graduação, percebi que não atuaria como engenheiro e fui morar fora do país por um ano e meio para aprender inglês. Depois desse período, voltei para São Paulo e fui trabalhar na Valeo, multinacional francesa do setor automotivo. Fiquei na empresa até 2005, quando fui convidado a assumir uma parte da área comercial do São Francisco. Até 2009, passei por diversas atividades antes de ficar à frente desse setor. Em 2009, passei a gerenciar as operadoras — de planos de saúde e odontológicos. A partir dessa fase, houve a necessidade de uma nova reestruturação e da criação da presidência do Grupo, para a qual fui nomeado. Assim, unificamos os processos das operadoras médica e odontológica, além da São Francisco Resgate e do Hospital São Francisco.
No último ano, o Grupo São Francisco cresceu 23% e investiu R$ 60 milhões na ampliação da rede. A que atribui esse crescimento?
Realmente, o Grupo tem crescido bastante — em média, 33% ao ano desde 2010. Temos, hoje 1,2 milhão de beneficiários e devemos fechar 2018 com mais de 1,5 milhão, o que representa um crescimento em relação ao ano passado de quase 30%, tanto na receita quanto no lucro líquido da empresa. Em 2017, isso representou o investimento de R$ 91 milhões, sendo mais de R$ 13 milhões investidos em melhorias de unidades assistenciais e na construção de novas unidades e outros R$ 5 milhões em softwares e sistemas. A estimativa para este ano é R$ 200 milhões em investimentos, incluindo projetos de inovação. Somos a quarta maior empresa de Medicina de grupo do país e devemos terminar o ano como a sétima em Odontologia do Brasil. No fundo, o crescimento depende de uma junção de fatores, mas o principal deles é o perfil dos sócios. No nosso caso, são pessoas totalmente empreendedoras que, de fato, acreditam no negócio, que nasceram dentro desse universo e que, portanto, entendem bem o setor de saúde. Isso faz com que eles tenham uma visão do setor de médio e de longo prazo, o que, geralmente, difere das demais empresas.
O Grupo São Francisco tem investido em contratações?
Sim. Contabilizamos quase seis mil colaboradores. Somente no último ano, criamos mais de mil novas vagas e, neste quadrimestre, mais 530. Só este ano, 139 colaboradores foram promovidos e foram efetivadas quase 250 contratações internas. Além disso, as inscrições estão abertas para o 4º Programa de Trainee do Grupo São Francisco, que, a cada edição, abre dez novas posições de trabalho. Esse é um ponto positivo, pois as contratações permitem a realização profissional, independentemente da função, seja para a gestão de um grande projeto que auxilia no crescimento da empresa ou para outros cargos que, indiretamente, também contribuem para a evolução do Grupo.
Como lidar com a concorrência em um momento em que o público está buscando reduzir custos em todas as áreas, inclusive, a de assistência médica?
Baseado na filosofia dos proprietários do São Francisco, temos um time interno alinhado à visão dos 11 diretores. Ao analisarmos o perfil de cada um dentro do seu segmento, concluímos que temos os melhores profissionais do mercado. Talvez 90% do sucesso do Grupo esteja na mistura entre o empreendedorismo dos sócios e o time de profissionais qualificados. Com uma base bem estruturada e um conselho administrativo composto por pessoas que entendem do negócio, não tem como dar errado. Enquanto a mentalidade da maioria dos empresários é a de que a situação do país não está bem, aumentamos nossa confiança de que é investindo que chegaremos vitoriosos e mais fortes lá na frente. É óbvio que, como cidadão e executivo, gostaria muito de ver o país em melhores condições, mas, por outro lado, entendo que momentos assim revelam ou consolidam grandes grupos.

Qual a postura do Grupo quando o assunto é inovação?
Em 2017, somente nessa área, investimos R$ 15 milhões. Este ano, devemos chegar próximos aos R$ 20 milhões. Este é um setor novo, com apenas dois anos e meio, que se conecta a várias entidades, onde buscamos boas ideias — muitas delas vêm de startups. Fazemos uma seleção dessas empresas e identificamos quais delas podem trazer ganhos operacionais, de qualidade e de resolutividade para o paciente. Testamos as propostas dentro do nosso ambiente e, se for o caso, investimos na implementação. Trata-se de um jogo de ganha-ganha: esses inovadores passam a contar com uma empresa formada e um produto a ser divulgado no mercado, enquanto nós incorporamos boas soluções ao nosso produto final. Culturalmente, as pessoas tendem a procurar um modelo de saúde que prioriza o número de prestadores ou de serviços; já nós buscamos resolutividade com uma rede coesa, que seguirá nossos protocolos de tecnologia, prontuário eletrônico e outros aspectos que facilitam o dia a dia e a relação com o beneficiário.
O São Francisco busca se modernizar constantemente?
Sim, prova disso é que, nos últimos dois anos, fomos premiados pelos dois principais órgãos que reconhecem soluções tecnológicas aplicadas a negócios do segmento de saúde. Há pouco tempo, surgiu da área de inovação um aplicativo chamado BioAps , que conecta nosso beneficiário a uma central de atendimento 24h que permite que os pacientes mantenham contato direto com profissionais de enfermagem que avaliam a evolução de doenças crônicas e agilizam o atendimento em casos emergenciais. Esse atendimento realmente ocorre 24h por dia. Assim, conseguimos intervir no tratamento, indicar a melhor solução e discutir com o médico o atendimento do paciente, além de ter em mãos, de forma rápida, o prontuário desse paciente. Nesta base, temos 32 mil pessoas monitoradas pela Medicina Preventiva e cinco mil pessoas monitoradas pela ferramenta. Outro exemplo é o aplicativo chamado Carefy, que monitora todos os nossos pacientes internados e atualiza as informações necessárias em tempo real para o médico. Já em funcionamento desde agosto de 2017, o projeto está focado na gestão de pacientes hospitalizados na rede credenciada e atua na operação na parte assistencial, além da gestão financeira. Através desta plataforma, cerca de 600 pacientes são monitorados diariamente e 36.700 pacientes são atendidos.
Como o São Francisco atua na captação de grupos de clientes, incluindo os planos empresariais?
Acreditamos no potencial de clientes no interior do país. Atuamos desde o Nordeste até o Sul do país e começamos a apostar em áreas geográficas carentes desse tipo de serviço. Temos operações muito fortes, por exemplo, em São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, sul de Minas Gerais e norte do Paraná. Esses locais concentram, basicamente, nossos esforços para crescimento na área médica. Já a área odontológica é um pouco diferente porque temos representantes em todo território nacional. A São Francisco Resgate está presente em seis estados, sendo a maior empresa de resgate rodoviário do país: cobrimos 37% das rodovias com serviço de urgência e emergência. Nosso modelo de captação é relativamente simples porque levamos aos pacientes o conceito de rede de atendimento. As pessoas devem ser atendidas no tempo correto, pelo médico adequado, o que só é possível com tecnologia. Se não for assim, o paciente muda muito de um médico para outro. O resultado é um índice de consultas 22% menor do que a média de mercado, e 25% menor de internações e cirurgias. Na prática, isso significa que nossos clientes são mais saudáveis porque investimos fortemente em Medicina Preventiva. Essa fórmula faz com que os grandes empregadores, na maioria das vezes, recorram ao São Francisco para a prestação de serviços de saúde a seus colaboradores. Com isso, ganhamos a verticalização da parte clínica, com 90 unidades nessas localidades, investimentos em laboratórios, serviços de imagem e centros oncológicos e investimentos na parte hospitalar com unidades em Ribeirão Preto, Sertãozinho e, em breve, Araraquara, com um hospital ultramoderno. Além da reforma do nosso hospital-dia, em Ribeirão Preto, até o final do ano serão lançados mais dois hospitais no estado de São Paulo.
O São Francisco tem investido muito no esporte em Ribeirão Preto. Nesse quesito, qual a visão da empresa?
Investimentos dessa natureza estão alinhados à filosofia dos próprios sócios do Grupo. Como acreditamos no nosso projeto em médio e longo prazo, em algumas ocasiões, apostamos até mais do que o previsto em nosso planejamento anual em projetos esportivos. O esporte contribui para melhorar a educação, a qualidade de vida, o cuidado com as crianças e muito mais. Patrocinar iniciativas nessa área tem, ainda, um impacto social muito interessante. Isso sem contar o estímulo ao envolvimento das pessoas com resultados coletivos. Verificamos essa característica ao participar da formação da equipe de vôlei de Ribeirão Preto. Esse tipo de projeto nos agrada porque acreditamos que, se cada empresa fizer a sua parte, construímos um ambiente melhor, com mais oportunidades. Eu arriscaria dizer que somos uma das empresas que mais investem em esportes na cidade, pois apoiamos também a equipe de ciclismo, as duas equipes de futebol, além de triatleta, paratleta e a Ciclofaixa da cidade, entre outros. Enxergamos o esporte não só como boa fonte de exposição da nossa marca, mas como meio de fortalecer nossa imagem junto com o próprio projeto. Nossos investimentos no esporte estão intimamente relacionados ao fato de acreditarmos que sua prática tem um peso social efetivo e está alinhada ao nosso propósito: valorizar a prevenção e estimular a vida ativa.
Quais são os maiores desafios nessa gestão?
Temos um projeto superagressivo de crescimento e pretendemos continuar expandindo, com mais qualidade ainda. Desde 2010, entregamos resultado e acreditamos no equilíbrio dos objetivos que nos motivam: metas claras, estar entre as operadoras que mais crescem e com os melhores índices de qualidade perante os órgãos reguladores. Também almejamos estar entre as operadoras mais rentáveis do segmento. Esses são os maiores desafios: crescer, aumentar nossa área de abrangência e operar em regiões mais distantes levando uma atuação eficaz e de qualidade.
Qual dica você daria para quem está pensando em empreender no Brasil hoje?
Tenho uma visão de empreendedorismo um pouco diferente das demais pessoas. Em geral, elas entendem que ser empreendedor é sair do emprego formal e abrir um negócio próprio, quando, na verdade, você pode ser empreendedor dentro do próprio ambiente de trabalho. Ao analisar friamente as pessoas mais bem-sucedidas do meio empresarial, encontraremos pessoas que tiveram esse posicionamento. São pessoas que têm o olhar do dono e tentam inovar, independente do segmento e da função. Dá para ser empreendedor sendo o presidente da empresa ou sendo um analista, por exemplo. Para mim, o país tem grande potencial de recuperação e é carente, em todos os setores, de pessoas bem informadas e dedicadas à função — os que mostram esse compromisso se sobressaem. É uma questão de dosar ansiedade, oportunidade e foco. Conseguimos elencar casos de empreendedores que estão milionários, mas que, antes disso, caminharam a duros passos para chegarem a essa posição. Conseguiram porque têm disciplina, foco e dedicação. Empreendedorismo está muito relacionado ao inconformismo. Falo das pessoas que não estão satisfeitas com o modelo atual e fazem questionamentos dentro do próprio ambiente de trabalho. Nada acontece de repente; para o sucesso, é necessário planejamento porque sua construção exigirá muito esforço pessoal, físico e financeiro.
Para finalizar, quais são os planos do Grupo para o segundo semestre de 2018?
Temos um modelo de negócio exclusivo e pretendemos entregar um resultado diferente do que é praticado no mercado. Com muito trabalho, conseguiremos transformar o São Francisco no maior grupo de saúde do interior do país. Os números comprovam que estamos no caminho certo: crescemos 32% neste quadrimestre e, até o final do ano, planejamos chegar a mais de 40%. Além disso, pretendemos ser a primeira empresa a estar na lembrança da população em serviços médicos fora do eixo Rio-São Paulo e transformá-la em um dos principais empregadores do país.