Superando a Dor
Muitas sofrem caladas, outras já não suportam carregar por anos um relacionamento abusivo. Conheça as histórias de três mulheres que tiveram de se reinventar após sofrerem agressões constantes
Texto: Bruna Romão | Foto: Lidia Muradás
Muitas vezes ela é sutil no início, quase imperceptível. Nem sempre começa com o contato físico: há, também, a possibilidade de afetar fortemente o emocional. As marcas podem perdurar por anos, ou até mesmo não cicatrizar com o tempo. As vítimas se sentem acuadas, envergonhadas, não veem saída para um problema que cresce no Brasil a um ritmo alarmante.
De janeiro a julho de 2018, o Ligue 180 registrou 27 feminicídios e 547 tentativas do mesmo tipo de violência. Os casos correspondentes à violência física somaram 37.396 e os de violência doméstica foram 26.527 nesse período. Do outro lado, pode estar alguém com o sentimento de dominação, que não aceita o fim de um relacionamento amoroso e carrega consigo o conceito de posse.
A violência doméstica e familiar contra as mulheres é a de um homem — namorado, marido ou ex-companheiro — que agride a parceira, muitas vezes de forma tão violenta que leva à morte. Em um primeiro momento, é comum o agressor ferir com palavras, humilhando a vítima ou destruindo objetos. O que muitos especialistas descrevem como uma segunda fase corresponde à explosão do agressor, o ato violento colocado em prática. Pode ocorrer, ainda, violência moral ou patrimonial. Nessa etapa, muitas vezes, a mulher se sente impossibilitada de fazer algo, contudo, pode denunciar, ainda que sinta pena ou vergonha. Por fim, como as próprias vítimas relatam, surge o arrependimento seguido de um comportamento carinhoso e a tentativa de reconciliação com promessa de mudança. A mulher, em muitos casos confusa, pressionada, constrangida, com filhos para cuidar ou, até mesmo, com medo de ficar só, pode ceder, e dá início a um ciclo que, segundo próprias vítimas, pode deixar marcas indeléveis. As três mulheres a seguir descrevem como foi ter passado por esses momentos de dor.

Isabel Andrade cresceu sem a presença da mãe — que deixou os quatro filhos — e foi criada pelo pai, carpinteiro. Como trabalhava em uma cantina da escola e chamava a atenção de um casal que não tinha filhos, ganhou uma bolsa de estudos. Teve boa educação e fez curso técnico de processamento de dados. Ao se envolver com um rapaz que passou a usar drogas, viu a vida mudar drasticamente. Mesmo engravidando, decidiu sair da relação. Quando conheceu outro companheiro, um psicólogo conhecido na cidade, fez questão de enfatizar que “aquela Isabel já não existia mais”. Ficou para trás a jovem cheia de amigos e que vivia sorrindo.
Mesmo grávida do segundo filho, teve de suportar a amante batendo à porta e cobrando satisfações. “Tudo começa com agressões verbais. Ele me fez passar por uma pessoa incapaz, péssima mãe e dona de casa. Muitas vezes, acontece de maneira tão sutil que nem percebemos”, afirma Isabel, que trabalha com eventos e chefia um bar aos finais de semana, liderando, em algumas situações, uma equipe com cerca de 50 funcionários.
Agressões emocionais e físicas, como chutes, socos e tapas na cara, eram constantes, mas ela também não conseguiu acabar com a relação em um primeiro momento. Foi marcante ver o filho pequeno tentando separar a briga dos pais com um cabo de vassoura, ouvindo do padrasto palavras pejorativas. Mesmo com medida protetiva, ela deu mais uma chance a ele, por conta da filha. Daí em diante, porém, não suportou mais.
Como descreve, a agressão psicológica foi pior do que a física, doendo mais. Até a unha vermelha, as mãos e o corpo eram motivos de piadas. “Fui me transformando. Hoje, eu me arrumo e fico incomodada. Lembro de tudo que ele disse e como me fez sentir a pior pessoa. Isso reflete em meu trabalho, porque me sinto inferior a todos”, observa, mesmo sendo valorizada na profissão e com posição de destaque.
Hoje, com medida protetiva e cuidando dos filhos, ela tenta reconstruir uma vida marcada pelas duras palavras. “É uma ferida que você sabe cuidar, mas não sei se fecha”, frisa. Insegura em certos casos, ela não imaginava chefiar equipes tão grandes. “Tive de me reinventar. Apesar de tudo, posso dizer que estou mais feliz. O papel da ONG Mãos Estendidas é fundamental. A Delegacia da Mulher deve mudar muito, pois ainda tem pessoas com cabeça masculinizada e senti que falta preparo psicológico. Quero aprender mais na instituição sobre a causa, porque muitos acreditam que a violência acontece apenas nas classes mais baixas”, finaliza Isabel.
Ajuda Disponível
O trabalho desenvolvido pelo Programa Mãos Estendidas, que tem como presidente Márcia Pieri, mostra bons resultados quando o assunto é cuidar da vítima. As mulheres são encaminhadas pelos órgãos públicos e privados, além de demandas espontâneas. O propósito do projeto é proporcionar uma escuta empática e ativa. Há, também, o atendimento para o agressor, com finalidade de reeducação em seu comportamento para resolução de conflitos de modo não violento.

Elaine Rodrigues sentiu na pele diversas agressões. Ela, que já pediu dinheiro no semáforo para sobreviver, sofreu desde muito cedo por ser negra e pobre. A vida teve uma reviravolta quando surgiu o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que tornava ilegal o trabalho infantil. Acolhida por padres da comunidade, a garota foi aprendendo a lutar pelos sonhos, fazendo cursos de especialização. Quando se apaixonou pelo companheiro, achou que, realmente, a vida entraria nos trilhos. “No começo, ele se mostra como príncipe encantado, leva para conhecer lugares, respeita e não é ciumento”, descreve. As situações começam a aparecer, em muitos casos, após o casamento, e a primeira agressão pode ser psicológica. “Ele me deixava grávida sozinha e dizia que eu não era ninguém sem ele”, lembra Elaine.
Momento marcante para a confeiteira foi descobrir algumas traições do marido. Quis separar, mas foi convencida a manter o relacionamento por conta do filho. Em outro momento, já não aguentava saber das traições e ficar calada. “Ele me agrediu com um soco no rosto e cortou minha boca, eu revidei. Depois, veio me agradar, me levou para jantar e tiramos até foto juntos. Minha boca ainda estava inchada, mas, se olhasse a foto, era quase imperceptível, porque usei maquiagem”, relata. Meses depois, ela comemorava o aniversário na casa da irmã e, sem motivo, foi agredida novamente. Nesse momento, teve coragem para dizer que essa situação não se repetiria.
Quando o companheiro tentou agredi-la mais uma vez, ela chamou a polícia e, embora tenha menosprezado a briga, Elaine estava no dia seguinte na Delegacia da Mulher com uma medida protetiva em mãos, que objetiva proteger mulheres, vítimas de violência familiar e doméstica, de serem agredidas novamente. “Muitos homens pensam assim: ‘vou desferir golpes na cara, porque mexe com a autoestima'”, pontua.
A história de Elaine mostra uma realidade ainda presente. A dificuldade de muitas mulheres que não conseguem abandonar o relacionamento em virtude de inúmeros motivos, seja pelos filhos ou dependência financeira.
Mesmo após dias de desespero, ela ainda convive com o marido. Trabalham juntos vendendo trufas, salgados e ele ainda encontra tempo para buscar o filho na escola. Ela acredita que o companheiro mudou, pois em mais de um ano de convivência, diz não ter sofrido mais agressões. “É difícil a mulher sair da relação, em todos os sentidos, seja emocional ou financeiramente. Somos julgadas, mas ninguém sabe o que passamos. Quando estava em trabalho de parto, foi ele quem correu atrás de tudo e hoje sou eu quem estabelece os limites dessa relação”, destaca.
A estudante refere-se a uma situação específica. Há meses, teve de suportar um tipo de violência, ainda desconhecida de muitos: a obstétrica. Segundo ela, por negligência médica, o filho morreu dentro de uma maternidade e o que era sonho se tornou um pesadelo que ela diz não esquecer fácil, justo em um momento que vinha recuperando sua autoestima e confiança para seguir em frente. Elaine narra que o marido esteve ao seu lado em todos os momentos e buscou apoio na ONG Mãos Estendidas para que tivessem orientações.
Mesmo em meio às adversidades, Elaine estuda Pedagogia, mas carrega um sonho de cursar Direito. “Refiz minha vida com muita oração, comecei a ignorar tudo o que ele me dizia para me desestimular, tracei metas e corri atrás. Hoje, tento me sentir em paz, apesar de perder meu filho. Cada mulher deve procurar dentro de si o que é capaz de fazer. É preciso buscar ajuda. Quando sinto que Deus sozinho não basta, procuro ajuda especializada”, conclui.
O caso de Jacqueline Otoboni Terra poderia ter virado uma triste estatística no Brasil. Segundo ela mesmo conta, o homem, pai da filha, tentou matá-la com uma faca na casa da sogra — e ela tem certeza de que só se salvou porque pode correr pelo portão e ir embora às pressas. A vendedora lembra que, quando há paixão na relação, nem sempre é possível perceber as manipulações que acontecem com tanta nitidez. Durante o relacionamento, ela descobriu traições e tinha de conviver com frases como: “se você engordar ou criar estrias, largo de você”.
Mesmo depois de passar por momentos marcantes e ter sido diagnosticada com depressão após a morte do pai, ela tenta viver a vida de maneira positiva, pois precisa ter forças para cuidar da filha de três anos, que o pai tenta tirar a guarda na Justiça. Nem a medida protetiva traz segurança, porque ela sabe que se ele quiser fazer algo, nada pode impedi-lo. “Conviver com isso é angustiante, um tormento emocional muito grande. Você se sente vulnerável. Não há segurança total e nem sei se um dia teremos”, enfatiza Jacqueline, que hoje trabalha para custear o tratamento da filha, que até há pouco tempo enfrentava um câncer. “Em um relacionamento, a mulher tem de ser feliz. Ele deve aceitar você do jeito que é. Se elas ficarem oprimidas dentro de casa, vão sofrer para vida toda, porque quando há um relacionamento abusivo, a tendência é sempre piorar. Eu não gostaria que outras pessoas passassem por tudo o que vivi. É preciso levantar a cabeça, dar um passo e dizer: ‘eu posso’”, aconselha a vendedora de roupas.
Existem ajudas especializadas e vários serviços, como a ONG Mãos Estendidas, que conta com profissionais preparados, para auxiliar as vítimas de violência doméstica. Para fazer uma denúncia, o número é o 180. Por meio de ligação gratuita e confidencial, o canal funciona 24 horas por dia, a semana toda, no Brasil e em outros 16 países: Argentina, Bélgica, Espanha, EUA (São Francisco e Boston), França, Guiana Francesa, Holanda, Inglaterra, Itália, Luxemburgo, Noruega, Paraguai, Portugal, Suíça, Uruguai e Venezuela.