Teatro como educação

Teatro como educação

Aulas de artes cênicas dentro da prisão mudam a vida de reeducandas da Penitenciária Feminina de Ribeirão Preto

Texto e fotos: Pedro Gomes 

Fundada em 2003, a Penitenciária Feminina de Ribeirão Preto tornou-se conhecida por ter sido a primeira unidade prisional integralmente dedicada às mulheres. Lá dentro, uma prática tem feito a diferença junto às reeducandas que integram o regime semiaberto: o teatro. As aulas de artes cênicas ensinaram algumas delas muito mais do que técnicas de atuação. Há quem tenha aprendido a ler, conhecimento que, de fato, liberta e transforma as perspectivas de vida de qualquer pessoa. 

Segundo a diretora técnica da penitenciária, Juliana Santiago, boa parte das detentas são de Ribeirão Preto, mas há presas de toda a região, tanto em regime fechado quanto semiaberto. Em 2017, a ex-prefeita da cidade, Dárcy Vera, permaneceu detida no local por alguns dias. “O regime semiaberto é mais brando. Segundo ele, as mulheres podem trabalhar e fazer cursos dentro e fora do presídio, mas, à noite, voltam para a unidade”, explica. As aulas de teatro são oferecidas, justamente, para as detentas que cumprem o regime semiaberto. “Além de perceberem como são capazes, as detentas acabam repassando o que aprenderam para outras pessoas”, ressalta Juliana.

A equipe carcerária é a responsável por manter trabalhos culturais dentro do presídio

Em junho de 2017, o grupo teatral da Penitenciária teve a oportuindade de subir ao palco do Teatro Santarosa, em Ribeirão Preto. “A apresentação foi muito importante e fez com que elas se sentissem valorizadas. Pessoas que eu conhecia ficaram surpresas com a capacidade e o potencial delas. Um ambiente prisional tende a ser muito negativo e causar grande rejeição social. Atividades dessa natureza suavizam esse peso e também servem para demonstrar às famílias que elas estão evoluindo”, acrescenta a diretora da unidade.  

Orientação teatral 
Mesmo sem promover nenhuma redução na pena, as atividades teatrais têm um forte impacto na vida das reeducandas. Para o diretor de teatro Magno Bucci, orientador do grupo desde 2006, o último ano foi um período de conquistas. “Em 2017, completamos 11 anos de atividades na Penitenciária e conseguimos um feito quando, no dia 30 de junho, realizamos uma apresentação em um teatro de verdade. Aquela foi a primeira vez que nos aprofundamos em um trabalho. Agora, já estamos pensando em temas para 2018”, anuncia Bucci. 

O diretor Magno Bucci ensina  teatro na penitenciária

A realização da peça depende da integração das próprias detentas. O diretor afirma que é notória a evolução desde que o projeto foi iniciado. “Pessoalmente, creio que essas mulheres não têm tantas oportunidades de se expressarem. Nas nossas aulas, motivamos outras atividades interessantes para o crescimento delas, como a leitura. O trabalho realizado exige vontade e dedicação”, acrescenta. As aulas acontecem uma vez por semana, nas tardes de sexta-feira. “A atividade só sobrevive por conta do engajamento delas. Todas as companheiras se envolvem no processo teatral”, continua o diretor. 

Mudança radical 

Tatiane Rodrigues Ferreira Vela, de 31 anos, está presa há quatro anos. Natural de Olímpia, na região de São José do Rio Preto, foi encaminhada à prisão feminina de Ribeirão Preto por roubo. Entre todas as reeducandas envolvidas com o teatro, Tatiana é a que apresenta a maior mudança. “O teatro tem me ajudado em tudo, principalmente, na alegria de viver, pois descobri uma nova paixão. Além disso, as aulas de artes cênicas me fizeram aprender a ler, e isso eu vou carregar para o resto da minha vida”, comemora Tatiane.

Sem nunca ter pensado em subir ao palco, a reeducanda ficou emocionada com a oportunidade de se apresentar no Teatro Santarosa no ano passado, especialmente, porque  conseguiu mostrar às filhas sua nova conquista. “Quando minhas filhas souberam que haveria uma apresentação, quase não acreditaram. A mais velha me achou linda quando me viu atuando. No dia da peça, eu estava muito nervosa, tremendo de medo, mas adorei a experiência. Fomos bem recebidas e bem tratadas pelo público. Eu me identifiquei com a personagem e, no fim, chorei de emoção. Foi difícil de aguentar”, recorda Tatiane.

Segundo a detenta, o antigo comportamento, de “bicho do mato”, também mudou graças ao teatro. “Hoje sou um doce. Quando sair daqui, quero primeiro olhar para mim mesma. Todas nós temos histórias e lutas. Hoje, estou mais viva e sou feliz sem a ganância que carregava”, completa.

Alegria familiar 

A jovem Aline Lemos, de 26 anos, garante que o teatro renovou sua vida. Segundo a detenta, a oportunidade surgiu no momento em que mais precisava, quando achou que estava tudo perdido. “Nunca tinha participado de nenhuma atividade do gênero. Graças a uma monitora muito persistente fui a uma aula de teatro sem compromisso. Para nós, a quebra do preconceito que o teatro promover é um dos aspectos mais importantes. Nós erramos, mas queremos mostrar para as pessoas que somos capazes de mudar”, acrescenta Aline. 

Durante a apresentação no Teatro Santarosa, a reeducanda sentiu algo diferente. “O olhar do público era para as atrizes no palco, e não para as detentas. Também pude mostrar para a minha família que tenho procurado ser melhor. Por esses e outros motivos, costumo dizer que o teatro foi minha válvula de escape”, declara Aline. 

Presa por tráfico, é natural de Franca, mas tem pensado em se mudar definitivamente para Ribeirão Preto pelas artes cênicas. “Estou aqui há mais de quatro anos e devo ser solta no meio deste ano. Meu objetivo é apresentar a próxima peça e ir embora. A transformação cabe a nós. O teatro é arte, então, tudo que há de bom está nele. Quando sairmos, vamos levar os aprendizados que recebemos para o resto da vida. Sairemos pessoas melhores. O teatro realmente transforma”, exalta Aline.  

Transformação 

Gisele Aparecida Rodrigues, de 34 anos, é a última integrante do atual curso de teatro na prisão. A detenta também foi parar na Penitenciária de Ribeirão Preto por roubo e acredita que já teve a vida transformada. “Quando cheguei, via o curso, mas nunca participava. Jamais pensei que faria parte das aulas quando chegasse no regime semiaberto, mas a verdade é que o teatro abriu minha mente e me ajudou a me desenvolver, a aprender a conversar, entre outros ensinamentos”, conta Gisele. 

Natural de Tatuí, na região de Sorocaba (SP), está detida há seis anos na unidade ribeirãopretana. “Acredito que poderei deixar a penitenciária em fevereiro de 2019. Hoje, não tenho mais medo do preconceito ou do pré-conceito”, garante Gisele. 

Tatiane Rodrigues Vela, Aline Lemos e Gisele Aparecida Rodrigues

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