Um convite ao debate
É o que faz a 14ª Feira do Livro de Ribeirão Preto ao propor, em um novo formato, uma discussão aberta sobre os novos direitos civis
Não há dúvida de que a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto se tornou um dos mais representativos eventos do gênero no país. Pelo espaço ocupado e pela diversidade cultural reunida, entre outros fatores, tornou-se a segunda feira literária brasileira a céu aberto — e se depender da expectativa da Fundação Feira do Livro, sua organizadora desde 2004, ganhará dimensões ainda maiores.
Apesar de ainda jovem, a 14ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto dá mais um passo rumo à maturidade. Depois de ter a programação diversificada, de ocupar diversos espaços públicos da cidade, como praças, teatros e parques, e de atrair um público maior a cada ano, ganha novo formato, seguindo, a partir de agora, um tema unificador: A história em suas mãos — o livro e a leitura diante dos novos direitos civis e dos novos sujeitos sociais do Brasil.
Para colaborar na construção desta nova etapa, o presidente da Fundação Feira do Livro, Edgard de Castro, e representantes da diretoria da entidade convocaram o filósofo e professor César Nunes. Com uma vasta experiência acadêmica e como pesquisador, o programador temático elucida as diretrizes do evento deste ano, que acontece entre 16 e 25 de maio.
Edgard: Qual é sua relação com o livro e como ela contribuiu para a sua escolha profissional?
César: Nasci no norte do Paraná, em uma família humilde, que tinha seu sustento na lavoura do café. Por isso, não tive contato com os livros na infância. Quando fui para a escola e, de lá, para o seminário, aos 10 anos, comecei a conhecer a literatura, e por ela me apaixonei. No seminário, a biblioteca se tornou refúgio. Lia muito e viajava, transformando a leitura e a biblioteca nos mediadores de novas possibilidades de vida. Acabei não sendo ordenado padre e me tornei professor em Campinas. Dei aulas no Ensino Médio e no Fundamental, tendo sido, inclusive, coordenador de uma escola. Mais tarde fui para a universidade, primeiro à PUC, por dez anos, e depois à Unicamp, onde estou há 18 anos. No Ensino Superior, fiz a carreira tradicional, passando por mestrado, doutorado e pós-doutorado, alguns no Brasil e outros no exterior. Publiquei 31 livros, além de nove capítulos em obras diversas. Neste processo, tive a alegria de ser aluno de Paulo Freire na Unicamp. Essa trajetória fez com que eu ficasse conhecido e acabasse tendo relações com Ribeirão Preto, já que muitas pessoas da cidade fizeram mestrado e doutorado comigo. Fui convidado para estar em, pelo menos, cinco edições anteriores da Feira do Livro de Ribeirão Preto. Mais recentemente, participei do Entrefeiras em diversas oportunidades. Por isso, posso dizer que meu relacionamento com o evento é como um casamento bem-sucedido.
Edgard: Como acabou se tornando o programador temático desta edição?
César: Estabeleci uma relação de colaboração com a diretoria da Fundação Feira do Livro, principalmente, por compartilharmos uma série de crenças. Na minha interpretação, a Feira é um espaço de celebração e de reflexão, mas também de formação de leitores. São 10 dias de mobilização e 355 de trabalho intenso em favor da leitura. Essa é a originalidade da Feira, que considero a mais democrática — e olha que eu conheço quase todas as outras feiras do país. O evento está fazendo escola, ao trabalhar uma nova fórmula, abrir espaço a escritores e acadêmicos e socializar a relação com a literatura. Desde que fui convidado a trabalhar em uma nova identidade para a Feira, essa relação só se estreitou. Agora, com a revista da programação em mãos, fico até emocionado ao ver sua grandeza e sua originalidade.
Edgard: De onde vem a inspiração para o tema?
César: Tenho trabalhado com esses temas na carreira como professor e acadêmico. Entendo que há um olhar muito viciado para analisar o Brasil: ou as pessoas enxergam a economia — se a inflação está controlada, o país vai bem — ou o governo — se ele está fazendo as ações que supostamente deveria. Queria tirar o olho do governo e da economia para ver a sociedade civil brasileira. Como a “terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, olhar o que ainda não existe, mas pode nos orientar. Eu mesmo sou resultado de um processo extraordinário, pois venho de uma família do campo, com poucas chances de me tornar professor universitário. Entendo que o papel da sociedade é justamente ampliar os espaços e promover a inclusão. Na minha trajetória, vi que, durante muito tempo, a sociedade brasileira foi marcada pela exclusão e pela dominação. Mas, em um país que nunca respeitou a criança, vi surgir o Estatuto da Criança e do Adolescente. Comecei, então, a escrever sobre o tema e, ao perceber que elas estão tomando novos direitos, visualizo uma mudança. O mesmo acontece com a mulher, o índio, o negro, os idosos, etc. A partir desses eixos, atuei na minha carreira acadêmica como um cidadão consciente. Até lutei, durante a Ditadura Militar, para que alguns desses direitos virassem leis. Hoje, meu objetivo é fazer com que essas leis virem práticas da sociedade.
Edgard: Você costuma dizer que os princípios da Feira estão na lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira. De que maneira?
César: A educação brasileira tem uma organização sistêmica, com Educação Básica e Superior. A primeira é composta pelo Ensino Infantil, Fundamental e Médio. A segunda tem graduação, pós-graduação, etc. As duas são regidas pela Lei de Diretrizes Básicas da Educação Nacional, LDBEN (Lei 9394/96), desde 1996. Em 1997, foram definidos os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) que eram sugestões próprias de uma plataforma de governo, mas não eram diretrizes curriculares, tal como define a lei. Somente agora o Brasil tem diretrizes curriculares nacionais. Esse conceito foi apresentado em outubro de 2013, e o MEC tem a missão de implementá-lo até 2020. Posso dizer que o primeiro lugar que propõe essa discussão é Ribeirão Preto. Assim, trata-se de uma convocatória para os educadores interessados em discutir o assunto. Alguns intelectuais que participaram da formulação da Lei estarão na Feira. O evento tem um norteador fundamental.
Edgard: No Brasil, há uma tradição de muitas leis que nunca saem do papel. Seria este o caso?
César: Há uma tradição de leis formais no país. Mas isso, da Constituição de 1988 para cá, vem mudando. Uma lei pode ser esquecida ou apropriada pela sociedade. Há 40 anos, por exemplo, as mulheres não tinham uma delegacia, o que já mudou. Nas últimas décadas, tivemos a possibilidade histórica de ver que a lei pode ser apropriada pela sociedade civil brasileira. Atualmente, estamos vivendo um esforço titânico para superar os 500 anos de Brasil tradicional, criando um país com outra marcha social e política.
Edgard: Acredita que o Brasil está preparado para discutir esses novos papéis sociais?
César: O estado de preparação ideal não existe. Acredito que as forças progressistas têm que empurrar os movimentos sociais. Ao mesmo tempo, há um tipo de mídia e de pensamento alienante, com a invasão da indústria cultural. O Brasil, hoje, é um território de disputa: os direitos civis e os novos direitos sociais estão em embate com práticas consumistas. O importante é convencer o outro pelo debate aberto. Até a escola, muitas vezes, tem marcas do passado e não está preparada para a humanização e a cidadania. Acho que, hoje, a própria sociedade brasileira dividida provoca a necessidade do amadurecimento. Assim, os tempos estão grávidos da possibilidade de mudança.
Edgard: Esse debate em Ribeirão Preto pode ser um farol para a sociedade brasileira?
César: A cidade tem uma grandeza situacional, a começar pela localização geográfica, já que está sobre o Aquífero Guarani, o maior contingente de água do mundo, e sob um sol abundante. A sociedade ribeirãopretana tem um parque industrial grandioso, um parque acadêmico respeitável e um corpo tecnológico abrangente. Entendo que Ribeirão Preto tem a oportunidade de colocar, junto a isso, sua vocação literária. Ela concentra um grande número de escritores locais e regionais, inclusive premiados pelo Jabuti. Tem academias que se destacam e uma grande rede de bibliotecas, que precisa ser revitalizada. Assim, o Município pode se transformar num modelo de cidade saudável, leitora e acolhedora. Imaginemos que, em 14 anos de Feira do Livro, possamos fazer uma pesquisa sobre seus efeitos em relação ao índice de leitura. Se isso não foi feito até agora, que seja um projeto para os próximos anos, com metas de duplicar a leitura da população. Para mim, a manutenção da Feira já é admirável e a coragem para alterar o formato do evento, retomando com profundidade sua vocação literária, dá destaque à cidade. Estou muito honrado por estar presente nesta Feira, que já me rendeu convites de outras cidades para explicar sobre o formato ribeirãopretano.
Edgard: Um dos grandes projetos da Feira, que se tornou realidade há alguns anos, é o Cartão-livro. Como avalia essa ideia?
César: O Cartão-livro beneficia mais de 100 mil crianças da cidade e da região, sendo uma semente importante. A criança tem a chance de escolher livremente o que quer ler, fazendo a leitura prosperar em casa também. Nunca vi, em uma Feira, viabilizar-se com tanta agilidade créditos para a compra de livros. Que isso sirva de modelo para outras cidades e Estados. O governo municipal e estadual compraram uma ideia promissora, por meio da Fundação Feira do Livro. Essas crianças e jovens vivem, também, uma experiência de cidadania, escolhendo e negociando a própria compra. Do ponto de vista cultural, o Cartão ainda precisa ser melhor explorado. Mas o hábito de ler vem antes da seleção de leitura: é preciso começar a ler, tornando essa atividade uma prática.
Edgard: O novo formato da Feira representa, na sua visão, a maturidade do evento?
César: No dia em que acompanhei a diretoria da Fundação na apresentação da nova proposta à prefeita Dárcy Vera, ela disse uma frase que ficou na minha memória: “a maturidade formal de uma pessoa chega aos 18 anos, mas no caso da Feira, chegou aos 14”. Entendo que a Feira ainda é adolescente, mas creio que, ao reorganizar-se para a dimensão literária e reflexiva, retoma a verve das grandes feiras nacionais e internacionais. Os grandes shows, que fizeram do evento, foram muito importantes para convocar a participação popular, trazendo pessoas que jamais viriam ao centro apenas pela literatura, especialmente pelo desconhecimento. Os shows foram grandes mobilizadores, mas, agora, temos condições de partir para a organização. Ao nuclear um tema, a Feira abre a possibilidade da interlocução. E os shows não foram esquecidos, apenas reformulados. Agora, eles estão articulados, formando grandes espetáculos dentro do Theatro Pedro II. O público verá Débora Colker, As Bachianas, a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto. Há, ainda, apresentações teatrais e espetáculos clowns. A musicalidade também estará presente no Teatro de Arena, na voz de talentos locais.
Edgard: Quais são as estrelas da Feira deste ano?
César: Na questão da mulher, por exemplo, teremos Cláudia Bonfim, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Educação Sexual; Ana Paula Padrão, que tem pontificado a luta pelos direitos da mulher, especialmente em relação ao trabalho; e Beatriz Campoy, uma jovem pesquisadora que estudou, em Coimbra, os direitos da mulher no Brasil. Na questão do Plano Nacional dos Direitos Humanos, teremos a presença do eminente jurista Jorge Souto Maior, ao lado de jovens que estão começando a debater o assunto. Há, ainda, alguns escritores que se tornaram a memória do país, como Ruy Castro e Fernando Morais, além de Mário Sérgio Cortella e Clara Charf, esposa de Carlos Marighella. O cacique Raoni, que há 20 anos começou a chamar a atenção para a causa dos índios no Brasil, também estará presente. Ignácio de Loyolla Brandão está novamente confirmado. Por último, destaco Ana Maria Machado, a presidente da Academia Brasileira de Letras, uma das homenageadas deste ano. A autora recentemente foi um dos destaques da maior feira de literatura infantil do mundo, em Bologna. Isso tudo sem falar da participação do italiano Mauro Maldonato, um dos grandes intelectuais da atualidade, e da extensa presença dos autores locais.
Edgard: Com tudo isso, a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto pode ser considerada um dos grandes acontecimentos do ano?
César: Creio que sim. Venho dizendo que há três festas este ano: as eleições, a Copa do Mundo e a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto. Mas se eu fosse escolher uma ordem de importância, diria que a nossa Feira está em primeiro lugar, não por arrogância, mas por entender que quem lê vota melhor e aproveita melhor uma festa como a Copa do Mundo, não ficando no bando dos raivosos, nem no bando dos populistas. Uma pessoa com consciência crítica, literária, é capaz de entender a Copa em sua identidade, assim como a polifonia da sociedade brasileira, para votar com compromisso. A consciência política tem que ser debatida na sua esfera, mas a literatura é a cidadania cultural, que precede a cidadania política. Só será um sujeito atuante quem for articulado, integrado e pleno na sociedade.
Edgard: A Feira lançou uma carta, disponível na internet para adesões, abordando os novos temas da Feira. Qual a intenção dessa carta e o que vai acontecer com ela depois da Feira?
César: O Brasil tem uma vinculação histórica com a carta como componente da sua cultura. Pedro Alvarez Cabral, que era analfabeto, traz Pero Vaz de Caminha, o escritor, para fazer o primeiro registro sobre o Brasil, no dia 6 de maio de 1500. Por isso, depois de muitas discussões, tanto com a equipe da Feira quanto com intelectuais, pensamos em uma carta endereçada, primeiramente, ao povo brasileiro e, em segundo plano, aos poderes constituídos do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. A carta reafirma os 10 temas que compõem a Feira e, antes disso, dois valores: a crença na vida e a crença na liberdade. Ao final, há dois eixos conclusivos. Antes, essa carta é um elemento de convocação, para que todos participem e compreendam a Feira. Depois de debatida e assinada, será um instrumento de pressão, a ser levado às autoridades. Coletaremos, em cada mesa de debates, as demandas levantadas. A presidência, os ministérios, o Governo do Estado e do Município receberão uma cópia desse manifesto coletivo. Isso transforma a Feira em uma grande conferência sobre os direitos das “gentes” que compõem o Brasil atual. Depois da Feira, a carta será um documento, ao meu ver, político e histórico.
A FEIRA DOS SONHOS
“O professor César Nunes tornou-se uma figura bastante presente na rotina da Fundação Feira do Livro, especialmente nos últimos cinco anos. Além de participar como convidado do evento, esteve conosco em inúmeras oportunidades no Projeto Entrefeiras, em palestras, workshops e cursos. Por conta dessas ocasiões, descobrimos diversas afinidades, inclusive, em relação ao futuro da Feira do Livro de Ribeirão Preto. Em meados de 2013, com manifestações acontecendo por todo o país, começamos a imaginar de que maneira o evento poderia contribuir ainda mais para um necessário debate nacional e chegamos ao esboço da 14ª Feira, com uma proposta temática, apropriada para discutir os novos direitos civis e os novos sujeitos sociais brasileiros. Neste período de preparação, ficou claro para a diretoria da Fundação que não haveria pessoa mais indicada para contribuir para a construção de um novo formato, mais crítico e efetivo, para o evento ribeirãopretano.”
Edgard de Castro, cineasta e presidente da Fundação Feira do Livro de Ribeirão Preto
Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Ibraim Leão