Tempo de leitura e de tecnologia

Tempo de leitura e de tecnologia

Bibliotecária por profissão, Gabriela Bazan Pedrão usa a internet para incentivar o hábito da leitura; com suas resenhas e dicas sobre a profissão, sobre obras e sobre autores, conquista vários fãs

Graduada em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP), em 2010, aos 21 anos, Gabriela Bazan Pedrão ignorou comentários negativos sobre sua escolha profissional — que seria antiga e até esquisita para a atualidade — e vem investindo no prazer que vem conquistando como bibliotecária. Durante a graduação, foi bolsista de iniciação científica e focou suas pesquisas na área de biblioteconomia e colecionismo bibliográfico. Já no mercado de trabalho, passou por bibliotecas universitárias, escolares e por centros de documentação. 

Pela escolha da profissão, parece óbvio dizer que Gabriela tem na leitura um grande hábito e que devora várias obras todos os meses, seja no trânsito, enquanto espera uma consulta ou durante uma viagem. Na bolsa, o livro é um item indispensável. O ritual de abrir o livro, sentir as folhas, as texturas e o aroma das páginas está entre os preferidos da jovem, que hoje tem 29 anos. Engana-se, no entanto, quem pensa que Gabriela dispensa a tecnologia: a biblioteca não abre mão de aplicativos de leitura que permitem o acesso on-line a inúmeros livros. Em sua biblioteca virtual, reúne centenas de obras de edições diferentes ou que, por ventura, tenham se esgotado nas prateleiras. 
“A maior dificuldade dos bibliotecários é convencer as pessoas do valor da biblioteca”, enfatiza Gabriela
Atualmente, Gabriela cursa doutorado em Ciência da Informação, na Unesp, e está à frente de dois clubes de leitura, um no Sesc e outro, na Fundação do Livro e Leitura, ambos em Ribeirão Preto. A bibliotecária ainda reserva um tempo para produzir conteúdos para o canal “É o último, juro!”, onde discute literatura e Biblioteconomia. Para Gabriela, a possibilidade de estar em contato com várias mídias ao mesmo tempo, por meio de vídeos, áudios, imagens e textos, é o grande trunfo da leitura para as novas gerações. 

Revide: Quando os livros começaram a fazer parte da sua vida?

Gabriela: Sou uma leitora assídua desde a infância. Meus pais são professores — minha mãe lecionou no Ensino Infantil e meu pai, no Ensino Superior —, então, os livros sempre foram parte do meu cotidiano. Comecei lendo gibis, que estão intimamente vinculados à infância, e fui evoluindo conforme fui crescendo e descobrindo novos livros. 

O que te motivou a escolher o curso de Biblioteconomia?

Na verdade, esta foi uma sugestão da minha mãe, que me viu um pouco perdida. A insegurança que senti é normal nessa fase de vestibular e foi ótimo contar com a orientação da minha mãe. Inicialmente, decidi que prestaria o vestibular para o curso de História e, provavelmente, teria que me mudar de Ribeirão Preto. Isso porque, como muitos jovens, queria passar numa faculdade pública e não tinha o curso na cidade. Acho que foi justamente por querer me manter por perto que minha mãe sugeriu que eu prestasse Biblioteconomia. Fiz as duas provas, mas passei apenas em Biblioteconomia. 

Com 21 anos, você já estava formada. Pela pouca idade, deve ter ouvido muitas pessoas questionarem sua escolha profissional. Como lidou com isso? 

Quando digo que sou bibliotecária, o estranhamento é uma consequência natural. Acredito que isso aconteça porque vivemos em um país que não valoriza muito essa profissão e também não lê muito. Aliás, a cultura ainda enfrenta muitos desafios no Brasil, e a literatura é só uma parte dela que não recebe a devida atenção. Nossa sociedade pouco reconhece a importância das bibliotecas — na nossa cidade, por exemplo, há pouquíssimas opções públicas. Minha profissão vem com um rótulo de atividade antiga, que teria pouca serventia atualmente, em pleno 2018.

Qual é campo de atuação do bibliotecário?

Justamente por imaginar que o ambiente de trabalho de um bibliotecário é apenas a biblioteca é que o estranhamento diante dessa profissão é tão grande. No entanto, vale reforçar que quem conclui o curso de Biblioteconomia tem uma gama de possibilidades mais ampla do que imagina. O bibliotecário do século XXI poderá trabalhar em todos os lugares que reúnem informação a serem tratadas. Sendo assim, este profissional pode estar dentro de empresas, bibliotecas, centros de informação, centros de documentação, entre outros locais. Eu enxergo minha profissão como uma ponte entre aquilo que existe de informação, aquilo que está acontecendo no mundo no presente e tudo aquilo que as pessoas precisam saber.

O que mais gosta na sua profissão?

Após viver experiências tanto na área acadêmica quanto no mercado de trabalho, acho que, de tudo que consegui vivenciar, o contato com as pessoas é o que há de mais precioso. Um dos momentos que mais me marcaram na profissão aconteceu dentro de uma escola onde eu trabalhava. Ali, tinha a nítida sensação de estar influenciando as crianças e os adolescentes de uma maneira positiva, ajudando a criar o hábito da leitura, algo que eles poderão carregar para o resto da vida. Pensar que a criança escolheu um livro, gostou e voltou, para mim, é incrível. 

Qual é a importância de uma boa biblioteca nas escolas, nas faculdades e nos demais centros de estudo?

A biblioteca é importante em todos os lugares: no município, na universidade e na escola. Particularmente, considero a biblioteca escolar fundamental porque ela está intimamente ligada à formação do indivíduo — não apenas como estudante ou profissional, mas como pessoa. Creio que esse espaço é significativo desde o início da alfabetização porque a leitura não ajuda a aprender apenas a escrever e a falar melhor, mas ensina a pensar de um jeito diferente. Auxilia a formar a opinião e o caráter, ensina a elaborar questionamentos e a desenvolver pensamentos. Se observarmos bem, são aprendizados que estão em falta no nosso país. Aliás, quando olhamos sob essa ótica, podemos ter ideia da falta que as bibliotecas realmente fazem em um país e em uma comunidade. O desenvolvimento do pensamento e do senso crítico depende das referências que podem ser encontradas nos livros. Uma biblioteca aberta ao público ajuda a ampliar os horizontes. 

Quais são os desafios enfrentados na sua profissão? 

Pessoalmente, não tive nenhuma dificuldade além do rótulo que carregamos. No entanto, vejo que a maior dificuldade que os bibliotecários encontram é convencer as pessoas de que as bibliotecas têm valor, que merecem um investimento financeiro e um cuidado. Sem dúvida, para os bibliotecários, o maior desafio é fazer nosso trabalho ser valorizado. 

O que há de mais interessante?

Para mim, é o fato de se tratar de uma profissão multifacetada. Existe um leque de oportunidades para o profissional bibliotecário. Se a pessoa tem proximidade com a literatura, gosta de leitura e quer trabalhar com isso, existem as bibliotecas escolares e públicas. Se gosta da parte científica, da academia e de pesquisas, pode procurar uma biblioteca universitária. Se tem vontade de trabalhar na área da saúde, pode se especializar e atuar em centros de documentação. Se prefere o meio jurídico, há muito trabalho em bibliotecas de Direito, em centros informacionais jurídicos e assim por diante. Nosso universo, portanto, é realmente amplo e sempre permite que nos adaptemos às mais diversas necessidades. 

Como enxerga a relação entre a leitura e as novas tecnologias? Acredita que livros impressos serão estão sofrendo na era digital?

Acredito que não. Os e-readers (leitores digitais), por exemplo, são ferramentas incríveis que permitem acesso a inúmeros livros por meio de um aparelho que não pesa e que pode ser carregado para qualquer lugar. Ao meu ver, a internet não irá substituir o livro — ao contrário, eles poderão andar juntos. O que acontece é que muitas pessoas têm uma visão pessimista e até dramática sobre essa questão, imaginando que o livro vai acabar por causa do universo digital, mas não creio que isso não vá acontecer. Na minha opinião, a internet tem, em vez disso, facilitado muito o acesso à literatura, uma vez que permite que se comprem obras diretamente em sites especializados, que entregam na porta de casa, facilitando o processo. Dá para acessar, também, livros que estão esgotados nas prateleiras e garantir a encomenda de uma publicação específica.

De que maneira o canal no YouTube "É o último, juro" surgiu?

Quando comecei o canal, meu foco era a literatura fantástica, a ficção científica e o romance policial, gêneros que gosto muito e que percebi que eram pouco abordados no Youtube. Minha missão era me comunicar com uma comunidade que reunisse pessoas com gostos semelhantes aos meus. Então, comecei o canal fazendo resenhas de obras desses três gêneros e, conforme meu gosto literário foi evoluindo, fui deixando de lado a minha zona de conforto. No canal, discuto temas relacionados à Biblioteconomia e procuro transitar por assuntos mais abrangentes, para que todos que não conhecem a profissão passem a compreender mais nosso trabalho. Com o tempo, percebi uma parcela dos inscritos que procuravam assuntos mais específicos da área, com isso o canal "É o último, juro" acabou virando um misto. Agora, vou começar uma nova linha dentro desses vídeos de Biblioteconomia, destacando personalidades da área que deixaram um legado tanto no Brasil e no mundo. 

Como tornar a biblioteca um espaço mais atraente para todos?

Acredito que as bibliotecas precisam ser vivas. Há que se reunir serviços, eventos e outras possibilidades dentro desses espaços. Hoje, a livraria é bem mais atraente do que a biblioteca porque o ambiente é bacana, moderno, agradável e tem sempre um café, um lugar para comer algo rápido, sentar confortavelmente e conversar. São pequenas diferenças que nos deixam mais abertos a um lugar e não outro. Acredito que a biblioteca do século XXI precisa ter menos regras, ser mais aberta e relaxada, convidativa aos leitores. Precisamos deixar esses espaços livres para a criação.

Em quem você se inspira profissionalmente?

Temos uma comunidade bastante ativa de bibliotecários no Brasil. Além disso, fui fazendo grandes amigos durante minha jornada e, por isso, fica complicado citar um ou dois nomes. Mesmo assim, poderia citar Anthony Panizzi, que inspirou meu doutorado. Esse italiano trabalhou na Biblioteca Britânica, em Londres, e revolucionou a biblioteconomia moderna. Aqui no Brasil, destacaria Rubens Borba de Moraes, que trabalhou na Biblioteca Nacional, e Edson Nery da Fonseca. Vale a pena mencionar, ainda, dois argentinos, Jorge Luis Borges e Alberto Manguel, que não são bibliotecários formados, mas foram — aliás, um ainda é — diretores da Biblioteca Nacional da Argentina. 

Qual seu livro preferido? 

É difícil eleger um livro preferido, pois tenho vários. Um deles é o romance de Umberto Eco “O Nome da Rosa”, que demorei cerca de oito anos para ler. Eu começava, gostava, mas não o suficiente para continuar e parava novamente. Quando retomava a leitura, não lembrava mais nada e tinha que recomeçar. Fiz isso inúmeras vezes até perceber que estava lendo uma edição ruim, antiga, com letras pequenas, o que influencia totalmente a leitura. Comprei uma edição nova e, finalmente, consegui concluir uma das leituras que mais me marcaram. A saga Harry Potter também teve grande importância na minha vida, assim como na vida de muitas pessoas que, como eu, nasceram no fim dos anos 80 e começo dos anos 90, pois crescemos junto com o protagonista. Outro livro que faço questão de ressaltar é Aleph, de Jorge Luis Borges, que foi lido nos clubes de leitura de Ribeirão Preto. Foi uma leitura muito legal, uma discussão interessante que abriu minha mente para um gênero literário que conhecia, mas não havia mergulhado. “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, também foi muito especial. Todos esses livros seguem esse contexto e tratam de livros e literatura de uma forma ou de outra. 

Em suas viagens, a jovem examina com cuidado as bibliotecas das cidades por onde passaJá visitou muitas bibliotecas? Alguma a marcou, em especial?

Sempre vejo bibliotecas de uma forma mais técnica, observando cada cantinho, procurando mais informações e fazendo várias perguntas. Em todos os lugares onde vou, gosto de conhecer a biblioteca, então, tive algumas oportunidades especiais. No ano passado, fui bolsista na Biblioteca Nacional. Esta foi uma experiência incrível: passar um ano como pesquisadora, tendo acesso ainda mais abrangente do têm as pessoas que frequentam o local. Nossa biblioteca é maravilhosa, uma das mais bonitas que tive a oportunidade de conhecer pelo mundo. Existem, sim, alguns problemas de estrutura e de incentivo que, infelizmente, fazem parte de toda cultura brasileira, mas é uma biblioteca magnífica e nenhuma delas me encanta mais do que esse lugar. Por conta do meu doutorado, fiz uma pesquisa de campo na Biblioteca Britânica, que possui um contexto diferente, uma vez que se trata de uma biblioteca construída nos anos 90, desenhada com um olhar mais moderno, pensando em um lugar que pudesse receber diversas atividades, muito além dos livros. Aquele é o espaço ideal para reunir exposições, cursos, café, restaurante, livros e pesquisas: tudo o que você imagina está acontecendo ali. A Biblioteca Britânica é um espaço vivo, que abraça a comunidade. 

Texto: Pâmela Silva | Fotos: Ibraim Leão

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