Um homem de fé
Em entrevista concedida a Henrique Sandoval, Padre Kléber Tostes Pedro faz um alerta sobre a importância de se manter a religião viva, mesmo com a correria do dia a dia
Quando criança, o advogado Henrique Sandoval, sócio do escritório Saulo Ramos Rocha Barros Sandoval, considerou a possibilidade de se tornar um sacerdote. Por coincidência, na mesma época, o padre Kléber Tostes Pedro, responsável pela Paróquia Jesus Misericordioso e Santa Edwiges, sonhava em construir uma carreira na área do Direito. Os papéis se inverteram e ambos se realizaram nas funções que escolheram. Apesar dos caminhos distintos, a religião se mantém como um elemento em comum. Católico praticante, Henrique, hoje, frequenta as missas celebradas pelo Padre Kléber. A convite da Revide, os dois se encontraram para um bate-papo. Entre os temas abordados estão o poder da fé, o exercício da espiritualidade e as evoluções da Igreja com o passar do tempo, incluindo a conquista do público jovem, o uso das redes sociais como ferramenta de evangelização em massa e o processo de renovação promovido pelo Pontificado do Papa Francisco.
Henrique: Hoje em dia, o conceito de qualidade de vida está em alta. As pessoas se interessam pelo assunto e se preocupam em cuidar do físico, da saúde e do bem-estar, o que é válido e necessário. Porém, algumas vezes, essa atenção ao corpo ganha um tom exagerado e o aspecto espiritual, da essência, acaba deixado de lado. Isso é prejudicial?
Pe. Kléber: Com certeza. A sociedade atual valoriza demais a beleza e a estética. Essa preocupação, quando é demasiada ou focada única e exclusivamente na vaidade, é prejudicial. Indo por esse caminho, a pessoa tende a se perder. Temos que cuidar da nossa vida como um todo, buscando o equilíbrio entre o físico, o emocional e o espiritual. Cada um desses aspectos tem uma grande importância e nenhum deles deve ser negligenciado.
Henrique: O Brasil é um país predominantemente católico. Aqui, a religião se tornou uma espécie de herança, que passa de pai para filho. Entretanto, tem gente que se declara católico, mas é só da boca para fora. Não segue a fé que professa e nem coloca em prática os ensinamentos da Igreja. Pelo contrário, quer criar uma crença própria, pautada em interesses individuais. Falta um comprometimento maior com a doutrina?
Pe. Kléber: Os valores cristãos norteiam a nossa educação desde a época da colonização do país. Esses ensinamentos faziam parte da nossa história, da nossa cultura, ainda que não assimilados plenamente. Com o tempo, essa realidade foi mudando. Muitas pessoas se abriram ao pluralismo religioso e até buscaram agregar à sua fé elementos distintos. Definem-se como católicos porque foram batizados, mas acreditam em alguns princípios do espiritismo e fazem simpatias, por exemplo. Para viver bem o exercício de espiritualidade, precisamos ter clareza e identidade. Temos que assumir as nossas escolhas com personalidade. Caso contrário, transformamos o nosso relacionamento com Deus em uma negociação, o que é uma postura completamente equivocada.
Henrique: Você se refere àquele fiel que reza já pedindo algo em troca?
Pe. Kléber: Isso mesmo. Não é indicado nutrir um complexo de “criança mimada”, que adota um determinado comportamento para, de certa maneira, forçar o pai a fazer o que ela quer, do jeito que ela quer, na hora que ela quer. Se for por esse lado, a pessoa se frustra e, com isso, acaba se afastando da Igreja. Claro que, em uma oração, colocamos os nossos pedidos diante de Deus. O errado é recorrer a Ele somente em momentos de necessidade, associando a fé à concessão de uma graça específica. Quando recorremos a Deus, Ele não nos deixa desamparados. A resposta pode não ser exatamente a que esperávamos ouvir, mas ela sempre vem.
Henrique: Estamos na Quaresma. Nesse período de preparação para a Páscoa, data na qual se celebra o renascimento de Jesus, o número de promessas costuma aumentar?
Pe. Kléber: Nesta época do ano, de fato, o número de fiéis que se dispõe a passar por algum tipo de abstinência aumenta. Novamente, reforço que essa questão pode ser problemática. A religiosidade não deve ser confundida com uma amizade interesseira, ou seja, a pessoa faz um sacrifício, mas já tem um propósito embutido. Essa é uma maneira bem errada de encarar a penitência ou o jejum. O exercício tem a função de modificar a percepção que temos do mundo retirando uma das nossas fontes de prazer. Ao retirarmos essa “distração”, promovemos uma aproximação maior com Deus. Além disso, a abstinência tem como objetivo a caridade. Os frutos gerados com essa ação devem ser benéficos para quem a realiza e também para o próximo, como uma rede do bem. Quem gosta de chocolate, fica 40 dias sem comer o doce. Durante esse tempo, o dinheiro que a pessoa economiza por não comprar a guloseima pode ser guardado e revertido para alguma instituição de caridade que precise de auxílio.
Henrique: Com a rotina cada vez mais corrida e repleta de compromissos, como arrumar um tempinho para ir até a Igreja e se dedicar à religião?
Pe. Kléber: Vivemos com tantas atribuições, tarefas e responsabilidades, que somos engolidos pela rotina. Muitas
vezes, em meio a esse turbilhão, deixamos de cuidar da nossa fé. Sabendo disso, buscamos alternativas para chegar até o fiel e mantê-lo em comunhão com Deus. O Papa Francisco nos chama para sermos uma “Igreja de saída”, não ficando na sacristia à espera do povo. Temos que ir ao encontro das pessoas também. Os recursos tecnológicos têm sido de grande valia nessa tarefa. Em um mundo tão globalizado, onde a comunicação não tem fronteiras, a Igreja entendeu que evangelizar através das ferramentas oferecidas pela modernidade, como as redes sociais, era uma boa ideia. Buscamos acompanhar esta evolução, mas isso não quer dizer que abrimos mão dos valores ou da essência do catolicismo. A vida na comunidade cristã é essencial para o desenvolvimento da nossa fé. Apenas aprendemos a dialogar com o universo que está ao nosso redor. Basta utilizar esses meios adequadamente, com o propósito de levar a palavra de Deus.
Henrique: Você é um padre jovem, que domina bem essas ferramentas. Mesmo assim, é criterioso na hora de fazer uma publicação?
Pe. Kléber: Sem dúvida. Tento ser muito prudente para que as minhas publicações não sejam mal interpretadas ou distorcidas. Tenho consciência de que sou uma pessoa pública e de que represento a Igreja. Sei que as pessoas visualizam, analisam e comentam os posts, por isso, só compartilho conteúdos que são realmente pertinentes. A internet não é lugar para desabafos ou para expor a minha vida pessoal.
Henrique: O ingresso nas redes sociais também atraiu um novo tipo de público?
Pe. Kléber: A juventude é presença maciça no universo digital. Portanto, tanto o Facebook quanto o Instagram nos ajudaram a reconquistar o público dessa faixa etária. A experiência que temos aqui na paróquia é impressionante. As informações que divulgamos nas nossas páginas têm um alcance incrível e uma resposta imediata.
Henrique: Os jovens andavam afastados da Igreja?
Pe. Kléber: Em cada geração, é possível notar as diferenças. Se voltássemos aproximadamente 15 anos no tempo, veríamos que a maioria dos jovens estava completamente voltada para o entretenimento e para a diversão. Assim, não sobrava espaço para a religião, para a espiritualidade e, muitas vezes, nem para o convívio familiar. De uns três anos para cá, essa situação está mudando. Hoje, é notável o interesse, o envolvimento e a busca de muitos deles pela religião. Em alguns casos, ainda é um relacionamento superficial, mas que tem tudo para se aprofundar e para ser vivenciado em plenitude.
Henrique: Considera que essa geração é muito imediatista?
Pe. Kléber: Atualmente, as pessoas têm tudo à mão com extrema facilidade. É fácil se acostumar com a dinâmica do imediatismo, mas, na verdade, ela é saudável? Que benefícios vai me trazer em médio ou em longo prazo? Esses questionamentos precisam ser feitos. As decisões que tomamos agora terão consequências no futuro. Não adianta apenas curtir o momento sem se preocupar com os possíveis arrependimentos que virão. A expectativa de vida da nossa geração é longa e, lá na frente, colheremos o que plantamos. A experiência religiosa sadia nos ajuda a dar um sentido certo para essa trajetória rumo à eternidade.
Henrique: Além dessa modernização na forma de se comunicar com os fiéis, o papel do sacerdote também
evoluiu?
Pe. Kléber: Evoluiu sim, e existe um ponto de partida muito importante para essa transformação: o Concílio Vaticano II. O documento, da década de 60, é tão vasto e rico que ainda não conseguimos colocá-lo totalmente em prática. Estamos trabalhando nisso. São inúmeras diretrizes, que dão respaldo aos sacerdotes na missão de guiar o rebanho pelo caminho da fé. Essas orientações estão sendo absorvidas pela Igreja gradativamente. Cada geração de padres acolhe esses ensinamentos de forma distinta, de acordo com as particularidades do seu tempo e, com isso, oferece respostas mais eficientes aos fiéis, revigorando a Igreja.
Henrique: Nas missas que celebra, a música tem um lugar de destaque. Você, inclusive, canta bastante com a equipe e tem CDs lançados. Acredita que as canções ajudam na tarefa de evangelizar?
Pe. Kléber: O poder da música como portadora de uma mensagem é inegável. Utilizamos várias canções durante a liturgia e em momentos de espiritualidade: a resposta dos fiéis é sempre positiva. A nossa Paróquia tem equipes que se destacam pela qualidade. Eu, particularmente, comecei a cantar quando tinha seis anos, enquanto acompanhava as novenas de Natal. Era difícil porque, naquela época, não sabia ler. Dava um jeito de decorar as letras, que tinham estrofes imensas e palavras complicadas para uma criança pronunciar. O pessoal comentava que eu, mesmo ainda tão pequeno, era afinado. Passei a cantar nas missas e fui me aperfeiçoando cada vez mais. Foi um dom que Deus me deu. A música se tornou um instrumento de exercício da minha espiritualidade, bem antes que eu recebesse o meu chamado para a vida sacerdotal. Há uma década, lancei o meu primeiro CD. Outros dois vieram em seguida. Confesso que, apesar de reconhecer a minha capacidade e de ter discernimento para usá-la a favor da Igreja, a carreira como cantor não é uma prioridade. Nem mesmo a considero como possibilidade. É um ministério, um serviço que presto à evangelização. Não estou, de maneira nenhuma, criticando os padres que fazem essa opção. Cada um tem uma missão a cumprir. A minha, hoje, é o pastoreio, o cuidado com a comunidade. Essa é a minha maior paixão.
Henrique: Quando recebeu o chamado para a vida sacerdotal?
Pe. Kléber: Descobri minha vocação tardiamente, aos 18 anos. Sempre tive um engajamento na Igreja, uma identificação, mas meu sonho era constituir família e uma carreira profissional consolidada. Por coincidência, queria me tornar um advogado. Dos 12 aos 17 anos, trabalhei em um escritório e gostava muito da área. Minha meta era ser um juiz de Direito. Foi aí que Deus despertou no meu coração uma outra realidade. A vocação para o sacerdócio foi uma paixão fulminante. Depois de apenas cinco meses de discernimento, já estava no seminário. Desde que entrei, nunca tive dúvidas. Tenho convicção de que fiz a escolha certa. Estou feliz e realizado sendo um homem que vive pela fé.
Henrique: Como você definiria o momento atual da Igreja Católica?
Pe. Kléber: Esse é um momento ímpar. Um dos principais motivos é o Papa Francisco, que é um presente, uma resposta de Deus para a Igreja e para a humanidade. Sem desmerecer os pontífices anteriores, pois todos trouxeram grandes contributos, mas o Papa Francisco é a pessoa certa, na hora certa, no lugar certo. Ele é um exemplo. Pragmático, não fica restrito à teoria ou ao discurso. Seus ensinamentos são transmitidos de forma clara e acessível através de gestos e ações. A simplicidade dele trouxe mais amor e novo fôlego para a Igreja, contagiando os fiéis e estimulando os que estavam distantes a se reaproximar da fé. A capacidade que ele tem de dialogar, não só com os fiéis, mas com absolutamente todo o mundo, chama a atenção. Se você busca relatos da vida dele como padre, como bispo e cardeal, na Argentina, vê que essa postura não é montada, não é uma cena. Ele sempre foi assim, em qualquer lugar. Estamos, realmente, em estado de graça com o pontificado de Francisco.
A figura do pastor
“Conheci o Padre Kléber em uma ocasião muito especial, na secretaria da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, quando fui agendar a data do meu casamento. O reencontro aconteceu pouco tempo depois, quando comecei a frequentar as missas celebradas por ele na Av. Independência. O local era bastante improvisado, sem estrutura física para atender ao público, que crescia a cada dia. Com uma linguagem bem acessível, o sacerdote estabeleceu uma comunicação efetiva com diferentes faixas etárias. Hoje, à frente da Paróquia Jesus Misericordioso e Santa Edwiges, continua desenvolvendo um belo trabalho. Ele é o padre que leva sossego às angústias dos adolescentes, que oferta serenidade e conciliação aos conflitos familiares, que apazigua os ânimos mais exaltados, que cultiva nas crianças o interesse pela religião e que solidifica, nos adultos, a fé. Para disseminar essa mensagem, Padre Kléber conta com o auxílio da música. Suas letras trazem sempre a melodia da esperança e da crença em um Deus vivo em nossos corações.” Henrique Sandoval, advogado.
Texto: Paula Zuliani.
Fotos Julio Sian