Tradições que resistem
Em absoluta expansão do mundo tecnológico, as benzedeiras, as cartomantes e as bruxas permanecem em plena função
Em uma casa singela, uma crença antiga resiste ao tempo. Numa tarde ensolarada de segunda-feira, uma senhora de fala humilde e cabelos grisalhos abre as portas para mostrar o trabalho que desempenha desde os 15 anos. Prática comum desde os primórdios da humanidade, as benzedeiras atraem pessoas de diversas localidades e dona Maria das Graças Gonçalves, 71 anos, faz questão de carregar essa tradição, cada vez mais escassa na atualidade. Esconderijo para muitos com problemas pessoais distintos, o local serve de morada provisória àqueles que agem em nome de uma fé capaz de curar os males da alma.
Mesmo com todo progresso tecnológico dos últimos tempos, algumas mulheres preferem preservar a tradição antiga de receber as pessoas em casa. Em uma espécie de simbiose, o local de atendimento é o mesmo de morada. Cada lugar possui uma característica peculiar, evidencia uma crença distinta que, segundo elas próprias, cresce a cada dia. Há quem diga que tem até fila de espera. Seja qual for a crença, benzedeira, bruxa — sim, elas existem e garantem fazer o bem — ou cartomante, essencial mesmo, acreditam elas, é cada um buscar pelo que de fato acredita e promove bem-estar.
Dona Maria conta que já atendeu muita gente, de todas as formas. Agora, não faz mais o trabalho de portas abertas. Caso alguém precise, é só ligar que ela atende. “Não recuso convite de ninguém. Se eu estiver almoçando, peço para trazer o telefone, encosto meu prato num canto e vou saber o que é”, detalha. Ela narra que tanto a família materna quanto a paterna tinha benzedeiros que nunca deixaram de frequentar a igreja católica. Imersa nesse meio de bênçãos, acompanhou os pais desde pequena nas orações e destaca que, aos 15 anos, já estava desenvolvida e trabalhava em um centro espírita. “Eu incorporava e benzia também. É um dom que vem de família”, destaca.
No local sagrado, todos entram descalços. À primeira vista, um altar impressiona pela quantidade de imagens. Ali, todos convivem de forma harmoniosa: santos católicos, orixás, guias — colares usados em sessões religiosas afro-brasileiras — e velas dão boas-vindas aos visitantes. Em círculo, Maria faz uma oração por todos e, na sequência, parte para o ofício. Benze com o terço em mãos e folhas de guiné, usada também para fins terapêuticos. Em menos de dez minutos, profere orações e o ritual termina.
No local sagrado, todos entram descalços. À primeira vista, um altar impressiona pela quantidade de imagens
Os problemas que as benzedeiras mais tratam vão desde quebranto (espécie de olho gordo, comum em crianças), mau-olhado, cobreiro (alergias), espinhela caída (dor nas costas, pernas e estômago) até depressão e ansiedade, distúrbios cada vez mais recorrentes na sociedade. Essa é uma das razões pelas quais Maria não deixa de atender quem precisa. Ela pensa que o tempo que poderia pedir para alguém esperar talvez seja fatal.
Hoje, na família, apenas Maria benze, uma tradição que não foi passada para as próximas gerações. “Isso não passa. Eu rezo perto da minha filha, mas não sou eu quem vou ensinar. Se quiser, ela aprende. O benzer é um dom de Deus. Até quando ele puder
me deixar de pé, em frente àquele altar, vou atender todos os irmãos que baterem a minha porta”, destaca a benzedeira, que, em troca, pede a ajuda que a pessoa puder dar."
Há cerca de 12 anos, a empresária e economista Juliana Stelzer Pinho conheceu dona Maria por meio de uma amiga em comum. Quando perdeu o pai, em um acidente de carro, ela sentiu necessidade de visitar o local mais vezes e isso ajudou muito para que superasse a perda e que tivesse as dores internas amenizadas. Hoje, quando sente vontade, vai visitar, seja para ser benzida, seja para ouvir uma palavra amiga ou perguntar se precisa de algo. “Ela é muito experiente, simples, recebe as pessoas muito bem. É a verdadeira benzedeira e tem uma energia maravilhosa. Quando chego perto dela, sinto que fico carregada de energias positivas. Basta apenas colocar as mãos e já sinto na hora. A fé também faz com que você alcance os objetivos”, explica a empresária.
Sabedoria cigana
Em outro extremo da cidade, uma senhora também mantém ativa uma tradição de séculos. Nada de atendimento pelas redes sociais, ela vai na contramão das novas tecnologias. Escolheu viver uma vida reservada, longe dos holofotes dos centros urbanos. Nos fundos de uma casa, onde se encontra a própria residência, dentro de seu quarto, ela recebe, a manhã toda, clientes que querem saber sobre o destino por meio da leitura de cartas. Maria Patrocínia de Oliveira, 62 anos, mais conhecida como Maria Cigana, olha a sorte desde os 28 anos. Lá se vão 34 anos de empenho dedicado a milhares de pessoas que já passaram pela casa. Ela atende cerca de 10 pessoas por dia, com fila de espera.
O recado escrito no papel logo na entrada é bem claro: “Atendimento de segunda a sexta-feira e por ordem de chegada”. Maria recebe até clientes de outros países e, nesse caso, um intérprete entra em cena. Dentro de 20 minutos a meia hora, o trabalho é feito, de acordo com ela, traçando o destino de cada pessoa e indicando qual o melhor caminho que cada um deve seguir. Porém, há pessoas que a procuram apenas para desabafar. “Eu amenizo sofrimento, dou vida, mostro um caminho a seguir, peço para que tenham uma religião, que agradeçam a Deus, pois é importante estar em sintonia com Ele”, ressalta.

Maria Cigana é católica frequentadora da igreja, comunga e até confessa com o padre sobre as atividades que desempenha. Na entrada do quarto, uma bola de cristal com uma luz no interior espanta as energias negativas dos visitantes. Uma divisória de madeira separa sua cama da mesa onde joga as cartas. Mais ao fundo, um altar com santos e velas demostra a religiosidade da cartomante. Maria veio da cidade de Pratápolis (MG) para Ribeirão Preto, após se casar. Como não conseguiu se inserir, à época, no mercado de trabalho, decidiu ser manicure, depois de fazer um curso. Ali, as mulheres desabafavam e pediam conselhos constantemente. Certo dia, decidiu brincar olhando a sorte de uma cliente, após pegar o baralho de algumas crianças que brincavam no local.
“Eu amenizo sofrimento, dou vida, mostro um caminho a seguir, peço para que tenham uma religião, que agradeçam a Deus", diz maria cigana
De lá para cá, segundo a cartomante, ela não teve mais sossego. A cartomancia rendia mais dinheiro a ela do que o ofício de manicure. Hoje, ela cobra R$ 60 para cada atendimento e deixa claro que o dinheiro é para custear suas necessidades e cuidar da família. A neta de cigano explica que cada carta tem um significado e elas mostram o caminho certo que cada um deve seguir, contudo, é preciso ter sabedoria e esperteza de raciocínio. “Hoje, na minha família, ninguém faz isso. Eles me condenam e ora me chamam de macumbeira, mas, enquanto eu tiver saúde, estarei aqui, pois é o que gosto de fazer”, completa.
Há 16 anos, o bacharel em Direito Cláudio de Paula Joaquim frequenta a casa da cartomante. Pelo menos duas vezes ao ano, ele vai até ela para saber sobre o destino. Ele explica que nem sempre é assertiva, principalmente com relação a datas, contudo, na maior parte dos casos, desempenha bem sua função. Cláudio, também formado em Jornalismo, ainda quando estudante, fez uma reportagem sobre cartomancia e depois de conhecer 35 profissionais na cidade, chegou à conclusão de que Maria adivinha mais, além de ser segura. “Vou até ela porque acredito, as previsões acontecem. Ela orienta por meio do que vê nas cartas, mas é preciso que você faça sua parte também. Digo que a Maria é melhor que psicólogo e psiquiatra. Sempre saio bem de lá, com as energias renovadas”, pontua.
Saindo dos contos de fadas
Como diz o ditado: “Não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem” — e garantem fazer o bem ao próximo. Aquela imagem negativa imposta pela história parece só estar presente nos filmes de ficção. A velha má e solitária, com verruga na ponta do nariz e feição estranha dá lugar, nos dias de hoje, a bruxas que têm como missão levar o bem a quem precisa. Com roupa colorida, adereços, joias e sorriso alegre, elas prometem deixar para trás a dor vivida por muitas, que, na Idade Moderna, foram torturadas e queimadas, para sinalizar os perigos de práticas e saberes de instituições que dominavam à época. Elas eram acusadas de fazer feitiços e usar poderes sobrenaturais, talvez conseguidos por meio de pactos com demônios.
A bruxa Adriana Leonel Strambi, formada em Educação Artística e que há mais 20 anos dá aulas de mandala, diz que, para seguir os conceitos da bruxaria, é preciso conhecer as ferramentas e a ética do trabalho, desenvolver-se pessoalmente e se conectar com as forças do divino, assim, aprende-se a fazer as invocações, feitiços e magias para o bem. “As bruxas levaram má fama ao longo do tempo, mas a maldade está dentro do ser humano. Existem pessoas ruins em todas as religiões. Dentro da minha bruxaria, o que você faz de mal para o outro volta três vezes para você", reforça. 
"Dentro da minha bruxaria, o que você faz de mal para o outro volta três vezes para você", reforça", reforça Adriana
Dentro de um caldeirão, concentram-se pedidos de inúmeras pessoas, que pode ser uma abertura de caminhos na profissão, um novo emprego ou desembaraçamento de um relacionamento. Em um encontro recente, ocorrido na Escola Holística e Esotérica Adriana Leonel, cerca de três mil pessoas passaram pelo local e, no fim da noite, os papéis iam queimando e as bruxas se reuniam em volta entoando cânticos.
A casa de Adriana também divide espaço com a escola. Em um ambiente colorido e com plantas em toda parte, ela não abre mão de honrar sua espiritualidade. Como estudou em colégio de freiras, nutriu devoção por Nossa Senhora das Graças. Em um lugar de tantas crenças, a capela da santa encontra morada também. Adriana ainda está psicografando o livro das bruxas, que em breve será lançado. “Eu me levanto e já recebo as informações. Algo bonito nas bruxas é que são poéticas, tentam resgatar o que o ser humano perdeu. São gratas pela vida e possuem muita autoestima”, conclui a bruxa.
Memória histórica
Segundo a professora universitária de história Nainôra Freitas, há o que se denomina como permanências no processo da memória histórica. Por muito tempo, diz a professora, as pessoas viviam no campo, sem acesso a serviços básicos, como saúde. Isso possibilitou que grupos de pessoas chamadas de benzedeiras, que abençoavam o próximo, se formassem como alternativa para curas. Em alguns casos, receitavam remédios caseiros feitos de ervas medicinais. Pouco a pouco, foram ocupando o espaço na sociedade e permanecendo nas áreas urbanas. “Fazem as benzeções de forma muito tranquila, ligada a aspectos que são procedentes de três culturas, seja da católica europeia, que chegou no Brasil, africana ou, ainda, da cultura indígena. Há as que se alinham a esses três aspectos, com uma ênfase maior ou menor de cada um deles, dependendo dessa herança”, explica a docente. De maneira geral, há mulheres cultuando e espalhando esse legado que pode passar para as próximas gerações. Nainôra diz que se trata de um conhecimento empírico, uma crença que é parte constitutiva da vida das pessoas e que, cada vez mais, a sociedade urbana, industrial e tecnológica vai deixando para trás. “Em tempos virtuais, acho incrível que elas persistam, em muitos locais, que continuem com suas bênçãos, usando elementos da natureza, como plantas medicinais para fazer essa cura física e, às vezes, emocional das pessoas”, pontua a docente.
Na Idade Média, o simples gesto de oferecerem um chá para curar uma cólica já era considerado bruxaria
Resistência ao tempo
Rodrigo de Andrade Calsani, mestre em história e cultura social, acredita mais nas permanências do que nas mudanças culturais de um povo. Segundo ele, essas crenças evidenciam um acúmulo de experiências, mas também de sobrevivência. O historiador retorna ao passado para explicar que, no caso brasileiro, o catolicismo foi imposto pela Coroa Portuguesa. Nessa situação, muitos índios e escravos africanos foram obrigados a adotar uma nova cultura religiosa. Ainda assim, mesmo escravos sendo batizados na igreja católica, frequentando as missas, concomitantemente, cultuavam seus orixás nos terreiros. “Eu digo em sala de aula que a cultura é mais forte do que uma medida econômica ou política. Somos reféns dos padrões comportamentais culturais vigentes na sociedade”, elucida. Segundo o historiador, o místico sempre esteve presente na formação dos povos, como na cultura grega, por exemplo. O medo do desconhecido e da morte carecia de uma resposta e a religião era o caminho. O docente explica que tanto no monoteísmo quanto no politeísmo, as pessoas buscavam por respostas que pudessem sanar dúvidas e anseios. No caso das bruxas, a história mostra um lado distinto. Na Idade Média, o simples gesto de oferecerem um chá para curar uma cólica já era considerado bruxaria. Todavia, ao pesquisar sobre o assunto, há inúmeros tipos de bruxarias e um dado impressionante: é possível ver a presença delas na religião e, inclusive, em papéis de liderança. “Ainda bem que existe essa diversidade de crenças e de sincretismo. Não somos iguais e somos livres para acreditar em qualquer cultura. Quando dizem o que e como devemos fazer, sentimos ainda resquícios do período medieval. Há diversidade de crenças porque cada região, povo, tem suas próprias histórias construídas pelas experiências de cada ator social. Faz-se necessário que cada um possa enxergar o outro com respeito e tolerância, pois é na diversidade cultural que aprendemos e crescemos”, conclui o historiador.
Texto: Bruna Romão
Fotos: Ibraim Leão e Júlio Sian