Talentos da solidariedade
Graças à solidariedade presente em ações sociais ou gestos individuais, Fabiana, devanir Daniel, Paulo Henrique e Géssica descobriram talentos
Os movimentos realizados pela bailarina Fabiana Pott na coreografia são capazes de prender até o espectador mais desatento. Os detalhes revelam a precisão de uma técnica bem apurada, sem deixar a emoção de lado. Aos 25 anos, está acostumada a subir no palco em teatros lotados. Como parte do elenco da Cia. Dança Vida, vertente profissional do Projeto Dança Vida, participou de grandes montagens. Esteve diversas vezes em outras cidades, como em São Paulo e em Brasília, onde foi vista pelo então presidente Lula, pelo ministro da Cultura à época, Gilberto Gil, e pela ex-primeira-dama da França, Danielle Miterrand. Com isso, tornou-se referência dentro e fora da Cia., sendo admirada por sua habilidade nata e pelo comprometimento com a dança.
Porém, para chegar a este ponto, a bailarina percorreu um longo caminho. Vivendo em uma região de vulnerabilidade socioeconômica, o bairro Orestes Lopes de Camargo, Fabiana nem imaginava que iria se tornar uma bailarina até que, com oito anos, conheceu o projeto através da escola. “Olho para trás e vejo a importância dessa ação na minha vida. Com certeza seria alguém, mas não sei se teria o prazer de trabalhar com algo que amo. Todos os dias, busco vencer desafios e superar limites, lições que me ajudam não só no lado profissional, como no pessoal também”, afirma.
Quem deu essa chance à jovem foi Paula Vital Reis, fundadora do Dança Vida. “Sempre tive consciência do poder da dança sobre as pessoas. Por isso, decidi investir nela como ferramenta para desenvolver o ser humano de maneira integral. Temos uma metodologia que leva o participante a entender a sua verdade e a utilizar o corpo para expressá-la”, relata Paula. Como faz parte do início do projeto e está nas aulas desde pequena, Fabiana é apontada por Paula como o resultado mais puro do trabalho feito pela entidade dia após dia. Há três anos, a bailarina decidiu retribuir o carinho e se tornou professora do Dança Vida. “Acabo me identificando com a história dessas crianças. São talentosas, mas nem todas conseguem continuar. Abandonam a classe porque precisam trabalhar ou porque, pelas circunstâncias, acabam seguindo outro caminho. Mas os que ficam, fazem tudo valer a pena”, conclui.
Felizmente, casos de superação como o de Fabiana estão crescendo em Ribeirão Preto. Crianças e jovens carentes, expostos a situações de risco, buscam apoio para, através da própria capacidade, construir um futuro melhor. Muitas vezes, basta um pequeno incentivo para obter resultados inacreditáveis. “A pessoa tem que se sentir amada, acolhida. Temos que acabar com os pensamentos limitantes como ‘não posso’, ‘não consigo’, ‘não mereço’, que são mais comuns do que se imagina. Reforçando a autoestima desses jovens, abrimos infinitas possibilidades. Por isso, os projetos sociais desenvolvidos por entidades realmente focadas no fortalecimento do ser humano são essenciais”, indica Paula. Entretanto, de nada adianta ter um universo de oportunidades bem à frente. É preciso notá-las e agarrá-las.
Foi o que fez Devanir Daniel da Silva. Logo que nasceu, em 1985, foi levado para a Casa À Família, um lugar que oferece auxílio a mães sem condições de cuidar dos filhos. “Minha mãe estava por perto, mas fui criado pela irmã Margarida, que conduz o projeto. Quando estava na Casa À Família, não pensava que estava em uma entidade. Ali era o meu lar, minha família”, recorda Daniel. Ainda na pré-adolescência, por intermédio da irmã, Daniel se tornou aprendiz em uma empresa de rolamentos, comandada por Claudinei Pinheiro de Souza. “Foi uma época que determinou quem eu sou hoje. O senhor Claudinei checava minhas tarefas e deixava que eu desempenhasse pequenas funções no escritório. Assim, eu ficava fora das ruas e ocupava meu tempo sendo útil. Vi o quanto é bom valorizar aquilo que se tem, que foi conquistado e não dado de bandeja.
Tenho noção de que sou privilegiado. A estrutura que a Casa ofereceu permitiu que eu fosse além”, enfatiza o jovem que hoje é advogado e tem seu próprio escritório ao lado de um sócio.
Gratidão é a palavra mais recorrente no vocabulário de Daniel quando fala sobre esse assunto. “Vejo todos os dias crianças sem nenhuma perspectiva de futuro. Essa situação seria muito diferente se o Estado intervisse de maneira efetiva. Não é difícil ajudar. É preciso ter boa vontade, arregaçar as mangas e tomar uma atitude. Com isso, teríamos mais pessoas produtivas para a nossa própria sociedade. As ações são sustentadas, basicamente, pela solidariedade do cidadão. Tenho o maior respeito pelas pessoas que se doam a essa causa tão nobre”, declara Daniel. O jovem continua visitando frequentemente a Casa e auxilia irmã Margarida sempre que necessário.
Depois de tantos anos, Claudinei se emociona ao ver Daniel. “A tarefa de educar requer esforço. Vê-lo formado, de terno e gravata, trabalhando com aquilo que gosta me enche de orgulho. Confere sentido a tudo o que fizemos. Muitas pessoas que passam pelas mesmas dificuldades do Daniel acabam se vendo como vítimas e se sabotam. Ele não, aceitou o que oferecíamos e teve confiança para seguir seus sonhos”, finaliza.
Outro poderoso transformador social é o esporte. Em Ribeirão Preto, o Atletismo e Cidadania cumpre seu papel de impulsionar o potencial de crianças e de adolescentes, não só no lado esportivo, mas no educacional e social também. Em funcionamento desde 1992, através de uma pareceria entre o Governo Municipal e a iniciativa privada, o projeto já revelou diversos talentos, como Géssica Caroline Matos Marques, de 19 anos. A jovem foi descoberta no núcleo instalado no bairro Branca Salles, quando tinha apenas 12 anos. “Brincava de basquete, de futebol, mas nunca tinha tentado o atletismo. Um dia, a professora me viu e fez o convite para treinar. Fiz algumas aulas por semana, fui gostando e passei a me dedicar com o maior carinho a esse esporte”, confessa. O empenho gerou resultados. Géssica passou a atingir marcas características de atletas de alto desempenho e foi chamada para integrar o time de competição.
Os treinos na Cava do Bosque passaram a ser diários. O nível dos exercícios também aumentou. Os títulos começaram a aparecer. Além de ser Campeã Paulista Mirim, foi medalhista no Campeonato Paulista juvenil e participou do Campeonato Brasileiro nas categorias menores, juvenil e adulto. O atletismo acabou se fundindo com a vida pessoal de Géssica. “Para termos um resultado consistente, precisamos de disciplina, responsabilidade e comprometimento. Aos poucos, isso acaba se tornando parte do que a gente é, da nossa personalidade. No Atletismo e Cidadania, encontrei pessoas do bem, que tinham esse lema, e pude me espelhar no trabalho delas. Só de estar inserida nesse meio já me tornei uma pessoa melhor”, revela Géssica.
Dessa forma, a menina simples que antes admirava os outros acabou se tornando um modelo a ser seguido, o orgulho da família, dos amigos e do responsável pelo projeto, Sidnei Avelino dos Santos. “A história da Géssica, assim como outras meninas e meninos que fazem parte do nosso projeto, mostra que nós estamos trilhando o caminho correto. A atividade desportiva é uma porta que dá acesso a muitas conquistas. Sou fruto de um projeto como esse. Um dia, alguém acreditou em mim, eu correspondi às expectativas competindo e, posteriormente, com o curso de Fisioterapia e no cargo de orientador técnico em atletismo. Proporcionar o mesmo que tive, um crescimento de qualidade, a essas crianças e jovens é indescritível”, afirma Sidnei.
O cenário atual
- No dia 18 de março, foram aprovados 131 projetos, que serão executados por 54 entidades de Ribeirão Preto registradas no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA). A verba repassada, cerca de R$ 3,3 milhões, vai servir como recurso para que essas instituições continuem desenvolvendo um trabalho de assistência social nas mais diversas áreas, como educação, saúde, esporte, lazer, cultura, entre outros, para cerca de cinco mil participantes.
- Segundo a Presidente do Conselho, Macida Catalan, a oferta de atividades para os jovens carentes da cidade têm crescido nos últimos anos. E melhor, os serviços oferecidos pelas entidades também passam por uma evolução. “Percebemos que o trabalho tem sido feito de forma mais efetiva. Com essa estrutura, a criança e o adolescente têm mais chances de garantir seus direitos e é notável a transformação deles quando integram essa rede do bem”, aponta Macida.
- A ideia é formar o jovem para que ele tenha oportunidades, construindo uma vida adulta consolidada e, consequentemente, uma sociedade mais equilibrada. “É um investimento a longo prazo. Esperamos que a semente que plantamos hoje tenha impacto no futuro”, revela. Para isso, a presidente comenta que é fundamental uma parceria entre Governo e iniciativa privada, com a colaboração da sociedade. “Todas as forças voltadas para uma causa nobre são bem-vindas”, conclui.
Uma outra perspectiva
- Ronie Charles Ferreira de Andrade, pesquisador associado do Observatório de Violência da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto – USP, está habituado a estudar casos onde a solidariedade se faz presente, enriquecendo todos os envolvidos, e onde a falta dela resulta em sérios problemas de ordem social, como violência e miséria. “Vivemos a era da informação e da tecnologia, mas temos uma crise de formação. As pessoas sabem sobre tudo, mas permanecem impenetráveis, inacessíveis e indiferentes ao próximo, preferindo o individualismo e a solidão. Isso resulta no que chamamos de ‘efeito vazio’, o que pode gerar uma marginalização social”, explica.
- A solidariedade vem para combater esse cenário. A análise da própria palavra já indica uma situação totalmente contrária. Ronie comenta que o termo deriva de “obligatio in solidum”, que no direito romano expressava, primitivamente, a obrigação comunitária, ou seja, as responsabilidades que o indivíduo tinha em relação a uma coletividade. “Assim, construímos uma ponte entre o ‘eu’ e o ‘outro’, independente de fatores econômicos, gênero, cor, etnia e cultura”, salienta. Segundo ele, o ser humano deve reconhecer o próximo como semelhante. Com isso, é possível restabelecer a condição de dignidade a quem precisa e garantir uma sociedade mais justa e fraterna.
- Enquanto isso ainda não é abrangente, resta contar com iniciativas que, mesmo isoladas, têm grande valor. “Diante de uma evidência lnegativa, o indivíduo que encontra uma resposta solidária possui mais chances de construir uma atitude de superação, inclusive podendo se tornar um agente da própria transformação. Temos muitos exemplos positivos,” opina o pesquisador.
O valor das iniciativas individuais
- Além do trabalho realizado por entidades assistenciais, ações individuais também podem fazer a diferença. A história de Paulo Henrique da Silva de Oliveira é um exemplo positivo dessa intervenção. Com dez anos, foi para a Casa das Mangueiras. Já naquela época, o ambiente que mais gostava de ficar era a cozinha. “Foi lá que comecei a entender o encanto da culinária. Não basta preparar os alimentos corretamente. O tempero indispensável é o amor”, observa. Depois de três anos na Instituição, chegou a hora da virada. “Tínhamos uma visita importante: Renato Aguiar. Fiquei encarregado de preparar e servir um café. Naquele dia, ele me chamou para trabalhar como aprendiz de confeitaria”, descreve o jovem.
- O empresário também se lembra do encontro. “Havia tanto capricho naquela simplicidade. Vi imediatamente que ele tinha talento e vontade de sobra. Valia a pena investir nele”, releva. O convite foi aceito e depois de um período de estágio, ao completar 16 anos, Paulo foi efetivado pelo bufê. A dedicação do rapaz chamou a atenção. Tanto que Renato decidiu arcar com as despesas de um curso superior na área de gastronomia para ele. Com 21 anos e formado, o jovem vive uma ótima fase, tendo seu trabalho reconhecido pela excelência. Requisitado para elaborar doces e pães diferenciados nos mais badalados eventos sociais, mantém seu jeito tranquilo, os pés firmes no chão e o sonho de continuar evoluindo.
- O jovem acaba de conquistar uma bolsa de estudos no Senai para o curso de Técnico em Hotelaria e pretende, em breve, buscar aperfeiçoamento no exterior. “Tive lições importantes na minha vida. A mais preciosa delas é que tudo acontece no tempo devido. Quando chegou o meu momento, soube fazer bom uso da minha chance. Minha vó, Maria Aparecida, a equipe da Casa das Mangueiras e o Renato foram corresponsáveis nisso. Eles confiaram em mim. Com isso, eu confiei em mim e, graças a Deus, desde então, tudo têm dado certo”, finaliza Paulinho.
Texto: Paula Zuliani
Fotos: Júlio Sian e Carolina Alves