Um confronto entre o passado e o futuro

Um confronto entre o passado e o futuro

O tombamento do conjunto da Catedral pelo Condephaat cria um conflito entre os tempos

Não é de hoje que historiadores, religiosos e pessoas ligadas ao patrimônio cultural lutam pelo tombamento da Catedral Metropolitana de São Sebastião, considerada um dos patrimônios mais significativos de Ribeirão Preto. Devido à sua localização central e ao fato de ser circundada pela Praça das Bandeiras, a Catedral se tornou uma importante rota da malha viária, abrigando em seu entorno vários pontos de ônibus, pelos quais passam 50 mil usuários todos os dias: a partir da Igreja pode-se chegar a qualquer região do município. 

Em dezembro de 2012, o padreFrancisco Moussa, o padre Chico, comunicou que pediria a interdição de trecho da Rua Florêncio de Abreu situado em frente à Catedral, devido a rachaduras surgidas há sete ou oito anos nas paredes e na cúpula da Igreja. Um estudo de engenharia realizado pela empresa Falcão Bauer indicava que o intenso tráfego de veículos na localidade poderia ser uma das possíveis  causas dos danos nos afrescos e nas paredes do templo. A proposta seria a criação de um calçadão.

A polêmica tomou ainda mais fôlego no final de junho deste ano, quando o conjunto da Catedral, formado pela Igreja, pela Praça das Bandeiras e pelo Palácio Episcopal, foi tombado por determinação do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado (Condephaat). A decisão seria motivo somente para comemorações se não fosse o fato de o conjunto estar nos planos do Município para adequar cinco pontos de ônibus — dois na Florêncio de Abreu, dois na Américo Brasiliense e um na Visconde Inhaúma — considerados fundamentais pela Empresa de Trânsito e Transporte Urbano (Transerp) para a mobilidade urbana, obras que deveriam ter sido iniciadas em dezembro, prazo que foi repactuado em função do Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta (TAC), e estão orçadas em R$ 1,2 milhão. 

Em nota, o Condephaat afirma que aprovou o tombamento da Catedral de São Sebastião com base em sua importância histórica. “Construída no início do século XX, a Catedral representa um período de riqueza da cidade, que foi um grande centro de produção cafeeira do Estado de São Paulo e do País”. Conforme o documento, a construção, em sintonia com o Palácio Episcopal e com a Praça das Bandeiras, é remanescente do patrimônio que deu origem à cidade. 

O órgão ressalta, ainda, que a renovação dos ideais da Igreja e do espírito da época eclética está expressa na união dos estilos arquitetônicos da construção, predominantemente o românico e o neogótico, cujo projeto, de autoria do arquiteto Carlos Eckman, está em perfeita harmonia com as artes plásticas, especialmente representadas por painéis e afrescos do artista Benedito Calixto.

Conforme a presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio (Conppac), Cláudia Morroni, um processo de tombamento da Catedral já está em andamento e, atualmente, passa pela análise do corpo técnico. “O tombamento estadual e o tombamento municipal são independentes, ou seja, não existe hierarquia entre eles”, destaca. Entretanto, como não recebeu nenhum material do Condephaat, o Conselho Municipal, tendo em vista o tombamento estadual, deverá tomar como base o Decreto já publicado. “Digo deverá porque o processo ainda não foi concluído e decidido pelo órgão colegiado. Quanto ao projeto do terminal de ônibus, não posso emitir qualquer opinião, porque não o conheço, e como não foi protocolado neste Conselho, não foi objeto da nossa análise”, declara. A resolução de tombamento foi publicada em 27 de junho de 2014. Nela, enquadra-se, também, o entorno da Catedral. Assim sendo, qualquer intervenção que se pretenda fazer nas ruas Tibiriçá, Lafaiete, Américo Brasiliense, Florêncio de Abreu e Visconde de Inhaúma deve ser previamente autorizada pelo Condephaat. 

A notícia causou preocupação aos técnicos da Transerp. Segundo o analista da diretoria de transporte do órgão, Reynaldo Lapate, hoje, a via de maior fluxo de embarque é a Américo Brasiliense, enquanto o maior número de desembarque acontece em frente à Catedral. “A praça propicia melhores condições para os pontos de parada, depois dos terminais, pois é um dos locais que menos incomoda o entorno, já que nela não há entrada ou saída de veículos e é possível acomodar os passageiros sem atrapalhar o fluxo das lojas”, afirma. Lapate acrescenta, ainda, que o conjunto da Catedral está inserido em uma região de maior interesse da população que utiliza o transporte coletivo. O engenheiro argumenta que, da maneira como foi feito o projeto que está sendo apreciado pelo Condephaat, o acúmulo de ônibus no entorno da praça seria reduzido substancialmente. Isto porque se pretende instalar um modelo de parada de ônibus que consiste em um recinto de espera onde os passageiros só terão acesso se já tiverem em mãos os seus bilhetes eletrônicos.

São pontos de paradas transparentes, para não interferirem na visualização da praça. Provavelmente serão construídos em vidro, com catracas laterais para entrada e saída, cujas portas de acesso ao embarque e desembarque serão sincronizadas com a abertura das portas intermediária e traseira dos veículos, de forma que, com os ônibus estacionados, os usuários possam ingressar nele automaticamente. “Como não haverá uso do dinheiro para utilização do transporte, o tempo de embarque será bastante reduzido, assim como o tempo da viagem e do intervalo entre os ônibus. A população se sentirá segura e o transporte terá um desempenho operacional melhor, pois a frota será utilizada de forma bem mais proveitosa”, explica Lapate. 

No que se refere à preservação do patrimônio, outra mudança prevista no projeto que, segundo o engenheiro, representa um avanço, é a realocação do ponto de parada da rua Visconde de Inhaúma para o quarteirão anterior da mesma rua, na esquina com a Américo Brasiliense. “Com a alteração, o impacto causado pelo processo de frenagem dos ônibus será menor para as construções do conjunto da Catedral. O quarteirão em que está inserida a igreja só ficará com o ponto de desembarque da Florêncio de Abreu, do outro lado da rua, e as paradas ficarão localizadas em pontos estratégicos que não interferem no acesso dos transeuntes à praça nem à área de passeio”, ressalta o engenheiro. 

Lapate acrescenta, ainda, que no projeto estão previstos corredores estruturais de transporte: os pontos de paradas terão piso de concreto, que é mais resistente, transmite menos a frenagem e tem influência menor no entorno. “Todas essas alterações estão sendo submetidas à apreciação do Condephaat. Tivemos uma reunião com três técnicos do órgão, no dia 8 de agosto, e tudo o que é fundamental para a preservação da Praça está sendo observado: a manutenção do piso, a preservação das árvores e as áreas de circulação das pessoas”, ressalta o diretor de transportes da Transerp, José Mauro de Araújo. 

Conforme o diretor de transporte, a Transerp está muito otimista em relação ao parecer do Condephaat, pois se trata de um projeto que trará avanço para o transporte coletivo em Ribeirão Preto. “É fundamental que tenhamos essa solução na região central da cidade, que só é viável em uma praça — não há como acomodar uma plataforma dessas em uma calçada. A Praça das Bandeiras é ideal para atender às necessidades do usuário na região central”, frisa o diretor. 

Padre Chico, que há muito luta pela Catedral, comemora a notícia do tombamento do conjunto pelo Estado de São Paulo. “A determinação do Condephaat trará segurança para o nosso patrimônio. Temos que eliminar qualquer tipo de situação que interfira na estrutura da igreja. Não queremos impedir a construção do terminal de ônibus, que é bom para a sociedade de Ribeirão Preto, mas gostaria que a Prefeitura apontasse uma solução que não ponha o templo em risco”, afirma o pároco, na expectativa de que, a partir da iniciativa do Condephaat, se encontre outra solução para os pontos de parada que circundam a igreja. 

Segundo o pároco, a Câmara Municipal pretende promover um encontro entre os representantes da Transerp e da Igreja para buscar uma solução. “São 42 linhas concentradas em frente à Catedral. A Câmara exigirá um estudo de impacto. Da nossa parte, achamos importante solicitar outro estudo para confrontar os resultados. A preocupação passa também pelos ruídos, tanto da frenagem quanto do estacionamento dos ônibus, uma vez que podem interferir diretamente na liberdade de culto”, acrescenta padre Chico.

A historiadora Nainôra de Freitas ressalta que o tombamento significa o reconhecimento, por parte do governo do Estado de São Paulo, de que Ribeirão Preto possui um patrimônio inestimável reunindo o conjunto da Catedral, suas obras de arte e o entorno, Praça e Palácio episcopal. “A preservação do patrimônio cabe à população junto com a municipalidade e a Igreja Católica, proprietárias do bem. Agora, com o reconhecimento do Estado, novas políticas públicas podem ser tomadas com o apoio do governo estadual”, sugere. Nainôra acredita que, diante da decisão do Condephaat, o Conppac pode e deve contribuir com seu apoio irrestrito à preservação contínua, não apenas deste bem patrimonial como de outros na cidade. “Se olharmos para as cidades europeias ou tomarmos como exemplo a França, entenderemos que o antigo pode e deve conviver pacificamente com a modernidade”, observa a especialista. 

Para tanto, a historiadora acredita que o diálogo deve ser estabelecido, tendo em vista as melhorias urbanas. Nainôra lembra que um dos principais bens patrimoniais da cidade — o quarteirão paulista — tem sua frente protegida pelo tráfego controlado. “A Catedral, edificação mais antiga do que estes bens patrimoniais e com problemas em sua estrutura, está mais exposta. É preciso que medidas preventivas sejam tomadas, pensando em políticas públicas de longo prazo. O laudo encomendado pela administração da Catedral aponta que existe um problema a ser considerado com seriedade para evitar danos ao bem patrimonial”, conclui a historiadora. 

Um pouco de história 
Fundada em 1917, a Catedral Metropolitana de Ribeirão Preto levou nove anos para ser construída. A edificação se diferencia das demais igrejas por seu estilo gótico-neoclássico e pelas obras de Benedito Calixto em seu interior. 

Segundo a historiadora Nainôra de Freitas, a igreja é muito mais do que um ponto turístico. “A Catedral de São Sebastião faz parte da história da cidade, que nasceu em torno da capela dedicada a São Sebastião, mais tarde matriz e depois, catedral”, conta. Ali, as pessoas se reuniam para preces, casamentos, batizados e tudo mais. Assim, a Catedral tornou-se, também, um ponto de encontro onde, inclusive, negócios eram realizados, produtos vendidos e informações trocadas. O templo sempre funcionou como referência e como ponto de encontro no centro da cidade.

De acordo com a historiadora, as catedrais fazem parte da história da humanidade no Ocidente e, em sua maioria, tem conseguido junto às municipalidades adequação para receber turistas e público em geral para diferentes finalidades — elas estão acima das crenças e pertencem ao patrimônio cultural de cada localidade.  “A Catedral de São Sebastião faz parte das edificações que ultrapassam a questão da arquitetura, das artes e da paisagem e se inscrevem no campo das mentalidades, das relações sociais, das vivências cotidianas do povo de Ribeirão Preto”, defende Nainôra.

O novo cenário do transporte público
A adequação dos pontos de parada da Catedral é apenas uma parte do projeto proposto pela Transerp, que prevê a construção do Terminal Rodoviário, com toda a infraestrutura necessária para atender não somente aos usuários, mas também aos motoristas; e do Terminal Central, que ficará na Rua Mariana Junqueira — um pouco menor — e proporcionará todas as facilidades do que aquele que será construído próximo ao Parque Maurílio Biagi. 
O projeto também prevê a construção de vários miniterminais, dois por região: 

Região Norte
• Avenida Brasil, entre a rotatória da Avenida Mogiana e a rotatória da Avenida Thomaz Alberto Whately
• Rua Emygdio Rosseto, junto ao acesso do complexo Ribeirão Verde

Zona Sul
• Em frente ao RibeirãoShopping, feito em parceria com a Multiplan
• Bonfim Paulista, no mesmo local onde existe hoje a parada de ônibus

Região Leste
• Praça da Vila Abranches 
• Praça do São José

Zona Oeste
• Avenida do Café, próximo ao portão da USP
• Planalto Verde, ao lado da via Luiz Galvão César, nas imediações da rotatória de acesso ao José Sampaio

Texto: Carla Mimessi

* Publicado em 11/09/2014

Compartilhar: