Um colecionador de sucessos

Um colecionador de sucessos

De volta à terra natal para um show em comemoração a 30 anos de sucessos, Kiko Zambianchi relembra sua carreira em entrevista ao produtor musical Eder Hanna

O cantor, guitarrista e compositor ribeirãopretano Kiko Zambianchi é um colecionador de sucessos. Desde que estreou musicalmente com o disco “Choque”, lançado pela gravadora EMI em 1985, viu diversas de suas canções transformadas em temas para programas televisivos, como “Armação Ilimitada” e “Roda de Fogo”, ambos da Rede Globo. Zambianchi ficou conhecido, ainda, por composições gravadas por Marina Lima, Lulu Santos, Ira!, Paulo Ricardo, Erasmo Carlos e Capital Inicial — parceria mais conhecida pelo público: o músico fez os arranjos para o Acústico MTV da banda brasiliense, que também gravou o hit “Primeiros Erros”, sucesso de 1985.
Enquanto Kiko participava de festivais de música na cidade e planejava sua mudança para São Paulo, o músico e produtor Eder Hanna, também membro do que Zambianchi, durante a entrevista, chamou de “família musical”, tocava em bares ribeirãopretanos, algumas vezes como DJ e outras como tecladista em diversas bandas. À época, Eder Hanna acumulava também a função de radialista. Atualmente, é professor de áudio e produtor de eventos.
Durante o bate-papo, Eder aproveitou para recordar a época em que Kiko começou a ganhar festivais de música da cidade. Este reencontro dois integrantes da cena musical ribeirãopretana da década de 80 acontece aproximadamente 30 anos depois da partida de Zambianchi para a capital paulista.

Eder: Seu primeiro disco está completando 30 anos. Como é sua relação com ele?
Kiko: Gosto de lembrar, mas no momento eu penso pouco nisso. Foi legal ter lançado aquele disco, pois era uma época em que ninguém acreditava que iria acontecer algo grandioso. Quando saí de Ribeirão Preto, todas as pessoas falavam que eu me daria mal, que não iria emplacar. Tanto isso é verdade que nem a banda que eu tinha à época, Vida de Rua, quis ir comigo. Eles não acreditaram. Por isso acabei me tornando um artista solo.

Eder: No final da década de 80, você restringiu seu contrato com a gravadora EMI para não se sujeitar a um contrato que o obrigasse a gravar algo que você não queria. Depois de tudo o que viveu na sua carreira, agiria da mesma forma?
Kiko: Para mim, tocar é um prazer, por isso, colocar uma música que eu não gosto no repertório já não me interessa. Posso dizer que dá para trabalhar com outras coisas dentro da música. Eu trabalhei quatro anos com Hip Hop em Nova Iorque. Inclusive, tive uma música gravada pelo rapper norte-americano Lil Scrappy, produzida pelo 50 Cent. Naquela época, fiz, por quatro anos consecutivos, a abertura do Hip Hop Honors, a entrega de prêmio da VH1 para este gênero. Fazíamos a abertura desta premiação.

Eder: Como a parceria com o Hip Hop aconteceu?
Kiko: Isso ocorreu logo que o disco do Capital Inicial Acústico MTV foi lançado, em 2000. Em 2002, comecei a trabalhar no “Disco Novo”, com um contrato com a Abril Music, mas a gravadora fechou. Então, em 2004, fiz uma parceria com o produtor norte-americano David Shayman (Disco D).

Eder: Como foi trabalhar com um estilo musical diferente do habitual?
Kiko: Foi muito legal e eu aprendi muito. O Disco D me proporcionou muita experiência com edição. Era outro tipo de trabalho, em que eu fazia base para hip hop. Embora David Shayman fosse muito jovem, ele já era um geniozinho. Começou a carreira com 20 anos e, aos 24, já havia produzido muito material. Antes desta parceria, o Disco D fazia música, mas através de montagens, pegando pedaços de outras composições, o que era caro por conta dos direitos autorais das músicas “sampleadas”. Por isso, Shayman passou a usar as bases que eu fazia. Na época, o produtor dele gostou bastante do resultado. Mas, infelizmente o Disco D faleceu quatro anos depois e, assim, voltei a pensar na minha carreira no Brasil.

Eder: Nessa época, você estava de malas prontas para Nova Iorque?
Kiko: Sim, já estava pronto pra morar nos Estados Unidos, mas com a morte do Disco D, desisti.

Eder: E como vocês se conheceram?
Kiko: Ele era namorado da modelo e atriz Luciana Vendramini e nos conhecemos porque ele pediu meu estúdio emprestado para trabalhar. Dessa forma, conheceu meu trabalho e sugeriu uma parceria, que foi bem legal.

Eder: Sua carreira passou por diversas fases: começou com rock, já navegou pelo funk, pelo rhythm and blues, etc. Hoje, o que tem vontade de gravar?
Kiko: Geralmente, faço uma mescla. Agora, pretendo gravar um disco com guitarras, de músicas inéditas. O problema é que, hoje em dia, lançar disco no Brasil, com a cultura e a mídia apoiando nichos específicos, significa praticamente jogar fora todo um trabalho.

Eder: Em que sentido?
Kiko: Independentemente da qualidade do disco, pode acontecer da notícia do seu lançamento ser trocada pelos novos silicones da “popozuda” da vez. O que fazer no momento em que a música está tão horrorosa e tão difícil de trabalhar? Isso tudo com o apoio da mídia. Voltamos a ter, nas grandes emissoras de rádio, uma gama maior de músicas norte-americanas. Há, sim, dois ou três artistas de excelência, mas, claro, ficaria insustentável fazer uma coletânea deles para manter uma programação de rádio inteira. Geralmente, o que se vê são artistas ruins e popularescos.

Eder: Em entrevista ao produtor Clemente Nascimento, em meados de 2010, você demonstrou insatisfação com os rumos do mercado da música brasileira, reforçando a ideia de que era complicado lançar disco no país. Essa insatisfação ainda existe?
Kiko: Hoje, já não me importo. É o que eu sempre digo: para mim, não muda muito, pois já tenho um nome. O problema é da música brasileira em geral. Por exemplo, pensando em nomes fortes da MPB, se um novo João Gilberto estiver por aí, ele vai virar bancário ou vai encarar uma outra profissão, pois, na música, não há espaço. Na verdade, as pessoas não procuram ou, muitas vezes, não querem nem ouvir uma música que não seja “tchu” ou “tchã”. Entendeu?

Eder: Essa característica gerou uma dificuldade para artistas da música?
Kiko: Dificultou bastante, especialmente para os compositores de músicas mais elaboradas, que raramente vão emplacar sucessos. Quem busca um pouco mais qualidade tem que procurar música por conta própria, sem esperar o rádio e a televisão tocarem, porque, na maioria das vezes, apenas dois ou três desses bons artistas aparecem para o grande público.

Eder: Como você vê a ascensão das músicas cover?
Kiko: Isso acontece porque não há uma referência, não há em que se mirar. O Brasil tem a tradição de muitas músicas para rebolar que acabam que não deixando espaço para a boa música contemporânea — esta, por aqui, está sempre atrasada. A própria música sertaneja é muito boa, quando é verdadeira, mas este não é o caso da maioria. Geralmente, o cantor nunca foi sertanejo na vida e está ali, cantando uma mentira. Não estou dizendo que toda música deve ser de protesto. É possível falar de amor e de outros temas sem ser piegas, com uma poesia boba. Isso sem falar no funk carioca, que não tem nada a ver com funk, sendo uma espécie de “batatinha quando nasce”, mas com conotação pornográfica.

Eder: Ao explorar esse conteúdo, a mídia influencia a juventude?
Kiko: É isso que eu falo. A Gretchen existia nos anos 80, mas ela não era a top da música brasileira. Hoje, estamos colocando uma artista como a Gretchen para tocar. Imagine se, naquela época, tirássemos Paralamas dos Sucessos, Legião Urbana, Ira!, Capital Inicial ou Djavan das rádios e colocássemos a Gretchen para tocar? Pois, para mim, é isso que estamos fazendo hoje.

Eder: Para melhorar este cenário, os músicos de rock deveriam ser mais unidos?
Kiko: Realmente, há uma desunião. Geralmente, bandas de rock são muito críticas e isso tem que mudar. Nos anos 80, não tinha tanta rivalidade, as pessoas se apoiavam. Quando vejo um roqueiro falando mal de outro músico do mesmo gênero, acredito que está contribuindo para desvalorizar seu próprio meio de trabalho.

Eder: Atualmente, os festivais de música independente realizados em Ribeirão Preto e no Brasil inteiro são boas opções para bandas iniciantes?
Kiko: Eu admiro a iniciativa dos produtores desses festivais. Em São Paulo é possível encontrar alguns movimentos baseados em uma espécie de sarau, do qual participam bons artistas de jazz, samba, rock. Lá estão músicos como o multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo convivendo com Lucas Silveira, vocalista da banda Fresno, ou com o pessoal do Capital Inicial. Isso significa que muita gente já percebeu que precisa se unir para mudar esse cenário. Por isso, acho ótimo que existam produtores interessados. Em Ribeirão Preto, dá para destacar o João Rock, onde eu só toquei com o Capital Inicial, mas nunca fui convidado especialmente.

Eder: Mas você já se apresentou no Forró da Lua Cheia, de Altinópolis. Gostou da experiência?
Kiko: Gostei! Participei com Lenine e Marina, e foi bem legal. Acho que estas pessoas que dão força para a música de qualidade merecem o apoio e os parabéns.

Eder: O que você gosta de ouvir?
Kiko: Gosto de ir a um show não para ouvir uma música que já tocou no rádio, pois essa eu já conheço. Às vezes, até prefiro que o cara apresente um arranjo diferente para uma música, para que eu não tenha que ouvir a mesma coisa. Atualmente ouço bastante as músicas que eu faço, as que recebo de novos artistas e as indicadas pelos amigos.

Eder: Tem algum nome que você citaria?
Kiko: Posso citar vários! Na cena internacional, gosto muito do Jack White, do Foo Fighters. No Brasil, há algumas bandas de rock bem legais, como Vivendo do Ócio e Sugar Kane, que poderiam estar mais na mídia, mas o mercado anda bem estranho.

Eder: Gostaria de ver algum artista específico cantando uma de suas músicas?
Kiko: Tenho vários nomes, não tenho muito preconceito nesse sentido: se quiser gravar uma música minha, eu deixo, não fico restringindo. Graças a Deus, componho até hoje com muita facilidade, e o interessante é ouvir a música por aí, independente de quem a grave.

Eder: Percebo que as pessoas têm um pouco de dificuldade, talvez por falta de divulgação, de ouvir outras canções de determinados artistas além daquelas que ficaram eternizadas. Você tem achado novas maneiras para mostrar novos trabalhos?
Kiko: Estou sempre mostrando coisas novas. Um problema comum atualmente é que os artistas fazem uma única canção para o rádio, que fica muito famosa. Quando chega a hora de montar um show inteiro, não há outras novidades para apresentar, o que o obriga a preencher o repertório com covers de todas aquelas músicas que ninguém aguenta mais. Antigamente, quando o profissional ia tocar na TV, já tinha uma carreira consolidada e um público cativo. Hoje em dia, o artista surge do nada e chega aos programas de grande audiência rapidamente para tocar a única música que têm, mas que bombou nas rádios graças ao pagamento de “jabás”. Assim, ele é obrigado a preencher o restante com músicas de outros cantores.

Eder: Hoje em dia, dá para viver como compositor no Brasil?
Kiko: Já compus para Marina Lima, Lulu Santos, Ira!, Paulo Ricardo, Erasmo Carlos. Até a Xuxa gravou músicas minhas! Também tem músicos argentinos, italianos e americanos, assim como bandas novas, que gravaram as minhas músicas. Não são só artistas famosos.

Eder: Para você, os meios de distribuição de direitos autorais para compositores funcionam bem no Brasil?
Kiko: Posso dizer que já melhorou. Para viver disso, é preciso ter tempo de carreira. No Brasil, não funciona como em outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, se uma música de sua autoria estoura, dá para ficar rico para o resto da vida — sem fazer uma besteira muito grande. Já no Brasil, no máximo, você terá trabalho para o resto da vida como compositor. Muita gente acha que eu só compus “Primeiros Erros” e, mesmo se eu tivesse somente esta canção, estaria trabalhando até hoje vendendo showzinho. Apenas com dinheiro dos direitos autorais, não seria possível viver.

Eder: Nas várias áreas em que atua, por onde acha que transita melhor?
Kiko: Eu trabalho com música e, nesta área, faço diversas coisas. Além do meu som, faço arranjos, como fiz para o disco Acústico MTV do Capital Inicial, shows solo ou acompanhado, trabalho com trilha sonora para teatro e, agora, para filme também, com “Charlotte SP”. No entanto, é como compositor que sou mais conhecido e procurado.

Eder: Como está sua agenda de trabalho? Quais são as novidades?
Kiko: Tenho bastante material novo, mas não pretendo lançar disco tão cedo. O Capital Inicial acabou de gravar uma música minha para o DVD Acústico 2, gravado em Nova Iorque em junho, que se chama “A Mina”. A canção é inédita e deve ser trabalhada em outubro. Além disso, o Metro, banda dos anos 80, vai gravar música minha, a Lipstick e a Superdose. Ter várias bandas gravando minhas músicas é gratificante. Fico lisonjeado quando uma banda ou um artista gravam minhas composições, é disso que eu gosto.

FÃ E CONTEMPORÂNEO

“Conheço a carreira do Kiko e sou fã de seu trabalho. Conhecido por ser um compositor de personalidade marcante, não se sujeitava ao gosto das gravadoras. Além disso, é um excelente interprete e músico, imprimindo em suas músicas a mesma força de sua identidade”.
Eder Hanna, atua há mais de 30 anos como músico, DJ, produtor em estúdios de gravação e professor de áudio na escola Capte.

Texto: Bruno Silva
Fotos: Ibraim Leão 

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