Um grande palco cultural
Berço da cidade e da cultura, o centro pode resgatar o velho glamour, basta uma mudança de atitude não só dos gestores, mas da própria população
Nas primeiras décadas do século passado, Ribeirão Preto começou a despertar para a cultura. Na época, o prefeito Joaquim Macedo Bittencourt decidiu fazer com que a cidade rompesse com o perfil agrícola e incorporasse mudanças arquitetônicas, comportamentais e tecnológicas inspiradas na França, tornando-se uma “Petit Paris”.
O terreno era propício para a “belle époque caipira”. Os anos 20 foram o apogeu econômico do município, desencadeado pela implantação da Cia. Mogiana de Estradas de Ferro, em 1876, pela Cultura Cafeeira e pela abertura industrial iniciada em 1911, com a vinda da Companhia Cervejaria Paulista. Também nos ano 20, Adalberto de Oliveira Roxo adquiriu prédios na esquina das ruas Duque de Caxias e Álvares Cabral para a construção do Central Hotel, edifício que originou o Quarteirão Paulista. A Cia Cervejaria Paulista investiu em terrenos localizados em frente à Praça XV, que se estendiam até a esquina da General Osório, para construir um conjunto arquitetônico. Mais tarde, também foi comprado o edifício do Central Hotel, hoje, Palace Hotel.
Os centros das cidades brasileiras, em sua origem, além de se constituírem a ponta do processo de exploração agrícola se apresentavam, também, como pontos de glamour, já que eram habitados pelas famílias mais abastadas, conforme a historiadora e conselheira do Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais (IPCCIC), Sandra Rita Molina, que atua na área de Patrimônio Cultural Imaterial e Identidades Culturais. “Se pegarmos uma sequência de fotos dos séculos XIX e XX, percebemos que as casas que foram sendo destruídas ao redor da Praça XV e da Velha Matriz eram casas da elite, seguindo os moldes das cidades ibéricas: quanto mais próximo da igreja, maior a indicação de poder”, explica a pesquisadora.
Era natural, portanto, que investimentos por parte da elite cafeeira fossem feitos na região. “Herdamos a nobreza imperial. Não tínhamos títulos, uma tradição nobiliárquica ancestral, mas os cafeicultores eram tratados como barões, por terem dinheiro, e mostravam sua nobreza criando grandes monumentos como odes à sua capacidade de gerar dinheiro e riquezas para esse país”, explica Sandra, acrescentando que esta não era apenas uma questão de ego. Antes de assumir os negócios da família, os filhos de fazendeiros eram mandados à Europa para fazer faculdade, tomar um banho de cultura, e viam naquela região um modelo de evolução.
Com o início da construção dos shoppings, na década de 80, a globalização e o desenvolvimento da tecnologia, as pessoas já não precisavam mais ficar atreladas ao centro e começam a se estabelecer nas grandes ruas, como a Barão do Amazonas e a São Sebastião, e passaram a frequentar os shoppings centers. A partir dos anos 90, surgem os grandes condomínios, que levam os investimentos para outras regiões da cidade, transformando definitivamente a região central em um lugar de passagem.
Hoje, apesar de não ter sido contemplado com os mesmos benefícios da rota de desenvolvimento de Ribeirão Preto, mantendo a mesma estrutura de décadas atrás, o centro de Ribeirão Preto abriga importantes equipamentos culturais: a União Geral dos Trabalhadores (UGT), a Biblioteca Padre Euclides, o Palace Hotel, o Theatro Pedro II, os teatros Marista e Auxiliadora, o MARP, a Oficina Cultural Cândido Portinari, o Teatro Popular de Comédia (TPC), o Cineclube Cauim, o Instituto Ribeirão em Cena, o Grupo Teatral Engasga Gato, o SESC, e propicia inúmeras atividades culturais em suas praças e ruas.
Um dos grupos teatrais que sempre transforma as ruas centrais da cidade em palco para seus espetáculos — e é sediado no Edifício Diederichsen — é o Engasga Gato. Mais do que um palco natural, o centro, para esta trupe, serve de inspiração direta, já que ali os nichos sociais confluem, e de material concreto para as criações, que surgem a partir das vivências do Engasga Gato com o entorno. “A mais recente foi ‘Página 469’, cuja criação ocorreu na potencialidade urbana ribeirãopretana, através da arquitetura do Calçadão e seus transeuntes. Com esta peça, realizamos uma temporada em Havana (Cuba) e nos apresentaremos nos maiores festivais de teatro de rua do país”, conta Fausto Ribeiro, integrante da equipe.
O grupo utiliza o espaço e sua construção geográfica como sujeito inspirador e o público que por ali transita acaba se tornando um criador conjunto das ações. “Não há uma hierarquia em nossa criação. Ficamos sempre no mesmo plano dos que ali moram, trabalham ou transitam. Com o passar dos anos, nossa produção se tornou um grande rizoma de criação e pertencimento. O centro é nossa casa-morada”, conta o artista, cujo grupo, além de apresentar seus próprios espetáculos, realiza festivais que atraem para sua sede e para o centro artistas de dentro e de fora do país.
Para muitos que analisam a perspectiva de requalificação do centro, a falta dessa sensação de pertencimento e de apropriação
do espaço é o maior entrave. “Há a necessidade de se alinhar a ideia da vida no centro com a ideia de cidadania. Em nosso país, em que a cidadania não é plena, queremos direitos, mas não entendemos que temos deveres. Queremos o que é dado, somos tutorados, e não estamos preparados para compreender que o espaço público nos pertence”, aponta a historiadora. Segundo Sandra, é fundamental que a sociedade se perceba coautora, corresponsável pela construção desse espaço público, assim como é imprescindível que os gestores públicos sejam sensíveis para entender que o centro é uma região vital da cidade.
A pesquisadora ressalta que a população que hoje transita por ali não se apoderou da região, não tem ideia do que ela oferece, tem dificuldade de enxergar de se comprometer com o que está à sua volta. Apesar da herança cultural europeia, é preciso compreender que a cultura, hoje, envolve também o rap, a música sertaneja, o funk, formas de expressões que nem sempre são palatáveis para a parcela mais favorecida da população, que acaba patrocinando e incentivando aquilo que lhe é conveniente.
Sandra acredita que, quando se trabalha coletivamente com os grupos alternativos de arte, cuja cultura emana das ruas, os artistas passam a se sentirem capacitados, descobrem a liberdade de escolha e começam a questionar sua qualidade de vida, tornando-se perigosos para o sistema. “Para evitar esse risco, os gestores valorizam esses movimentos em alguns momentos, mas não permitem que se transformem em um ciclo e deixam o centro para quem queira ocupá-lo. De vez em quando, afastam a população mais marginal, impedem a formação de favelas, mas não qualificam aquele espaço. Daí a importância do comprometimento da população: se ela é comprometida, começa a cobrar”, explica a historiadora.
Ainda segundo a pesquisadora do IPCCIC, requalificar o centro implica em abrir espaço de moradia, de compra, treinar as pessoas para receber os que vêm de fora, e conscientizá-las para que tenham uma relação de pertencimento em relação à região, para que a afetividade em relação ao centro se desenvolva também nas novas gerações, para as quais o lugar não oferece muitos atrativos. Porém, para que isso aconteça, é preciso cuidar do transporte, da limpeza, da segurança, da iluminação e do acolhimento das pessoas. “É preciso criar um grupo gestor da região que não dure apenas quatro anos. A gestão compartilhada envolvendo a sociedade civil organizada, os gestores públicos e os empresários é a grande saída”, acrescenta Sandra.
A cultura do centro
Apesar de novos espaços culturais se espalharem por bairros diversos, para muitas pessoas, o centro nunca perdeu sua efervescência em relação à cultura. O Instituto Ribeirão Em Cena – Escola de Teatro existe há 14 anos e, além de formar atores, produz festivas, mostras, difunde espetáculos universitários, profissionais, experimentais e alternativos. Para o presidente do Instituto, Gilson Filho, o surgimento de novos eixos culturais é extremamente positivo. “O mesmo aconteceu em Curitiba, com a manutenção do Centro Histórico convivendo com a expansão de novos teatros, cinemas, galerias”, relaciona. O que falta para a revitalização, segundo Gilson, é os gestores desenvolverem um olhar semelhante ao de Jaime Lerner, responsável pela mudança que tornou a capital paranaense um exemplo global, líder em sustentabilidade urbana. “Em Ribeirão Preto, falta gestão, criação de projetos, visão e consciência histórica”, afirma Gilson.
Para Edgard de Castro, presidente da Fundação Feira do Livro, hoje o maior evento cultural ribeirãopretano, o centro da cidade é o espaço mais democrático de Ribeirão Preto, pois, recebe, no período diurno, todas as camadas da população. “O problema é que o seu eixo principal, o Calçadão, desgastado por anos de reforma, desacostumou boa parte dos cidadãos a frequentá-lo durante a noite. A deterioração do Calçadão se espalhou por todo o centro, dando a ele um aspecto sujo e mal cuidado”, ressalta, lembrando que tais condições acabaram prejudicando o acesso da população a importantes espaços culturais.
Entre as ações necessárias para a requalificação do espaço, Edgard destaca o reaparelhamento, a manutenção dos equipamentos públicos e a limpeza da área central e, em seguida, a construção de um projeto cultural integrado, em que os eventos não se sobreponham e tenham uma divulgação comprometida com os moradores locais. Sugere, ainda, através das linhas de ônibus urbanos, envolver os moradores de outros bairros. Devido ao desgaste causado pelas reformas do Calçadão, o presidente da Fundação acha que a revitalização material é fundamental para que as pessoas voltem a frequentar o centro. “A imagem que se formou do centro, como um local permanentemente em obras, mal frequentado e perigoso, é o maior entrave para a efervescência cultural da região”, comenta Edgard. 
A descentralização dos equipamentos culturais, segundo a coordenadora da Oficina Cultural Cândido Portinari, Fatu Antunes, é saudável, necessária e inclusiva, mas é muito importante, segundo ela, que se trabalhe efetivamente para que o centro retome o seu protagonismo. “A importância do centro é inquestionável, se pensarmos na história da cidade e na concentração de autênticos patrimônios culturais. Primeiro, é preciso reverter o processo de degradação do centro, que precisa ficar atraente o suficiente para que o público se sinta motivado a frequentá-lo”, afirma, apontando a importância do diálogo entre os diversos equipamentos culturais, do alinhamento das agendas e da criação de ações culturais que remetam à história do centro para que o sentimento de pertencimento nas pessoas seja despertado.
Os grandes vilões, conforme ela, são a falta de investimento, de planejamento, de segurança e de informação. A infraestrutura precária, segundo a coordenadora, desestimula o público a frequentar, os agentes culturais a pensar em bons projetos e os patrocinadores em investir. “Acredito que a revitalização material da região pode ser a mola mestra para a revitalização cultural, pois, se tivermos um centro estética e operacionalmente harmonioso e equilibrado, com segurança, aliado a uma agenda cultural consistente, certamente poderemos retornar às épocas áureas”, ressalta Fatu.
O centro dos palcos
Mais do que um lugar de trânsito, a região central é o palco do comércio, do trabalho, dos negócios, da confraternização, seja nas escadarias que dão acesso ao teatro, na esquina da A Única, no cortejo que dá sentido aos artistas, que fazem das sarjetas seu tablado. A requalificação da região central não tem um único objetivo: “visa ao bem comum, ou seja, que o comerciante tenha seu negócio valorizado, que as empresas empreguem, que os artistas demonstrem, que a família desfrute das praças, teatros, espaços culturais em geral”, ressalta Dulce Neves, presidente da Fundação Pedro II.
Ao mesmo tempo em que torce para que a cultura se espalhe e que Ribeirão Preto mostre sua veia artística e cultural para o país, Dulce deseja que o centro continue exalando seus ares culturais e resgate seu poder de atrativo. Segundo ela, não falta muito para que isso aconteça. Artistas e produtores de garra, que elevam o nome da cidade, Ribeirão Preto já têm, assim como empresas sensibilizadas diante de projetos de valor, iniciativas de formação de base para jovens talentos e equipamentos culturais por toda a cidade. “O centro já é um palco, independentemente de tudo. As praças são palco, o calçadão é palco, a esplanada do Pedro II, assim como o próprio teatro. O que precisa é as pessoas continuarem acreditando que a arte e a cultura andam juntas a outros itens de nossa vida, como a escola, a família, a diversão, o descanso, a vida social”, analisa Dulce.
Despertando valores
Um das obras que certamente dará um novo fôlego à requalificação da região central, que deve influenciar todo o seu entorno, é o novo projeto de reforma do Sesc, que será realizado em 2017, e deixará a unidade com o triplo do tamanho atual. Como de praxe, a unidade ribeirãopretana manterá o modelo propositivo do Sesc: mais do que uma bela edificação, trabalhará os valores, utilizando como canal a própria cultura. “As pessoas merecem estar em um lugar bacana e se sentirem bem para retornar e se apropriar do espaço”, explica Mauro César Jensen, gerente do Sesc Ribeirão Preto. Apesar de terem tido a oportunidade de procurar novo local para a sede, a diretoria optou por permanecer no centro, onde o acesso das pessoas é facilitado, e também com o intuito de fomentar a requalificação da área. Para a instituição, que trabalha com o desenvolvimento humano nas mais variadas áreas, a revitalização se dá por meio do exemplo e das ações.
“Não trazemos o espetáculo pelo espetáculo. Nossa preocupação vai do acolhimento à segurança, à garantia de saúde, à higiene. Não adianta o show ser maravilhoso e a pessoa sair daqui sentindo que foi mal atendida, achando o local sujo e desorganizado. Para o Sesc, esses valores têm que ser extremados. A pessoa tem que chegar bem e sair melhor do que entrou”, ressalta o gerente. Conforme Mauro César, as grandes mudanças acontecem das pequenas coisas para as grandes: se uma parede é riscada, o funcionário limpa logo após; se um usuário joga uma lata, o próprio funcionário a pega e a deposita no local correto, sem desrespeito, ironias ou exaltação, de forma que a pessoa que a jogou acaba se sentindo constrangida. “Nós modificamos a mentalidade da pessoa por meio da atitude. Ela continuará sendo bem recebida, não fazemos caça às bruxas, ao contrário, estamos sempre procurando colocar um novo equipamento, uma programação cada vez melhor. Esse é o nosso grande ponto: mostramos por atitude que é possível fazer diferente”, finaliza.
Texto: Carla Mimessi