Um homem de muitas palavras
Bate-papo entre o professor Luiz Cláudio Jubilato e o coach Marcelo Jabur
Dois homens com várias características em comum: são docentes, escritores, estão habituados a grandes públicos e à difícil tarefa de conduzir: no caso de Luiz Cláudio Jubilato, ao conhecimento da língua portuguesa, já Marcelo Jabur, ao autoconhecimento, à superação e à persistência, qualidades fundamentais a quem pretende gerir pessoas ou ter êxito na profissão que exerce.
Jubilato é professor de Língua Portuguesa e Redação, especialista em cursos preparatórios para vestibulares, fundador e diretor do Criar – Língua Portuguesa e Redação, que prepara alunos para o mercado de trabalho e para a vida. É licenciado em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com especialização em literatura brasileira. É autor dos materiais didáticos do Criar e já foi responsável por materiais de instituições de ensino, principalmente em Ribeirão Preto e em Juiz de Fora. Já foi também professor de colégios como Curso Theorema, Curso BMW, Curso ZAZ e dos colégios Anglo, COC e Objetivo.
Marcelo Jabur atua como coach executivo em variados segmentos, é doutor em Psicologia pela USP, mestre em Ciências do Esporte pela Unicamp, professor da Fundação Getúlio Vargas e palestrante. Autor dos livros “Escolher ou Ser Escolhido” e “Liderança Generosa – Gestão para Alto Rendimento e Satisfação”. Na condição de entrevistador, Luiz Cláudio explora o mundo de Marcelo, profissional que, como ele, tem na palavra seu principal instrumento de trabalho.
Luiz Cláudio: É verdade que você é formado em Educação Física?
Marcelo: Sou, sempre gostei muito de esporte. Aos 17 anos, entrei na graduação acreditando que minha vida seria voltada a treinamento de atletas de alto rendimento. Cursei a graduação, fiz uma pós-graduação em Treinamento de Atletas de Alto Rendimento e fiz um aperfeiçoamento na Rússia. Quando voltei a Ribeirão Preto, fui convidado para ser professor universitário, na disciplina voltada para treinamento de atletas. Mas logo depois, fui para a área de marketing, dentro da universidade: assumi a disciplina de marketing e gestão esportiva e acabei me inclinando mais para a gestão do que para o esporte.
Luiz Cláudio: Foi neste momento que virou coach?
Marcelo: Não, é que comecei a assumir cargos de liderança e os meus liderados gostavam do meu estilo de conduzir as coisas e entendiam que eu facilitava os processos da vida deles e o rendimento de cada um. Isso me sugeriu que poderia desenvolver esse trabalho com mais pessoas. A formação em coaching, em 2005, deu-me a possibilidade de realmente desenvolver este projeto.
Luiz Cláudio: O que diria para pessoas que querem mudar de uma área para outra, completamente diferente? Que caminhos elas têm a percorrer?
Marcelo: Às vezes, as pessoas não percebem o esforço que as outras fazem para realizar essa transição na carreira. Eu diria: nunca subestime o esforço, todas as atividades repetidas e, especialmente, planejadas que devem ser feitas. Quem pretende mudar a trajetória da carreira tem que pensar que a ação deve se fundamentar em um planejamento. As coisas acontecem gradativamente. É necessário preparação para qualquer que seja a mudança na vida. A sugestão que dou aos clientes é: vamos entender quais são os passos que devem ser dados, determinar datas para esses passos, e dá-los, efetivamente para chegar aos objetivos.
Luiz Cláudio: Para os vestibulandos também deveria ser assim?
Marcelo: O fato do vestibulando já se dedicar a um curso preparatório implica que ele já definiu o caminho que precisava trilhar e o está trilhando, rumo à graduação. Ser um bom profissional vai depender também do quanto ele se dedica a esse curso de graduação. Ser um profissional reconhecido e bem recompensado vai depender de como ele se dedica ao trabalho que escolheu fazer. Depende do quanto ele encontra os caminhos e os trilha para fazer valer as tarefas que foram definidas previamente. O grande ponto é encontrar o objetivo, o caminho a ser trilhado e, efetivamente, trilhá-lo.
Luiz Cláudio: Para desenvolver pessoas, o que é necessário fazer?
Marcelo: Acreditar. Se um líder, um professor ou um coach não acreditam genuinamente na possibilidade de uma pessoa melhorar, começaram muito mal porque a chance da pessoa se desenvolver nesse contexto é muito pequena. Existe o Efeito Pigmaleão, também chamado de Efeito Rosenthal, que se trata de fazer com que as pessoas sejam aquilo que você acredita que elas possam ser. Se você acredita em sua capacidade de crescimento, de realização de tarefas mais importantes e desafiadoras, a probabilidade de crescer, de melhorar efetivamente seu rendimento é muito grande. À medida que você acredita, acaba agindo de forma a contribuir com a melhoria da prática das pessoas.
Luiz Cláudio: O que Marcelo Jabur pensa sobre Marcelo Jabur?
Marcelo: O Marcelo Jabur é disciplinado, procura ser organizado e focado no que se propõe a fazer, e é isso que procuro exigir, em certo sentido, de meus clientes. As pessoas querem ter uma vida agradável, melhor, mais feliz, produtiva, com reconhecimento, e isso exige disciplina e foco. Desenvolvo atividades distintas, mas elas estão em uma única linha — a do desenvolvimento de pessoas. Se o foco é esse, posso escrever um livro, ser professor ou coach, mas a exigência básica é ter disciplina e concentração.
Luiz Cláudio: Em uma palestra, você consegue diferenciar as gerações X, Y e Z?
Marcelo: É possível porque a literatura vem descrevendo essas diferenças comportamentais desde as décadas de 50 e 60. Nas palestras, a minha preocupação é ter uma linguagem que não seja agressiva para nenhuma delas, e que seja a mais harmoniosa, considerando as diferenças entre as gerações. Quando percebo que a maior parte dos indivíduos é mais jovem, procuro usar uma linguagem mais apropriada a eles. Mas, quando as coisas se misturam, é preciso ter o bom-senso de usar uma linguagem que não agrida nem um, nem outro, e que possa ser mais eficiente para todos.
Luiz Cláudio: Qual é a estratégia por trás da tática de usar um humorista em palestra, como já fez com o Roberto Edson?
Marcelo: Isso começou quando uma pessoa ligou para o Roberto Edson, um humorista que admiro muito e um grande amigo, dizendo que queria que ele fizesse uma palestra. Ele falou: se você quer uma palestra, peça ao meu amigo Marcelo Jabur. Ele desligou, estava ao lado da esposa, Erika, que sugeriu que fizéssemos um trabalho juntos. Isso foi e continua sendo um grande sucesso: eu falo por 15 ou 20 minutos e entra um personagem do Roberto Edson com piadas relacionadas ao assunto que estou tratando. Ele reforça, as pessoas dão muita risada e quando ele sai, volto com o assunto sério. Percebo que as pessoas saem muito leves. É para o recado ser ainda mais eficaz.
Luiz Cláudio: O que o levou a escrever seu livro?
Marcelo: Depois do lançamento do primeiro livro, ocorreu a ideia de que eu poderia morrer, e me veio um pensamento de que se as pessoas quisessem recorrer ao que eu acredito, poderiam encontrá-las no meu livro. Esse segundo livro me deu uma sensação de que tenho muito a viver, a falar e a escrever ainda, o que me dá é vontade de compartilhar: saber que uma pessoa com quem nunca conversei, em qualquer lugar do Brasil ou do mundo, pode comprar meu livro pela Internet, acessar as coisas que acredito, gostar ou não gostar. Tudo o que eu faço é no sentido de ajudar e, se ajudar, fico muito mais feliz.
Luiz Cláudio: O último livro que você escreveu chama-se Liderança Generosa. O que está faltando para os líderes brasileiros chegarem a algum lugar, ainda mais agora, que estão perdidos com tantos protestos?
Marcelo: Liderança é um desafio em qualquer lugar do mundo. Os líderes são desafiados quase todo o tempo. Não existe receita de bolo: alguns livros de liderança se propõem a dar uma receita de bolo e não acredito nisso. Situações diferentes exigirão posturas distintas. Quando escrevo sobre liderança, escrevo sobre ‘uma’ ferramenta de liderança, mas não sobre ‘a’ ferramenta de liderança. Faço uma proposta às pessoas, mas não ‘a’ proposta. Frente a essas ocorrências, inéditas, ouvi governantes dizendo que é preciso muita humildade para lidar com essas manifestações e esse é um belíssimo ponto. À medida que o líder tem humildade para avaliar a sua maneira de ver a situação, enxergar as exigências dos liderados e rever a postura, ele vem com práticas novas e mais eficientes.
Luiz Cláudio: É possível viver como escritor no Brasil?
Marcelo: Meus clientes de coaching sempre perguntam se acho possível ganhar dinheiro em profissão x ou y, e eu pergunto a eles se conhecem alguém que ganha, nessa profissão, o dinheiro que eles pretendem ganhar. A resposta é sempre sim. Se eles conhecem alguém que ganha, é possível. Mas, chegar a esse ponto demanda esforço, persistência, concentração e foco. No caso do escritor, o desafio é gigantesco, principalmente por se tratar de um país onde a leitura não é estimulada. De todos os escritores que conheço, raríssimos são os que conseguem com o livro a recompensa financeira que necessitam para viver.
Luiz Cláudio: A sua inspiração vem de fatos, de pessoas ou das duas coisas?
Marcelo: Das duas coisas, especialmente neste último livro — Liderança Generosa. Estou trabalhando na FGV há seis anos e meio. Recebo muitos alunos, a grande maioria inserida no mercado de trabalho. São pessoas trazendo angústias, às vezes, profundas, por vivenciarem uma relação com seus pares, no trabalho e com gestores que geram um estresse muito grande. Se os relacionamentos fossem otimizados no ambiente de trabalho, trariam facilidades para todo mundo. O gestor agir de forma mais harmoniosa seria mais econômico e melhor para a saúde dele. Seu liderado teria condições de fazer as coisas de forma mais eficiente também. A mesma coisa em relação aos pares, aos clientes e à sociedade como um todo. É muito comum as pessoas falarem que não aguentam mais trabalhar em sua empresa, com o seu chefe, e se mudarem de empresa, talvez as coisas voltem a acontecer porque se criou uma ideia de que a liderança tem que ter um caráter autocrático — ‘não te pago para pensar, te pago para fazer’ — ou a concepção de que o indivíduo por natureza é displicente, não gosta de trabalhar. Esses conceitos na cabeça do líder criam uma relação de trabalho muito agressiva e pouco eficiente. À medida que os alunos e os clientes me trouxeram essas informações, deram uma série de ferramentas, ideias, casos e me despertaram para escrever um trabalho que talvez ajude a tornar essas relações no ambiente de trabalho mais harmoniosas.
Luiz Cláudio: Tem alguma história interessante para compartilhar?
Marcelo: Nós, professores, muitas vezes, imaginamos que sabemos as perguntas que serão feitas pelos alunos, apesar de sermos treinados a ouvir e, ocasionalmente, somos surpreendidos por perguntas nada usuais. Costumo dizer que é preciso que o indivíduo se dedique se quiser melhorar em qualquer área da vida, que pratique com regularidade e não acredite no dom como algo que trará a excelência. Tratando desse assunto, citei alguns exemplos, e um aluno da FGV, em Goiânia, perguntou se não acreditava em dom divino. Respondi que acreditava, mas que nossa saúde mental e física como dom divino já está de excelente tamanho. O fato é o que fazemos com nossa saúde mental e física, esse é o grande diferencial. O dom divino nos dá saúde para que a gente busque a excelência através das práticas.
Luiz Cláudio: Você já perdeu a paciência e deu uma resposta atravessada a uma pergunta cretina?
Marcelo: Sou contratado para treinar profissionais para terem o controle e não serem agressivos nas respostas. Quando você agride, de forma geral, não consegue educar. O segredo é o autocontrole, pois você pode ter aluno que faça perguntas para provocar, mas pode ser que o aluno esteja questionando por estar perdido em relação ao tema. A sugestão é colocar a bola no chão, contar até 10, respirar fundo e responder aquilo que foi perguntado, procurando não julgar uma má intenção. Quando fazemos esse julgamento, vem uma série de emoções perturbadoras à nossa cabeça e, normalmente, ficamos arrependidos da resposta.
Luiz Cláudio: Sua escrita vem da transpiração ou da inspiração?
Marcelo: Não sei exatamente a quem estou plagiando, mas li isso em algum lugar do passado: minha escrita vem, talvez, em 5% de inspiração e 95% de transpiração. Esses 5% de inspiração estão no tema, na construção e na concepção de desenvolvimento do trabalho. Escrever e buscar informações para fazê-lo da melhor forma possível é transpiração. Nada cai do céu, é essencialmente esforço. As pessoas, às vezes, comentam que têm vontade de escrever um livro, então, precisam ter persistência, pois mais de 90% é transpiração.
Ação e palavras
“Não é todo mundo que tem a coragem que ele teve: dar uma guinada na carreira sem medo de ser feliz. Lido com vestibulandos há mais de 30 anos e sei o quanto é difícil fazer uma escolha profissional. Foi por isso que Marcelo Jabur me surpreendeu quando o conheci. Trocou uma sólida carreira acadêmica na área de Educação Física para apostar no sonho de ser coach, palestrante e escritor. Ele tem atributos que um bom profissional precisa ter no mundo de hoje. Admiro sua capacidade de se expressar, de forma original, sempre sobre temas de conhecimento geral. Quem assiste a uma de suas palestras, logo percebe o quanto ele acertou na escolha: fala de forma didática e tem facilidade de transitar dentro de várias nuances do mesmo tema. Como escritor, Jabur segue o caminho do sucesso: tem uma escrita inteligente, capaz de interessar tanto ao executivo experiente, quanto ao aluno iniciante. Admiro muito o seu trabalho.”
Luiz Cláudio Jubilato,
professor e empresário
Texto: Carla Mimessi | Fotos: Carolina Alves