Um entusiasta do esporte

Um entusiasta do esporte

À frente do time ADC Intelli, Vincenzo Spedicato ajuda a escrever a história do futsal no país

No Brasil, o italiano Vincenzo Spedicato encontrou a realização pessoal e profissional. Além de construir uma família feliz e uma carreira bem-sucedida no ramo industrial, à frente do Grupo Intelli, em Orlândia, foi aqui que conheceu um novo esporte pelo qual se encantou instantaneamente: o futsal. Em pouco tempo, tornou-se um dos maiores incentivadores e uma das principais referências da modalidade.

Em 1977, criou um clube próprio, que leva o nome de sua empresa. Desde então, o time figura entre os melhores do ranking nacional e coleciona conquistas importantes, como a do Campeonato Nacional e a do Torneio Libertadores da América, entre outros. Nesta entrevista concedida ao jornalista esportivo Wilson Rocha, o empresário fala sobre o início do projeto, revela detalhes da gestão do time e tenta explicar como essa paixão pelo jogo da bola pesada contagiou uma legião de fãs.

Wilson: Você nasceu na Itália e veio para o Brasil na década de 60. Por que escolheu o nosso país como a sua segunda pátria?
Vincenzo: Na verdade, foi o Brasil que me escolheu. Vim para cá na juventude, para trabalhar por dois anos e, assim, evitar o Serviço Militar na Itália. Porém, esse país é um sedutor. O estrangeiro que conhece o Brasil dificilmente consegue esquecê-lo. Acabei me rendendo, em definitivo, aos seus inúmeros encantos. Construí uma carreira como empresário em Orlândia e firmei raízes. Aqui, encontrei uma nação grandiosa, que me estimulou a crescer como pessoa e como profissional.

Wilson: Um desses encantos que o país te apresentou foi o futebol de salão. Como surgiu essa paixão?
Vincenzo: Essa história começou em 1969. Estava em São Paulo, com um grupo de amigos, que me levou à Associação Cristã de Moços (ACM), na rua Nestor Pestana, região central da cidade, para que eu pudesse ver um tipo de futebol diferente que tinha surgido naquele local. À época, o nome era jogo da bola pesada. Foi amor à primeira vista. Como tinha a intenção de voltar para a Itália, pensei em levar o futebol de salão comigo. Fazia todo o sentido praticar o esporte dentro de um ginásio fechado e não no campo, ao ar livre, já que, no meu país de origem, o inverno e as chuvas são constantes por quase nove meses do ano. Se no Brasil, que faz calor o ano inteiro, essa modalidade já conquistava fãs, tinha certeza de que lá, na Europa, o sucesso seria ainda maior. Entretanto, a vida quis que eu ficasse por aqui. Então, passei a planejar o que eu poderia fazer por essa modalidade que me despertou tamanha paixão. Em Orlândia, era presidente do principal clube de lazer e entretenimento da cidade. Comecei a incentivar a prática do futsal dentro da associação, além de promover alguns torneios intermunicipais. Tomei tanto gosto pela área que decidi criar um time. Em 1977, surgiu a oportunidade de transformar esse sonho em realidade com a fundação da Associação Desportiva Classista Intelli (ADC – Intelli). Logo já estávamos disputando o Campeonato Estadual de Futsal, organizado pela Federação Paulista de Futebol de Salão. Também fui um dos idealizadores da Taça EPTV de Futsal, que contribuiu muito para divulgar o esporte em toda a região. Na primeira competição oficial, em 1985, fomos vice-campeões e conquistamos o título nos anos de 1986, 1995, 2004, 2006 e 2009.

Wilson: Na Itália e no Brasil, o futebol de campo é predominante. Sua identificação com o futsal fez com que você perdesse um pouco o interesse pelo jogo ao ar livre?
Vincenzo: De maneira nenhuma. O futebol de campo, diga-se de passagem, nasceu, informalmente, na Itália. Existem vários indícios de jogos com bola redonda na antiguidade, especialmente entre o clero. Depois, foi na Inglaterra que a modalidade tomou forma e ganhou regras. Portanto, sempre tive um contato próximo e sempre adorei o futebol de campo. Porém, no futsal, vi que a minha ajuda seria mais significativa. Havia muito espaço para evoluir, para conquistar a profissionalização, e, ao mesmo tempo, exigia um pouco menos de empenho da minha parte visto que, em primeiro lugar, sou um industrial atuante. Percebi que, além de gostar muito desse esporte, poderia triunfar com ele.

Wilson: Você já foi atleta?
Vincenzo: Um atleta amador. Nunca atuei profissionalmente. Sou formado em Engenharia e os estudos ocupavam minha agenda completamente, não deixando nenhuma brecha para um envolvimento mais sério com o esporte. Jogava futebol de campo e aprendi o futsal aqui no Brasil, mas sempre por hobby, por prazer.

Wilson: Quais são suas funções como fomentador de um time de futsal?
Vincenzo: Cuidamos de absolutamente tudo. A Intelli é responsável por formar uma comissão técnica competente, contratar uma seleção de jogadores competitiva e oferecer a estrutura adequada para os treinamentos. Tem sede própria, uniformes personalizados, locomoção para os campeonatos e muito mais. É um processo realmente complexo, que envolve várias frentes de atuação.

Wilson: Sabemos que você faz isso por pura paixão pelo esporte. Porém, ter o nome da sua empresa ligado ao Clube, que é um dos mais importantes do Brasil, traz algum tipo de retorno?
Vincenzo: Sim. O retorno da mídia é fantástico. Somos uma indústria de terminais elétricos, ou seja, fabricamos um produto que não é popular entre o grande público. Antigamente, apenas alguns setores específicos, que demandavam da nossa mão de obra, sabiam o que era a Intelli. Hoje, o país inteiro associa nosso nome a Orlândia e ao time. Transformamos a cidade na “Capital Nacional do Futsal”. Estamos, frequentemente, nos meios de comunicação, na TV, nos jornais, nas revistas, nas rádios e na internet. Isso colabora de forma expressiva para o fortalecimento e para a sedimentação da marca junto ao mercado, o que é primordial para bons negócios. As empresas escolhem a Intelli pela competência, pela tradição e pela qualidade, mas também pela nossa simpatia, pelo clube e pelo impacto positivo que ele nos traz. Se eu pegasse o valor que emprego no time e investisse em publicidade, não seríamos tão conhecidos. Agora, quanto ao aspecto financeiro, não consigo mensurar tudo isso em números. Até porque, faço questão de repetir, essa é uma questão que envolve paixão, e não razão.

Wilson: Quanto você investe por mês, em média, para manter o time disputando os campeonatos de alto nível?
Vincenzo: Isso varia bastante. A média é de R$ 5 milhões ao ano. Nos dois últimos anos, quando nós tivemos dentro da nossa agremiação o Falcão, melhor jogador do mundo, lógico que os gastos foram superiores.

Wilson: Falando sobre o Falcão, valeu a pena trazê-lo para o elenco da Intelli?
Vincenzo: Com certeza. Além da capacidade técnica, da habilidade e do talento dele como jogador, que são inquestionáveis, o Falcão tem um carisma imenso e atrai a mídia. O período em que ele esteve aqui foi o que a Intelli ganhou maior destaque no cenário nacional e internacional. Tínhamos mais um ano de contrato, mas ele me pediu para liberá-lo, pois desejava seguir um projeto pessoal. Tudo ocorreu de maneira amigável e sei que um pedaço do coração dele permaneceu conosco. Como homenagem, aposentamos a camisa de número 12, a que ele usou no time. Hoje, ela está em um quadro, no memorial que construímos para eternizar a história do clube.

Wilson: É possível que ele volte no futuro?
Vincenzo: É bem improvável. Por ser um esporte extremamente dinâmico, o futsal exige uma explosão física intensa do atleta até o último segundo da partida. Por exemplo, a nossa classificação para a final do Campeonato Nacional este ano veio, literalmente, no último segundo, quando fizemos um gol contra o Corinthians. Existe uma data limite para que o atleta tenha um alto desempenho em quadra, sem sacrifícios, e o Falcão está se aproximando dela. Ele já começou a diversificar, iniciando um trabalho como dirigente, que eu tenho certeza que será muito bem-sucedido.

Wilson: Você já foi campeão estadual, nacional e sul americano. O título mundial é o que falta para a sua galeria de conquistas?
Vincenzo: O título mundial ainda não veio por um detalhe, um acaso do destino. O calendário da competição coincide com as datas dos nossos campeonatos estaduais e nacionais. Disputamos partidas de duas a três vezes por semana, enquanto outros clubes, principalmente os europeus, têm uma agenda de compromissos muito mais tranquila. Esse é o segundo ano consecutivo que tivemos desfalques importantes na equipe por causa desse desgaste.

Wilson: Falta organização para o Campeonato Mundial de clubes de futsal?
Vincenzo: Sem dúvida. Não se pode definir o campeão de uma competição dessa magnitude de forma improvisada, sem o devido planejamento. É preciso montar um calendário equilibrado e harmonioso, que seja benéfico para todas as federações envolvidas.

Wilson: Já pensou em transformar o time da Intelli em algo itinerante, promovendo jogos em outras cidades, como Ribeirão Preto e Franca? Não seria uma maneira de tornar o esporte ainda mais famoso?
Vincenzo: Ter o projeto sediado em Orlândia é importante para mim. É a cidade que me acolheu, onde minha empresa nasceu e prosperou. Manter essa proximidade entre o time e a sociedade é o jeito que encontrei de retribuir, pelo menos um pouco, o muito que recebi desse lugar. As pessoas daqui, assim como eu, apaixonaram-se pelo futsal. Infelizmente, hoje, não temos um ginásio compatível com as proporções que a nossa equipe atingiu. O espaço não tem capacidade para receber grandes públicos e, por isso, alguns jogos que temos o mando de campo são disputados em outras localidades. Ultimamente, o ginásio mais utilizado pelo nosso Clube fica em Uberlândia, Minas Gerais. Na região, não temos nenhum lugar adequado. A Cava do Bosque seria uma alternativa, mas não tem alvará dos bombeiros para receber esse tipo de evento. Faço até um apelo às autoridades para que consigam essa liberação o quanto antes. Seria um prazer jogar em Ribeirão Preto, onde sabemos que temos um enorme contingente de fãs.

Wilson: Qual foi a maior alegria à frente do Clube Intelli? E a maior tristeza?
Vincenzo: Sou um otimista inveterado. Então, prefiro olhar para as situações apenas pelo lado bom. O momento de maior alegria foi a conquista do primeiro campeonato nacional, há três anos, com o Falcão no nosso elenco. Ainda mais do jeito que aconteceu. Tínhamos a vantagem do empate, mas quando o primeiro tempo terminou, estávamos perdendo por 4 a 0. Na segunda parcial, conseguimos virar o jogo e fomos vencedores. Erguer a Taça Libertadores da América de Futsal, em 2013, também foi simplesmente inesquecível. A tristeza veio no último campeonato mundial quando, por uma infelicidade de um dos nossos melhores jogadores, perdemos a final.

Wilson: Você também contribui com a cidade através de projetos sociais, como o “Adolescentes no Esporte”. Como ele funciona?
Vincenzo: Em princípio, a Intelli oferecia trabalho a presidiários. O objetivo era reintegrar essas pessoas à sociedade da forma mais natural possível. Porém, depois de um tempo, decidimos mudar nossa estratégia e focar nos adolescentes que vivem em uma realidade familiar frágil, desajustada, que têm uma grande propensão à marginalidade. Nessa fase, ainda há uma chance real de recuperação. Fizemos um acordo, onde a Prefeitura dá as instalações e nós levamos os equipamentos para que eles possam montar peças para a nossa fábrica. Todos que estão nessa linha de produção recebem salários dignamente. Com isso, mostramos a importância do trabalho e formamos futuros cidadãos do bem. Porém, é fundamental que o adolescente esteja estudando regularmente e obtendo boas notas. Caso contrário, eles são automaticamente desligados do projeto. Quando completam 18 anos, os melhores têm emprego garantido na Intelli. Também oferecemos assistência sanitária e dentária. Essa ação é a minha menina dos olhos. Conseguimos recuperar e encaminhar mais de 3.000 adolescentes em Orlândia, em, aproximadamente, seis anos. A taxa de criminalidade tem diminuído barbaramente desde então. É uma ideia que, se fosse copiada por outras cidades e por outros colegas industriais, sem dúvida geraria enormes benefícios na luta para se construir uma sociedade mais íntegra, mais equilibrada, mais justa e menos violenta.

Wilson: O que você usa de sua experiência no esporte no dia a dia de sua empresa? 
Vincenzo: No esporte, você aprende que a lealdade e a obstinação são essenciais para conquistar resultados. Essa combinação deve ser aplicada em absolutamente todos os aspectos da nossa vida porque, dessa forma, podemos chegar a patamares inimagináveis.

LIÇÕES PARA A VIDA

“No esporte, não existe amor pela metade. Quando se apaixona de verdade por uma modalidade, ou você a pratica ou a apoia. Vincenzo Spedicato escolheu o futsal e este é o assunto principal desta entrevista. O italiano nos recebeu para esse bate-papo em sua empresa, com a cordialidade de sempre, para falar do seu time, a ADC Intelli /Orlândia. A serenidade nas palavras não esconde a ardente paixão pelo futebol de salão. Em suas respostas, há alegria ao mencionar as conquistas e equilíbrio ao descrever as tristezas. O empresário bem-sucedido, com reconhecimento internacional no segmento em que atua, afirma com humildade que retira ensinamentos preciosos das quadras e das competições, lições que leva para vários aspectos de sua vida. A história de Vincenzo mostra, de maneira bastante clara, o quanto é importante investir no esporte e como essa iniciativa é capaz de mobilizar uma cidade inteira, proporcionando, a ela, lazer, entretenimento e solidariedade.”
Wilson Rocha, jornalista esportivo.

Texto: Paula Zuliani
Fotos: Júlio Sian

Compartilhar: