Um dia no circo

Um dia no circo

Tihany Spetacular revela como se faz um bom circo


Logo que as primeiras carretas do Tihany Spectacular, considerado o maior circo da América Latina e um dos melhores do mundo, estacionaram na Avenida Castelo Branco, a notícia se espalhou freneticamente pela cidade. O público, ansioso, contava os dias para ver de perto cada uma das atrações. Não foi preciso esperar muito. Em apenas quatro dias, o terreno foi cuidadosamente preparado para receber a grande infraestrutura que uma companhia desse porte exige. A imensa lona foi erguida. Debaixo dela, um palco de 700 m², que abriga 12 cenários distintos, e uma plateia, composta por duas mil cadeiras, aguardavam os espectadores.

A estreia do espetáculo AbraKdabra em Ribeirão Preto aconteceu no dia 22 de novembro, com lotação máxima. Assim que a cortina vermelha se abriu, um mundo de alegria e encanto tomou conta do ambiente. Muitas risadas e inúmeros aplausos marcaram a emocionante noite. Cerca de 50 artistas, de 25 nacionalidades diferentes, apresentam 18 atos, que incluem acrobacia, equilibrismo, ilusionismo, contorcionismo, dança e humor. A utilização de 20 mil watts de som e 124 luzes de LED, que geram efeitos tridimensionais, comprovam o estilo moderno, inovador e arrojado, repleto de aparatos tecnológicos, adotado pelo Tihany. Quem assiste ao espetáculo, desfruta de duas horas de pura diversão.

Mas o que acontece quando o público vai embora e deixa a arena vazia? Nessa hora de quietude, é possível notar com clareza a verdadeira riqueza do circo: as pessoas que fazem parte dele. Cada integrante da trupe tem muitos outros talentos além daqueles que se pode ver durante minutos em ação. Além do extremo profissionalismo e dos treinamentos constantes, a diversidade cultural, a dedicação e as histórias de vida dos envolvidos são os ingredientes secretos que mantêm essa engrenagem funcionando em perfeita harmonia.

Por tudo isso, o Tihany tem causado um completo fascínio em crianças e adultos. “Esse é um complexo arquitetônico que combina beleza cênica, talentos individuais e coletivos, muito trabalho e paixão pela arte. Isso acontece por parte de todos, desde os que se apresentam até os que cuidam do administrativo, do atendimento ao público, do som, da iluminação e da limpeza. Temos o máximo de cuidado com os detalhes. É essa a receita que tem garantido a longa trajetória de sucesso da nossa companhia. O espectador sente, assim que passa pela entrada, que está em um lugar onde reina a magia”, destaca o atual diretor artístico e ilusionista do Tihany Spectacular, Richard Massone.

São 140 funcionários registrados, que compartilham dessa mesma filosofia. É o caso de Henry Ayala Júnior, mais conhecido como Henry, o Príncipe dos Palhaços. Nascido na Venezuela, ele é representante da quinta geração da família no mundo circense. “Desde pequeno, sabia que ia seguir com a tradição. Cresci embaixo da lona, passando por diversos países, em várias companhias diferentes. Via meu pai, meus tios, meus amigos e me inspirava neles. No início, apenas olhava. Aos poucos, passei a imitá-los, como brincadeira mesmo. Os primeiros passos foram como acrobata, malabarista e equilibrista. Depois, descobri que também tinha vocação para ser palhaço. São duas coisas totalmente distintas. Uma faz sorrir, a outra faz o coração acelerar”, descreve Henry. No Tihany há quatro anos, desempenha as duas funções. No número da corda bamba, inclusive, conta com o pai e o irmão como parceiros. “É um privilégio tê-los por perto”, afirma.

No camarim atrás do palco, enquanto se prepara para o espetáculo, Henry vibra ao ouvir a agitação do público. Conforme a maquiagem vai ficando pronta, os trejeitos mudam e o personagem toma conta do artista. “São dez shows por semana. Consigo me emocionar em todos eles. Quero sempre dar meu máximo para que as pessoas fiquem felizes e esqueçam dos seus problemas. Elas me respondendo, esqueço dos meus também. É uma troca de energia sensacional”, explica o palhaço. Mesmo com muitos anos de experiência, ele frisa que nunca está satisfeito e busca evoluir constantemente.

Vindas da Mongólia, as amigas Bujee, Shuree, Khandmaa e Doljin são as responsáveis por um dos atos mais surpreendentes do AbraKdabra. As contorcionistas realizam movimentos impensáveis para os meros mortais. Para elas, a reação dos espectadores é a maior recompensa. “Eles ficam espantados, realmente incrédulos. O melhor são os aplausos. Para o artista, esse é o maior reconhecimento”, comentam as jovens, que começaram a carreira quando ainda eram crianças. No Tihany, elas atuam em conjunto há três anos. Nos momentos de folga, as quatro gostam de visitar os pontos turísticos da cidade em que estão instaladas. Ainda não houve tempo para conhecer Ribeirão Preto, mas pretendem fazer um tour em breve.

Neste show, são apenas quatro brasileiros no palco. Cochise Monteiro é um deles. Aos 21 anos, o carioca deixa o público de boca aberta no número dos acrobatas voadores. “Fiz aulas de circo e gostei. Optei por me profissionalizar e aperfeiçoei minha técnica. A oportunidade surgiu e eu agarrei. Agora, estou há dois anos no Tihany. Formamos uma família que vive para garantir um entretenimento de qualidade para o nosso público”, finaliza Cochise.

Um pouco de história
O circo foi idealizado por Franz Czeisler, no final da década de 50, em Jacareí. A origem do nome vem da cidade natal de seu criador, Tihany, localizada na Hungria. Judeu, Franz imigrou para o Brasil com a família para fugir da perseguição nazista. Encontrou no país um novo lar e, no circo, sua realização. Aos poucos, o trabalho foi crescendo, conquistando fãs por onde passava e ganhando contornos mais profissionais. Quando o fundador decidiu que era hora se afastar dos negócios para colher os frutos plantados no decorrer da carreira, escolheu Richard como seu herdeiro. O ilusionista aceitou o cargo e leva a sério a missão de continuar essa bela tradição.

Em sua trajetória, o Circo Tihany passou por 40 países, em um total de mais de 600 cidades, atraindo 80 milhões de pessoas. A turnê que está em Ribeirão Preto hoje já foi assistida por mais de um milhão de pessoas. As atrações foram selecionadas em importantes festivais da área, como Monte Carlo, Paris, Budapeste, Rússia e China. A primeira apresentação aconteceu há sete anos, em Las Vegas, onde o show foi produzido e coreografado. Por isso, muitos números têm uma forte influência dos grandes espetáculos promovidos pelos mais luxuosos cassinos, com músicas, bailarinas, fantasias e muito entretenimento.

Desde então, a companhia passou por Estados Unidos, México, alguns países da América Central e da América do Sul, até ingressar em território nacional. A trupe já percorreu 17 cidades brasileiras. Entre elas, Manaus, Belém, São Luís, Fortaleza, Recife, Maceió, João Pessoa, Natal, Aracaju, Salvador, Vitória, Brasília, Goiânia, São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro. “Ainda temos vários destinos a cumprir por aqui. Depois, vamos para Argentina, Uruguai, entre outras nações. Demoramos, em média, 14 anos para cumprir nosso cronograma internacional. Portanto, ainda temos mais sete pela frente com o AbraKdabra. Essa já é a quarta vez que damos essa volta pelas Américas”, revela. Quando a equipe retornar ao ponto inicial, começará a montagem de um novo espetáculo. “Porque o show tem que continuar”, reforça Richard.

Texto: Paula Zuliani  |  Fotos: Julio Sian e divulgação

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