Um feliz reencontro
Luiz Puntel e Eliane Ratier recuperam lembranças dos tempos de infância e juventude
Para o professor e escritor Luiz Puntel, a relação com o saber começou cedo, quando o menino tímido encontrou nas letras a razão para buscar o autoconhecimento. Muito mais do que lazer, e em uma época que o livro tinha um valor diferenciado na formação educacional, a leitura tornou-se sua fiel companheira. Essa paixão também faz parte da vida da dentista e poetisa Eliane Ratier.
Admiradora do trabalho pedagógico e literário de Puntel, na entrevista, acompanhada pela jornalista Rose Rubini, Eliane relembrou fatos marcantes da formação de ambos, bem como lembranças que, de uma forma muito sutil, os uniu ainda na sua infância. Isso aconteceu, mais precisamente, quando o jovem Puntel serviu o Exército. Como relembrou, era ele que algumas vezes a acompanhava em idas e vindas pelo centro da cidade, já que era um soldado de confiança do seu superior hierárquico, pai de Eliane.
Curioso pelas palavras, não demorou muito para Puntel descobrir sua vocação na arte de ensinar. Inquieto por natureza defende que a leitura e a educação multidisciplinar são essenciais na formação de cidadãos mais críticos. Formado em Letras, foi na direção da Oficina Literária Puntel que encontrou o caminho para realizar seus anseios e provocar mudanças. No espaço, bem estruturado, dedica-se, há mais de 30 anos, à orientação de alunos do Ensino Fundamental, Médio e Superior, além de executivos de várias áreas, profissionais liberais e pós-graduandos, no domínio da escrita e da comunicação oral.
Na literatura, coleciona mais de dez livros como autor, cuja característica é a linguagem simples e direta, que toca, em especial, os jovens. Histórias de vidas marcadas pela realidade brasileira, que nem sempre estão presentes em sala de aula. É exatamente neste cenário comum aos dois que Eliane busca desvendar um pouco mais sobre Puntel, construído por meio de suas experiências e da necessidade de promover mudanças sociais.
Eliane: Como descobriu a paixão pela literatura?
Puntel: Esse gosto pela leitura começou na infância, lá na cidade mineira de Guaxupé, onde nasci. Eu vim de uma família grande, fui o sexto entre dez filhos e, naquela época, não havia opções de lazer. Por isso, acabei me apegando aos livros como curiosidade pelo mundo à minha volta. Depois, quando fomos morar em São José do Rio Pardo, ouvi muitas histórias sobre Euclides da Cunha, o autor de Os Sertões, que escreveu o livro nas folgas de seu trabalho como engenheiro da ponte metálica, que foi erguida lá no final do século XIX. Já na adolescência, vim para Ribeirão Preto e morei nas proximidades da biblioteca Altino Arantes, o que facilitou ainda mais meu acesso aos livros. Lembro-me que o primeiro livro que ganhei na vida veio do padre Angélico, que era amigo da família. Ao me encontrar em uma livraria, perguntou se eu iria comprar o exemplar que estava a admirar e eu disse que não. Gentilmente, ele me disse que eu ganharia o livro “Três garotos em férias no rio Paraná”. Este foi apenas um dos muitos fatos marcantes em minha vida que ilustram o valor da leitura.
Eliane: A leitura tinha um valor positivo para você?
Puntel: Claro, até mesmo porque não havia concorrência com a TV, com o cinema ou com os shopping centers. Isso era algo muito caro e distante da nossa realidade. Na década de 60, não havia apego ao consumo e tínhamos uma vida mais simples. Brincávamos na varanda, na rua ou na frondosa mangueira do quintal de casa. Sem falar que eu era muito tímido e, nessa timidez, eu me recolhia, fator principal para a leitura. A leitura é gratificante porque quando você começa não sabe aonde vai parar. Talvez, por conta disso, tenha acabado seguindo para as Letras.
Eliane: Você fazia muito sucesso com as meninas na juventude?
Puntel: Eu fazia sim. Era sério e muito tímido, mas como lia muito, tinha fama de inteligente, de intelectual, de “sabe tudo” e isso despertava a atenção das meninas.
Eliane: Você já quis ser padre. De onde veio este desejo?
Puntel: Como o padre Angélico frequentava muito nossa casa, certo dia, ele me convidou para ir para o seminário. Eu, que não estava muito satisfeito em casa — em uma família grande, não há muito espaço para privacidade — prontamente disse sim. Então, aos 11 anos de idade, fui para o seminário Maria Imaculada Conceição, em Brodowski. Aquele foi um tempo muito bom porque pude aprender mais sobre o latim, matéria que tinha muito peso na educação tradicional de então. Além disso, serviu para solidificar valores que levo pela vida afora. Mas, com o tempo, vi que não tinha vocação para padre e, por isso, não permaneci. Depois disso, fiz o Ginásio no Otoniel Mota e o Clássico no Colégio Santos Dumont, lá na Vila Tibério. Mais tarde, tentei fazer Propaganda e Marketing, em São Paulo, mas desisti.
Eliane: Foi depois dessa época que começou sua saga de “concurseiro”?
Puntel: Sim. Eu precisava trabalhar para custear a faculdade, mas não consegui arrumar emprego em São Paulo. Então voltei para Ribeirão Preto e decidi cursar Letras. Ao mesmo tempo, eu prestava concursos para escriturário, como se dizia na época. Com isso, trabalhei em vários lugares, como no Hospital Santa Teresa, no Hospital das Clínicas, e aprendi muito sobre a rotina do que ocorre no mundo burocrático.
Eliane: Qual foi o principal trabalho público que desempenhou?
Puntel: Foi mesmo no Banco do Brasil, onde fiquei por 12 anos. Inicialmente, trabalhei numa agência em Batatais — ia e voltava todos os dias. Depois, consegui uma transferência para Ribeirão Preto. Foi nesse período que me casei e também me formei em Letras.
Eliane: Escrever bem o levou a uma carreira bem-sucedida como professor e escritor?
Puntel: Na verdade, sou professor — um professor que escreveu alguns livros. Não me considero escritor, que, na minha opinião, é aquele que escreve e faz do escrever a sua profissão, o seu fazer. Como a escola me absorve o tempo todo, eu me defino como professor mesmo.
Eliane: Como surgiu a sua escola?
Puntel: Eu dava aulas de redação para alunos de cursinho em uma escola particular. Um dia, conheci, em Araçatuba, uma escola voltada só para Língua Portuguesa, o que era raro. Havia escolas de inglês, de francês, mas não de português. Foi aí que nasceu a ideia de formar turmas pequenas para estudarmos redação, interpretação de textos, gramática.
Eliane: Como ocorreu esta transformação de um menino tão tímido para um orador e um professor tão desenvolto?
Puntel: Eu diria que sou desenvolto circunstancialmente. Isto é, quando visto a personalidade do professor ou do orador que me habita, consigo me sair razoavelmente bem. Em outras palavras, desempenho a contento esses papéis. Eu não nasci professor nem orador. Este lado profissional foi sendo construído, trabalhado ao longo do fazer profissional.
Eliane: A escola de hoje tem falhado no ensino de Língua Portuguesa?
Puntel: A língua, todos sabemos, é o mecanismo que nos permite expressar sentimentos, emoções, alegrias; enfim, nos comunicarmos. Quando a escola privilegia este lado, seja por meio da leitura de textos literários, seja pelo desenvolvimento da oralidade do aluno, ou o incentivo para que ele escreva também seus sentimentos, emoções, tristezas, aí nós temos o emprego correto da nossa língua. Mas, o que vemos muito nos currículos escolares é a proposta da dissecação do texto nos ínfimos detalhes gramaticais, o que concorre para o desinteresse do alunado.
Eliane: Qual a diferença entre lidar com o adolescente e o adulto?
Puntel: Quando só 481 jovens, de um universo de cinco milhões que prestaram o Enem deste ano, tiraram nota máxima em redação, e a maioria ficou com média cinco ou menos, é preciso repensar a educação no país. Hoje, o aluno não escreve, só anota e, às vezes, dependendo de onde estuda, só lê, porque recebe o material apostilado, disponível no tablet ou no computador. O estudante não é estimulado a raciocinar, a pensar, a discutir e ter opinião formada sobre cada tema. Mas quando o vestibular vai se aproximando e a nota da redação ou de interpretação de textos e gramática começa a preocupar, é que procuram ajuda na área. Já para o adulto, além da escrita, dominar a oratória se transformou em um grande desafio, seja para se expressar ou se comunicar melhor com a equipe, para fazer algum tipo de apresentação ou mesmo na hora de expor suas ideias e projetos numa reunião empresarial.
Eliane: O curso de oratória objetiva que tipo de público?
Puntel: Geralmente, o público adulto, quer sejam universitários, pós-graduandos ou aqueles que estão envolvidos com o mundo empresarial. E por quê? Porque falar em público é um dos maiores medos, uma das maiores dificuldades que temos. Não é fácil levantarmos numa reunião, ou em nosso grupo social, e, olhando nos olhos dos que estão à nossa frente, desenvolver, com clareza e objetividade, o que queremos dizer. Muitas vezes, ficamos nervosos, a voz some e o corpo denuncia que não estamos confortáveis. Por isso, colocar-se em treinamento, assimilando as técnicas de oratória é importante para conquistarmos o direito de sermos ouvidos.
Eliane: De onde vem inspiração para seus artigos bem-humorados, sempre atuais, publicados no jornal A Cidade?
Puntel: Eu sempre escrevi crônicas em vários jornais da cidade. Quando dei por mim, a gaveta estava cheia de textos. O que fazer, o que não fazer? O que fiz foi enviar os originais para várias editoras. Um belo dia, Jiro Takarashi, editor da Ática, me telefona para conversarmos sobre a publicação do livro de crônicas “Não Aguento mais esse regime”. Depois, pela mesma Ática, vieram os livros juvenis, como “Açúcar Amargo”, “Meninos sem Pátria”, “Tráfico de Anjos” e “Missão no Oriente”, entre outros títulos.
Eliane: Qual a receita para prender a atenção dos jovens em seus livros?
Puntel: Os livros juvenis precisam ter ação e diálogo já de início. Se houver muita descrição ou dissertação, o leitor se desinteressa facilmente. Não que isso seja um modelo a ser seguido, mas quem escreve para jovens sabe que precisa construir um texto ágil, dinâmico, envolvente. Agora, não basta ter uma história agitada, cheia de peripécias. Eu sempre entendi, quando escrevia com mais regularidade, que escrever livros juvenis era uma excelente oportunidade para se discutir questões sociais. Assim, por exemplo, nasceram “Açúcar Amargo”, que trata da questão do universo do plantio da cana, e “Meninos sem pátria”, que aborda o exílio no tempo da ditadura.
Eliane: Por meio dos livros, dá para trabalhar a interdisciplinaridade?
Puntel: Sem dúvida! A partir da leitura de um livro, a escola que privilegia a interdisciplinaridade consegue desenvolver uma série de práticas pedagógicas. Já visitei escolas que adotaram “Açúcar Amargo” e, através das várias disciplinas, fizeram trabalhos envolvendo questões matemáticas, biológicas, e até mesmo se voltando para as leis trabalhistas do homem do campo.
Eliane: E quais são seus planos para o futuro?
Puntel: O futuro é muito impreciso, mas, no dia a dia, diria que desejo ampliar o trabalho junto aos alunos porque estamos ajudando a construir cidadania, colaborando para que ele desenvolva seus próprios textos e, a partir daí, tenha uma visão crítica do mundo, discuta as questões sociais e aceite o diferente. É esta a função do professor, mais do que ensinar a ler ou escrever bem: provocar este tipo de transformação, de mudança. É o fazer diferente, como no filme “Sociedade dos poetas mortos”, em que o professor foge às regras, provoca, encoraja, desafia os alunos a pensar — este filme, aliás, foi transformador para mim. Acredito que a literatura, assim como as artes em geral, têm as respostas para muitos de nossos problemas.
CONSTRUTOR DE GENTE
“Entrevistar o professor Puntel foi especial. Nós nos conhecemos há muitos anos, no tempo em que ele, muito jovem, já trilhava o caminho de letras, servia as forças armadas na 5ª CSM, unidade do Exército instalada no centro de Ribeirão Preto. Sob o comando do meu pai, Elfrides Espindola Ratier, coube-lhe, algumas vezes, a missão de me conduzir, ainda menina, ao prédio da Faculdade de Odontologia, na rua Tibiriçá, para atendimento. Não fui aluna de Puntel, mas sou admiradora do seu fazer. Hoje, educação, leitura, escrita e literatura nos unem. Diz que abraçar a carreira de professor contrariou os desejos de seu pai, engenheiro, que o queria assim como ele, um construtor. Afirmo que, abraçando-a, Puntel cumpriu o desejo do pai e se tornou construtor de gente, formador de pessoas, que o tem como referência em suas trajetórias e espalham suas sementes por infinitos sítios, pela eternidade.”
Eliane Ratier é dentista, poetisa e coordenadora do Núcleo da União Brasileira de Escritores de Ribeirão Preto
Texto: Rose Rubini
Fotos: Carolina Alves