Tempestade Perfeita

Tempestade Perfeita

Em entrevista à Revide, secretário municipal de Saúde, Sandro Scarpelini, comenta o momento conturbado causado pela pandemia e expõe o que tem sido feito para enfrentar o novo coronavírus em Ribeirão

Para explicar o momento pelo qual atravessa o município e a Secretaria de Saúde, o secretário Sandro Scarpelini recorre ao cinema. No filme "Mar em Fúria", baseado em fatos, os personagens são atingidos, em alto mar, por um fenômeno conhecido como a "tempestade perfeita". O evento é caracterizado pela junção de fatores meteorológicos desfavoráveis e que raramente ocorrem simultaneamente. A tempestade perfeita de Scarpelini tem origem na pandemia do novo coronavírus aliada à profunda crise política e institucional que o país atravessa e aos ânimos exaltados na política municipal. 

Nas últimas manifestações contra o decreto de distanciamento social vimos que algumas pessoas têm agido de forma mais agressiva, ofendendo e até agredindo servidores públicos. Como o senhor tem lidado com esses ataques?

Têm coisas que aparecem aí [apontando para o celular] que beiram a era do obscurantismo, alguns pensamentos que estão mais próximos da inquisição do que de qualquer ciência. Eu não fico batendo boca. A melhor maneira de responder isso é com trabalho. Não vou falar que todas as decisões foram certeiras, mas uma decisão o razoável é melhor que decisão nenhuma. Por mais que tenham pressões vindas da mídia oficial, de mídias sociais, de ameaças, as decisões têm sido tomadas com base técnica e com os melhores dados que possuímos, porque é uma doença nova e não temos todos os dados. Mesmo que agora apareçam vários ‘experts’ no assunto, a única coisa que se sabe é que para manter o sistema de saúde atendendo, é necessário diminuir a razão de multiplicação do vírus, para que a as pessoas sejam contaminadas em uma proporção em que os casos graves não fiquem fora da UTI [Unidade de Terapia Intensiva]. É isso que Ribeirão Preto está conseguindo fazer. Não queria que morresse ninguém, mas 95% das pessoas que morreram, morreram dentro da UTI.

Daria para dizer que a curva de casos em Ribeirão Preto já passou do pico?

Ela está em uma fase de estabilização, mas ainda é uma curva crescente.

A discussão sobre a pandemia vem sempre carregada de uma carga política. O senhor acredita que a questão política se sobrepôs à sanitária?

Sim, e é prejudicial. Veja o exemplo do Hospital Santa Lydia, que desde março atende casos de Covid-19. Todos os hospitais de Ribeirão atendem, com exceção do São Lucas, que destinou o Hospital Ribeirânia para atendimento de Covid-19. Aí, usam esse caso do ponto de vista político. Pegam os pais que estão desesperados porque têm filhos sendo tratados lá e se transformam em ‘padrinhos’ deles. Fazem um escândalo para transformar em um evento político. O que nós vamos fazer, então? Fechar os hospitais por que têm crianças dentro? A queixa dos pais é um medo natural, mas acabam usando isso como argumento político. 

Scarpelini acredita que ‘escapadas’ da população durante a pandemia ajudaram a disseminar o vírus pela cidadeNa esteira dessas críticas, muitos comerciantes têm alegado que Ribeirão Preto fechou "cedo demais", quando não havia necessidade e que isso foi crucial para agravar a crise. O que o senhor pensa a respeito?

Eu acho que foi na hora certa. Quando começou a explosão de casos em São Paulo e a doença ainda não chegava aqui, nós soltamos um decreto que eu defendi dentro do Comitê Técnico. Eu disse: ‘ainda não chegou, mas vai chegar. Enquanto isso, vamos afrouxar um pouco, principalmente para o pequeno comércio, cabeleireiros, etc.’. Nós soltamos o decreto que foi cassado pela Justiça. Agora não é hora de olhar retrospectivamente, porque as pessoas estão morrendo. Não existe ‘se’ para a medicina. A opção que nós fizemos foi a opção pela vida. Não sou eu quem faz o sacrifício da economia. Para além das teorias da conspiração, o responsável pela Covid-19 é a natureza, não sou eu ou o prefeito. Isso sempre aconteceu na humanidade. A economia é uma segunda onda pesada, não tenho a menor dúvida disso. Mas, se fizermos a opção pela economia nesse momento, temos certeza de que iremos sacrificar mais vidas.

Atualmente, a lotação dos leitos é um dos fatores que mantêm Ribeirão Preto na Fase Vermelha do Plano São Paulo. Era previsto que a situação chegaria nesse ponto? 

As pessoas acham que um leito de UTI é só uma cama, mas têm bombas de infusão, respiradores, e não adianta você ter um leito se não tiver profissional. Hoje, na rede municipal de saúde, temos 3,2 mil funcionários e 1,2 mil afastados. Estamos atendendo no limite, até eu estou dando plantão de Covid-19. O governo federal enviou dinheiro, o estadual mandou dinheiro, mas do ponto de vista de organização do sistema de saúde, faltou uma linha mestra. Por isso há uma bagunça, cada município quer fazer algo diferente. O governo do Estado nos mandou 56 respiradores, porque quase ninguém tinha. Os Estados Unidos compraram todos do mercado e até interceptaram uma carga que já estava comprada pelo Brasil. O município fica rendido, como conseguiremos comprar respiradores se nem o governo federal consegue comprar? No primeiro mês, também sumiram do mercado os Equipamentos de Proteção Individual (EPI), como máscaras, aventais e até equipamentos para testes. Como eu coloco um profissional para trabalhar assim? Estamos com 120 dias de tortura diária, cada dia é um problema.

A região de Ribeirão Preto é a que mais tempo permaneceu na fase vermelha do Plano São Paulo. O que foi feito nas outras regiões que faltou em Ribeirão?

Nós conseguimos montar muitos leitos, mas, naquelas escapadas que a população deu, nós passamos dos 80%. Pelo critério do governo, que eu concordo, a taxa de ocupação de leitos de CTI é o ponto primordial. Na região como um todo, praticamente 70% dos leitos de UTI estão em Ribeirão Preto. Campinas, que é uma cidade grande, está usando os leitos de São Paulo. Enquanto aqui é o contrário, outras cidades estão usando os nossos leitos. 

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