Tarefas terceirizadas
Um fenômeno cada dia mais comum divide opiniões: a atribuição de tarefas pessoais para profissionais específicos
Seja para buscar um aprimoramento pessoal ou mesmo para realizar tarefas do dia a dia, cada vez mais se busca um recurso muito comum nos tempos modernos: outras pessoas. Hoje, para fazer uma atividade física de forma eficaz, o personal trainer é figura fundamental, assim como é necessária a orientação de um nutricionista para ter uma alimentação adequada. Para manter a mente em harmonia, um terapeuta é uma boa indicação e não se pede mais para o marido arrumar o chuveiro, pois há profissionais específicos para isso. As mulheres não precisam mais cuidar das próprias unhas nem saber escovar o cabelo. Tem até um profissional que leva o cachorro para passear.
O atual cenário comportamental reflete uma realidade que a psicanálise pode ajudar a entender. Regina Cláudia Mingorance de Lima, mestre e doutora pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP), psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto (SBPRP) e psicóloga clínica, explica que há várias questões envolvidas nesse fenômeno. Uma delas é a participação feminina no mercado de trabalho. Muitas atividades ligadas à mulher, no âmbito familiar, passaram a fazer parte de tarefas terceirizadas. “Se antes a mulher fazia almoço em casa todos os dias, hoje muitas delas precisam buscar outra alternativa, tendo uma funcionária em casa, aderindo aos congelados, buscando comida pronta ou mesmo almoçando em restaurantes”, exemplifica Regina.
A partir do momento em que novas necessidades foram criadas e os serviços passaram a ser terceirizados, o conhecimento sobre essas atividades foi ampliado, produzindo melhores resultados. Para citar um exemplo, Regina conta que a pessoa pode fazer uma atividade física sozinha, obtendo um resultado X. Na medida em que tem um profissional acompanhando esse processo, com um conhecimento aprofundado e possibilitando que aquela atividade seja executada de forma diferenciada, alcança-se um resultado mais eficiente. Desta forma, outro fator que impulsiona as pessoas a procurarem profissionais de diferentes áreas é a busca por resultados mais satisfatórios.
É justamente esse fator que motiva a blogueira e pedagoga Carola Duarte a ser adepta das terceirizações. Hoje, além dos serviços de manicure e pedicure, vai ao salão de beleza com bastante frequência para fazer cabelo e maquiagem. Se tiver agenda, prefere até lavar o cabelo no salão, em vez de fazer isso em casa. Carola também é acompanhada por nutricionista, personal trainer, fisioterapeuta e personal chef. “Eu sou totalmente dependente deles. Faço algumas coisas sozinha, mas são poucas. Claro que nos fins de semana eu vou para o parque com o marido e não levo a personal junto ou quando resolvo fazer uma receita fit em casa não convoco a nutricionista ou a personal chef. Mas confesso que recorro a elas através do WhatsApp. Cabelo e manicure não tem jeito; tenho que correr para o salão. Amo lavar meu cabelo lá. Não existe nada mais prático”, comenta.
Com o blog, Carola passou a ter uma agenda mais atribulada, o que também contribuiu para a procura por serviços terceirizados, e sua rede de relacionamentos aumentou. Desta forma, hoje ela pode contar com esses profissionais que contribuem para que alcance os resultados tão almejados. “A vontade de fazer o certo motivou muito. Eu não poderia fazer uma reeducação alimentar sem contar com a nutricionista e a personal chef, que faz tudo sem glúten e sem lactose, receitas mais difíceis de fazer em casa. Assim, como a personal trainer, que potencializou os benefícios dos meus treinos. Quanto ao salão de beleza, o que me levou a incluí-lo nas tarefas terceirizadas foi a praticidade de chegar plebeia e sair de lá uma princesa em menos de uma hora”, declara.
O psicoterapeuta e consultor educacional e empresarial Guilherme Davoli ressalta que não se pode negar a importância e a qualidade de profissionais, cursos, produtos e pesquisas de ponta que têm viabilizado uma nítida melhora na qualidade de vida da população nas últimas décadas. Porém, aponta que o problema fica na excessiva dependência que muitas pessoas têm de outras ou de instituições. Segundo o psicoterapeuta, uma somatória de fatos, que inclui o conceito de que o fazer estaria intimamente ligado a uma ideia de escravidão, culmina nesse fenômeno. “Para se sentir poderoso, o indivíduo acredita que alguém deve fazer por ele, o que inclui desde os tradicionais serviços de corte e o trato em cabelos e unhas até todas as variações da expressão ‘personal’, o especialista que resolve cada um de nossos supostos problemas, tanto os que realmente temos quanto aqueles que insistentemente tentam nos convencer a temer vir a ter”, esclarece Guilherme, destacando que em alguns países europeus, a realidade é outra: a partir do aprendizado em família e da escola, as pessoas se orgulham de saber e praticar as mais diferentes atividades em favor da própria autonomia.
Soraia Rollo, culinarista e gerente de restaurante, é brasileira, mas parece seguir os costumes dos europeus. Ela só recorre às terceirizações em último caso. Mesmo com uma rotina corrida e três filhos pequenos, prefere cuidar pessoalmente de suas atribuições. Em casa, por exemplo, abriu mão de ter uma empregada doméstica e contratou apenas uma faxineira, uma vez por semana. Como seu trabalho é intenso na hora das crianças irem para a escola, nem sempre consegue levá-las, mas faz questão de buscá-las e ser participativa nas atividades e brincadeiras. Soraia também cuida de cada detalhe do aniversário dos pequenos. “Faço o bolo, a decoração, o buffet, até as lembrancinhas. Aliás, faço o bolo de aniversário da família toda. Só terceirizo algum serviço quando é realmente necessário”, afirma.
A culinarista não acha graça em passar para outros profissionais tarefas que ela mesma consegue desenvolver. “Acho que perde a essência”, pontua. Ela mesma arruma seu cabelo e faz a maquiagem quando vai a eventos sociais. Só vai ao cabeleireiro para fazer corte e há pouco tempo passou a ser mais assídua do salão para fazer as unhas. Frequenta a academia, mas não tem a orientação de um personal trainer. Também prefere preparar o lanche das crianças e não comprar pronto. Enfim, mesmo percebendo que hoje a terceirização é um recurso muito utilizado, Soraia gosta de se manter independente e de participar da vida dos filhos e de quem está próximo dela. Ela conta que, depois que teve os filhos, passou a se preocupar mais em dar exemplos e acredita que manter a autonomia é um dos valores que deseja passar adiante.
A relação entre as pessoas, causadora ou não de dependência, também é estudada pela psicanálise, que, observando as questões humanas, considera o indivíduo como ser relacional, que busca vínculos. “O ser humano nasce imerso em relações, se constitui nessas conexões que estabelece e, por isso, tem uma tendência a buscar ligações. Assim, na medida em que entra em contato com algo, aquilo desperta nele um sentimento. Esses sentimentos são os mais variados possíveis e influenciam a forma da pessoa interpretar sua experiência, dando sentidos muitos particulares ao que é vivido”, contextualiza. Dentro destas considerações, conclui-se que não se pode ser independente, pois o ser humano só é gente a partir do momento que estabelece vínculos e relações. Dependendo da relação estabelecida e da sua função consciente ou inconsciente, o desenvolvimento ocorre de formas diferentes.
Dizer que o ser humano é relacional não impede que ele tenha autonomia. Dentro das buscas que cada um faz, é possível estabelecer relações com vínculos criativos de vida — de maneira a criar, crescer, desenvolver, ter vitalidade, aprender na relação com o outro e perceber seus recursos e fragilidades — ou vínculos parasitários de antivida — relacionados às ligações que impedem o crescimento, levando a pessoa à estagnação, desvitalização, distanciamento dela mesma e dependência extrema do outro, impedindo o aprendizado. Nessa última situação, muitas vezes a pessoa não percebe que tem recursos para realizar sozinha certas tarefas. Regina explica, ainda, que essa conexão não é algo linear, ou seja, uma mesma pessoa, numa mesma relação, pode, inicialmente, buscar desenvolvimento e, num dado momento, estagnar o progresso. O contrário também pode acontecer: a pessoa vem de uma relação degradada e passa a buscar uma forma de vida com mais sentido.
Nesse cenário de terceirização, também está inserida a figura do coach, um profissional que também se encaixa no fenômeno da terceirização. A função de um coach é alavancar o potencial das pessoas. Para isso, apoia seu cliente (o coachee) a encontrar nele os melhores recursos e ferramentas para lidar com situações do dia a dia ou da sua profissão. Assim, segundo o coach Marco Meda, o papel do profissional não é dar o caminho e sim abrir percepções para que o cliente analise vários cenários, proponha diversos caminhos e ele decida qual a melhor alternativa.
Desta forma, o coach pressupõe que o coachee adquira autonomia. Meda salienta que um bom profissional sabe e percebe quando o cliente torna-se dependente. Neste caso, o coach deve gerar o que chamam tecnicamente de ownership, ou seja, o profissional tem as técnicas e ferramentas necessárias para que o coachee assuma a responsabilidade de suas ações e metas. “Esse risco é calculado e é ponto de atenção do coach a todo momento. Coach disponível não é a mesma coisa que ‘coach-muleta’”, esclarece. Ele reforça que esse limite é extremamente sutil, mas percebido quando o profissional analisa que o cliente não está entrando em ação; e entrar em ação é a premissa básica de um verdadeiro processo de coaching. “Coaching não é terapia. Quando o coach percebe que o coachee está querendo ouvir conselhos, tem algo errado, pois virou dependência. Como coach, acredito que todas as pessoas, se conduzidas de maneira correta, podem gerar autonomia”, explica.
Nessa questão, a visão de Guilherme é um pouco diferente. Segundo o psicoterapeuta, esse fenômeno demonstra um individualismo muito acentuado, pois parece que as pessoas que terceirizam os serviços estão diretamente interessadas nas habilidades específicas desse ou daquele profissional, muitas vezes o tratando muito bem pela conveniência da situação e não pela pessoa em si, salvo raras exceções. “Na maioria dos casos, estamos falando de preocupação com questões profissionais, estéticas, de saúde, cultura e até mesmo modismo”, complementa.
Ele acredita que considerar a falta de tempo e a vida atribulada como motivos para as pessoas terceirizarem as tarefas pode ser uma resposta coerente em situações bem específicas, mas, na maioria das vezes, parece comodismo, já que a desejada independência pessoal é algo que começa com a prática do autogerenciamento. “A maioria das pessoas não percebe o quanto está envolvida ou até mesmo escravizada por esse processo e as que percebem costumam minimizar o impacto desse fato realçando o status de estar fazendo um curso de determinada universidade de grife, ter seu cabelo manuseado pela profissional da moda ou de fazer uma terapia alternativa por indicação de alguém com grande credibilidade”, observa Guilherme, completando que estar com a maioria é que aparenta felicidade.
Regina concorda que a vida atribulada impulsiona a atribuição de certas tarefas para outras pessoas e que é grande o risco que se corre de querer o tempo todo se encaixar nos padrões socialmente estabelecidos, seja de corpo, de vestimenta, de beleza ou qualquer outra natureza. Ela explica que o ser humano vive a angústia de ao mesmo tempo estar em grupo, ligado ao outro, sentindo determinadas relações como essenciais para sua vida, e se sentir isolado e excluído. Por isso, as pessoas buscam o tempo todo se sentirem incluídas, participando, e quanto mais puderem sentir que estão parecidas com o outro, menor o sentimento de solidão e inadequação. “O grande temor é se sentir diferente, excluído. Somos seres singulares e precisamos do outro, das relações. Ao mesmo tempo, vamos nos afastando dessa singularidade e buscamos, consciente ou inconscientemente, a semelhança com o outro na expectativa de sustentar uma relação por termos dificuldades de estarmos juntos na diferença. Temos a tendência a esse funcionamento gregário, vivendo o conflito entre sermos singulares e nos encaixarmos aos padrões partilhados”, analisa a psicóloga.
Segundo ela, a questão da praticidade também existe: as pessoas precisam terceirizar algumas atividades para darem conta de suas vidas. As tarefas básicas, que antes faziam parte da rotina de todo mundo, muitas vezes são aquelas que mais fazem falta. “É comum ouvir as pessoas dizerem que sentem falta de almoçar em casa, mas a rotina as impossibilitam de fazer isso”, explica Regina. Às vezes, a pessoa percebe isso e outras vezes não, mas todos sentem as consequências dessa ação. Algumas tarefas terceirizadas perdem o contexto afetivo, essencial para o desenvolvimento humano.
Guilherme declara que as habilidades humanas precisam ser vivenciadas e continuamente praticadas para serem descobertas e desenvolvidas. A terceirização da prática de algumas delas gera a perda da oportunidade da pessoa se conhecer nessas experiências. Ainda nesta linha, Regina concorda que o grande risco é a pessoa acreditar que não tem recursos ou condições de aprender e passa a terceirizar tudo. “O lado negativo da terceirização dos serviços é o não-desenvolvimento de habilidades individuais, especialmente aquelas que se deixam ser engessadas pelo apelo dessa situação”, reforça Guilherme. Sua preocupação fica com a possível instauração de uma dependência improdutiva que pode crescer ainda mais nas pessoas, principalmente nos jovens.
Já o lado positivo desse fenômeno é o aumento dos diferentes campos de serviço, apesar de acreditar que alguns venham a se saturar e desaparecer com o tempo. “A terceirização promove mudanças e devemos ficar na torcida para que isso signifique evolução, pois historicamente muitas novidades se revelaram inúteis ou até mesmo incompatíveis com a almejada melhoria na qualidade de vida de todos”, argumenta Guilherme. Regina afirma que é necessário observar para ver onde está indo esse novo homem que surge agora. Algumas habilidades importantes podem se perder e outras vão tomar lugar. “Na minha própria área, a psicanálise, muitas vezes as pessoas pensam que vão criar dependência, temendo não terem autonomia para tomar as próprias decisões, mas é absolutamente o contrário disso: a relação analítica desperta no indivíduo uma vida mais genuína, já que ele vive um processo, numa relação de intimidade psíquica, onde se aproxima mais dele mesmo, dos seus sentimentos e pensamentos. A partir disso, há uma ampliação da consciência sobre si mesmo, sobre o outro e, consequentemente, maior autonomina, direcionando-se a partir de quem ele é, do que faz sentido para ele e assumindo cada vez mais a autoria de suas ações e de sua vida como um todo”, descreve.
O mesmo acontece com o coaching. Meda acredita que talvez esse possa ser um dos fatores que faz com que a sua profissão seja uma das que mais crescem no mundo, já que as pessoas precisam de apoio, de alguém que as potencializem, incentivem, motivem. “Existem os profissionais certos para alavancar o melhor potencial de cada um. Quando fazemos pela pessoa, literalmente não a desenvolvemos. Quando fazemos ou executamos por alguém, em vez de ajudar, estamos limitando esta pessoa”, diz o coach, acrescentando que o ser humano aprende verdadeiramente quando ele próprio faz e executa o que tem que ser feito.