Trajetória enriquecedora
Sula Ferreira e Manoel Tavares em uma conversa esclarecedora

Na medida em que o mundo toma consciência das questões ambientais, em especial a degradação dos recursos naturais, demonstrar preocupação com o planeta e os seres humanos têm se tornado uma forma de agregar valor à imagem de uma empresa. Essa relação entre o mundo dos negócios e a natureza cresceu consideravelmente. Todavia, a preocupação não é novidade para alguns empresários e educadores de Ribeirão Preto, como Manoel Eduardo Tavares Ferreira, da Apis Flora, e Carlos Antonio Honorio Ferreira, o Sula, diretor do Sesi de Ribeirão Preto.
Amigos de longa data, os dois contabilizam muitas características em comum, como o contato com a natureza e a visão harmoniosa sobre a relação humana com o meio ambiente. Manoel nasceu em Lins, interior paulista, mas veio para Ribeirão Preto ainda criança. Desde bem pequeno, aprendeu com os pais a preservar a natureza e, com 14 anos, já participava de um grupo na Escola Estadual Otoniel Mota chamado Colmeia, onde, junto com os amigos alfabetizavam adultos. Nesse período, Manoel participou de uma palestra com Warwick Estevam Kerr, o Dr. Kerr, que trouxe as abelhas africanas para o Brasil. Neste primeiro contato, o professor ganhou um livro sobre abelhas, encantou-se com esse universo e, desde então, passou a incluir esses animais em sua vida. As habilidades com as abelhas eram tantas que Manoel conseguiu cursar a Faculdade de Engenharia Agronômica, com foco nos produtos derivados das abelhas. Após a faculdade, atuou na área de crédito rural, mas retomou a paixão por estes insetos e, ao lado da esposa, fundou a Apis Flora.
Sula, também cresceu em meio à natureza. Ainda jovem, começou a dar aulas de alfabetização para soldados atiradores, em Jaboticabal, e descobriu a afinidade com a área educacional que o acompanha até hoje. Formou-se em Pedagogia e Fisioterapia, fez mestrado em Educação e iniciou sua trajetória no SESI na área de Educação Física, Instituição a que se dedica há 46 anos. Após desenvolverem projetos ambientais e sociais juntos, Sula e Manoel descobriram que defendem os mesmos pontos de vista, como, por exemplo, o fato de que conexão entre a natureza e o ser humano deve ser priorizada.
Durante essa entrevista, ambos destacam que, assim como não é prudente criar abelhas sem cuidado, também não é bom conviver com as pessoas sem dar a devida atenção aos seus sentimentos. Segundo eles, pessoas e abelhas têm algo em comum: se não souber lidar com elas, acabará levando uma ferroada, prejudicando a si mesmo e também os outros.
Sula: Apesar de jovem, você possui uma linda história de vida, principalmente, como ser humano. Poderia nos relatar um pouco desta trajetória?
Manoel: Sou engenheiro agrônomo e trabalho com abelhas desde os 14 anos de idade, portanto, elas se tornaram minha paixão ainda muito jovem. Sempre tive uma atenção especial com o meio ambiente. Há 40 anos, ainda nos tempos da faculdade, ninguém falava sobre agricultura orgânica, mas eu já tinha essa preocupação. Na verdade, a Apis Flora surgiu de um ideal: junto com o amigo Antonio Carlos e nossas esposas, resolvemos criar abelhas. Queríamos produzir alguma coisa boa para as pessoas, sem focar nos resultados financeiros. Hoje, a Apis Flora está há 33 anos no setor e trabalha com diversos produtos naturais, mas começou apenas direcionada para a atividade de apicultura, pequena e discreta. Éramos apenas dois casais de amigos, produzindo devagar. Geralmente, dávamos os produtos para os amigos, quase não vendíamos nada, mas, aos poucos, a empresa foi crescendo, sempre atenta ao seu compromisso de não prejudicar o meio ambiente, de reciclar os resíduos e de tratar cada cliente com atenção máxima. Quando os funcionários começaram a chegar, tornavam-se membros da nossa família — muitos deles, que começaram trabalhando no campo, foram para a faculdade com a ajuda da empresa, participaram dos negócios e se aposentaram conosco ou continuam trabalhando na Apis Flora. Essa preocupação com o ser humano está intimamente relacionada à nossa filosofia de vida, que cultivamos há quase 30 anos, quando começamos, por exemplo, as atividades junto ao SESI sobre meio ambiente e sustentabilidade.
Sula: Como surgiu a inspiração para os negócios ligados à apicultura?
Manoel: Na verdade, devo tudo às abelhas. Minha família era muito pobre e, a partir do meu trabalho, consegui, por exemplo, pagar a minha faculdade. Para isso, vendia mel para os colegas e trabalhava, muitas vezes, à noite e aos fins de semana. Logo comecei a trabalhar na área de crédito rural e, depois de alguns anos, voltei a atuar na apicultura.
Sula: Sabemos dos inúmeros benefícios dos produtos oriundos das abelhas. Quais os mais destacados?
Manoel: A Apis Flora foi a primeira empresa no Brasil a trabalhar com própolis — até então, esse produto era jogado fora. O própolis é a substância que as abelhas extraem das plantas — não é como o néctar, mas uma resina. A empresa percebeu que, na Europa e em outros países, o própolis era utilizado até como medicamento; já aqui no Brasil, o produto era queimado no fumigador para fazer fumaça e acalmar as abelhas. Foi uma luta para registrar o própolis pela primeira vez e, hoje, é o nosso principal produto de exportação. Este ano, devemos exportar cerca de dez toneladas de extrato seco de própolis para a China, que serão utilizadas na produção de dezenas de cápsulas no Oriente, onde esses produtos são mais valorizados, apoiados em vários trabalhos de pesquisa, inclusive sobre o própolis brasileiro.
Sula: Por que, no Brasil, ainda não temos uma política pública para a utilização do mel nas refeições escolares?
Manoel: Costumo observar que, geralmente, o mel é produzido por países pobres ou em desenvolvimento e consumidos por países ricos. Isso é uma pena, porque a produção de mel no mundo é muito restrita. O consumo brasileiro é de apenas 50 gramas por habitante ao ano — já na Alemanha, esse número chega a 4 ou 5 quilos por habitante ao ano. Para que os alemães tenham o produto à sua disposição, o país vem buscar aqui, na Argentina ou no México, por exemplo, que também são grandes produtores mundiais. Enfim, é uma pena que o produto não esteja incluso nos hábitos alimentares brasileiros. O mel só faz bem à saúde, especialmente às crianças. Na França, pesquisadores realizaram um trabalho dividindo a pré-escola em dois grupos: um deles ingeria mel todos os dias e o outro, não. Depois de diversas análises, ficou claro que as crianças que receberam o mel praticamente não ficaram doentes e tiveram um desempenho escolar melhor. Além dessa, outras pesquisas semelhantes foram realizadas nos Estados Unidos e na China, comprovando que o mel é muito importante para o desenvolvimento infantil.
Sula: Veiculou-se, recentemente, o grande problema dos apicultores para enfrentar a poluição, como os agrotóxicos nos pomares de frutas que comprometem as abelhas. Nesse sentido, o que pode ser feito?
Manoel: Quando começamos nossa história, tínhamos muita facilidade para encontrar locais seguros para as abelhas, pois a vegetação nativa ainda não era rara. Mas, com o passar dos anos, as matas foram acabando e as colmeias precisaram ser deslocadas para o sul de Minas Gerais, por exemplo, e outras regiões. Aqui, como em boa parte do Brasil e do mundo, já não conseguimos mais criar as abelhas por causa da quantidade de agrotóxicos usados. No ano passado, um fato preocupante ocorreu nos Estados Unidos: para polinizar as culturas de maçã, pera, amêndoas e outras frutíferas, os produtores precisaram importar abelhas da Austrália!
Sula: Atualmente, como está o mercado de produtos provenientes da apicultura, dentro e fora do país?
Manoel: Para nós, o mercado está sempre em crescimento. Cada vez mais, as pessoas tomam consciência da importância de consumir esses produtos para beneficiar a saúde. Na área de produtos naturais, vimos que a expansão continua normal. Nos últimos anos, contabilizamos um crescimento de 20 a 30% nas exportações.
Sula: De que maneira avalia a relação das pessoas com a natureza?
Manoel: Atualmente, as pessoas separam o ser humano da natureza, o que não pode acontecer. O homem deve estar integrado ao meio ambiente, pois faz parte dele. Eu, particularmente, tenho amor por todos os seres vivos. As pessoas precisam aprender a viver em harmonia e manter uma boa qualidade de vida para que não exista violência. Acredito que, se tivermos um equilíbrio melhor e mais distribuição de renda teremos uma sociedade mais harmônica e menos violenta do que temos hoje.
Sula: Sei do seu envolvimento com trabalhos solidários e projetos sociais, como a Vila Dignidade. O que significa esse projeto e como tudo começou?
Manoel: A Vila Dignidade é um trabalho fantástico que conta com a atuação brilhante do SESI. Por isso, foi um grande prazer apoiar e participar dessa iniciativa, ajudando a dar oportunidade para muita gente. Este trabalho deveria ser multiplicado, pois, para mim, representa a forma ideal para atender as pessoas. É um trabalho pioneiro, que merece ser multiplicado.
Sula: Como você aplica seus valores pessoais no desenvolvimento da empresa?
Manoel: Costumo falar que nem considero a empresa minha; considero, na verdade, como se fosse uma instituição que pertence a todos, inclusive, aos funcionários. Foi com esse espírito, mantido desde a fundação, que fizemos com que todos se sentissem parte da gestão da Apis Flora. Dificilmente algum funcionário sai da empresa e, às vezes, quando acontece, acaba voltando e sendo recebido de braços abertos. Quanto ao fato de ter que passar o bastão, penso em transformar a empresa numa sociedade anônima e ter uma garantia de que ela terá uma administração mais independente.
Sula: Qual sua avaliação do atual momento político brasileiro?
Manoel: Para mim, o Brasil continua vivendo um pouco do recesso de ideais provenientes da Ditadura Militar. No nosso tempo de juventude, tínhamos posições políticas, posturas claras sobre (quase) tudo e, hoje, já não se vê isso. Ao analisar as propostas de governo dos candidatos às últimas eleições, por exemplo, não se vê muita diferença entre um e outro projeto, não se sabe claramente o que será feito. Além disso, discute-se muita coisa inútil. Ao meu ver, perde-se muito tempo com ataques pessoais. Acho que está faltando política de fato, mas esse cenário precisa de solução. É necessário estimular a juventude a participar, a criar novas lideranças, entre outras ações. Em vez disso, vemos que o interesse dos jovens pelo tema é cada vez menor. A maioria deles não quer saber sobre o assunto, nem mesmo dentro da universidade. Antigamente, quando fazíamos algo na universidade, colocávamos a comunidade em primeiro plano, buscávamos prestar um serviço às pessoas; hoje, o jovem se forma apenas com o objetivo de ganhar dinheiro, o individualismo impera em todas as áreas: as pessoas não pensam mais em melhorar a sua comunidade, mas só em satisfazer as próprias necessidades.
Sula: Não faz muito tempo que manifestações ganharam as ruas no país inteiro. Para você, elas não demonstram uma grande insatisfação popular?
Manoel: Existe uma insatisfação com a forma de condução das políticas públicas, não apenas no Brasil. Todavia, eu vivi outras épocas, períodos marcados pelo movimento secundarista; na universidade, sempre participei desses movimentos. Hoje, pelo que tenho conversado com os jovens, eles não têm muito direcionamento, querem fazer e acontecer, mas não sabem o que ou como. No meio disso, claro, uma minoria se infiltra para fazer baderna, mas acredito que é muito saudável se manifestar por mudanças.
Sula: Passamos, recentemente, por mais uma eleição. O que você diria aos eleitores, principalmente para os de primeira viagem, para as próximas eleições?
Manoel: Os acontecimentos recentes sugerem que o Brasil precisa de uma profunda reforma política. A questão de hoje é que o político é vendido, como se vende sabonete, uma pasta de dente ou qualquer produto. As pessoas têm uma imagem do político, mas não sabem quem é ele, de fato, quem são os financiadores da sua campanha, a que grupo ele pertence, etc. Por isso, eu diria que é necessário conhecer bem o candidato e toda a sua rede de relacionamentos políticos. Infelizmente, hoje, as pessoas não conseguem enxergar o que esta por trás de cada político, e essa é nossa missão.
Sula: Quais são seus novos projetos, pessoais e profissionais?
Manoel: Tenho um sítio em Cajuru que estou reflorestando. Já plantamos 10 mil árvores nativas e, se conseguir mais recursos, gostaria de continuar esse trabalho. Também tenho o desejo de desenvolver um trabalho educativo nessa área. Colaborar com a formação de crianças e de jovens com essa preocupação ambiental e social ainda é um sonho que pretendo realizar.
Sula: Qual a mensagem que você deixa para os leitores?
Manoel: Entendo que o ser humano precisa se encontrar como um ente da natureza e exercer essa solidariedade, tanto uns com os outros quanto em relação a todas as espécies. Vemos hoje tanta desigualdade que acho que só a harmonia vale a pena. Acredito que a natureza é feita de ciclos; nós estamos aqui faz pouco tempo e já nos julgamos donos do universo. Entre as questões mais graves a serem enfrentadas nos próximos anos, está a produção de água para todas as atividades humanas. Sobre ela, sabemos que o desmatamento traz consequências diretas, pois isso já aconteceu em vários cantos do mundo. O próprio Nordeste brasileiro era completamente diferente quando os portugueses chegaram por aqui. Temos, portanto, exemplos reais do que a ausência de florestas pode acarretar em relação às mudanças climáticas. Sabemos, hoje, que a chuva da região Sudeste vem da Floresta Amazônia e pode ser totalmente alterada.
CULTIVANDO RAÍZES
“Desde que cheguei a Ribeirão Preto, nos anos 80, tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente — inicialmente, pela participação da Apis Flora nos antigos Jogos Desportivos do SESI, que contavam com o grande incentivo do Manoel. Naquela época, tratava-se de uma empresa no Bairro Santa Cruz que já se destacava por inúmeras atividades profissionais, culturais, ambientais e principalmente sociais. Por sua vez, o SESI retribuía a parceria por meio de palestras aos funcionários, atividades recreativas em nossa entidade, entre outras iniciativas que continuam até hoje. Minha admiração pelo Manoel é ainda maior quando por conhecê-lo pessoalmente, sempre preocupado com o meio ambiente e com as pessoas menos favorecidas. Posso dizer que ele é um árduo defensor da natureza e mantém projetos de sustentabilidade e de responsabilidade social.”
Carlos Antonio Honorio Ferreira, o Sula, diretor do SESI Ribeirão Preto
Texto: Pâmela Silva
Fotos: Julio Sian