Um laço pela vida
Marcado pela campanha mundial de conscientização sobre o câncer de mama, o mês de outubro entra na “onda rosa”, para lembrar às mulheres que a prevenção é o melhor caminho nesta luta
Desde seu surgimento, em Nova Iorque, há quase duas décadas, o movimento pela conscientização sobre o câncer de mama e a importância da prevenção e do diagnóstico precoce cresceu ano a ano, tornando-se uma campanha mundial, simbolizada por um laço rosa. A cada outubro, são inúmeras as adesões, dos mais diferentes segmentos, com ações diversas cujo objetivo é sensibilizar cada vez mais mulheres — e homens também — para a necessidade do frequente autoexame, tanto físico como de consciência, pois o câncer, hoje, representa um potencial vilão para a saúde e para a vida.
Dados do Atlas do Câncer expostos no painel “Tratamento do câncer da mulher na América Latina: Panorama, dificuldade e perspectivas”, realizado durante o 3º Congresso Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), maior evento de oncologia do país, apontam que 1,1 milhão de pacientes oncológicos são diagnosticados todos os anos na América Latina e no Caribe, sendo esperadas 600 mil mortes anuais em decorrência da doença. O câncer de mama é a principal causa de morte de mulheres por câncer e, enquanto a tendência global é na direção de queda da mortalidade por esse tipo de tumor, as mulheres latino-americanas seguem perdendo essa batalha de forma crescente. A região concentra 8,3% do total das mortes, somando 43.326 óbitos anuais.
Histórias não faltam para narrar a necessidade de olhar com muita atenção e cuidado para o tema. Como da vendedora Sueli Cano, que viveu o drama do câncer de mama e, hoje, compartilha a experiência, incentivando o combate à doença.
AGENDA ROSA
Desfile Rosa
Promovido, desde 2014, pelo Núcleo de Ensino e Assistência na Reabilitação de Mastectomizadas (REMA), da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP-USP), o Desfile Rosa tem como “modelos” mulheres que receberam o diagnóstico do câncer de mama e estão em fase de tratamento ou já curadas. O objetivo é desconstruir a relação entre o diagnóstico de um câncer e a morte, além da ideia de que, com o tratamento, a mulher fica com sua estética fragilizada. Aconteceu no dia 5 de outubro, às 20h, no Theatro Pedro II, seguido de apresentação do Coral do REMA e sorteio de brindes.
Corrida Outubro Rosa
Em sua terceira edição em Ribeirão Preto, a Corrida Outubro Rosa acontece no dia 9 de outubro, com 3 km de caminhada ou 5 km de corrida. Toda verba arrecadada com as inscrições será revertida para o Instituto de Ensino e Pesquisa em Oncologia de Ribeirão Preto (IEPO). A corrida é uma realização do Instituto Oncológico de Ribeirão Preto (InORP), com a ARS Eventos e Consultoria Esportiva. O ponto de largada e chegada é o Shopping Iguatemi Ribeirão Preto.
Outubro Rosa Truck
O Hospital de Câncer de Ribeirão Preto realiza, no dia 15 de outubro, a partir das 17h, o “Outubro Rosa Truck”, em frente à unidade, na Rua Otávio Martins Braga, 50. Vários foodstrucks estarão estacionados no local e parte da venda será doada ao hospital. Também haverá música ao vivo, entrega de brinquedos e visita guiada pelas voluntárias para aqueles que quiserem conhecer o hospital.
Aderindo à campanha de conscientização, a Unimed Ribeirão Preto iluminou de cor de rosa seus quatro prédios na cidade (hospital, farmácia, sede administrativa e atendimento da pessoa física e de associações) e vai desenvolver, durante o mês, um trabalho preventivo por meio do Núcleo de Atenção à Saúde (NAS), de mapeamento, em seu banco de dados, de usuárias com idade entre 50 e 70 anos, que não realizam mamografia há mais de dois anos, para orientar, através de carta explicativa ou ligação telefônica, a procurarem o seu ginecologista. “O sucesso do tratamento de qualquer doença está diretamente relacionado ao seu diagnóstico precoce. Não é diferente com o câncer de mama. Diariamente, temos cooperados e equipes de profissionais envolvidos em estimular as mulheres para que estejam sempre atentas à saúde e aos sinais de mudança em seu corpo. Cuidar é o nosso plano e, para evidenciar este cuidado, além das ações e da comunicação trabalhada, estaremos com nossos prédios iluminados de rosa, lembrando a todos a importância da atenção à própria saúde”, destaca o diretor presidente da Unimed Ribeirão Preto, Dr. ÁlvaroTruite.
Fase difícil
A vendedora Sueli de Fátima Angelin Cano, de 60 anos, mãe de três filhos e avó de três netos, descobriu o câncer durante um exame de rotina. “Sempre tive acompanhamento ginecológico. Fiz mamografia, como de costume, para prevenção e, para minha surpresa, o médico suspeitou de um risco e quis investigar. Foi diagnosticado o câncer '"in situs", um tipo sem nódulo. Para minha sorte, um pouco menos agressivo e complicado de ser tratado”, conta.
Treze anos depois, Sueli consegue falar com mais tranquilidade sobre a doença, mas ficou muito abalada diante da confirmação do câncer. “Foi horrível, meu chão saiu debaixo dos meus pés. Só pedia a Deus a oportunidade de viver e de ver meus filhos amparados. Tenho uma família maravilhosa, que me apoiou muito, mas meu esposo e eu seguramos uma barra que não foi fácil. Vivi várias complicações no processo de recuperação, como uma alergia a um medicamento que bloqueou minha respiração. Se não fosse a agilidade da minha irmã, que me levou imediatamente para o hospital, talvez eu não tivesse conseguido”, narra a vendedora.
O medo foi constante na recuperação de Sueli. Par ela, o momento é delicado, tanto para paciente quanto para família, pois nenhum quer demonstrar sofrimento, mas, no fundo, todos sentem muito medo e incertezas quanto ao futuro. “O tratamento em si é difícil e demorado. A espera é muito angustiante e as radioterapias, intermináveis. É uma incógnita porque a gente não sabe direito o que vai ser feito ou se vai dar tempo. Na época, pensava que não daria nem tempo de tratar. Trabalhei esse medo através da fé. Orava e chorava muito. Aos poucos, fui recuperando minha força e até mesmo reinventando-a”, relembra.
Sueli tinha seis quimioterapias previstas e passou muito mal na primeira, mas, como reagiu muito bem ao tratamento e não tinha formado nódulo, o médico dispensou as demais, substituindo-as por um remédio preventivo, que ela tomou durante três anos.
Hoje, a vendedora enfrenta o tema câncer com mais naturalidade. Faz exames periódicos, principalmente a mamografia, a cada seis meses e fica atenta. Também faz exercícios no braço três vezes por semana e acompanhamento com especialistas. Frequenta um grupo de mulheres mastectomizadas, o REMA, que contribuiu muito para a sua recuperação física e psicológica. Colabora, ainda, com todas as pesquisas relacionadas ao tema quando solicitada.
“Não sei a razão de ter tido câncer de mama, pois não há casos na família, apenas meu pai, que morreu com câncer no estomago e na garganta. Hoje, tenho mais consciência sobre a doença e procuro incentivar as pessoas a se cuidarem e dar uma palavra amiga, de ânimo, a quem está passando por isso. Nesse processo, sei como o psicológico fica abalado e que, sem ajuda, a pessoa pode se entregar e morrer de tristeza ou desespero. Minha mensagem para quem vive essa fase difícil é pensar em Deus, pedir força e seguir na luta, pois, depois que a tempestade passa, o sol volta a brilhar”, define Sueli.
Todos contra o câncer
Se o Brasil não investir em mudanças substanciais nas políticas públicas de prevenção, detecção e tratamento do câncer, a doença se tornará a principal causa de mortes no país já em 2029, segundo estudo do Observatório da Oncologia, uma plataforma de análise de dados criada pelo movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC).
Para chegar a essa projeção, a pesquisa analisou dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre os anos 2000 e 2013 e projeções para o futuro (até 2040), comparando o número de óbitos e a incidência do câncer com os dados de doenças cardiovasculares (como infarto e AVC), atuais campeãs de óbitos no Brasil.
Em 2029, a taxa de mortalidade por tumores chegará a 115 a cada 100 mil habitantes, enquanto o índice de óbitos por doenças cardiovasculares será de 113 por 100 mil. Atualmente, as duas doenças juntas matam 542 mil brasileiros todos os anos, conforme dados do Datasus.
Projeções assim dão o alerta para o poder público e para a população aprimorarem estratégias para enfrentar a doença. A Sociedade Brasileira de Patologia indica sete medidas que o Brasil precisa tomar para impedir o avanço do câncer. São elas: intensificar a vacinação contra o vírus do Papiloma Humano, HPV, associado ao desenvolvimento do câncer de colo do útero; investir em hábitos saudáveis, atacando fatores como o tabagismo, por exemplo, responsável por cerca de 90% das mortes por câncer de pulmão; aumentar o rastreamento, pois o diagnóstico correto e precoce diminui a mortalidade; ampliar a abrangência da Medicina de Precisão, que oferece alternativas assertivas com mais expectativas de cura e menos sequelas; investir na consolidação de dados, para o país identificar deficiências no sistema e concentrar esforços para populações específicas; aprofundar a parceria com as sociedades médicas, que podem ligar os responsáveis pelas políticas públicas à linha de frente responsável por aplicar e resolver o nó do sistema de saúde, preparando-o para o futuro, unindo fatores como prevenção, diagnóstico e tratamento.