Trajetória de conquistas

Trajetória de conquistas

Depois de passar por inúmeros cargos de gestão, Margaret de Castro toma nas mãos as rédeas da Faculdade de maior destaque de Ribeirão Preto

Pela primeira vez, em 64 anos, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) tem uma mulher em sua direção: em 15 de julho deste ano, a endocrinologista Margaret de Castro tomou posse do cargo, tendo como vice-diretor o ginecologista Rui Alberto Ferriani. Margaret ingressou como professora-doutora na Universidade no final de 1998, após ter concluído a residência em Clínica Médica (1984) e em Endocrinologia e Metabologia (1986) no Hospital das Clínicas da FMRP-USP.

Para a especialista, sua escolha para o cargo é motivo de honra e orgulho, fruto do reconhecimento pelo trabalho: Margaret participou do Conselho Universitário, órgão deliberativo máximo da USP, e do Conselho Central de Graduação; foi vice-presidente das Comissões de Graduação e de Pesquisa da FMRP-USP e é membro do Conselho Deliberativo do HC-FMRP-USP e do Conselho Curador da FAEPA desde 2014.

A endocrinologista foi eleita pelos pesquisadores de todo o Brasil como membro do Comitê de Assessoramento de Medicina, que avalia e distribui verbas do Ministério da Ciência e Tecnologia (CNPq) a projetos de pesquisa na área das ciências da vida. Também atuou como vice-chefe e chefe do Departamento de Clínica Médica, formado por 64 docentes de diversas áreas da clínica médica e especialidades afins. “Considerando a abrangência de saberes, a multidisciplinaridade e a diversidade do Departamento de Clínica Médica, essa experiência foi muito enriquecedora”, ressalta a endocrinologista.

Em relação a ser a primeira diretora da Faculdade, Margaret reconhece que ainda há desigualdade de oportunidades entre os gêneros, no mundo contemporâneo. A médica avalia que as mulheres enfrentam dificuldades não apenas no mercado de trabalho, mas, também, no ambiente universitário onde se defrontam com desrespeitos à diversidade, tanto em relação ao gênero, quanto no que tange à cor, à orientação sexual e à identidade de gênero. “A USP não tolera o desrespeito aos indivíduos. Estamos constituindo uma Comissão de Direitos Humanos na FMRP-USP, que terá por princípios a ética do sigilo e da privacidade e desenvolverá políticas e ações para coibir atitudes e comportamentos discriminatórios, além de acolher queixas sobre casos de violação de direitos”, ressalta, acrescentando que a comissão terá uma subcomissão específica para acolhimento da violência de gênero.

Margaret assume a diretoria da Faculdade de Medicina em um momento em que o país atravessa uma crise econômica, política e moral que atinge todas as instituições, incluindo a Universidade de São Paulo. Segundo a nova diretora, a reitoria e o Conselho Universitário da USP têm proposto medidas para controlar a crise dentro da instituição, objetivando evitar que o ensino, a pesquisa e extensão sejam prejudicados. A FMRP é uma das maiores unidades de ensino da USP: possui  cerca de 1.400 estudantes de graduação e o mesmo número de alunos na pós-graduação. Conta, ainda, com 338 professores e 499 servidores técnico-administrativos. Esses recursos humanos estão distribuídos em 14 departamentos, como infraestrutura física, administrativa, laboratórios, bibliotecas e setor de informático. “O nosso desafio é otimizar a gestão de recursos humanos e financeiros para manter as atividades atuais e investir e apoiar o ensino e a pesquisa”, aponta a médica.

Outro desafio da diretoria é a diversidade de cenários da Faculdade para o ensino, pesquisa e extensão, que incluem o Hospital das Clínicas — Campus e Unidade de Emergência, o Centro de Saúde Escola, o Hemocentro de Ribeirão Preto, centros avançados de atendimento, o Hospital Estadual de Ribeirão Preto, o Hospital Estadual de Américo Brasiliense, o Centro Estadual de Referência à Saúde da Mulher (Mater) e o Centro Integrado de Reabilitação, além de oito núcleos de saúde da família. “Estamos fortemente ligados ao Sistema Único de Saúde, o que nos obriga à constante interação administrativa com as esferas federal, estadual e municipais”, frisa Margaret, ressaltando que, felizmente,  a interação é positiva com a superintendência do HC-FMRP-USP e com a diretoria executiva da Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assistência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FAEPA), visando à definição das políticas institucionais.

As três universidades paulistas (USP, Unicamp e Unesp) recebem do governo do Estado de São Paulo uma parcela fixa de 9,57% da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), dividida de forma proporcional entre elas. Cabe à USP a alíquota de 5,02%. De janeiro a novembro do ano passado, o ICMS acumulou queda real de 4,7%, e a expectativa do PIB para 2016 é de queda de 3,44%. Como o orçamento está automaticamente atrelado ao ICMS, ele varia de acordo com o comportamento da arrecadação. Existe, portanto, uma baixa perspectiva de crescimento de repasses.

Com a recessão e a consequente retração dos repasses do tesouro do Estado, o valor previsto no orçamento de 2016 era de R$ 4,94 bilhões e caiu para 4,65 bilhões, gerando um déficit de R$ 543 milhões. A nova diretora observa que esses fatores, aliados ao aumento de despesas, sobretudo de utilidade pública, como água, energia e telefonia, acarreta um déficit adicional de R$ 325 milhões, um cenário que leva a Instituição a rever prioridades.

Uma das preocupações é que a Faculdade, devido à crise, perca dois grandes referenciais: o desenvolvimento de pesquisas de ponta e a excelência na formação dos profissionais de Medicina. Margaret destaca, entretanto, que o desenvolvimento de pesquisas de destaque depende da competência de quem as realiza e de financiamento e que a crise tem afetado o apoio à pesquisa vindo de agências federais. “A contribuição da USP para a pesquisa ocorre pelo fornecimento de área física, água, energia elétrica, comunicação e serviços de apoio, o que tem sido garantido, apesar das dificuldades atuais. A assistência técnica financeira da Faculdade tem desempenhado seu trabalho de compras e licitações com muita eficiência, minimizando os efeitos da crise”, destaca a médica.

Uma das estratégias para impedir a paralisação de projetos de pesquisa é ampliar a busca de recursos de fontes  não convencionais, inclusive do exterior, criando um Centro de Captação de Recursos. Outro intuito é ampliar as atividades do Centro de Gerenciamento de Projetos de Pesquisa, que já tem produzido resultados importantes no apoio a pesquisadores. 

Quanto à excelência na formação dos profissionais de Medicina, que depende de um corpo de professores competentes e do adequado funcionamento dos serviços de saúde, a nova diretora revela que a deterioração das condições desses serviços e das instituições de saúde é um efeito imediato da crise. Nesse sentido, o intuito da diretoria é que a FMRP estenda sua colaboração para preservar a qualidade da formação dos estudantes. A endocrinologista destaca, ainda, que se a crise se prolongar, poderão advir dificuldades para a criação de equipes de professores e de pesquisadores e os prejuízos serão grandes. “Acreditamos que esse não é o cenário mais provável — a crise deve ser transitória. Para manter o desenvolvimento de pesquisas científicas de ponta e a excelência na formação de profissionais, o reitor recentemente anunciou a abertura de novas contratações de professores para o ensino de graduação e a pesquisa”, esclarece a nova diretora.

Outro problema para a nova gestão é o fato de a USP gastar, atualmente, 105% do que arrecada. A Universidade tem tomado medidas para equacionar o balanço financeiro. Com a expansão exagerada do quadro de recursos humanos, há alguns anos, a folha de pagamento passou a superar os repasses feitos pelo Estado. “A atual gestão da USP promoveu a ações, reduzindo os gastos com folha de pagamento, mas, no mesmo período, a recessão econômica do país se intensificou. Isso fez com que a arrecadação do ICMS fosse reduzida 15% em média, diminuindo os repasses mensais para as universidades estaduais paulistas. A USP continua agindo para identificar e eliminar  atividades supérfluas e aperfeiçoar as atividades administrativas, de modo a otimizar recursos, sem prejuízo das atividades-fim”, explica Margaret.

Outro desafio a ser enfrentado pela nova diretora são as greves e os conflitos entre alunos, professores e funcionários. Para Margaret, tais incidentes são esperados, dada a pluralidade de opiniões e de pensamentos característica do ambiente universitário. “O conflito de ideias e a divergência de opiniões são saudáveis, mas não se pode admitir a violência e o desrespeito àquele de quem se diverge. A greve é um direito do trabalhador que pode ser exercido dentro dos limites da lei. A USP e a FMRP têm agido sempre de acordo com a lei. Entre os múltiplos papéis do dirigente acadêmico está o de mediador. Conflitos são naturais em instituições complexas como as acadêmicas, e a busca das melhores formas de resolvê-los é dever dos dirigentes”, analisa a nova diretora.

Outra preocupação constante a é manter a qualidade dos cursos da FMRP-USP, consequência do esforço contínuo pelo aprimoramento e de amplas reestruturações curriculares periódicas e regulares. Conforme a especialista, a qualidade precisa estar em consonância com as necessidades da sociedade e os cursos da área da saúde devem propiciar uma formação sólida do futuro profissional, apto a atuar em diferentes níveis de atenção à saúde e a responder aos desafios do crescimento das novas tecnologias em biologia celular, molecular, genética e imagem. “Devemos sair de um currículo fixo e fragmentado em disciplinas para um currículo baseado em competências, que privilegie a avaliação dos resultados. Portanto, em contraposição à simples transmissão de informação do conhecimento vigente, os projetos educacionais em saúde devem fornecer aprendizagem ativa, permanente e contínua, cada vez mais dependente do uso de tecnologias da informação para garantir a atualização do egresso”, ressalta Margaret.

Quanto ao papel social desenvolvido pela Universidade, o complexo HC-FMRP-USP já contribui de maneira expressiva para o atendimento de saúde eletiva e de emergência em níveis secundário e terciário da população de Ribeirão Preto e do Departamento Regional de Saúde área XIII (DRSXIII). Este complexo também tem grande impacto na atenção à saúde primária, em especial, na região Oeste de Ribeirão Preto. Além dos convênios regulares entre o complexo HC-FMRP-USP e as secretarias municipal e estadual de saúde, a Faculdade tem contribuído para o desenvolvimento de mecanismos de gestão em saúde, como para a criação do sistema de regulação médica há 16 anos. “Atualmente, em parceira com o DRSXIII, desenvolvemos projetos pilotos de redes de atenção à saúde, como o programa de longa permanência, desospitalizando quase 300 pacientes da Unidade de Emergência, nos últimos três anos. Ações assim propiciam o aumento da capacidade e da qualidade de atendimento a esses pacientes, além de contribuírem para o desenvolvimento em saúde dos municípios parceiros”, comenta a médica, ressaltando que nesses projetos de parceria a FMRP-USP tem desempenhado um papel essencial na capacitação de profissionais de saúde.

Este projeto, liderado pelo professor Antonio Pazin Filho, culminou no envolvimento no Grupo de Trabalho de Estudos de Desospitalização (GTED) da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, que planeja expandir o modelo para as demais regiões do Estado. Também há estudos do Grupo para implantar novos projetos em hospitais-dia e leitos paliativos no Hospital Santa Tereza em Ribeirão Preto, em especial, para o atendimento de pacientes com doenças oncológicas e crônico-degenerativas. “Outra contribuição do HC-FMRP-USP, programada para os próximos dois anos, será o oferecimento de vagas para residência em saúde da família em número semelhante ao de egressos da FMRP-USP, em resposta às novas diretrizes de residência médica que estão sendo firmadas pelo Ministério da Saúde. Esses médicos residentes terão trabalho ativo na atenção à saúde da região Oeste de Ribeirão Preto”, afirma Margaret.
Sobre o fato de haver um aumento de erros médicos no país, a médica observa que um dos fatores apontados por profissionais como motivador dessas falhas e enganos é o estresse constante, decorrente da falta de condições ideais de trabalho, principalmente, dos profissionais que prestam serviço público. Outros fatores que podem contribuir são a abertura indiscriminada de escolas médicas e a chegada de profissionais do exterior sem a correspondente avaliação da qualidade. A acomodação profissional também pode estar contribuindo para esse possível aumento, mas a especialista ressalta que, independente da razão que motiva o erro, os direitos do cidadão devem ser garantidos e as responsabilidades éticas, civis e penais do profissional, julgadas.

Um dos argumentos que embasaram a vinda de médicos cubanos para o Brasil foi o fato de brasileiros formados em faculdades de ponta não se sujeitarem a trabalhar em locais isolados e sem estrutura, tese que, conforme a nova diretora, não condiz com a realidade do aluno egresso da FMRP-USP, que está preparado para trabalhar em vários tipos de situações, já que recebe um ensino integrado, do simples ao complexo, podendo atuar em diversos cenários: núcleos de saúde da família, unidades básicas de saúde, centros de medicina social em cidades de menor porte, hospitais secundários e o próprio HC, com perfil de alta complexidade. 

A médica acrescenta que tem havido aumento na procura por Medicina de Família por parte dos egressos e que muitos alunos alistam-se anualmente nas forças armadas por período determinado e trabalham com sucesso em regiões de difícil acesso, carentes de atenção médica. “A dificuldade maior de recrutar médicos brasileiros para regiões mais carentes se deve à somatória de fatores: falta de uma política de carreira com remuneração condigna e de estrutura minimamente decente para um trabalho médico com dignidade e profissionalismo”, verifica a médica. 

Apesar dos desafios, Margaret acredita que tem no colega Rui Alberto Ferriani, que assumiu a vice-diretoria, um grande aliado na solução dos problemas. Os dois atuam em áreas acadêmicas correlatas. Em suas carreiras, sempre trabalharam em conjunto pelos avanços metodológicos e pela pesquisa na área de hormônios, dentro da FMRP-USP. Externamente, tiveram a oportunidade de atuar juntos como membros do Comitê de Assessoramento de Medicina do CNPq. “Temos a convicção de que estamos em sintonia para o compartilhamento de funções, encargos e responsabilidades para implementarmos projetos que permitirão à FMRP-USP passar com sucesso pelo momento que o país e a Universidade vivem”, conclui Margaret. 

Texto: Carla Mimessi
Fotos: Júlio Sian e arquivo

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