“Tirinhas” na internet
Profissionais do ramo das artes visuais falam sobre webcomics: as histórias em quadrinhos na internet
As famosas tirinhas, bem conhecidas dos cadernos de cultura dos jornais e revistas, ganharam um forte aliado: a internet. Unidas à mídia, tornaram-se as “Webcomics”. Se antes, sem o advento da mídia virtual, o caminho era tentar entrar para o time de alguma redação ou editora, hoje a história é diferente. Através da rede mundial de computadores, os quadrinistas — profissionais que desenvolvem as histórias em quadrinho (HQ) —, muitas vezes ficam conhecidos antes mesmo de terem seus trabalhos publicados.
Pedro Hutsch Balboni, quadrinista paulistano de 25 anos, a exemplo disso, é um dos muitos profissionais responsáveis pela criação do vasto mundo das histórias em quadrinhos que ficaram conhecidos inicialmente pela internet e, em seguida, tiveram seus trabalhos publicados, fisicamente, em formato de livro.
Balboni financiou o próprio livro e lançou, em 2012, o seu primeiro trabalho impresso. Intitulado “Primeiras Impressões”, o livro contém as aventuras das famosas joaninhas, criadas por Balboni em 2008, para um concurso enquanto cursava a faculdade de Comunucação Social.
“Meu livro é uma coletânea de tiras publicadas na internet e só foi possível devido à essa mídia. Encarei o livro como a consolidação de um trabalho. Além disso, o público criado ao longo dos anos ajuda muito na hora de pensar em vendas”, explica Balboni.
Michelle Magrini, curadora do evento “UMQDHQ”, que traz oficinas com diversos quadrinistas do estado, ao SESC Ribeirão Preto, acredita que a internet seja como uma “porta de entrada” para os novos cartunistas, uma nova tendência. “É importante para que os autores encontrem sua linguagem, seu público e então possam pensar em como será a produção posteriormente. Outra coisa interessante da Internet é que ela permite maior liberdade de expressão”, analisa Magrini. A curadora cita, ainda, que alguns dos jovens quadrinistas das webcomics, afirmaram que já estariam trabalhando em jornais ou editoras se produzissem coisas diferentes. Mas, nas palavras de Magrini, “eles preferem produzir quadrinhos autorias. Como é o caso das joaninhas, do Pedro”, aponta.
Balboni, criador de Joãos&Joanas, foi um dos convidados a participar do evento organizado pelo SESC e esteve em Ribeirão Preto nos dias 11 e 12 de julho, onde realizou uma oficina sobre “webcomic” e as personagens criadas por ele.
Para o jornalista e cartunista ribeirãopretano, Caetano Cury, que desde 2006 mantém o blog O Pança, eventos como o realizado pelo SESC são importantes para apresentar e aproximar cartunistas já consagrados aos novos cartunistas. “Pra mim, que sou fã incondicional desses caras, é fenomenal vê-los aqui. É uma oportunidade de conhecer como eles trabalham, descobrir segredos e saber um pouco mais dos bastidores das ideias geniais. Sem contar a chance de conhecer gente nova interessada em fazer o mesmo. É uma janela aberta para o mundo dos quadrinhos”, explica o cartunista.
Nas redes
Algumas das primeiras publicações virtuais de quadrinhos datam de 1986 e eram postadas via FTP (Protocolo de Transferência de Arquivos, em português), ou em Usenet (Unix User Network), uma espécie de fórum virtual. A evolução tecnológica permitiu que esses quadrinhos on-line também evoluíssem e se tornassem uma plataforma atraente aos cartunistas desconhecidos.
Para Cordeiro de Sá, cartunista e produtor cultural ribeirãopretano, a internet é tão importante para os quadrinhos como é para a música, por exemplo. Cordeiro de Sá, coordenador do projeto RPHQ, também mantém uma página na rede social Facebook, chamada “Ribeirão Preto em Quadrinhos”, onde divulga vários trabalhos e assuntos relacionados ao tema. “A internet é uma ferramenta importante. Programas como o Mundo Canibal (animação) e Porta do Fundos (vídeo de comédia), são exemplos clássicos desse fenômeno de programas que começaram na internet e hoje estão na TV”, salienta o quadrinista.
Pedro Hustch Balboni acredita que ter as tirinhas publicadas em livro seja legal, porém, não é necessário. Para ele, estar num livro, revista ou jornal, “é uma opção”. Balboni recorda que, criar um blog o tornou mais disciplinado, pois precisava manter a plataforma atualizada e de maneira organizada.
Sobre a publicação das webcomics em livros, Balboni diz: “Quando se publica tiras na internet há algum tempo, uma coletânea (em livro) acaba sendo mais um degrau na caminhada, consolida uma etapa do trabalho. Como um marco”, explica.
Ainda sobre ter trabalhos publicados, o cartunista Caetano Cury afirma que, no seu caso, lançar um livro, não é uma realidade muito próxima. Para que a publicação em livro de sua webcomic se concretize, Cury explica que a ideia exposta no seu blog precisa ser amadurecida. “Creio que um livro seria possível caso o Téo (personagem de sua autoria) ficasse mais conhecido. Pra isso é preciso volume de tirinhas e, o mais importante, conteúdo. Pois, é um público específico, mas que aprecia bastante”, frisa.
Para Michelle Magrini, do SESC, as mídias se complementam. A internet, na opinião da curadora do UMQDHQ, pode ser capaz de ampliar a autonomia da publicação pelo próprio autor do quadrinho. Magrini conta que é muito interessante observar o percurso da produção dos quadrinistas. “Alguns deles nascem na internet e acabam lançando seus livros. Já outros começaram almejando as mídias tradicionais, como os jornais impressos, e acabaram se destacando na internet”, conclui.
SESC organiza evento
A terceira edição do “UMQDHQ” teve início no dia 11 de julho e permanece até 31 de agosto no SESC de Ribeirão Preto.
O evento terá oficinas com André Dahmer, Carlos Ruas e Marcos Noel. “Eventos como o UMQDHQ são fundamentais para o mundo dos quadrinhos. São uma oportunidade para quem está produzindo divulgar e para quem tem interesse aprender. E aí quem foi para divulgar acaba aprendendo e quem foi aprender acaba divulgando”, finaliza o paulistano Balboni.
Acesse e conheça Pedro Hustch https://joaosejoanas.com/
Caetano Cury https://opanca.blogspot.com.br/
Confira aqui a programação do UMQDHQ https://issuu.com/sescribeiraopreto/docs/folheto_umqdhq_2013
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Texto: Bruno Silva
Foto: Divulgação