Temporada de movimentação financeira
Ribeirão Preto terá a injeção de R$ 794,3 milhões na economia com o pagamento do 13º salário, o que deve trazer crescimento ao varejo e encerrar o planejamento anual das empresas
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Texto: Raíssa Scheffer
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A partir dos próximos dias, a economia de Ribeirão Preto começa a receber uma injeção de aproximadamente R$ 794,3 milhões com o pagamento do 13º salário. A estimativa da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp) é relativa ao montante total do benefício, pago em duas parcelas. Neste ano, o valor será 5,6% maior em relação a 2018, principalmente por conta da retomada da geração de empregos em Ribeirão Preto. Toda essa movimentação financeira trará reflexo direto no comércio local, que já se prepara para o aumento das vendas neste fim de ano, na esteira de uma recuperação econômica que começa a mostrar sinais na cidade. Já para as empresas que farão o pagamento do 13º aos colaboradores, a preparação começou há meses, também com o planejamento baseado em uma mudança no cenário da economia nacional.
Pela lei, as empresas devem depositar a primeira parcela do 13º até o dia 30 de novembro. Nessa etapa de pagamento, o profissional recebe metade do valor do salário sem nenhum desconto. Já a segunda parcela precisa ser paga até o dia 20 de dezembro. Dela são descontados Imposto de Renda (IR) e a taxa do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Quem optou pelo adiantamento do 13º salário nas férias não recebe a primeira parcela, somente a segunda. Tem direito ao 13º salário todo trabalhador contratado pelo modelo da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), ou seja, com carteira assinada, que tenha trabalhado por pelo menos 15 dias durante o ano e não tenha sido demitido por justa causa.
Em Ribeirão Preto, segundo levantamento da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp), cerca de 235 mil profissionais receberão o 13º neste ano, com um valor médio de R$ 2.809. Em relação a 2018, por conta de uma reação no mercado formal na cidade, houve um crescimento de 2,1% no total de trabalhadores com carteira assinada. Já em relação ao salário médio, o reajuste na cidade foi de 3,8% de um ano para o outro. Segundo o economista da Acirp, Gabriel Couto, todos esses fatores levaram a uma alta no montante total que deverá ser injetado na economia local com o 13º, resultado de uma ligeira melhora das perspectivas econômicas.
Planejamento
Para as empresas que terão a obrigação de fazer os depósitos aos colaboradores a partir deste mês de novembro, o planejamento começou ainda em 2018, já levando em consideração esse novo cenário que se desenha na economia nacional. “Todo o processo desse pagamento começou, no planejamento, em setembro do ano passado. Levamos em consideração o cenário econômico, analisando pontos como a perspectiva de inflação, o crescimento do PIB e também informações sobre a categoria de atuação da empresa”, explica César Augusto Pezzotti, gerente corporativo de controladoria da Santa Helena, uma empresa com cerca de 1.300 funcionários.

Além desse planejamento, Pezzotti conta que, ao longo do ano, é feito um monitoramento do orçamento, conforme ocorrem mudanças no cenário financeiro. “Em 2019, vivemos um ano bem desafiador, mas conseguimos atender às expectativas”, complementa. O gerente destaca, ainda, outro fator importante para as contas: a carga tributária. “Além de ter um peso relevante no orçamento, esse recolhimento também é complexo”, conta.
Essa barreira também é sentida duramente por empresas de menor porte. Na companhia de Dimas Fausto, com 35 funcionários, os impostos em cima da folha de pagamento causam forte impacto e a saída é uma gestão financeira forte. “É possível trabalhar e se preparar durante todo o ano para esse momento. Com um planejamento detalhado, o caixa se forma ao longo do ano”, explica.

O empresário conta que, na Dimastec, a folha de pagamento tem um impacto de 20% do faturamento. “Por isso, o planejamento é fundamental, principalmente na área financeira. Costumo dizer que, na gestão de uma empresa, não importa o quanto você ganha, e sim o quanto você gasta”. Dimas destaca que, com uma melhora nas contas em 2019, o cenário se tornou favorável durante o ano, com boas perspectivas para o planejamento de 2020, que já começou. “Tivemos um aumento representativo de 16%, com uma boa reação. Por isso, o cenário está esperançoso e estamos em condições de retomar o crescimento econômico”, conclui.
O melhor em seis anos
Essa esperança na retomada fez com que o comércio varejista de Ribeirão Preto projetasse um crescimento de até 20% na movimentação de vendas para este fim de ano, na comparação com 2018. Segundo o Sindicato do Comércio Varejista (Sincovarp), este será o melhor Natal dos últimos seis anos na cidade. “Em 2018, em dezembro, as vendas do comércio varejista em Ribeirão Preto tiveram queda de 0,38%, em comparação com o ano anterior. Com a retomada parcial da economia e, principalmente, com a liberação de recursos extraordinários para o consumo, como os saques no FGTS e no PIS/Pasep, além do 13º salário, as pessoas irão às compras e ajudarão no avanço das vendas”, diz Paulo Garcia Lopes, presidente do Sincovarp.
Segundo o economista da Acirp, Gabriel Couto, como essa retomada ainda dá os primeiros passos, muitos consumidores devem liquidar dívidas e também fazer uma poupança com o 13º, mas, ainda assim, é esperado que uma parte razoável dos recursos se destine à compra de presentes neste ano. “Apesar do contingente de desempregados ainda elevado, o momento do emprego na cidade é melhor em relação a 2018. Adicionalmente, a economia apresenta crescimento positivo, apesar de baixo, e além do 13º, há a liberação dos recursos do FGTS”, reitera o economista.

O consumidor Darwin Frick, 57 anos, acredita que é preciso uma avaliação das contas antes de gastar. “Você tem que usar o 13º de acordo com o momento que você está passando. Se você está precisando pagar uma conta, pague a dívida. Se estiver sobrando, você pode utilizar para comprar algum presente de fim de ano”, destaca o profissional que presta serviço de suporte técnico em uma empresa. Para ele, também é preciso pensar nos impostos do início do ano e usar o salário extra com sabedoria. Para a técnica em enfermagem Mariana Gastaldi Angelo Silva, 31 anos, é importante colocar as contas na ponta do lápis e usar o 13º como reforço para quitá-las, mas também “vale comprar presentes”.

A estimava é que os gastos médios com o presente de Natal fique em torno de R$ 150 e R$ 200 em Ribeirão Preto, segundo o Sincovarp, que também destaca setores que devem vender mais neste ano. “Nesta época, os clientes buscam produtos diferenciados, principalmente para as crianças. Outros, estão à procura de algo mais barato, as tradicionais ‘lembrancinhas’. Os setores que mais se destacam no período são: vestuário, calçados, presentes e brinquedos. Os segmentos de móveis e eletrodomésticos também têm evolução, já que muitas pessoas aproveitam o Natal para renovar a casa para as festas. Em dezembro de 2018, as lojas de móveis tiveram crescimento de 3,71%, seguidas por calçados (3,60%) e presentes (0,96%)”, destaca Paulo.

O repositor de mercadorias Elieser José, de 21 anos, é um dos que deve gastar parte do 13º com as compras para a casa. “Acho que o importante é gastar com produtos úteis. A prioridade deve ser com a casa e com os filhos. Se sobrar um pouco, ai podemos gastar com a gente. Acredito que o mais recomendado seja não gastar com besteiras, não comprar coisas desnecessárias”, avalia.

Preços
Apesar da movimentação maior de compras, os consumidores não devem sentir tanto a variação na hora das compras, isso porque, segundo o Sincovarp e também a Acirp, os preços tendem a apresentar uma estabilidade neste ano. “Não deve haver reajustes tão altos e a média de preço deve se manter a mesma do ano passado”, destaca Paulo. O economista Gabriel explica que isso ocorre, principalmente, por conta do cenário de inflação controlada. “O comportamento dos preços varia muito entre setores. De maneira geral, a inflação se encontra em patamar baixo, o que, somado às condições financeiras ainda restritas das famílias, deve limitar a alta dos preços”, esclarece. Ele destaca que somente produtos importados diretamente devem sofrem mais com a alta de preços.

Nos shoppings
Todo esse cenário positivo do mercado e também o pagamento do 13º, que com a primeira parcela deste mês deve injetar R$ 432,6 milhões na economia de Ribeirão Preto, já movimenta os shoppings da cidade. Com campanhas e decoração no clima natalino já nos corredores, os empreendimentos acompanham as expectativas otimistas. “A chegada do fim do ano é sempre de grande expectativa para o varejo e, no Shopping Iguatemi Ribeirão Preto, estamos otimistas. Fecharemos 2019 como o melhor fim do ano da história do empreendimento”, diz Carolina Pajaro, gerente de marketing do Iguatemi.

Márcio Almeida, gerente de marketing do Novo Shopping, destaca que, para comemorar os 20 anos do empreendimento, haverá uma quantidade de prêmios inédita. “Este ano, a campanha de Natal é especial. As expectativas são as melhores possíveis, pois o público sempre demonstra participação ativa e fiel a nossas campanhas”, enfatiza.


Para Paulo Querido, superintendente do ShoppingSantaÚrsula, a campanha e a decoração também são atrativos: “Já sentimos um aumento no fluxo de clientes, que vêm até o shopping não apenas atrás de boas compras, mas também em busca de uma boa experiência, de passar momentos agradáveis ao lado da família.” Esta também é a aposta do RibeirãoShopping. “Nossas expectativas são bastante positivas e estamos confiantes num crescimento substancial nas vendas e no fluxo de clientes em relação a 2018”, afirma João Fernandes, superintendente do centro de compras.
Empregos
Segundo a Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop), a expectativa de aumento de fluxo é geral entre os lojistas e um termômetro são as contratações temporárias para o fim de ano, que, em 2019, são as maiores desde 2014. A Associação Brasileira do Trabalho Temporário (Asserttem), estima, em todo o Estado de São Paulo, a criação de 366.058 vagas temporárias para o último quadrimestre do ano, sendo cerca de 292.690 vagas em novembro e dezembro, um crescimento de 14,3% em relação ao mesmo período de 2018.
O diretor regional da Asserttem, Douglas Pereira, destaca a porcentagem de efetivação desses profissionais. “Considerando que os quadros efetivos das empresas ainda estão extremante enxutos, a expectativa é que este índice, que era de 30% até 2014, volte a crescer nessa retomada da economia, justamente para repor parte do quadro efetivo que foi reduzido ao longo dos últimos anos”, ressalta. Pereira também assinala que o comércio é um dos principais setores que geram essas vagas.
Quem está disposto a garantir uma das oportunidades precisa ser proativo e ter vontade de aprender. “Para o comércio, boa comunicação e facilidade para relacionamento com o público também são muito valorizadas”, pontua. Foram essas qualidades que fizeram com que Maria Eduarda Jamati Martins, 22, conquistasse uma vaga fixa após uma temporada de fim de ano em uma loja em um shopping de Ribeirão Preto. “Foi uma trajetória de muito foco e determinação. De certa forma, eu precisava me dedicar muito para ter um destaque, sempre com o objetivo de ser efetivada em mente para poder alcançá-lo. Eu acredito que ninguém é bom em tudo, mas todo mundo tem algo que é muito bom e vale ressaltar isso na empresa e fazer essa característica ser um diferencial”, considera a profissional. Maria Eduarda também reforça que o “mercado exige que você saiba se relacionar de maneira positiva com todas as pessoas, assim você consegue manter uma rede de contatos, através da sua disposição, do seu bom humor e de saber ouvir o próximo. É preciso que você tenha organização e planejamento para conseguir montar estratégias para alcançar objetivos, além de ser pessoas comprometido com aquilo que faz”.

Giovanna de Castro, 24 anos, também foi contratada pela loja e acredita que o foco em conseguir a efetivação é fundamental. “Entrei na loja já com esse objetivo. Acredito que, em primeiro lugar, é preciso entregar números. Estar sempre em movimento, ser comunicativo, simpático e proativo também é fundamental. Soa clichê, mas é preciso ser muito ágil, inteligente e ouvir com muita atenção seu superior para enxergar o que é preciso para fazer um bom trabalho e, consequentemente, ser efetivado”, conclui.
Qual a melhor forma de usar o 13º?

Contas
“O 13º deveria ser utilizado para pagar dívidas. É o mais importante, já que muitas pessoas estão endividadas. Por conta da situação em que estamos, acredito que o melhor seja fazer uma administração e, se sobrar, pode utilizar para fazer as compras.”
Augustin Pizzaro, de 52 anos, empresário

Poupança
“Eu acho que tem que utilizar o 13º para fazer uma poupança. Ao meu ver, esse dinheiro deveria ser guardado para futuros gastos e poupado para um futuro melhor. Ninguém sabe o que vai acontecer daqui alguns anos.”
Gelza Maria Andrade, de 50 anos, técnica de enfermagem