Transformando células

Transformando células

Biotecnologia é tema de pesquisas no Hemocentro

Uma das maiores redes de hemoterapia do Brasil, o Hemocentro do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto é também um dos mais avançados centros de pesquisas em células-tronco, genética e imunologia. Em seus laboratórios, mais de 100 pesquisadores trabalham para ampliar as fronteiras científicas e, de acordo com o vice-presidente da instituição, Prof. Dr. Dimas Tadeu Covas, foi o primeiro hemocentro a trabalhar com células-tronco com o objetivo de aplicações clínicas, há mais de 10 anos.

“O grande foco são as pesquisas com aplicação, as chamadas translacionais, que saem da bancada do laboratório para um determinado uso clínico ou tecnológico, onde se consiga transferir benefícios para a sociedade”, explica o professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, hematologista e hemoterapeuta graduado pela Universidade de São Paulo, onde também cursou mestrado e doutorado. Coordenador do departamento de Transferência do Centro de Terapia Celular (CTC-CEPID-FAPESP) e do Instituto Nacional e Ciência e Tecnologia em Células-Tronco e Terapia Celular (INCTC) do Hemocentro, Prof. Dr. Dimas diz que algumas pesquisas já produzem resultados clínicos. O uso da célula-tronco mesenquimal é um exemplo.

“A célula é retirada do paciente e cultivada em laboratório, onde é expandida por um período de três a cinco semanas e, depois, retornada ao paciente. Somos o único grupo no Brasil a realizar esta pesquisa”, afirma o professor. A célula mesenquimal também tem sido utilizada para tratar algumas doenças em estudos experimentais, como Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro, que ocorre após um transplante de medula. “Nesta doença, as células transplantadas passam a ser rejeitadas pelo próprio paciente.

Os sintomas são manifestações diversas em variados órgãos, como fígado, rins, intestino, entre outros, provocando problemas que não desaparecem com tratamento. Isso é grave e, quando ocorre, o paciente vai a óbito”, explica ele. Segundo o especialista, as mesenquimais estão sendo usadas numa tentativa quase heróica para não perder esses pacientes. “Temos tido um relativo sucesso”, completa Dimas, lembrando que o hemocentro encaminha células para vários hospitais do país.

A biotecnologia é outro tema de pesquisas no Hemocentro. A equipe trabalha há mais de uma década na produção de proteínas recombinantes, feitas por engenharia genética. “Selecionamos alguns genes e colocamos em um vetor, geralmente um vírus, que infecta a célula. Lá dentro, essa proteína passa a ser produzida numa quantidade muito grande. Então, transformamos uma célula numa fábrica de proteínas”, explica Dimas. Neste caso,  os fatores 8 e 9 da coagulação — aqueles que não são produzidos no sangue dos hemofílicos — são os que nos interessam. Eles dependem deste fator produzido em outra fonte.

Segundo o professor, a pesquisa está em fase final, com foco em produção industrial em larga escala. A esperança é de que isso atinja os pacientes do Brasil, reduzindo a importação dos produtos existentes. O Hemocentro também desenvolve ferramentas diagnósticas para identificar doenças transmitidas pelo sangue — kits diagnósticos baseados em biologia molecular para, por exemplo, HIV e HCV (vírus da Hepatite C) —, o que também economiza recursos e possibilita expandir a tecnologia. “Nosso objetivo é melhorar cada vez mais”, frisa o médico, lembrando que, por outro lado, o Hemocentro sempre precisa de doadores.

“A população vai crescendo, envelhecendo e o número de pacientes com necessidade de transfusão de sangue aumenta a cada ano. Essa mesma dificuldade acontece em todos os hemocentros do Brasil porque em nosso país não há a cultura de doação de sangue. Somente quem já teve ou tem um parente ou amigo próximo é que consegue avaliar a importância deste ato”, analisa. Para saber como se tornar um doador, ligue: 0800.979.6049 ou 2101.9300. Site: www.hemocentro.fmrp.usp.br. 

Centro de Pesquisas
O Instituto Nacional da Ciência e Tecnologia em Células-Tronco e Terapia Celular (INCTC) do Hemocentro teve início em 2009, com previsão para durar cinco anos. Possui 30 projetos em áreas paralelas e recebe pesquisadores de diversos Estados — como Pará, São Paulo e Rio de Janeiro. Grande avanço dentro da USP, o Instituto tem relevância nacional, conectando também outros vários pesquisadores do mundo, que colaboram nas pesquisas em células-tronco e em biotecnologia, com perspectiva de aplicação. 

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