Um bom lugar para viver
Marcado por referências históricas e culturais, o Centro de Ribeirão Preto também se destaca por oferecer inúmeras possibilidades de moradia, trabalho, educação e consumo
O Centro reúne considerável parte da história de Ribeirão Preto e se caracteriza como um grande palco cultural da cidade — cenário não apenas do Theatro Pedro II e de inúmeras outras referências históricas, mas, principalmente, de uma diversidade incontestável de gente.
As pessoas que moram, trabalham, estudam, consomem ou apenas circulam por ali, de passagem, entre um bairro e outro ou entre uma cidade e outra, são a essência do bairro. São responsáveis por tornar o local um ponto de encontro incomum, no contexto geral da cidade, extremamente rico do ponto de vista histórico e, principalmente, sob o olhar da multiplicidade.
Jovens, adultos e idosos dividem o espaço de forma democrática, cada qual aproveitando e contribuindo a seu modo para que o bairro seja o que é: o Centro. Uma concentração sem igual de prédios e pontos comerciais. As ruas são sempre movimentadas. Ponto de referência onde se encontra de tudo. Um lugar cheio de vida e de disposição para se reinventar.
Justamente essa coexistência pacífica, acolhedora até, do antigo e do novo, do passado e do presente reunidos em um exemplo claro do que dá ou não certo em termos de cidade, é o que mais encanta no Centro. Muito além de uma referência histórica importante, o bairro é um verdadeiro marco para se pensar o futuro das relações em comunidade, da preservação da memória e do planejamento de uma cidade.
A narrativa dessa importância não poderia ser melhor descrita senão pelas pessoas que ali estão, diariamente, inseridas nessa realidade. Casos como do comerciante Alcemir Milani e da estudante Alice Lima ou do ator Fausto Ribeiro e da assistente social Marina Rezende, pessoas para quem o Centro ultrapassa a questão geográfica, mas se interioriza e define como característica intrínseca da personalidade, como traço de afetividade, como um estilo próprio de se viver e como expressão de ser.
Um novo sentido
Sem dúvida, essa é uma possibilidade de qualificação da relação estabelecida entre o ator de 32 anos, Fausto de Lima Pereira Ribeiro, com o Centro, palco, literalmente, das atividades do grupo ao qual pertence, o Engasga Gato. Desde 2008, a companhia concentra as ações a partir do telhado do Edifício Diedericksen, o mais antigo da cidade, localizado no cruzamento das ruas Álvares Cabral e São Sebastião, onde há muitas histórias para se contar. “Fomos ‘contaminados’ por esse ir e vir sem igual. Estamos bem no coração da cidade, onde tudo acontece, principalmente, nesta esquina, entre o edifício e o Theatro Pedro II. Acho esse o espaço mais democrático da cidade, frequentado por todas as classes”, afirma o ator.
Segundo Fausto, o trabalho do grupo, antes de se instalar no bairro, era voltado para área corporal e para a antropologia teatral e, aos poucos, foi totalmente expandido para o Centro, no que ele chama de uma “troca antropofágica”. “O reflexo disso é que todas as nossas atividades, basicamente, hoje são voltadas para esse espaço urbano. O Centro modificou a estrutura e a forma de pensar do Engasga Gato. Fomos engolidos por ele”, conta Fausto.
Para o grupo, é muito interessante a possibilidade de troca que o fluxo constante de pessoas na região permite. Diferente de outras companhias, no Engasga Gato não há preocupação com o público porque ele está ali, de alguma forma sendo invadido pela arte produzida. “Trocamos com essas pessoas, criamos comungando com elas. O tempo todo, desenvolvemos afetos com moradores e comerciantes porque implantamos certa poesia ao seu cotidiano. Eles cedem energia, água e equipamentos porque sabem que colorimos o dia. Sempre repito isso porque é muito forte, eles nunca subiram aqui, mas sabem que existimos, estamos assiduamente na rua, realizando atividades. Embora não venham assistir a uma peça, adoram nosso trabalho, contribuem, estão junto, sabem nossos nomes e perguntam por novas ações”, avalia Fausto.
Para os artistas, essa foi uma conquista importante. Em oito anos, praticamente sem apoio, o grupo conseguiu promover uma ressignificação do Centro, surpreendendo quem trabalha ali ou frequenta para consumo com alguma atividade artística. “Algumas pessoas acabam perdendo o ônibus para nos assistir. Outras saem do ar condicionado do estabelecimento para vir sentar na rua e acompanhar nosso trabalho. Acho que, de certa forma, contribuímos para essa tentativa de melhoria do Centro como um local, também, para se divertir, e não apenas consumir. Trabalhamos para o ‘antiabandono’ do bairro da forma como podemos, que é através da nossa arte”, finaliza o artista.
Questão de afinidade
A história de vida de Alcemir Milani, o Nenê, com o Centro é de pura afinidade. Mais da metade da vida ele passou ali, entre uma loja e outra da família, estabelecida comercialmente no Calçadão há 47 anos. Aos 17 anos, mudou-se com os pais para um edifício ao lado da Praça XV e dali diz que não pretende sair.
Primeiro, a família morou nos Campos Elíseos, depois se mudou para Alto da Boa Vista e, por fim, resolveu se estabelecer no Centro em função do trabalho. “Mudamos para o Centro faz 33 anos. No começo, estranhamos um pouco porque morávamos em uma casa, mas o apartamento é grande e tem tudo por perto: banco, farmácia, supermercado, restaurante e o principal: gente, o que é gostoso demais. Adoramos morar no Centro”, enfatiza o comerciante.
A facilidade de estar próximo ao trabalho, em um local privilegiado por sua história e arquitetura, é uma grande vantagem segundo Nenê, principalmente no que diz respeito à qualidade de vida e ao bem-estar. “Desço do apartamento e, depois de caminhar 40 metros, estou em uma loja, mais 80 metros, chego na outra. Há apenas alguns passos, estou na praça mais bonita da cidade para passear com o cachorro ou caminhar de manhã. O amor que tenho pelo Centro é enorme. Se vejo uma luz queimada, já ligo na CPFL; se tem um buraco, aviso a Prefeitura. Amo o Centro e cuido dele. É meu lar, minha vida, onde me sinto seguro e confortável”, avalia Nenê.
Na sua opinião, o bairro carrega a má fama de falta de segurança injustamente. Com a implantação das câmeras de vigilância e com a revitalização do Calçadão, o local está quase perfeito. “A única coisa que falta é acertar a Área Azul, que em outras cidades funciona, mas aqui deixa a desejar”, alega. Na sua rotina como morador, Nenê inclui sempre um programa especial — hábito adquirido ao lado do avô, mantido mesmo após seu falecimento —, o encontro noturno, duas ou três vezes na semana, com um grupo de amigos, entre 57 e 84 anos, que se reúne próximo ao relógio da Praça XV, para o tradicional bate-papo. “Meu avô faleceu há cerca de oito anos, mas continuei me reunindo com seus amigos, que se tornaram meus amigos também. Conversamos sobre política, futebol e, principalmente, sobre o passado”, conta Nenê.
Segundo o comerciante, apenas um dos senhores mora no Centro, os demais vêm de outros bairros, chegando a partir das 21h para a reunião, que só não acontece às quartas-feiras porque é dia de jogo. O papo termina sempre por volta das 23h30. “Essa turma frequenta o Centro há mais de 30 anos. Às vezes, as discussões se acaloram por causa do futebol ou da política, mas nos divertimos muito com essa rara e bela amizade que tem na praça o seu ponto de encontro”, encerra Nenê.
Vida de estudante
Aos 21 anos, a estudante de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP-RP), Alice de Carvalho Lima, encontrou em uma república de meninas, em um amplo apartamento em pleno Calçadão, a moradia perfeita para alguém recém-chegada a Ribeirão Preto. “Ingressei na faculdade em Ribeirão Preto e procurei opções nos grupos de moradia da USP, pela internet. Queria estar perto da universidade ou no Centro. Quando visitava um apartamento para alugar, conheci, no elevador, uma veterana que, coincidentemente, estava à procura de alguém para integrar a república, pois uma das estudantes estava saindo”, conta Alice.
O prédio é antigo e o apartamento bem grande, com closet, banheira, quarto de empregada e uma sala espaçosa. Bem instalada, Alice destaca outras facilidades do Centro para quem, assim como ela, passa o dia todo fora. “A segurança de transitar a pé pelas ruas, sempre muito iluminadas, principalmente quando chego tarde da faculdade ou de algum evento, é fundamental. A proximidade com a rodoviária também conta”, pontua.
Uma crítica é direcionada à superlotação do transporte público. “Nos horários de pico, principalmente, a linha até a USP fica muito cheia, o que torna o roteiro cansativo e frustrante”, comenta Alice. Fora isso, a vida no Centro tem muitas facilidades. “Tenho tudo por perto: quando estamos com fome, descemos para lanchar, ir ao supermercado ou mesmo tomar um sorvete no endereço mais tradicional da cidade. Tem um shopping não muito distante e festas nos Stúdios Kaiser. Dá para fazer tudo a pé”, conta a estudante.
As facilidades do bairro são tantas, na sua opinião e das colegas de república, que para ilustrar Alice conta um ‘apuro’ vivenciado certa vez, rapidamente resolvido justamente por estar no Centro. “Estava no ponto de ônibus,
esperando para ir para a faculdade, quando me dei conta que tinha aula no laboratório e havia esquecido de pegar um sapato fechado. Só precisei atravessar a rua e comprar um. Baratinho e rapidinho. Nem perdi o ônibus”, brinca a futura enfermeira.
Facilidades para família
Marina Falqueti Rezende, o marido, Giancarlo Rezende, e as filhas, Manuela e Beatriz, moram há seis anos no Centro e, pelo menos por enquanto, não pensam em sair do bairro.
A opção da família foi motivada pela localização próxima à escola. “Morávamos em uma casa, no Jardim Palmares e, depois de um assalto, decidimos vir para o Centro. Na época, eu trabalhava no Marista e a Beatriz já estudava lá, por isso, escolhemos um apartamento a poucos metros da escola — o melhor dos mundos, sem dúvida”, conta a assistente social.
Para a família, a logística é uma grande vantagem de morar no Centro. “Não usamos mais carro para quase nada. Esquecemos que existe trânsito. É uma questão de economia e sustentabilidade também, porque tudo o que se precisa, estando no Centro, tem-se à mão, ou na sola do pé”, brinca o casal.
A pequena Beatriz tem aulas de inglês, sapateado e teatro pertinho de casa. Aos finais de semana, a família costuma ir ao clube Recreativa, onde há opções de lazer e socialização para todos. A academia fica no Shopping Santa Úrsula e, quando é preciso comprar um presente para uma festa, por exemplo, não há necessidade de se programar antecipadamente, basta descer e comprar. “Está tudo tão próximo que, muitas vezes, deixamos de planejar até mesmo a lista do supermercado. Brincamos que temos uma despensa aqui embaixo”, conta Marina.
À noite, segundo ela, o bairro é bastante tranquilo, as pessoas saem às ruas para conversar, caminhar, vão à pizzaria ou a sorveteria. Não se sente a questão da violência, embora vez ou outra, como em qualquer outro lugar, haja algum episódio de furto. “A sensação aqui é a de viver em uma cidade pequena. As calçadas estão sempre cheias de pessoas acostumadas ao local. Aqui você não se sente em uma cidade grande, fica-se até um pouco provinciano”, conclui a assistente social.
Marp

Inaugurado em 1908 para sediar a Sociedade Recreativa de Ribeirão Preto, o prédio onde funciona o Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP) Pedro Manuel Gismondi, desde 1992, também já abrigou a Câmara Municipal. O MARP reúne, entre outras obras, todo o acervo de artes plásticas da Prefeitura, adquiridas ou doadas ao Museu. Aberto para visitação de terça a sexta-feira, das 9h às 18h, e aos sábados e feriados, das 12h às 18h.
Catedral Metropolitana
O templo religioso teve a pedra fundamental lançada em três de março de 1904 e foi concluído em 1920. Em linhas góticas, com vitrais coloridos e afrescos de Benedito Calixto, a Catedral de São Sebastião também pode ser considerada um monumento histórico e cultural importante para a cidade.
Praça XV de Novembro
Inaugurada em 1890, é um marco histórico e geográfico tombado, junto com o conjunto arquitetônico, desde 1985, pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat). Recentemente restaurada, a praça teve sua última estrutura mantida.
Quarteirão Paulista
Formado pelo conjunto arquitetônico que abrange o Theatro Pedro II, o Centro Cultural Palace e o Edifício Meira Júnior, onde hoje funciona a tradicional choperia “Pinguim”, o Quarteirão Paulista foi inaugurado na década de
1920 — auge da economia cafeeira na região —, por iniciativa da Cia. Cervejaria Paulista.
Theatro Pedro II
Inaugurado em 1930, o Theatro Pedro II é o principal cartão postal de Ribeirão Preto. Passou por reformas e por uma restauração completa na década de 90, 16 anos depois de ter sido atingido por um incêndio. A recuperação de suas características originais o transformou no segundo maior teatro de ópera do país em capacidade de público.