Tecnologia para educar
Astronauta Marcos Pontes aponta a importância de incluir a ciência e a tecnologia na educação brasileira

"É possível! Como transformar seus sonhos em realidade”. Esse foi o tema da palestra recente do astronauta Marcos Pontes, em Ribeirão Preto. Da plateia, o estudante Leonardo Bugory, de 14 anos, acompanha cada palavra do profissional que, para ele, tornou-se uma inspiração. Primeiro astronauta brasileiro a ir ao espaço, na missão batizada “Missão Centenário”, Pontes é dono de um currículo extenso, que inclui a formação em Engenharia Aeronáutica, piloto de caça, piloto de combate da Força Aérea Brasileira e piloto de testes. Atualmente, sua agenda está tomada, principalmente, pelos projetos sociais e pelas palestras motivacionais, cujo objetivo é mostrar a importância de cada indivíduo acreditar no seu potencial.
Já Leonardo é estudante do 9º ano e participa do projeto “Adote um Cientista”, principal programa da Casa da Ciência do Hemocentro de Ribeirão Preto, que promove encontros semanais entre pesquisadores da USP e alunos da rede básica. Apaixonado por ciências, Leonardo afirma achar incrível descobrir como as coisas funcionam e como as tecnologias podem ajudar as pessoas. Em 2012, o estudante participou do “Pequeno Cientista”, programa da Casa que busca o desenvolvimento de uma investigação científica pelos jovens, sob orientação de um pesquisador da universidade. Leonardo integrou o grupo de Bioinformática, do Prof. Dr. Fernando Barroso, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP – USP). Com outros alunos, trabalhou em um projeto com bancos de dados mundiais que fornecem scripts para o estudo de cadeias de proteínas. O resultado dessa investigação foi apresentado no fim do mesmo ano, em um evento.
A proximidade de Leonardo com Pontes vai além da admiração: a “Missão Centenário” aconteceu no dia do aniversário do estudante, 26 de março, o que influenciou algumas escolhas do jovem. Astronomia, Robótica e diversas tecnologias foram temas abordados na conversa entre os dois. A educação brasileira e a importância de sonhar e lutar pelos objetivos mais ambiciosos também ganharam destaque no bate-papo a seguir.
Leonardo: O que você sentiu quando soube que foi escolhido para uma missão tão honrosa, sabendo que carregaria o nome do Brasil?
Marcos: No momento em que fui selecionado, em 1998, a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi fazer algo que motivasse outras pessoas a seguirem o caminho da educação. Imediatamente pensei na criação da Fundação Astronauta Marcos Pontes, uma ideia que tinha desde 1987 e que, talvez, pudesse se tornar realidade nessa oportunidade. Com a Fundação, eu poderia motivar outros jovens a seguirem carreira na área de Ciência e Tecnologia.
Leonardo: Por que você foi o único brasileiro a ir para o espaço?
Marcos: Infelizmente, o Programa Espacial Brasileiro não teve o suporte político necessário e adequado para progredir no que se refere a voos tripulados. Na verdade, o programa tem sido reduzido em todas as áreas, o que é muito ruim para o país, pois estamos perdendo capacitação e potencialidade nesse setor — tudo isso devido a uma administração de programa espacial prejudicada pelo pouco interesse político na área de Ciência e Tecnologia no Brasil.
Leonardo: As forças causadas pelo lançamento do foguete podem fazer com que o astronauta desmaie ou passe mal, mesmo com o treinamento?
Marcos: Pode sim, se ele sair da trajetória normal. Estamos treinados para suportar sem problema nenhum. Além disso, se chegar a essa situação, provavelmente a estrutura do foguete estará comprometida, o que pode ocasionar um acidente. No perfil normal, isso não acontece.
Leonardo: Quais eram as expectativas iniciais? Elas foram alcançadas ou houve frustrações?
Marcos: A minha expectativa inicial era voar em 2001, porém, por problemas internos, essa expectativa não foi alcançada. Fiquei muito chateado com a situação, entretanto, aprendi que a vida nos reserva surpresas maiores e, às vezes, não nos damos conta disso. Não devemos reclamar daquilo que não funciona, pois existe alguma razão para isso e, eventualmente, você vai descobrir os motivos lá na frente. Se eu tivesse voado em 2001, teria realizado a missão e, provavelmente, eles iriam me trazer para o Brasil ao invés de me deixar em Houston. Certamente, eu não estaria preparado para assumir as responsabilidades necessárias após o voo. Tudo o que aconteceu foi essencial para que eu me tornasse o que sou hoje: são essas coisas que me dão firmeza e capacidade para assumir desafios maiores.
Leonardo: O que os experimentos realizados durante a missão trouxeram de avanço para a ciência?
Marcos: Na estação, giram mais de 100 experimentos continuamente, então, a NASA (sigla em inglês para National Aeronautics and Space Administration, ou Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço) tem uma sequência enorme de resultados. Falando especificamente dos experimentos brasileiros, tínhamos oito trabalhos científicos que foram estudados em ambiente de microgravidade. Dos estudos que foram ao espaço, seis são de instituições de pesquisa brasileiras e dois de escolas do Ensino Fundamental. Tivemos experiências da Universidade Federal de Santa Catarina sobre transferência de calor — antigamente, o Brasil tinha que importar e, atualmente, exporta esse conhecimento. Também havia experimentos científicos do Centro Nacional de Pesquisa de Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), da Embrapa. Além desses, um dos experimentos mais importantes em termos de conhecimento foi o da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que tratava dos danos e reparos do DNA na microgravidade — esse estudo ainda não foi concluído, mas já representou grandes avanços.
Leonardo: O Brasil não deveria investir mais na Astronomia, sabendo que seu desenvolvimento traria novas tecnologias?
Marcos: Não só na Astronomia, mas em todas as áreas da Ciência. Tenho a impressão de que muitas de nossas autoridades enxergam a Ciência e a Tecnologia apenas como pesquisa acadêmica dentro das universidades, o que também é importante. Mas é preciso considerar sua importância, especialmente, no cotidiano. Isto porque o objetivo de tantos estudos é, justamente, resultar em inovação, emprego e novos produtos que possam agregar mais valor ao Produto Interno Bruto (PIB) do País. Com certeza, a Ciência e a Tecnologia cooperariam muito para a construção de um Brasil melhor. Quando se fala em Astronomia, é preciso lembrar que há vários aspectos relacionados à ela, e um deles é como incentivar jovens como você a se tornarem profissionais da área. Assim como temos a Astronomia, temos a Aerodinâmica, a Robótica, a Eletrônica, a Ccomputação, a Programação e diversos temas que podem ser inseridos no Ensino Fundamental e Médio para motivar os jovens nas carreiras de Ciência e Tecnologia.
Leonardo: Quais são os principais desafios de planejar, construir e executar uma missão tripulada?
Marcos: Trabalhando com gerenciamento de projetos, são identificados alguns problemas conhecidos como, por exemplo, a definição do escopo e do objetivo daquele projeto. Na hora de definir um projeto, você tem que saber o que pretende fazer e, muitas vezes, essa resposta que parece simples não existe. Ou então, à medida que começamos a desenvolver o projeto, alguns querem mudar o escopo, o que pode gerar mais custos e menos qualidade, o que influencia os envolvidos a fazerem um planejamento infinito que nunca é colocado em prática. Ou então, o planejamento é reduzido a tal ponto que não corresponde à realidade. Claro que, no espaço, isso não acontece, mas estou me referindo a elaboração de projetos em geral. Nessa execução, muitas vezes, as pessoas não têm ferramentas adequadas para fazer o controle do projeto, então, elas começam a executá-lo às cegas, sem medir os avanços. Todo mundo erra e não há demérito nisso. A questão é como reconhecer que errou e, a partir dali, começar a trabalhar direito.
Leonardo: Acompanhei algumas entrevistas e percebi que a questão da Educação é muito importante para você. No cenário atual, quais seriam suas propostas e expectativas para mudanças nessa área?
Marcos: É necessário dar um tratamento de choque à Educação brasileira, uma reestruturação completa, e não uma reengenharia. Para resumir, os elementos mais importantes nessa área são os professores: valorizar esses profissionais é extremamente importante, não apenas por meio dos salários, mas também com uma série de outras ações que precisam ser feitas. Outro aspecto que não funciona na Educação do país é o Ensino Superior que, até pouco tempo, era visto com carinho pela política brasileira, contudo, é atualmente o “menos” importante. O Ensino Fundamental que, como o próprio nome sugere, deveria ter importância máxima, é muito deficiente, assim como sua continuidade, o Ensino Médio. Com isso, os alunos chegam despreparados à graduação e o professor do Ensino Superior acaba sofrendo os efeitos de tamanho descaso. Acredito que se o Ensino Fundamental e Médio fossem bons, o cenário seria completamente diferente. A infraestrutura da Educação ainda é muito reduzida e, na maioria dos estados brasileiros, essa desigualdade é totalmente prejudicial. Temos uma série de outras deficiências, com relação à própria metodologia aplicada no país, por exemplo, muito antiga de forma geral. Não podemos manter a Educação fixa no tempo e esperar que as crianças se adaptem a ela. Como resultado desse sistema desigual, mais de 70% dos jovens que terminam o Ensino Médio não têm capacidade suficiente para entendimento de textos complexos.
Leonardo: Que conselho você daria para os jovens que querem seguir carreira na Aeronáutica e na Astronomia?
Marcos: Cuide da saúde, que é muito importante. Não é preciso se tornar um atleta (se quiser claro, isso será ótimo), mas se manter completamente distante de drogas, do cigarro e das bebidas já é um passo muito importante. O jovem tem uma certa tendência — já fui jovem e sei como acontece — de querer acompanhar o grupo, e é exatamente aí que aparecem os problemas. Eu diria que é importante desenvolver uma personalidade forte, defender suas ideias e não apenas realizar isso ou aquilo porque outros desejam que você o faça. Muitas vezes, para manter a integridade e fazer o que acredita, será preciso discordar de muitas pessoas, ter coragem para manter o ponto de vista e estudar. Conhecer a si mesmo e ter humildade para reconhecer que não sabe tudo também são aspectos importantes. Meu pai sempre me dizia: “a arrogância ocupa o mesmo espaço que a inteligência na sua cabeça; se você deixar a arrogância crescer, significa que está ficando mais burro”. É importante se desenvolver e seguir em busca do sucesso e, quando ele chegar, seja uma ferramenta para que você possa ajudar outras pessoas.
Leonardo: Observo que uma grande parcela da sociedade não se interessa em discutir ou saber mais sobre Ciência e Tecnologia. Por que isso acontece, na sua opinião?
Marcos: Além de educação básica, falta entendimento sobre a importância da Ciência. Esse é um triste fato no Brasil, que não acontece nos países desenvolvidos. Infelizmente, ainda integramos o grupo dos subdesenvolvidos porque, justamente, não damos a atenção necessária para a Educação, para a Ciência e para a Tecnologia. É isso que molda a formação do indivíduo como cidadão — eu duvido que você consiga me apontar qualquer país desenvolvido que não valorize três pilares básicos: conhecimento, trabalho e disciplina. É disso que o Brasil precisa.
GERANDO BONS FRUTOS
“Marcos Pontes é um exemplo a ser seguido no mundo inteiro: começou como qualquer outra pessoa no Exército e teve determinação para chegar a tenente-coronel da Força Aérea, o que exige coragem e força de vontade para seguir os sonhos. Tudo isso fez com que ele se tornasse o primeiro brasileiro a ir para o espaço. É um orgulho ter alguém assim na nação, tanto que ele é reconhecido em todo o Brasil como uma pessoa corajosa e determinada que todos deveriam seguir de exemplo. Eu me senti lisonjeado por ter a chance de conversar com alguém que marcou a história do Brasil. Foi uma honra estar frente a frente com Marcos Pontes, uma chance única que aproveitei sem hesitar. Além disso, fazer uma entrevista para a Revide foi uma experiência nova e de grande responsabilidade, pois sei que muitos leitores irão se informar e aprender com ela, o que me deixa muito feliz.”
Leonardo Bugory, 14 anos, estudante.
Texto: Pâmela Silva
Fotos: Ibraim Leão