Testemunha do destino
Ativista do Movimento Social Negro e fundador do Centro Cultural Orunmilá, em Ribeirão Preto, Paulo César Pereira de Oliveira, "bate papo" com nosso portal
Ativista do Movimento Social Negro e fundador do Centro Cultural Orunmilá, em Ribeirão Preto, Paulo César Pereira de Oliveira, não mede esforços no combate a desmistificação das religiões de matriz africana e na valorização da cultura negra.
Com vivência de mais de 40 anos na Tradição Yorubá e profundo conhecimento da problemática da igualdade racial no Brasil, está sempre sendo convidado a palestrar sobre o tema, como aconteceu na Rio + 20, e também presta assessoria para a Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial (SEPIR).
A seguir, acompanhe uma entrevista realizada pelo portal da Revide com Paulo de Oliveira.
Qual a história do surgimento do Centro Cultural Orunmilá?
Paulo de Oliveira - Embora chamem de ONG, pra mim não é, pois não recebemos verba da prefeitura, não recebemos dinheiro público para nada. Uma ONG não pode cumprir papel de movimento social, porque ela se torna dependente do estado. Vendi um apartamento em São Paulo e construi minha casa aqui na frente e, nos fundos, fomos construindo, aos poucos, um espaço multiuso.
O que o Centro Cultural Orunmilá oferece?
Paulo de Oliveira - Temos um espaço para pratica de oficinas, capoeira, dança afro, percussão, informática e realização de palestras, seminários e encontros. Também temos a Biblioteca Ile Latied Dudu (Casa da Cultura Negra) com livros clássicos e temáticos, voltados para a história e cultura afro brasileira. E temos uma uma rádio comunitária, onde gravamos CDs para a juventude negra excluída, e isso muda completamente a vida deles. Usamos a cultura como elemento de valorização da cultura negra e combate a discriminação. Aqui a discussão política e conceitual é maior que as atividades oferecidas. Através das ferramentas do lúdico, atraímos a juventude para uma discussão mais aprofundada. Promovemos a dança e a música não para passar o tempo, mas para passar o dia todo fazendo essa discussão.
O que é essa Tradição Yorubá de que tanto fala?
Paulo de Oliveira - Provém de um grupo étnico africano, que habita a Nigéria, e que chegou ao Brasil por volta de 1.750. A Tradição Yorubá constitui o aprendizado da língua, da mitologia, da música e da religião dessa etnia. E parte significativa da matriz cultural africana no Brasil tem origem na Tradição Yorubá.
E qual a sua formação?
Paulo de Oliveira - Entrei em várias faculdades, mas sempre me defrontei com a resistência em relação ao modelo educacional ocidental, que não reconhece outras possibilidades de saber e hierarquiza o conhecimento. Então, acabei estudando muito o pensamento ocidental, até para combatê-lo. Existe na cultura africana uma infinidade de pensamentos que se contrapoem ao pensamento ocidental.
Por exemplo?
Paulo de Oliveira - Por exemplo, em Yorubá (língua africana) “ni” significa ser, ou em Banto (outra língua africana) “ntu”, também expressa a ideia de ser, mas a compreensão de ser humano contida nessas palavras é diferente para o africano, que só estabelece o ser a pártir do momento que o outro o reconhece, ou seja, remete a um sentido de coletivo, em contraposição efetiva ao individualismo ocidental. “Eu só existo porque você me reconhece”.
A cultura negra no Brasil resgata essa Tradição?
Paulo de Oliveira - Mais da metade dos brasileiros é negra, segundo o IBGE 51% da população, mas o país vive a hegemonia de uma única cultura, a branca, pois tudo o que vem do negro, ou mesmo do indígena, é caracterizado como “folclore” ou como “popular”. A população negra no Brasil foi ensinada a não se reconhecer, a negar seus valores, e se você não tem um fator positivo para se reconhecer você não tem porque lutar por isso ou valorizar isso. Essa é nossa realidade, somos maioria mas não estamos nas universidades ou nas prefeituras. Os espaços de poder não estão representados por essa população. Vivemos um “apartaid” não oficializado, o que impede a tomada de consciência da população. Enquanto em outros países, como EUA e África do Sul, não é preciso conscientizar o negro a se organizar contra o racismo, aqui no Brasil oito entre dez jovens mortos são negros e não se faz nada a respeito. O racismo ocorre quando o Estado o exerce e promove, por exemplo, impedindo acesso dessa população a serviços essenciais como saúde e educação. E isso acontece no nosso país. Tudo isso tem origem na colonização católica, que diferente da evangélica não promove o “apartaid”, o racismo no Brasil exclui com o discurdo de que inclui.
Então você é a favor do estabelecimento de cotas?
Paulo de Oliveira - Sou 100% a favor de cotas, o que nós queremos é diminuir a cota branca que já existe. O acesso é universal, mas as condições a que essa população negra foi relegada durante 500 anos não permite esse acesso.
A população negra está aumentando, não será uma tendência natural essa inclusão?
Paulo de Oliveira - A população negra não aumentou, o que aumentou foi o reconhecimento das pessoas como negras. Graças ao trabalho intenso realizado pelo Movimento Negro no Brasil, o número de pessoas que se reconhecem negras aumentou. Há 20 anos, por exemplo, pessoas da minha cor não se diziam negras.
E o que o Movimento Social Negro tem feito no sentido de promover a igualdade racial?
Paulo de Oliveira - Agimos basicamente em duas frentes. Um coisa é a luta por reparação, para dar mobilidade e promover econômica e socialmente a raça negra no país. Outra coisa é combater o racismo, que tem seu embate no campo da cultura. Mas esse não é um embate no sentido de destruir a cultura ocidental, e sim de valorizar também o que é negro.
O que já foi conquistado?
Paulo de Oliveira - Tivemos avanços e retrocessos aqui em Ribeirão Preto. Havíamos conseguido elaborar uma Assessoria de Promoção da Igualdade Racial, que era diretamente ligada ao gabinete do prefeito e agia em vários segmentos, como por exemplo, e principalmente, na área da saúde, onde conseguíamos promover a capacitação dos profissionais de saúde para atendimento da raça negra que possui doenças específicas, tipo a Anemia Falciforme. Mas, no momento, estamos sofrendo um retrocesso histórico neste sentido porque essa Assessoria foi desabilitada.
E qual é o “embate” maior deste momento?
Paulo de Oliveira - Um importante é a implementação da Lei 10.639/03, que obriga o ensino de História da África, de cultura negra e dos afrodescendentes no Brasil. Essa é uma lei nacional, de 2003, mas que ainda não saiu do papel. não só em Ribeirão Preto mas em todo o país. É preciso que se conte nas escolas a verdadeira história do nosso continente.
Leia também o artigo "Orunmilá e a Lei 10.639/03", de autoria de Paulo de Oliveira.
https://culturadigital.br/conferencialivreemribeiraopreto/textos/o-orunmila-e-a-lei-10-63903/
Revide Online
Texto: Yara Racy
Fotos: Júlio Sian